O Tribunal de Contas da União (TCU) rejeitou, na quarta-feira (27), o pedido de anulação da licença prévia concedida pelo Ibama para a repavimentação do “trecho do meio” da BR-319, rodovia que liga Manaus (AM) a Porto Velho (RO).
A BR-319 é a única rodovia que conecta o Amazonas ao restante do país por via terrestre, ligando Manaus a capital rondoniense. Popularmente chamada de “Rodovia Fantasma”, ficou marcada pelas más condições de tráfego, com partes sem pavimentação e bastante deterioradas — especialmente no chamado “trecho do meio”, que durante o período de chuvas se transforma em um grande atoleiro.
Os ministros reconheceram a importância estratégica da estrada para a região, mas recomendaram que, em futuros processos de licenciamento, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) e o Ibama reforcem medidas de governança ambiental.
O objetivo é garantir maior presença do Estado e respeitar os princípios da precaução e do desenvolvimento sustentável.
A licença em questão foi concedida em 2022, no governo Bolsonaro, e havia sido contestada pela área técnica do próprio TCU, que apontou possíveis irregularidades no processo.
No voto, o relator, o ministro Walton Alencar Rodrigues, ressaltou que a rodovia é essencial para a população local e que suspender a licença poderia gerar “caos e dano para as populações” que dependem da estrada.
“A pavimentação do trecho do meio, objeto da licença em questão, é essencial para a melhoria das condições de trafegabilidade e para a promoção de benefícios socioeconômicos à população da região. A interrupção do processo de licenciamento, por meio do cancelamento da licença prévia, poderia comprometer os esforços em andamento para a construção de uma governança ambiental robusta e integrada”, disse o ministro, que concluiu:
“A manutenção da licença prévia é compatível com os princípios da precaução e da prevenção, uma vez que permite a continuidade do processo de licenciamento, com a exigência de cumprimento das condicionantes estabelecidas, antes da emissão da Licença de Instalação. Esse enfoque assegura que as questões relacionadas à governança ambiental sejam tratadas de forma progressiva e coordenada, sem inviabilizar o empreendimento”.
O ministro concluiu pedindo que Ibama e Dnit adotem, em futuras licenças, medidas mais firmes de governança ambiental.
Em julho deste ano, a 6ª Turma do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) decidiu, por dois votos a um, suspender novamente a licença prévia concedida para a repavimentação do trecho central da BR-319, que liga Manaus a Porto Velho. A decisão atendeu a um recurso do Observatório do Clima, que pede a anulação da licença emitida em 2022.
Durante o julgamento, a Advocacia-Geral da União (AGU) defendeu a manutenção da licença, destacando que foram criadas 29 unidades de conservação no entorno da rodovia para compatibilizar a proteção da floresta com a reconstrução da estrada.
Foto-: Reprodução/Observatório BR-319
“Hoje, 55% da área ao redor da BR-319 já possui unidades de conservação reconhecidas. A argumentação de que a expectativa de retomada da repavimentação geraria aumento do desmatamento não é suficiente, pois documento de 2007 do Ibama já indicava que o aumento das unidades de conservação seria uma barreira eficaz contra o desmatamento”, afirmou Lara Martins Ferreira, advogada da União.
O advogado do Observatório do Clima, Paulo Busse, afirmou que a simples expectativa do asfaltamento gerada pela licença prévia já tem provocado impactos ambientais.
“O Dnit apresentou documento que atesta o surgimento de vários ramais de estradas não autorizadas, que devem se ligar ao trecho principal da BR-319 quando estiver pronta. Isso demonstra a antecipação de atores interessados na especulação imobiliária da região, como grileiros e criminosos ambientais, que já começaram a abrir essas estradas”, explicou.
A decisão do TRF1 restabelece a liminar concedida em julho do ano passado por uma juíza da 7ª Vara Federal Ambiental e Agrária do Amazonas, que havia suspendido a licença. Essa liminar chegou a ser revogada em outubro de 2023.
A Glocal Amazônia 2025 encerra neste sábado (30) sua ampla programação de oficinas e debates em Manaus (AM). Além disso, o terceiro dia do evento conta com yoga, oficinas e também a feira, no Largo de São Sebastião, no Centro, e shows musicais com a presença do campeão de 2025 do Festival Folclórico de Parintins, o boi-bumbá Garantido.
