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Vinho de açaí criado no Pará une biotecnologia e saberes amazônicos

Foto: Lenne Santos/Ufopa

Estudantes de Biotecnologia na Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), buscaram inovar com uma criação que alia tecnologia e valorização de produtos regionais: o vinho de açaí.

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A inovação foi apresentada durante o Festival do Sairé, realizado entre os dias 18 e 22 de setembro, na vila de Alter do Chão, em Santarém (PA). O evento, um dos mais tradicionais da região, serviu como vitrine para o encontro entre ciência acadêmica e saberes tradicionais amazônicos.

Vinho de açaí: ciência e tradição no mesmo copo

Entre os projetos apresentados, o vinho de açaí tinto seco chamou a atenção pela inovação e pela possibilidade de agregar valor a um dos frutos mais emblemáticos da região amazônica.

Desenvolvido pela estudante Sâmia Lirne Carvalho, do 9º semestre do curso de Biotecnologia, o produto tem características semelhantes às do vinho tinto de mesa tradicional, porém com base no açaí.

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De acordo com Sâmia, o vinho possui 12% de teor alcoólico, além de potenciais antioxidantes e um perfil nutricional que inclui vitaminas K e C, além de minerais como cálcio e ferro.

A principal inovação está no aproveitamento integral do fruto. “Utilizamos 100% da polpa e 20% do caroço na fermentação, para aproveitar o potencial total que o açaí tem”, explicou a pesquisadora.

O projeto é desenvolvido em parceria com a In Tap e a Embrapii, e tem como objetivo transformar o açaí — tradicionalmente consumido na forma de polpa — em um produto diferenciado, com potencial comercial e cultural. Além de valorizar a cadeia produtiva regional, a pesquisa reforça o papel da biotecnologia na criação de soluções sustentáveis baseadas em recursos naturais da Amazônia.

Biotecnologia e sustentabilidade na mesa amazônica

O Laboratório de Micologia e Bioensaios da Ufopa também levou ao evento outras pesquisas relacionadas ao uso de fungos e frutas regionais. Estudantes e professores apresentaram exemplos de como a biotecnologia pode ser aplicada em diversas áreas, desde a biorremediação ambiental até a produção de alimentos funcionais. Jogos educativos foram usados para atrair o público infantil, aproximando as novas gerações do universo científico.

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Outra atração que despertou a curiosidade dos visitantes, além do vinho de açaí, foi a farofa de saúva, produzida a partir de uma espécie de formiga amazônica. O alimento faz parte do projeto “Formigas Amazônicas como Recurso Alimentar Sustentável”, coordenado pela professora Iracenir Santos.

A estudante indígena Glena Batista, da etnia Tupinambá, explicou que o prato é tradicional em sua comunidade e possui, além do valor nutricional, um significado cultural de união e partilha. Estudos mostraram que a espécie Atta laevigata tem alto potencial nutricional e pode ser uma alternativa alimentar sustentável, em sintonia com dados da FAO que apontam que cerca de dois bilhões de pessoas no mundo consomem insetos.

Estudante indígena Glena Batista exige a farofa de saúva. Foto: Lenne Santos/Ufopa

Educação e integração com a comunidade

Durante o evento, também foi apresentado o trabalho de diagnóstico socioambiental do Lago Verde, coordenado por estudantes de Engenharia Sanitária e Ambiental. A pesquisa busca identificar pressões humanas, impactos ambientais e avaliar a qualidade da água em um dos principais cartões-postais de Alter do Chão.

Para o diretor de Cultura e Comunidade da Ufopa, Jefferson Dantas, a presença da instituição no Sairé simboliza o diálogo entre universidade e cultura local. “O estande foi mais do que um espaço de exposição; foi um espaço de encontro e de troca. Essa presença fortalece a relação entre a universidade e a comunidade, aproximando a produção acadêmica da vida cultural do território”, afirmou.

A participação da Ufopa no festival integrou o projeto “Ufopa, saberes que nascem com o povo: Cultura, Ciência e Comunidade em Festa”, da Pró-Reitoria de Cultura, Comunidade e Extensão (Procce). A iniciativa reforça o compromisso da instituição com o desenvolvimento sustentável e a valorização dos saberes amazônicos, mostrando que a ciência produzida na região pode unir inovação, tradição e valorização da cultura local — e, no caso do vinho de açaí, transformar um símbolo da floresta em um produto de identidade amazônica.

*Com informações da Ufopa

Marabaixo ganha Plano de Salvaguarda, divulga Iphan

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Marabaixo é uma das principais manifestações culturais do Amapá. Foto: Pedro Gontijo

Em meio ao balançar ritmado das saias floridas, seguindo o arrastar dos pés em sentido anti-horário e ao som do toque firme das palmas das mãos nas caixas e nos tambores misturado aos vocais potentes dos Mestres e Mestras aquecidos pela tradicional gengibirra (bebida fermentada, alcoólica ou não, feita com gengibre, açúcar e água) desenvolveram-se as ações do Plano de Salvaguarda do Marabaixo, manifestação registrada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como Bem Cultural Imaterial desde 2018. 

O Plano de Salvaguarda é um instrumento fundamental para a gestão dos bens registrados como Patrimônio Cultural Imaterial. 

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Elaborado sob a liderança do Comitê Gestor da Salvaguarda do Marabaixo (CGMAP) – grupo de trabalho composto por representantes das comunidades, barracões, grupos e associações que mantêm viva a tradição no Amapá -, o Plano reúne as principais ações de salvaguarda a serem executadas, considerando a realidade das comunidades detentoras. Seu objetivo é organizar e priorizar as ações de salvaguarda relevantes aos detentores que atuaram diretamente na pesquisa, identificação, preservação, fortalecimento e transmissão da manifestação. 

As ações buscam direcionar os esforços para a sustentabilidade cultural, criando condições sociais, econômicas, políticas e ambientais adequadas para que o bem possa existir e ser praticado, propondo ações preventivas e corretivas diante de possíveis ameaças. O documento, além de ser de grande importância para o povo detentor do Marabaixo, também imprime a necessidade de proteção desse bem, considerando a discriminação e o preconceito preconceito existentes contra as manifestações de matriz africana.  

Leia também: Conheça história do Marabaixo, manifestação cultural ancestral do Amapá

Para o superintendente do Iphan no Amapá, Michel Flores, o lançamento do Plano de Salvaguarda do Marabaixo representa mais que uma conquista: é um compromisso coletivo com a valorização de uma tradição que atravessa gerações. 