Nível do Rio Acre segue próximo à cota histórica na capital. Foto: Júnior Andrade/Rede Amazônica AC
O governo federal reconheceu situação de emergência decretada por Rio Branco por conta da seca. A publicação foi feita no Diário Oficial da União (DOU) desta quinta-feira (28).
A capital acreana havia decretado emergência no último dia 6. O nível do Rio Acre na cidade está cada vez mais próximo da cota histórica registrada em setembro de 2024 e marcou 1,50 metro nesta quinta.
Com o reconhecimento, os municípios podem solicitar recursos do governo federal para ações de defesa civil, além de facilitar outras possíveis medidas.
O reconhecimento é mais um capítulo da crise ambiental enfrentada pelas cidades do Acre durante o verão amazônico deste ano.
Na segunda-feira (25), uma resolução da Agência Nacional de Águas e Saneamento (ANA) decretou situação crítica de escassez hídrica nos Rios Juruá, Purus e seus afluentes, além do Rio Iaco e Rio Acre.
Um dos principais objetivos da resolução é assegurar os processos de monitoramento hidrológico dos rios monitorar impactos sobre usos da água.
Emergência reconhecida em Rio Branco
Ainda no início de agosto, o governo do estado também havia decretado a emergência nas demais cidades. O documento, válido por 180 dias, destaca que o regime de chuvas no estado no 1º semestre de 2025 foi inferior ao esperado, o que contribuiu para o cenário de seca dos mananciais. Em julho, por exemplo, choveu somente 8 milímetros.
Por conta desse cenário, é justificado no decreto estadual que o baixo nível de chuvas influencia na navegação de embarcações nos cursos d’água, comprometendo ‘a logística de transporte, isolando comunidades e dificultando o abastecimento de bens essenciais, como alimentos e combustíveis, para os municípios e aldeias indígenas de mais difícil acesso’.
Além disto, o governo apontou também, como consequências da estiagem:
as altas temperaturas e baixo percentual de umidade relativa do ar
a captação e abastecimento de água que tende a ficar comprometido
os prejuízos em plantações e lavouras
o consequente aumento de queimadas e incêndios florestais
os riscos de prejuízo na alimentação de estudantes de zona rural, já que os insumos para refeições vêm por via fluvial
“Fica a Coordenadoria Estadual de Proteção e Defesa Civil [CEPDC] designada como unidade gestora orçamentária, podendo ordenar despesas atinentes a créditos abertos para atender atividades de apoio aos Municípios afetados pela emergência de que trata este Decreto”, ordena.
A Petrobras concluiu na quarta-feira (27) uma simulação de emergência na costa do Amapá. O exercício, chamado de Avaliação Pré-Operacional (APO), foi realizado na Bacia da Foz do Amazonas, na Margem Equatorial.
A ação, que começou às 18h10 de domingo (24), testou a capacidade da empresa de conter vazamentos de óleo — etapa obrigatória para obter licença ambiental e iniciar a pesquisa de petróleo na região.
A operação aconteceu no bloco FZA-M-59, onde está o navio-sonda NS-42. Mais de 400 profissionais participaram da simulação, que contou com embarcações de apoio, helicópteros e um hospital de fauna montado em Oiapoque.
Segundo o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), as equipes que acompanharam o exercício estão sendo desmobilizadas. Nos próximos dias, será iniciada a análise dos dados coletados nos postos de observação.
“Somente após a conclusão dessa análise, será elaborado um relatório técnico sobre a exequibilidade (ou não) do Plano de Emergência Individual (PEI) proposto pela empresa empreendedora. Não há prazo previsto para a conclusão dessa etapa”, informou o Ibama
A Glocal Amazônia 2025 chegou a sua terceira edição em Manaus (AM) este ano e deu início a uma extensa programação nesta quinta-feira (28). Debates em painéis temáticos, oficinas práticas e outras atividades constam na programação que segue até sábado (30).
Confira alguns destaques e detalhes do primeiro dia:
Abertura da Glocal Amazônia 2025 ocorreu na manhã desta quinta-feira (28) em Manaus. Foto: Thay AraújoEvento teve diversas atrações acontecendo simultaneamente nas salas do Palácio da Justiça, no Centro de Manaus. Foto: Thay AraújoDebates da Glocal contaram com tradução para Libras. Foto: Thay AraújoConvidados puderam participar dos debates de forma presencial e online. Foto: Rebeca Almeida/Portal AmazôniaOficinas de criatividade e empreendedorismo foram realizadas durante o primeiro dia. Foto: Thay AraújoParticipantes colocaram a mão na massa! Foto: Thay AraújoCobertura jornalística do evento leva ao público todos os detalhes. Foto: Thay AraújoDiretora-presidente da Fundação Rede Amazônica, Claudia Daou Paixão. Foto: Thay AraújoDebates também falaram das oportunidades para a sustentabilidade corporativa. Foto: Thay AraújoPrimeiro dia também teve apresentação de orquestra no Teatro Amazonas. Foto: Thay Araújo
No primeiro painel da terceira edição da Glocal Amazônia em Manaus (AM), nesta quinta-feira (28), abordou um dos temas mais discutidos na atualidade: ‘Tecnologia verde: IA, Big data e inovação para a floresta’. Os especialistas discutiram como tecnologias podem servir para a proteção, monitoramento e conservação da floresta amazônica.
O debate reuniu especialistas de diversos setores que ressaltaram como os saberes tradicionais e a inovação podem ser integrados a soluções tecnológicas que podem ajudar e contribuir para a a proteção e a conservação da floresta.
O painel contou com a presença de Paulo Guilherme Molin, coordenador do Centro de Pesquisa e Extensão em Geotecnologias (CePE-Geo) e do Laboratório de Geotecnologias, ambos na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e Escola Superior de Agricultura Luiz Queiroz (ESALQ); Carlos Souza Junior, coordenador técnico-científico do SAD Earth Engine e do Projeto MapBiomas, co-fundador da Eco-Lógica Consultoria Socioambiental e da startup Terras App; Justino Rezende Tuyuka, indígena do povo Utãpinopona-Tuyuka, antropólogo, pesquisador e pós-doutorando no ‘Projeto Patrimônio e Territorialidade: percepções passadas, presentes e futuras entre os Tacana, Tsimane e Waiwai’; e Allan Gomes, coordenador do Centro Popular de Comunicação e Audiovisual (CPA). O painel foi mediado pela superintendente adjunta geral da Fundação Amazônia Sustentável (FAS), Valcléia Lima.
De acordo com Allan Gomes, a inovação só é de fato verde se ela for comunitária, ou seja, feita coletivamente em conjunto com o interesse público, principalmente na Amazônia que possui “uma dimensão continental e variedade sociocultural”. Para ele, a Amazônia precisa de tecnologias, mas também de decisões sobre o uso dessas tecnologias.
“É interessante os espaços como a Glocal porque a gente consegue articular vozes plurais de comunidades tradicionais, de cientistas e de organizações do terceiro setor que discutem questões de produção da florestas, que discutem soluções e também apresentam críticas a modelos que estão aí, as vezes aparecendo só para reforçar exclusões”, afirmou.
Valcléia Lima, da FAS, ressaltou a importância de conectar a tecnologia com os saberes tradicionais e a necessidade de considerar tanto soluções quanto preocupações ao implementar novas tecnologias.
“Levar a tecnologia para dentro das comunidades é importante, sem deixar de conectar com os saberes ancestrais, já que as vezes a gente acha que levar uma inovação a gente vai mudar a realidade, quando de fato a gente pode até levar algumas preocupações para esse território. A Glocal é isso, é a gente pensar que existem soluções para uma série de questões. O importante é criar soluções para coisas que muitas vezes são simples de resolver, mas acaba não sendo priorizado”, declarou.
De acordo com Justino Tuyuka, as tecnologias verdes podem ajudar e contribuir, mas não vão solucionar os problemas do mundo, como os conhecimentos tradicionais não são soluções para os problemas do mundo atual, mas as duas, ou inúmeras ciências, podem se complementar e buscar soluções mais adequadas para o mundo de hoje.