“O documento é resultado de um trabalho conjunto entre Iphan, detentores e sociedade civil. Mais do que um instrumento técnico, representa o reconhecimento do Marabaixo como expressão viva da fé, da resistência e da ancestralidade afro-amapaense. A participação das comunidades é fundamental para que o som dos tambores continue ecoando nas gerações futuras, mantendo viva a identidade do povo amapaense”, afirmou.  

Marabaixo
A estética do Marabaixo também carrega simbolismos profundos. Foto: Pedro Gontijo

Conheça o patrimônio: Marabaixo

Reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil pelo Iphan em 2018, o Marabaixo é uma das manifestações mais autênticas do povo amapaense. De origem afrodescendente, celebra o Divino Espírito Santo e a Santíssima Trindade por meio de uma combinação de ritos religiosos e festivos. O ciclo do Marabaixo começa na Páscoa e termina no Domingo do Senhor (primeiro domingo após Corpus Christi).  

Durante as celebrações, misturam-se tradições africanas, (como o corte do mastro, a quebra da murta e as danças) e rituais católicos (como missas, novenas e procissões). As músicas, chamadas “ladrões”, são entoadas ao som das caixas de marabaixo, grandes tambores tocados com baquetas, enquanto os participantes dançam em círculo, arrastando os pés, no sentido anti-horário.   

A estética também carrega simbolismos profundos: as mulheres vestem saias floridas, anáguas, colares e flores nos cabelos, em uma estilização das antigas vestimentas das escravizadas; os homens, por sua vez, usam roupas brancas e coloridas. A manifestação está presente principalmente nos bairros do Laguinho e Santa Rita, em Macapá, além das comunidades tradicionais como Mazagão Velho, Campina Grande, Curiaú, Lagoa dos Índios e Maruanum.  

*Com informações do IPHAN

Inpa promove 22ª Semana Nacional da Ciência e Tecnologia

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Coleções Zoológicas na SNCT. Foto: Igor Souza/Acervo PCE Inpa

Por Osíris M. Araújo da Silva – osirisasilva@gmail.com

Com o desafiante tema “Planeta Água: a cultura oceânica para enfrentar as mudanças climáticas no meu território”, o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI) realizou, de 21 a 23, a 22ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT), do qual tomaram parte instituições de ensino e pesquisa, escolas e a comunidade científica de todo o Brasil. A programação do evento, gratuita, foi composta por cerca de 100 atividades, entre exposições, oficinas, jogos, brincadeiras, palestras e visitas a laboratórios de pesquisa. Visando a consolidação de uma reflexão sobre a relação entre sociedade e recursos hídricos, o Inpa exibiu vários projetos e grupos de pesquisa que estudam ecossistemas aquáticos, peixes e outros organismos de água doce, recursos hídricos e plantas das várzeas e igapós.

De acordo com a Assessoria de Comunicação do Inpa (Ascom), a temática levou em conta que a Amazônia, geomorfologicamente, compõe-se também de uma costa litorânea banhada pelo Oceano Atlântico à qual estão vinculados os estados do Pará, Amapá e Maranhão. “Então, falando em água, seja a água essencial à vida e a vida que está na água, científica ficamente significa o nosso foco central baseiam-se nos ecossistemas aquáticos, nesse caso, a floresta também é água. Sobretudo por ser a Amazônia a maior bacia hidrográfica do mundo, responsável por lançar no oceano quase 20% de toda a água doce do planeta”, argumenta o diretor do Inpa, professor Henrique Pereira.

Segundo o chefe do Bosque da Ciência, pesquisador Jorge Lobato, mais de 30 grupos, projetos e laboratórios do Inpa envolveram-se diretamente na SNCT deste ano, além de organizações parceiras. O evento reuniu cerca de 2,8 mil estudantes de 45 escolas agendadas, das zonas urbana e rural de Manaus, sem contar o público geral”. Quanto às exposições, contaram diariamente com mais de 20 tendas ao ar livre, além das salas no Centro de Convivência e na Biblioteca. Amostras, materiais lúdicos, gráficos (banners, folders), vídeos, feira de troca de livros e instrumentos de pesquisa, foram utilizados para interagir com os visitantes e apresentar estudos e tecnologias sobre frutos, plantas, madeiras, peixes, insetos, aracnídeos, primatas, gavião-real, fungos, quelônios, entre outros.

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Além das exposições, a SNCT exibiu as importantíssimas “Coleções Zoológicas do Inpa” para a comunidade do Inpa e durante todo o dia para a comunidade externa. Essas coleções zoológicas estão organizadas em diferentes acervos – Invertebrados, Peixes, Anfíbios e Répteis, Aves, Mamíferos e Recursos Genéticos Zoológicos – que representam a incrível diversidade da fauna amazônica, sendo fundamentais para pesquisas, conservação e educação. “Abrir o laboratório é abrir caminhos para o conhecimento, inspirar futuros cientistas e fortalecer o vínculo entre ciência e sociedade. Trata-se de um convite ao conhecimento da diversidade impressionante da região, os métodos de preservação dos exemplares e o processo de descobertas científicas – como o animal é coletado, catalogado e estudado com rigor”, disse a técnica das coleções zoológicas do Inpa, a pesquisadora Gisiane Lima.

Reconhecidos como espaços de debate científico e compartilhamento de conhecimentos, os Seminários ofereceram palestras curtas de 20 minutos em linguagem de fácil compreensão, tendo por propósito possível o conhecimento dos bastidores da pesquisa, da coleta de dados até a divulgação de resultados, destacando-se os temas: “Como conhecemos a diversidade de peixes amazônicos?”, “Descobrindo novos remédios na farmácia da natureza”, “Do Quintal à Ciência: Mobilizando Comunidades pela Conservação do Sauim-de-Coleira e Inteligência Artificial, ajudando a escolha de sementes certas para restaurar a Amazônia”. O evento enfim possibilitou conhecer de perto as pesquisas que o Inpa realiza sobre ecossistemas aquáticos, biodiversidade, clima, alimentação, saúde, tecnologias e educação ambiental.

O Inpa, de acordo com seu diretor, professor Henrique Pereira, reafirmou seu compromisso com a sociedade ao abrir os campi à população. “A SNCT, por conseguinte, tornou-se uma oportunidade para aproximar a ciência da sociedade, derrubar mitos e fortalecer a confiança pública na ciência. Esses três dias são muito especiais para conhecermos de perto as pesquisas que o Inpa realiza sobre ecossistemas aquáticos, biodiversidade, clima, alimentação, saúde, tecnologias e educação ambiental. Com sete décadas de trajetória científica, confirma sua vocação como instituição pública que se dedica a compreender, valorizar e proteger a maior floresta tropical do planeta, a Amazônia, atuando na capacitação de pessoas, produção de tecnologia e inovação e no compartilhamento de conhecimentos e experiências que revelam o valor da ciência feita na Amazônia e pelos amazônidas”, enfatizou.

Sobre o autor

Osíris M. Araújo da Silva é economista, escritor, membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) e da Associação Comercial do Amazonas (ACA).

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Brasil e Indonésia assinam acordo para combater o desmatamento

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Ministra Luciana Santos assina memorando de entendimento com a Agência Nacional de Pesquisa e Inovação da República da Indonésia (Brin). Fotos: Ricardo Stuckert/PR

Em missão oficial na Ásia, a ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) no Brasil, Luciana Santos, firmou, nesta quinta-feira (23), um memorando de entendimento com a Agência Nacional de Pesquisa e Inovação da República da Indonésia (Brin). O documento visa promover o desenvolvimento conjunto de novas tecnologias; de projetos de pesquisa, inovação e capacitação; e de estudos para a colaboração bilateral. 

Os temas prioritários abordados na cooperação entre os dois países incluem biodiversidade, com ênfase em seu uso sustentável e responsável; mudanças climáticas, incluindo ciências oceânicas e florestas tropicais; pesquisa e tecnologia espacial; e energia limpa, como a nuclear e a bioenergia. 

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Monitoramento de florestas

Brasil e Indonésia abrigam duas das maiores florestas tropicais do mundo e estão entre os países com a maior biodiversidade do planeta. Para fortalecer os esforços de proteção das áreas verdes, o memorando assinado entre as duas nações prevê, entre outras ações, a cooperação no uso de satélites.

“Como nós temos em comum grandes florestas, vamos cooperar fornecendo os nossos modelos de satélites, inclusive o Amazônia 1, para reforçar o monitoramento. Com isso, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais [Inpe] e o governo da Indonésia vão trocar imagens e ajudar mutuamente a garantir o controle do desmatamento criminoso e das queimadas”, detalhou a ministra.  

Leia também: Amazonia-1: satélite completa 4 anos de operação em órbita

Outro ponto de destaque na cooperação entre as nações é a bioeconomia. Segundo Luciana Santos, o intercâmbio de informações e experiências fortalecerá o crescimento dos dois países. “Vamos aprender juntos e trocar conhecimento, traduzindo isso em produtos e serviços para benefício da população”, afirmou.  

Brasil e Indonésia assinam acordo para combater o desmatamento
Fotos: Ricardo Stuckert/PR

Missão na Ásia 

A ministra Luciana Santos integra a comitiva do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em sua missão oficial à Ásia, que segue até esta terça-feira (28). A viagem inclui compromissos na Indonésia e na Malásia. Entre as atividades programadas, está a assinatura de dois instrumentos de cooperação na área de ciência, tecnologia e inovação. A viagem busca consolidar a presença do Brasil no cenário global, ampliando as fronteiras comerciais e as relações exteriores.  

Na Malásia — local em que ocorrerá a 47ª Cúpula da Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean) e a 30ª Cúpula do Leste Asiático —, Luciana Santos e o ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação malaio, Chang Lih Kang, firmam memorando de entendimento para aprofundar a cooperação, por meio de desenvolvimento de pesquisa; de promoção de intercâmbio de cientistas, especialistas e pesquisadores; de realização de conferências, simpósios, cursos, seminários e exposições; de utilização comum de dispositivos, instalações e equipamentos de pesquisa científica; e de promoção de projetos conjuntos de P&D.  

A cooperação em ciência, tecnologia e inovação entre Brasil e Malásia tem focado, nos últimos dois anos, a área de semicondutores, e é hoje o eixo central da parceria bilateral. 

Além de Luciana Santos, integram a comitiva presidencial o ministro das das Relações Exteriores, Mauro Vieira; o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira; e o Ministro da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro.  

*Com informações do MCTI

Físico incentiva ações de popularização da ciência na região amazônica

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Crispino no Museu Interativo da Física, que integra o Centro Interativo de Ciência e Tecnologia da Amazônia. Foto: Irene Almeida

O físico paraense Luís Carlos Bassalo Crispino, de 54 anos, foi o vencedor do 45º Prêmio José Reis de Divulgação Científica e Tecnológica, concedido neste ano na categoria pesquisador e escritor pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Duas décadas atrás, ele criou com colaboradores o Laboratório de Demonstrações do então Departamento de Física da Universidade Federal do Pará (UFPA), para receber alunos da graduação e de escolas da região, e um projeto que leva palestras sobre física para essas instituições.

As iniciativas foram o embrião do Centro Interativo de Ciência e Tecnologia da Amazônia, cuja nova sede foi aberta à visitação pública em 2022, no campus da universidade, e que recebe alunos de escolas públicas e privadas – os jovens participam de experimentos e observações astronômicas, entre outras ações de divulgação científica.

Crispino é coordenador do Programa de Pós-graduação em física da UFPA, pioneiro na região amazônica, e lidera o grupo de pesquisa Gravity at Amazonia (Gravazon), dedicado principalmente ao estudo de buracos negros.

Ele falou sobre suas atividades e a importância da divulgação científica voltada para o público escolar em uma conversa por videochamada com Pesquisa FAPESP.

Entre as atividades de divulgação científica que realiza, qual teve mais influência na conquista do prêmio, na sua avaliação?

Acredito que o reconhecimento veio pelo conjunto da obra. São mais de duas décadas com trabalhos voltados para a divulgação da ciência. Começamos em 2004, com o Laboratório de Demonstrações, inspirado em um modelo que conheci quando fiz a graduação na USP. A princípio, recebíamos o público da própria universidade, os alunos dos cursos de graduação, mas depois ampliamos para alunos de escolas públicas e particulares, tudo de maneira gratuita.

Tem também o projeto Física e Tecnologia para a Escola, que leva cientistas, professores e estudantes universitários para realizar palestras em escolas. Dentro dele, criamos as Palestras Vocacionais, com foco em orientação de estudantes, e mais adiante o projeto Meninas na Ciência. Este último, inclusive, surgiu da vivência pessoal com minha esposa, Ângela Burlamaqui Klautau, que também é física, área na qual as mulheres ainda não têm tanto espaço nem o devido reconhecimento. Esses projetos somados culminaram na criação do Centro Interativo de Ciência e Tecnologia da Amazônia.