“Aposto na questão da interdisciplinaridade que nos ajuda a ampliar nossos conhecimentos e outras possibilidades na questão da ancestralidade. A ancestralidade se refere ao nosso passado e como diziam os indígenas: ‘só o passado que ensina, o futuro não ensina porque não existe’. Então é importante não esquecer a ancestralidade e como o conhecimento era transmitido”, afirmou.
Além disso, os participantes do primeiro painel do evento também exploraram os desafios éticos e técnicos na Big Data e como a coleta de dados precisa trabalhar em larga escala para fazer disso benéfico para todos, os principais objetivos no desenvolvimento de ferramentas de monitoramento remoto dos territórios e como tirar as comunidades da invisibilidade para atender as necessidades e garantir o acesso a programas sociais.
Sustentabilidade pode ser corporativa?
O segundo painel do primeiro dia tratou sobre a ‘Sustentabilidade corporativa: como empresas podem impulsionar o desenvolvimento sustentável e valor de mercado na Amazônia’. O objetivo dos participantes foi pontuar a importância de conectar o conhecimento local com as inovações globais.
Participaram do painel a jornalista Daniela Assayag; a superintendente adjunta geral da Fundação Amazônia Sustentável (FAS), Valcléia Lima; a CEO da Bee2Be, Simone Ponce; a empresária Priscila Almeida; e o CEO do Grupo Rede Amazônica, Phelippe Daou Júnior.
Foto: Clarissa Bacellar/Portal Amazônia
“Ao promover a transformação social, geramos o cuidado com a região, a valorização de suas riquezas e a otimização do seu aproveitamento. Isso, por sua vez, cria um ambiente propício para o desenvolvimento das pessoas e das empresas”, destacou Simone Ponce sobre os modelos de empreendedorismo amazônicos.
Já Phelippe Daou Júnior enfatizou que a missão dos ambientes corporativos também tem que envolver a valorização dos recursos locais: “Nós promovemos a troca de conhecimento. Valorizamos o que você já tem, e então nós alavancamos e mostramos para o mundo. Não foi uma transformação, não foi uma criação. Foi uma valorização de tudo que é produzido na terra pelas mãos das pessoas que cuidam dessas terras, com os seus conhecimentos milenares, respeitando as relações ecossistêmicas para alimentar o mundo”.
“Nosso objetivo é o desenvolvimento sustentável, sem jamais esquecer que as pessoas que vivem na região são o nosso maior patrimônio. Elas merecem respeito, cidadania e acesso aos seus direitos em todo o mundo”, afirmou.
O evento acontece no Centro de Manaus, entre o Centro Cultural Palácio da Justiça e o Largo de São Sebastião, até o dia 30 de agosto. Confira a programação completa AQUI.
Dois megaprojetos de pesquisa que começaram em 2024 buscam fornecer em breve a primeira estimativa confiável sobre a diversidade de espécies de insetos da Amazônia, bioma de maior biodiversidade do planeta.
Os insetos são o grupo de maior diversidade (1,1 milhão de espécies) conhecida entre todas as espécies considerando plantas, fungos e animais (cerca de 2 milhões).
A identificação das espécies é o primeiro passo de quase todo estudo biológico, mas pode ser desafiadora — e um número impressionante delas permanece sem descrição. As estimativas do número de espécies no planeta variam entre cinco até dez vezes.
Acrescente a esse cenário a complexidade e tamanho da Floresta Amazônica, com seus 700 milhões de hectares e a dificuldade de se acessar os vários estratos da floresta acima do solo: em grandes regiões da Amazônia as árvores têm altura média de 30 a 35 metros.
Com a perda acelerada de espécies e ecossistemas, somada ao risco de colapso da Amazônia nas próximas décadas, em uma combinação entre desmatamento, degradação e mudança climática, acelerar os estudos de grande escala para revelar a biodiversidade é urgente para fomentar a preservação.
Professor sênior da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP, Dalton de Souza Amorim coordena o BioInsecta, um grande projeto temático apoiado pelo Programa Biota da Fundação de Amparo à Pesquisa o Estado de São Paulo (Fapesp) para o estudo da biodiversidade de insetos na Amazônia (2024-2028).
Professor da USP desde 1990, Amorim tem mais de 130 trabalhos publicados em revistas científicas indexadas, e é referência internacional em pesquisas sobre taxonomia, evolução e biodiversidade de insetos tropicais.
Dalton Amorim e José Albertino Rafael coordenam, respectivamente, os projetos BioInsecta e o Biodossel, parceiros na grande empreitada de desvendar a biodiversidade amazônica. Foto Cecília Bastos/USP Imagens
No dia 31 de agosto, parte da equipe embarca para mais uma expedição para trabalho de campo, na reserva ZF-2, do Inpa, nas proximidades de Manaus (AM).
Em entrevista ao Jornal da USP, que acompanhará a expedição, Amorim fala sobre o projeto que coordena e suas principais perguntas e inovações propostas, além de algumas das repercussões esperadas da pesquisa.
“Quantas espécies de insetos são impactadas quando uma área qualquer de 10 mil hectares de floresta é removida, isto é, quantas espécies de insetos existem em uma área qualquer de floresta de cerca de 10 mil campos de futebol? Sabemos que são muitas milhares, mas não sabemos quantas”, explica Amorim.
Sua expectativa é que cientistas da biodiversidade possam usar os dados gerados no projeto “para delinear novas soluções para a conservação e restauração da Amazônia”.
Acompanhe a entrevista completa:
Qual a relevância ecológica dos insetos para as florestas tropicais?
Os insetos são fundamentais na sobrevivência das florestas, mas ainda sabemos muito pouco sobre eles. Os insetos surgiram na Terra a partir de artrópodes ancestrais há mais de 410 milhões de anos. Desde então, os vários grupos que foram surgindo sobreviveram a mudanças muito grandes no planeta, incluindo glaciações brutais, períodos de enorme aquecimento e pelo menos três mudanças radicais na vegetação.
As florestas evoluíram com toda a rede de interações entre plantas, vertebrados, fungos e outros invertebrados, incluindo os insetos. Há insetos coprófagos (comem fezes), micófagos (comem cogumelos), saprófagos (comem cadáveres), polinizadores, parasitóides de outros insetos, decompositores aquáticos e terrestres, predadores de outros insetos, herbívoros (comem folhas), fitosaprófagos (comem partes mortas de plantas), minadores de troncos [se alimentam da seiva das árvores] etc. O desafio é que a biodiversidade de insetos — e seu desconhecimento — é tão grande que não conseguimos desenhar a teia completa de relações entre os insetos e suas funções dentro dos ecossistemas florestais.
Qual a principal motivação para realizar um projeto como o BioInsecta na Floresta Amazônica?
Há mais de 100 anos foi dito pelo biólogo William Beebe que a fauna de insetos na copa das árvores é como se fosse um outro continente. Tem muitas espécies que estão na copa das árvores e que não estão no solo, só que nunca foram estudadas devido à falta de métodos para coletar nesse ambiente. Esse é um dos motivos do projeto ser tão importante, porque ele permitirá estudar as Amazônias acima do solo.
O projeto conta com especialistas de diversas ordens e famílias, e o DNA de centenas de milhares de exemplares de insetos será sequenciado para uma amostragem significativa. Na imagem, cupins, ordem Blattodea. Foto: Tiago Carrijo/@bio_insecta
Os estudos de fauna de insetos eram feitos por meio de projetos individuais, utilizando apenas a identificação por taxonomistas. Isso faz com que o processo de descoberta da biodiversidade não descrita ou desconhecida seja muito lento. O projeto BioInsecta é realizado em parceria com o INCT-BioDossel do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) apoiado pelo CNPq, integrando braços diferentes [taxonomia, sequenciamento de DNA, ecologia, educação e divulgação científica] que trabalham juntos para o conhecimento dessa fauna gigantesca.
Enquanto as equipes de sequenciamento de DNA aceleram o processo de delimitação de espécies, a enorme rede de cientistas da biodiversidade dão significado às sequências geradas, com o reconhecimento dos grupos [ordens e famílias de insetos] aos quais as espécies pertencem, e com o levantamento da sua biologia e o reconhecimento de quais delas são novas. Todas as equipes juntas preparam os trabalhos sobre os padrões gerais de distribuição vertical desta fauna, a complexidade da floresta e o número de espécies existentes em dada área da floresta.