Qual o tamanho do público que o centro atende?

Podemos receber grupos de até 200 pessoas por dia, às segundas, quartas, quintas e sextas. Às terças realizamos seminários internos para capacitação da equipe. E aos sábados oferecemos treinamento para alunos que querem participar das olimpíadas brasileiras de Astronomia e Astronáutica, e de Foguetes. Começamos tudo em uma salinha e desde 2022 funcionamos em um prédio de dois andares, com mais de 10 salas, incluindo biblioteca e sala de reparos.

Criamos também o Museu Interativo da Física, onde as pessoas entram e manipulam os equipamentos, sempre com supervisão, tanto para garantir a segurança quanto para preservar os materiais. Por ele tenho um xodó. As peças foram construídas sob encomenda, graças a uma verba que conseguimos em 2008. Os primeiros equipamentos foram adquiridos do Aníbal Fonseca, um construtor paraense de equipamentos didáticos que hoje tem uma empresa em São Paulo chamada Ciência Prima, antigamente chamada Ateliê de Brinquedos. Conheci o Aníbal quando eu fazia graduação na USP.

Encomendei vários experimentos, alguns prontos, outros personalizados, como uma réplica da primeira pilha e da lâmpada de Edison [Thomas Edison (1847-1931)], que acende quando se gira uma manivela ligada a um dínamo, além de dispositivos que simulam o funcionamento de um telégrafo e de um telefone. O museu foi pensado para ser um ambiente bem-acabado, com uma experiência sensorial e educativa mais rica.

Vocês já levaram atividades para comunidades ribeirinhas e indígenas. Como foram as experiências?

Sim. Um exemplo marcante foi o eclipse anular do Sol que ocorreu em outubro de 2023, um fenômeno raro, que dessa vez pôde ser observado na Amazônia. O próximo só vai ser visto por aqui em 100 anos. Na época, eu estava em Portugal, mas organizei tudo a distância com a Secretaria Municipal de São Félix do Xingu, onde o fenômeno poderia ser visto de maneira completa. A atividade principal aconteceu na cidade, com vários telescópios para observação do eclipse, mas pedi que também levássemos equipamentos para uma aldeia indígena.

O vídeo do evento ficou emocionante, com trilha sonora feita com música indígena. Essa ação faz parte de um projeto de mostras itinerantes de astronomia e ciências espaciais, com a meta inicial de 20 cidades, já atingida. Continuo prorrogando, enquanto há recursos. Também já colocamos equipamentos num barco e levamos até uma comunidade ribeirinha. Fizemos só uma vez, porque é muito caro. Mas levamos os experimentos, paramos com o barco, e os alunos da comunidade entraram e interagiram com tudo. A ideia é, um dia, termos um barco próprio que possa navegar entre as dezenas de ilhas de Belém, parar em cada uma delas e oferecer essa experiência. Esse é o sonho.

Falando de sua trajetória acadêmica, o senhor começou a graduação em física e engenharia na UFPA em 1987, mas transferiu o curso de física para a Universidade de São Paulo, na capital paulista. Por quê?

Na época, a UFPA vivia outro momento. Não havia massa crítica suficiente, nem em termos de docentes, nem de estrutura acadêmica. Sempre estudei muito por conta própria, mas sentia que, se tivesse acesso a uma formação mais bem estruturada, poderia me desenvolver melhor. Meu pai me ajudava, apesar de eu ter tido bolsa de estudos. Fui, inclusive, bolsista de iniciação científica da FAPESP.

Na USP, tive acesso não só às disciplinas experimentais mais elaboradas, como também conheci o Laboratório de Demonstrações do Instituto de Física, que foi rebatizado de Ernst Wolfgang Hamburger [1933-2018], idealizador do projeto nos anos 1970. O espaço tinha e ainda tem aparelhos para fazer experimentos de magnetismo, óptica, mecânica, eletricidade, acústica e termodinâmica, que podem ser levados por professores para a sala de aula ou usados pelos próprios estudantes. Eu comecei a frequentar esse espaço por curiosidade e me encantei. Esse laboratório da USP serviu de inspiração para o laboratório que criamos aqui em Belém.

O senhor também ajudou a implementar, na UFPA, o primeiro programa de doutorado em física da região amazônica. Que obstáculos teve de superar?

O mestrado em física da instituição, criado em 1986 como o primeiro da Amazônia, enfrentou dificuldades iniciais pela escassez de docentes com doutorado e só teve a primeira dissertação concluída 10 anos depois. Após cobranças da Capes [Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior] nos anos 1990, ajudei a reestruturar o programa em 2003.

Qualificamos o corpo docente, ampliamos a produção científica e reduzimos o tempo gasto na preparação de dissertações, o que permitiu a criação do doutorado sete anos depois. Um fator decisivo foi a internacionalização, já que a física compete em nível global. Hoje, o grupo Gravazon, que coordeno, tem reconhecimento internacional e forma alunos da graduação ao doutorado, a maioria da própria região, com excelência.

Vivemos um momento de descrédito da ciência e isso está relacionado ao fato de que durante muito tempo houve uma falta de esforço em demonstrar à população, de forma acessível, o conhecimento produzido nas universidades.

Foto: Divulgação/UFPA

Quando se interessou pela divulgação científica?

Trabalho oficialmente há mais de 20 anos com divulgação científica, mas o interesse começou bem antes. Eu ainda não tinha 18 anos e dava aulas particulares, o que também me ajudava financeiramente – criei um cursinho informal em casa. Nas aulas particulares, eu sempre procurava usar objetos do cotidiano para ilustrar os conceitos, como um pente para mostrar a eletricidade estática ou uma bolinha para falar de mecânica.

Queria que o aluno visse que a ciência, especialmente a física, se revela em experimentos simples. Apesar do foco de pesquisa em física teórica, especialmente gravitação, cosmologia e relatividade, nunca deixei de lado a divulgação científica.

Em uma entrevista, o senhor comentou que já enfrentou resistência ao trabalhar com divulgação científica. De que tipo?

Infelizmente, existe uma desvalorização histórica dessas atividades de popularização da ciência. Já ouvi críticas como: “Você é pago para dar aula na universidade, não em escolas”. Há quem veja a divulgação como perda de tempo, como se não fosse uma parte legítima da nossa atuação. A maior dificuldade nesse trabalho talvez seja convencer as pessoas de que ela é importante, necessária e transformadora.