Ao invés de caminharmos por pequenos passos na compreensão da biodiversidade de insetos, damos passos do tamanho da escala do projeto [com a estimativa de mais de 5 milhões de espécimes coletados, e cerca de 500 mil exemplares que serão sequenciados]. Milhares de espécies vão ser descritas e a complexidade da floresta vai ser desvendada. Não há um número preciso agora, mas a proporção geral de espécies ainda desconhecidas em relação às espécies conhecidas pode ser de 90% a 98% da fauna de insetos da Amazônia.
Quais as principais perguntas que o projeto busca responder?
Queremos responder quantas espécies de insetos são impactadas quando uma área de floresta é removida, ou seja, quantas espécies de insetos há em uma área qualquer da Floresta Amazônica de cerca de 10 mil hectares, aproximadamente 10 mil campos de futebol. Sabemos que são muitas milhares, mas não sabemos quantas; nem como essa fauna, com inúmeras biologias, está distribuída na estrutura vertical da floresta; e se as espécies de insetos são as mesmas, do Acre ao Maranhão e do Mato Grosso a Roraima, ou se (como ocorre para vertebrados terrestres e plantas) há “muitas Amazônias”, com uma substituição importante quando se cruzam os grande rios.
Quais inovações a pesquisa traz em relação ao que já foi feito?
Precisamos resolver diversas limitações que impediram as respostas na literatura científica até agora. Há necessidade de acesso ao dossel (a copa das árvores) para coletas eficientes e regulares; de sequenciar o DNA de centenas de milhares de exemplares de insetos para conseguir uma amostragem significativa das várias ordens e famílias; e de uma rede com centenas de especialistas (entomólogos) nos mais diversos grupos — de borboletas a percevejos, de baratas a grilos, de moscas a cigarrinhas. De todas as inovações, talvez a que chama mais a atenção são as “cascatas” de armadilhas.
Uma estrutura incluindo cordas, roldanas e armadilhas alinhadas verticalmente, sustentadas por galhos das árvores mais altas da floresta que crescem acima da altura média do dossel. Sem amostragem, não há conhecimento da biodiversidade, de maneira que essa solução nos permitiu ter acesso à fauna a mais de 25 metros de altura dentro da floresta.
Nossas contas do Instagram (@bio_insecta e @inct_biodossel) têm mostrado o funcionamento dessas armadilhas extremamente eficientes, que estão coletando mais insetos do que as armadilhas, usadas no início de nossos estudos, que foram montadas nas plataformas de uma torre meteorológica de 40 metros de altura na Reserva ZF2 do Inpa. A cada duas semanas, as armadilhas em cascata de cinco níveis estão coletando, em média, 59 mil exemplares de insetos em cada local de estudo. São três áreas de estudo, e em cada local é utilizada uma cascata de armadilhas.
“Cascatas” de armadilhas: solução permitiu acesso à fauna a mais de 25 metros de altura dentro da floresta. Foto: Larissa Queiroz/@bio_insecta
Em que consiste a taxonomia integrativa e triagem reversa que é usada na pesquisa?
É uma metodologia que faz uso combinado de informações morfológicas e moleculares para compreender a biodiversidade. Apenas dados moleculares não são capazes de dizer, para um “continente” que teve sua fauna muito pouco sequenciada (estudada com dados de DNA), a qual espécie ou gênero e família os exemplares pertencem, e se elas são novas ou não.
Apenas dados morfológicos resultam em um processo demasiadamente lento, que não permite estudos da fauna completa. Chama-se “reversa” porque o material primeiramente é sequenciado e, depois, identificado ao nível específico, ao contrário do que se faz quando os projetos de biodiversidade focam em um ou alguns grupos presentes nas amostras.
Como o conhecimento sobre a biodiversidade pelos povos originários poderá ser considerado no projeto?
Essa é outra pergunta muito central. Às vezes, falamos em “descobrir” a biodiversidade. As nações originárias têm um conhecimento enorme da biodiversidade. Elas vivem neste continente há milhares de anos, e têm um profundo conhecimento das plantas e dos animais. A ignorância, de fato, é nossa. O que fazemos é organizar nosso conhecimento “novo” de outra maneira.