Como vê o papel da divulgação científica hoje?

Vivemos um momento de ataque às universidades, de negacionismo e de descrédito da ciência em parcela significativa da população e acredito que isso está também relacionado ao comportamento de alguns cientistas e membros da comunidade acadêmica. Durante muito tempo, houve um certo afastamento da sociedade, uma falta de esforço suficiente em demonstrar à população, de forma acessível, o conhecimento produzido nas universidades. Faltaram mais palestras, eventos públicos, espaços em que fosse possível mostrar à sociedade o que se faz dentro da academia. Isso é fundamental. Hoje há sinais de retomada, mas é necessário muito mais empenho para reduzir essa distância e intensificar a relação de confiança entre a população e as instituições acadêmicas.

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Nos últimos anos surgiram diversas iniciativas que buscam divulgar a ciência nas plataformas digitais. Qual é a importância delas?

Não tenho perfis pessoais em redes sociais, mas todas as nossas iniciativas têm página na internet, Instagram, Facebook, canal no YouTube. Acredito na importância de focar no essencial: no conceito, no experimento, na ciência em si. Nos nossos vídeos no YouTube, geralmente ligados a experimentos, quem aparece é o experimento, não a pessoa.

Mas também acredito muito na experiência presencial. Quando você vê um vídeo, como saber se aquilo realmente aconteceu ou se é uma montagem? Se a pessoa está ali, presencialmente, ela aciona, gera a faísca, acende a lâmpada girando a manivela – e vivencia a ciência. Existe aquela máxima: “Se você me conta, eu esqueço. Se você me ensina, eu lembro. Se você me envolve, eu aprendo”. Eu acredito profundamente nisso. O aprendizado está ligado à vivência.

Físico luis crispino ufpa
O físico paraense Luís Carlos Bassalo Crispino. Foto: Divulgação/UFPA

Para isso, as escolas precisam ter laboratórios, e eles nem sempre estão disponíveis…

Não sei se a escola que eu frequentava tinha laboratório, mas certamente não fui a ele nas aulas. Isso acontece porque uma aula de laboratório exige muito. O professor precisa preparar o espaço antes, dar a prática e depois arrumar tudo de novo, já que cada turma pode realizar experimentos diferentes. Vejo a escola como peça-chave na divulgação científica. Mesmo em regiões sem internet, se o professor conseguir apresentar a ciência de forma adequada, podemos avançar significativamente. Se o professor leva experimentos para a sala de aula, o aluno participa mais ativamente do próprio aprendizado.

Como concilia os papéis de gestor e de pesquisador com o de divulgador científico?

A resposta simples é: dormindo pouco. Tenho uma filha de 27 anos e um filho de 10 anos. Minha filha tem uma síndrome raríssima e recebeu um prognóstico de vida vegetativa, mas ela completou toda a educação básica e superior com apoio, inclusão e muito esforço. Isso exigiu uma dedicação imensa de toda a nossa família. Ter uma rede de apoio sólida em Belém foi uma das razões pelas quais decidimos voltar e ficar aqui. O outro motivo é que eu realmente me sinto bem aqui e tenho muito orgulho da nossa região. Já fui questionado se deveríamos ter um bom curso de física na Amazônia, que teria mais vocação para a biologia, geologia, meio ambiente, antropologia.

E o que respondeu?

Há quem ache que o país deveria concentrar seus centros de excelência em alguns locais. Mas o Brasil é um país continental. Lutamos constantemente contra visões da ciência que excluem regiões periféricas e precisamos garantir que filhos desse lugar não tenham que sair daqui para ter acesso às mesmas oportunidades que outros jovens têm em centros mais desenvolvidos do país. Meu pai pôde me apoiar, mas e os pais que não têm condições?

E os filhos que não querem ou não podem sair? Se quisermos preservar a Amazônia, precisamos dar às pessoas que vivem aqui condições dignas de vida. Hoje podemos dizer que jovens que queiram produzir ciência de ponta, especialmente em física, não precisam mais necessariamente sair da Amazônia se não quiserem. Claro que é importante sair em algum momento.

Todos os meus orientandos de doutorado aqui na UFPA fizeram parte de suas pesquisas fora do país, principalmente na Europa, por meio do doutorado sanduíche. Isso ajuda na formação e na ampliação de horizontes. A vivência em centros maiores, como eu tive na USP, também é fundamental. Me permitiu voltar para a Amazônia com vontade e capacitação para construir algo a mais aqui.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Revista Pesquisa Fapesp, escrito por Sarah Schmidt

Como ser um compositor de toada dos bois-bumbás de Parintins?

Ericky Nakanome, presidente do Conselho de Artes do Caprichoso, e Enéas Dias, compositor do Garantido. Montagem: Reprodução/Redes Sociais

O Festival Folclórico de Parintins é o ápice da maior manifestação cultural à céu aberto do mundo, protagonizada pela rivalidade entre os bois Caprichoso e Garantido dentro do Bumbódromo, arena na cidade amazonense que recebe anualmente a disputa. O confronto entre os bois-bumbás envolve vários itens que são avaliados pelos jurados e um deles é a toada, o elemento musical central das apresentações de cada bumbá.

Num ritmo musical que mistura sons indígenas e outras sonoridades, as toadas são canções que descrevem as características históricas, geográficas e socioculturais dos bois e dão forma ao “dois pra lá e dois pra cá”, que são as tradicionais coreografias. Mas você sabe como faz para ser um compositor de toada?

Leia Mais: Você sabe qual a origem do Festival Folclórico de Parintins?

Edital de toadas

Entre os dias 20 e 24 de outubro, os bois Caprichoso e Garantido lançaram editais de seleção das toadas que irão compor os álbuns das agremiações para o festival de 2026. Com direito à premiação em dinheiro, as seletivas são voltadas para compositores maiores de 18 anos ligados aos respectivos bois, e visam a escolha de toadas livres ou genéricas, consideradas aquelas que enfatizam a galera.

No lado do Caprichoso, a seletiva está com inscrições abertas até 15 de dezembro de 2025 e podem ser feitas através do e-mail caprichososelecaotoadas2026@gmail.com. Não há limites para toadas inscritas e o edital pode ser conferido neste link.

Já do lado Garantido, o prazo de inscrições abertas vai até 20 de novembro deste ano, por meio do endereço eletrônico secretaria@garantido.com.br. A agremiação estabeleceu o limite máximo de três toadas por autor e a proibição do uso de inteligência artificial no processo de criação musical. Mais informações podem ser conferidas aqui.

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O Portal Amazônia conversou com Ericky Nakanome, presidente do Conselho de Artes do Caprichoso, e Enéas Dias, compositor do Garantido, para explicar como funciona o processo de criação deste gênero musical e o que precisa para fazer uma toada de sucesso explodir dentro da Arena.

Estudo do tema

O lançamento dos temas marca o início do processo de criação artística dos bois para o festival. Nesta semana, Caprichoso e Garantido anunciaram os temas para a 59º edição da festa tupinambarana: atual campeão, o Boi da Baixa escolheu “Parintins: Portal de Encantamento”, enquanto que Touro Negro terá como lema “Caprichoso: Brinquedo que Canta seu Chão”.

Para Enéas, compositor do Garantido, a definição dos temas é fundamental para que o compositor entenda o contexto artístico do boi na temporada para criação de uma toada.

“A primeira dica que eu dou é entender o momento que o boi vive e quais as concepções artísticas que você pode oferecer naquele momento. Às vezes, o boi tende a uma determinada apresentação, então eu costumo primeiro estudar o espetáculo para depois apresentar uma proposta, dentro daquilo que o Garantido propõe e pensa também”, pontuou Dias, compositor do Boi vermelho e branco há mais de 20 anos.

Além de compositor, Enéas Dias é membro da Comissão de Artes do boi Garantido. Foto: Reprodução/Instagram-Enéas Dias

Sentimento

A paixão do torcedor de boi é o principal “requisito” para quem pretende ser um compositor de uma toada, segundo Ericky Nakanome. O diretor do Caprichoso afirma que o sentimento é um fator crucial para o sucesso do item musical.

“Toada é sentimento. Ela precisa ter força, tocar a alma, ser um hino que os torcedores possam alcançar seus sentimentos por meio daquela letra que sai de boca do levantador de toadas e explode no Bumbódromo. Por mais que a gente busque avaliar a técnica de uma toada, o que define é a paixão do torcedor, de sentir a energia, que aquela toada vai dar gás para brincar de boi e que vai flamejar dentro do peito”, pondera Nakanome, que é presidente do Conselho de Artes do boi Caprichoso desde 2016.

Presidente do Conselho de Artes do boi Caprichoso, Ericky Nakanome ocupa o cargo desde 2016. Foto: Reprodução/Instagram-Ericky Nakanome

Identidade

Outra dica importante para quem quer compor uma toada é a particularidade. Segundo Enéas, o compositor precisa apresentar sua identidade na toada, ou seja, “deixar o seu DNA” na produção do item musical.

“Você precisa deixar na toada o seu DNA, a sua forma de compor, a sua identidade, para que quando toque a sua toada, seja diferente das outras. Tem que ter uma característica sua na toada, isso é de muita valia para que chame a atenção que tem algo diferente dos outros. Isso sem falar numa boa produção, muito importante também a construção melódica, harmônica e poética que caracterize boi”, pontua Enéas, que compôs sua primeira toada em 2005, intitulada “Curumim da Baixa” e desde então é presença constante nas produções audiovisuais do Garantido.

Ericky também reforça que a importância da singularidade do compositor é fundamental durante o processo de escolha das toadas.

“A composição de uma toada é livre, solta, ela tem um rumo, mas não existe uma receita de se fazer toada. A gente escolhe as boas toadas e elas se encontram na singularidade de cada compositor, no seu estilo, na sua maneira de organizar a métrica, a letra, a musicalidade”, frisou Nakanome, que também contribuiu em composições de toadas marcantes como “É Tempo de Retomada”, deste ano.

Leia também: Mentes que compõem Parintins: a identidade por trás das toadas do Festival

Ser compositor de toada é…

Ericky Nakanome, presidente do Conselho de Artes do Boi Caprichoso:

Enéas Dias, compositor do Boi Garantido:

Festival Folclórico de Parintins é protagonizado pelos bois Caprichoso e Garantido. Foto: Reprodução/Portal da Cultura AM

*Por Dayson Valente, para o Portal Amazônia

Iphan abre consulta pública sobre registro do Ofício de Tacacazeira

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Foto: Janailton Falcão

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) abriu, no dia 20 de outubro, consulta pública para que a sociedade possa se manifestar sobre a proposta de registro do Ofício de Tacacazeira como Patrimônio Cultural do Brasil. Até o dia 19 de novembro de 2025, qualquer pessoa pode enviar sua opinião, sugestões ou informações sobre esse tradicional saber amazônico.

[Confira o Parecer Técnico do Iphan sobre o registro do Ofício de Tacacazeira]

As manifestações podem ser enviadas por e-mail para conselho.consultivo@iphan.gov.br, por correspondência para o Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural no endereço SEPS 702/902, Centro Empresarial Brasília 50, Bloco B, Torre Iphan, 5º Andar, Brasília-DF, CEP 70390-135, ou através do Protocolo Digital do Iphan disponível no site oficial do instituto.

Leia também: Histórias e receitas de tacacazeiras da Região Norte são documentadas em produção audiovisual

Após o encerramento do prazo, todas as contribuições recebidas serão analisadas pelo Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, órgão máximo de decisão do Iphan para o reconhecimento de bens culturais brasileiros.

A consulta pública representa uma oportunidade para que a população, especialmente quem vive, pratica ou conhece de perto essa tradição, possa contribuir com informações, relatos e opiniões sobre o ofício das tacacazeiras, garantindo que o processo de reconhecimento passe pelas mãos da comunidade detentora que resiste ao tempo e continua alimentando os nortistas na região amazônica.

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Foto: Paula Cristina

Ofício de Tacacazeira

O pedido de registro do Ofício de Tacacazeiras começou em 2010, quando o Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP) solicitou a inclusão no Livro dos Saberes, como parte de um trabalho maior de documentação das celebrações e saberes relacionados à mandioca no Pará, que já havia sido incluído no Inventário Nacional de Referências Culturais (INRC) em 2006.

Em 2024, o processo ganhou novo impulso com o início da pesquisa e construção do dossiê, realizado em parceria com a Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), aproximando ainda mais o reconhecimento como Patrimônio Cultural do Brasil.