No Brasil, fala-se mais de 200 idiomas, mesmo depois de cinco séculos de massacre. Em cada um há nomes para elementos da fauna, inclusive de insetos, e conhecimento detalhado da biologia. Parte desses nomes já foram apropriados pela língua portuguesa. Uruçu ou iruçu é o nome genérico para as abelhas sem ferrão maiores (como espécies de Melipona ou Schwarziana); há nomes para outras espécies de abelha, como yataí (jataí, Tetragonisca); para vespas, como cawa, que se aplicam a várias espécies, cada uma com seu próprio nome; nomes para moscas como mberu ou meru e para borboletas como panapanã.
Não há preservação da floresta sem preservação das nações originárias. E não há preservação de uma nação sem a preservação de seu idioma — o silenciamento dos povos sempre foi através do silenciamento de sua língua. Alguns destes idiomas já têm dicionários e vocabulários disponíveis, que são uma janela para o conhecimento da biodiversidade das nações que vivem, conhecem e preservam a floresta há milhares de anos.
Um estudo que coordenou revelou que mais de 60% da biodiversidade de insetos na Amazônia se encontra acima do solo. Isto significa que as áreas já degradadas podem ter eliminado mais de 50% dos insetos da floresta. Quais as implicações disso para a conservação e restauração?
Há perguntas muito complexas que são resultado do projeto e que, de fato, estão além do que é nossa especialidade; vamos precisar trabalhar com especialistas de outras áreas. Os dados de biodiversidade e estrutura vertical da fauna de insetos vai alimentar estudos de ecologia da floresta por muitos anos — feito por ecólogos. Esses dados também vão ser usados por engenheiros florestais e cientistas da conservação para decisões na proteção da floresta. Se mais da metade da biodiversidade da floresta não está próxima do solo, como isso impacta as estratégias de silvicultura, extrativismo sustentável, demarcação de território dos povos originários, implantação de sistemas agroflorestais? Os dados gerados no projeto ajudarão a delinear novas soluções. Mas os próprios estudos de biodiversidade devem ter seus protocolos refeitos, em função de novas soluções para coleta no dossel e do uso da biologia molecular para estudos de biodiversidade de grande escala.
(Entrevista editada pelo Jornal da USP para melhor compreensão)
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal da USP, escrito por Leandro Magrini, bolsista Mídia Ciência da Fapesp vinculado ao projeto BioInsecta (@bio_insecta)
A programação do primeiro dia do GlocaLAB, da terceira edição da Glocal Amazônia, sob o tema B2B – Business to Business (voltado para negócios), começou nesta quinta-feira (28) em Manaus (AM). O primeiro tema abordado foi na oficina ‘Business Model Canvas para negócios de impacto’, ministrada por Adrio Hattori, diretor executivo da Hattori Tech e fundador do Clube de Empreendedores e Líderes (CEL).
O encontro apresentou a metodologia do canvas, ferramenta usada para estruturar modelos de negócio de forma prática e visual, auxiliando empreendedores a desenvolver novos produtos, serviços e projetos.
Segundo Hattori, o método, composto por nove blocos principais, ajuda o empreendedor a entender o mercado onde atua, definir com clareza o público-alvo, identificar fontes de receita e avaliar formas diversificadas de monetização.
“Às vezes pensamos apenas na venda direta, mas existem várias maneiras de gerar receita com o mesmo produto ou serviço. O canvas abre a mente do empreendedor para essas possibilidades”, explicou.
Foto: Clarissa Bacellar/Portal Amazônia
O especialista destacou ainda a importância de eventos como a Glocal Amazônia para aproximar jovens e futuros empreendedores das ferramentas adequadas para iniciar seus negócios.
“Estimo que 90% dos empreendedores nunca fizeram um modelo de negócio formal. Isso já os coloca em desvantagem. Quem aprende cedo, ainda na universidade, já entra no mercado com uma visão mais ampla e preparada para os desafios”, afirmou.
Adrio ministrou a oficina no primeiro dia da Glocal 2025. Foto: Diego Oliveira/Portal Amazônia
A oficina atraiu estudantes e profissionais interessados em aprimorar suas ideias de negócio. Fernando Negreiros, estudante de design e desenvolvimento de software, já empreende antes mesmo de concluir a graduação.
“Quis participar para aprender mais sobre como apresentar o produto e falar com investidores. É essencial saber ‘vender o peixe’ para quem quer empreender”, comentou.