*Com informações do IPHAN

Trilha Sensorial de madeiras amazônicas: visitante pode andar descalço em nova atração do Bosque da Ciência

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Foto: Anne Karoline/Inpa

O Bosque da Ciência, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI), em Manaus (AM), apresenta seu mais novo atrativo: a Trilha Sensorial de Madeira. O visitante poderá ter uma vivência sensorial ao andar descalço na trilha sensorial feita com resíduos de árvores caídas e de madeiras para uma imersão de bem-estar focada no simples ato de caminhar descalço.

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A trilha é fruto da pesquisa de mestrado de Isabella Ono, do Programa de Pós-Graduação em Ciências de Florestas Tropicais (PPG-CFT) do Inpa, com orientação do Dr. Niro Higuchi do Laboratório de Manejo Florestal (LMF) e coorientação da Dra. Maria Inês Gasparetto Higuchi, do Laboratório de Psicologia e Educação Ambiental (LAPSEA).

O projeto investiga o uso de resíduos de madeira como um recurso de sensibilização para a restauração psicológica e o bem-estar dos caminhantes.

Sobre a Trilha

A estrutura da trilha foi construída com 19 segmentos de madeira da Amazônia, todos eles provenientes de árvores caídas e reaproveitadas da Reserva Experimental ZF2 e Bosque da Ciência, reforçando o compromisso com o uso sustentável.

Visitante usufruindo da trilha Foto Anne Karoline Ascom Inpa
Foto: Anne Karoline/Inpa

Entre elas, estão o mogno, a castanheira, o breu branco e a matamatá em troncos, ripas e discos, cavacos, pó de serragem, folhas, cascas  e madeira em decomposição (paú ou paul).

As madeiras foram dispostas de forma a criar um percurso sensorial que explora as diferentes texturas, formas, cheiros e densidades de espécies amazônicas. A idealizadora do projeto, Isabella Ono, explica que o percurso explora as propriedades multissensoriais da madeira a partir do contato com os pés descalços.

Nesse caminhar atento e introspectivo, o visitante poderá sentir os benefícios de bem-estar físico e psicológico próprios do contato com a natureza.

Leia também: 5 bosques para se aproximar da natureza na região amazônica

Benefícios

Vários estudos científicos comprovam que, ao se caminhar descalço, há uma troca de elétrons com a terra, ajudando a descarregar a carga elétrica acumulada pelo corpo e promovendo sentimentos de restauração psicológica. Outros sentidos também serão ativados e proporcionarão sensações restauradoras da atenção e do estresse. 

A pesquisadora do Inpa e coordenadora do Lapsea, Dra. Maria Inês Gasparetto Higuchi ressalta a importância psicosocial da trilha para a (re)conexão com a natureza. Ela afirma que, na vida turbulenta e estressante da vida urbana, as pessoas estão vivendo um “transtorno do déficit de natureza”, que acaba por trazer sérios problemas físicos e mentais às pessoas.  Nesse sentido, a trilha sensorial do caminhar descalço pode ser uma estratégia a ser utilizada em parques verdes urbanos e em escolas para reverter esse adoecimento. 

“A trilha serve como um momento terapêutico natural que proporciona calmaria e experiências inovadoras, principalmente para as crianças e os adolescentes, pois vemos que estes têm cada vez menos contato com a natureza”, explica a coordenadora.

Sobre a visita

A Trilha Sensorial de Madeira está localizada ao lado da Casa da Ciência e está aberta a todos os públicos, sendo crianças, jovens, adultos ou idosos. Ela acompanha o horário de funcionamento do Bosque da Ciência que vai de terça a domingo, das 9h às 16h30. A entrada para a trilha é livre, sendo necessário apenas o agendamento de visita para o Bosque.

*Com informações do INPA

Biólogo explica o que fazer em caso de ferroada de arraia em rios na Amazônia

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Ferroada de arraia causa dor intensa e dolorosa em humanos. Foto: Reprodução/Governo do Tocantins

Imagina você curtindo uma praia e ter seu momento de lazer interrompido por uma picada, seguida de uma dor tão intensa capaz de causar desmaios. Bom, melhor não imaginar, né? Mas esse é o cenário provocado por uma ferroada de arraia, um tipo de peixe que vive em orlas brasileiras e rios da região amazônica.

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Essas espécies, apesar de serem normalmente inofensivas, utilizam um ferrão venenoso para se proteger de ataques ou quando são pisadas sem querer por humanos, o que geralmente acontece, causando ferimentos graves e dolorosos. Mas o que se fazer em caso de uma ferroada de arraia?

arraia
As arraias de água doce, da família Potamotrygonidae, são peixes cartilaginosos e que só existem na América do Sul. Foto: Reprodução/Ministério da Saúde

O Portal Amazônia conversou com Lucas Castanhola Dias, biólogo do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e especialista em morfologia, fisiologia e toxinologia de arraias de água doce, para entender como proceder após este tipo de lesão.

Fui ferroado pela arraia. E agora?

Lucas explica que o primeiro passo é retirar a vítima da água e lavar a ferida o mais rápido possível, de preferência com água morna. Segundo o biólogo, a medida ajuda no alívio da dor, que é imediata e extremamente intensa após a ferroada.

“O primeiro passo é manter a calma e retirar a vítima da água. Em seguida, deve-se lavar a ferida com água limpa para retirar resíduos de areia ou fragmentos do ferrão. Um dos cuidados mais eficazes para alívio da dor é a imersão da região afetada em água quente, pois o calor ajuda a inativar parte das toxinas do ferrão”, conta Dias, reforçando que a temperatura da água não pode ser tão quente, para não causar queimaduras.

Leia também: Arraias podem entrar em parto prematuro por estresse, explica biólogo

A ferroada de arraia acontece geralmente quando os humanos pisam sem querer no animal, que se defendem com o ferrão. Foto: Reprodução

Após essa etapa, o paciente deve procurar uma unidade de saúde para um atendimento mais adequado tanto para ferida, quanto para o tratamento dos sintomas, que podem indicar a gravidade da lesão.

“O paciente precisa ser levado o quanto antes a uma unidade de saúde, onde será feita a limpeza adequada da ferida, avaliação da necessidade de antibióticos e a retirada de fragmentos que podem permanecer alojados. Além da dor, ocorre inchaço, sangramento, vermelhidão e, em alguns casos, necrose ao redor da lesão. Sintomas sistêmicos, como náusea, vômito e dificuldade de respiração, também podem acontecer e indicam gravidade”, pontuou Castanhola.

Leia também: Conheça as arraias de água doce: peixes cartilaginosos e que possuem grande diversidade de espécies na região amazônica

Porque dói tanto?