Para a vendedora digital Luana Dias, o aprendizado foi valioso. “Achei muito legal a forma como o Adrio trouxe o tema. Pude entender melhor como abordar clientes e espero aplicar tudo o que aprendi para alavancar minhas vendas”, disse.
Técnicas de Pitch para empreendedores
Outra atividade do GlocaLAB no primeiro dia foi dedicada ao tema ‘Pitch‘, técnica voltada para a apresentação de ideias de negócios e produtos de forma clara e persuasiva. A oficina também foi conduzida por Adrio Hattori, que é consultor do Sebrae Amazonas. Ele destacou a importância de estruturar a comunicação em dois pilares principais: problemas e soluções.
Segundo Hattori, a proposta de um bom Pitch é mostrar de maneira objetiva qual necessidade o produto ou serviço atende e como se diferencia no mercado.
“Convencer o investidor é essencial, porque ele precisa acreditar que a sua solução resolve de fato um problema real e tem potencial de crescimento. Sem isso, a ideia pode não sair do papel”, afirmou.
Foto: Hector Muniz/Portal Amazônia
No encontro, os participantes também conheceram conceitos ligados ao mercado, como o modelo Business to Business (B2B) e o Business to Consumer (B2C).
O B2B, tema do dia, refere-se às transações comerciais realizadas entre empresas, como a venda de insumos ou serviços corporativos. Já o B2C é voltado diretamente ao consumidor final, caracterizando o comércio tradicional em que o cliente é a pessoa física que consome o produto.
A atividade também faz parte da programação que busca aproximar empreendedores de práticas modernas de mercado e ampliar a capacidade de negociação e comunicação em diferentes segmentos da economia.
Entre os participantes estava José Fernandes, fabricante de mel, que destacou os aprendizados obtidos na oficina:
“Aprendi a apresentar meu produto mostrando o problema que ele resolve e a solução que ofereço. Vou aplicar isso nas minhas vendas para explicar melhor os benefícios do meu mel e alcançar novos clientes”.
Foto: Hector Muniz/Portal Amazônia
A oficina de Pitch na Glocal Amazônia reforçou a importância da preparação dos empreendedores para enfrentar cenários competitivos, seja em negociações entre empresas ou no contato direto com o consumidor final.
Após as oficinas de aprendizado, os particpantes também puderam realizar uma sessão de pitching de projetos ligados à bioeconomia, colocando em prática aquilo que o facilitador ensinou durante o dia.
Com foco em inovação, sustentabilidade e empreendedorismo, a Glocal Amazônia segue reunindo especialistas, estudantes e empresários para debater caminhos de impacto positivo para a região e para o mercado nacional.
A Glocal Amazônia 2025 deu início, nesta quinta-feira (28) em Manaus (AM), a sua terceira edição. Como objetivo de “pensar global, agir local”, o evento conta com debates, workshops sobre sustentabilidade e inovação, oficinas e também atrações culturais que movimentam o cenário.
Além da abertura oficial do evento, o primeiro dia teve foco no tema ‘B2B’, com o objetivo de ser um encontro para lideranças empresariais, conectando iniciativas inovadoras de bioeconomia à empresas e investidores que podem impulsioná-las. Confira alguns momentos:
Primeiro dia contou com orientações do Sebrae. Foto: Diego Olivieria/Portal AmazôniaFoto: Thais Araújo/FRAMFoto: Clarissa Bacellar/Portal AmazôniaFoto: Clarissa Bacellar/Portal AmazôniaEstudantes também puderam participar do primeiro dia do evento. Foto: Clarissa Bacellar/Portal AmazôniaA cantora Lucilene Castro abriu o evento. Foto: Clarissa Bacellar/Portal AmazôniaFoto: Clarissa Bacellar/Portal AmazôniaFoto: Diego Oliveira/Portal AmazôniaFoto: Diego Oliveira/Portal AmazôniaFoto: Diego Oliveira/Portal Amazônia
A Glocal Amazônia 2025 segue com uma ampla programação nesta sexta-feira (29), em Manaus (AM). Os debates seguem e a programação conta ainda com yoga, workshops, oficinas e também atrações culturais e musicais com feira e shows, como o do boi-bumbá Caprichoso, direto do Festival Folclórico de Parintins.