Descrita por muitos como insuportável, a dor causada pela ferroada de arraia, de acordo com Lucas, é causada por uma série de fatores que vão desde questões físicas do ferrão até uma combinação de ações químicas.

“O ferrão possui bordas serrilhadas que causam um trauma profundo e irregular nos tecidos, enquanto o epitélio que recobre o ferrão libera toxinas que diminuem nosso limiar de dor e desencadeiam processos inflamatórios. Essa associação de trauma físico e ação química é o que torna a ferroada tão dolorosa”, salienta Dias.

Ferroada de arraia causa morte?

De acordo com o biólogo, a ferroada de arraia só causa a morte em casos raros e de muita gravidade.

“Isso só acontece quando o ferrão atinge regiões vitais, como tórax ou abdômen, perfurando órgãos internos ou grandes vasos sanguíneos. Outro risco importante são as infecções graves que podem evoluir para septicemia, especialmente quando não há atendimento adequado e rápido”, explica Lucas.

Casos na Amazônia

Lucas revelou que, nos últimos cinco anos, os casos de ferroada de arraia na região amazônica ultrapassaram a marca de 800 registros, segundo os dados da Fundação De Vigilância em Saúde do Amazonas – Drª Rosemary Costa Pinto (FVS-RCP): “Foram registrados 833 casos, de 2019 a 2024, segundo dados da FVS. Na região amazônica, os casos são relativamente frequentes, especialmente entre ribeirinhos, pescadores e banhistas de rios. Estudos epidemiológicos realizados em estados como Pará e Amazonas apontam que as arraias estão entre os principais animais aquáticos causadores de acidentes”.

Leia Mais: Ataques de arraias podem ser mais recorrentes durante a seca no Amazonas, alerta FVS-RCP; veja orientações

Para o biólogo, os números apontam um possível problema de saúde pública local. “Como muitas ocorrências não chegam a ser notificadas oficialmente, sabemos que há uma subnotificação. Mas os registros disponíveis confirmam que se trata de um problema de saúde pública local”, conclui Lucas, que atualmente coordena projetos de pesquisa que buscam compreender a estrutura e o funcionamento do aparelho de veneno das arraias, bem como os efeitos clínicos e toxicológicos das ferroadas em seres humanos.

*Por Dayson Valente, para o Portal Amazônia

Mato Grosso lidera ranking nacional de violência no campo em 2024, aponta Caderno de Conflitos

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Caderno de Conflitos no Campo Brasil 2024, publicado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), revela um cenário de agravamento extremo da violência no campo em todo o país, com destaque preocupante para o estado de Mato Grosso, que figura entre os mais violentos do Brasil em praticamente todas as tipificações de conflitos.

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Os dados

De acordo com os dados, Mato Grosso registrou aumento de 137,25% no número de ocorrências de conflitos e 518,27% no número de pessoas envolvidas, em comparação com o ano anterior. O relatório aponta que a violência no campo cresceu em todas as regiões do estado, com destaque para o Nordeste (40%) e Norte (34,5%), além das regiões Sudeste e Sudoeste, que apresentaram aumento de 150% em relação a 2023.

Foto: Daiane Mendona

Os principais agentes de violência foram fazendeiros, empresários, garimpeiros e grileiros, com crescimento expressivo na responsabilidade por conflitos: fazendeiros (60%), empresários (180%) e grileiros (150%).

Já as principais vítimas continuam sendo indígenas, assentados, sem-terra, quilombolas e posseiros, grupos que também sofreram aumento de violência: indígenas (200%), assentados (166,6%), sem-terra (83%), quilombolas (50%) e posseiros (20%).

Entre os dados mais alarmantes estão o aumento de 3.004,6% nos incêndios em áreas de conflito e de 661,1% na destruição de pertences. Mato Grosso foi o estado mais afetado do país pelos incêndios, concentrando 25% de todos os casos registrados no território nacional.

Foto: Mario Vilela/Funai

Além disso, o estado também apresentou aumento de 229,4% no desmatamento ilegal, 223,7% em ameaças de despejo e 200,3% em invasões.

A violência contra povos e comunidades tradicionais cresceu de forma desproporcional:

·       Contra quilombolas: +1.717,4%

·       Contra posseiros: +854%

·       Contra indígenas: +357,7%

·       Contra assentados: +69%

·       Contra sem-terra: +48,7%

Os conflitos pela água também se intensificaram, com aumento de 87,5% nas ocorrências e 723,9% nas famílias envolvidas. O relatório ainda aponta 250 famílias intoxicadas por agrotóxicos em conflitos pela terra, o 6º maior número do país, e um aumento geral de 108,3% nas contaminações.

Foto: Divulgacão/Ministerio da Defesa

De acordo com a CPT, 63% dos incêndios registrados no país ocorreram na Amazônia Legal, com Mato Grosso no topo do ranking. O estado ficou em 1º lugar na maioria das tipificações de violência nos conflitos por terra da região Centro-Oeste.

Além da violência física e material, o relatório também evidencia o avanço da violência institucional e criminalização dos defensores e defensoras de direitos humanos. Um dos episódios mais graves ocorreu em maio de 2024, quando trabalhadores rurais, um padre da CPT e uma defensora pública foram presos de forma arbitrária durante uma ação policial no município de Novo Mundo (Mato Grosso).

O caso, amplamente denunciado por entidades nacionais e internacionais, simboliza o uso do aparato estatal para intimidar e punir quem atua em defesa dos pobres e na luta pela terra, revelando a face mais cruel da violência do Estado no campo e da política fascista de Mauro Mendes.

Mato Grosso
Colniza, Mato Grosso. Toras de madeira em pátio de serraria próximas ao município de Colniza, noroeste do Mato Grosso. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O Caderno de Conflitos no Campo

O Caderno de Conflitos no Campo é uma das principais publicações da Comissão Pastoral da Terra (CPT), que em 2025 celebra 50 anos de atuação ao lado das comunidades camponesas, indígenas, quilombolas e sem-terra na defesa dos direitos humanos e da justiça social.

Os dados são sistematizados pelo Centro de Documentação Dom Tomás Balduíno (CEDOC/CPT), referência nacional desde 1985 na produção de informações sobre os conflitos no campo brasileiro. A publicação é reconhecida como fonte essencial para pesquisadores, movimentos sociais, órgãos públicos e organismos de direitos humanos no Brasil e no exterior.

Serviço:

Contato: Cristiano CPT (65) 99673-4357 e Inácio Werner FDHT (65) 99664-2331

*Com informação do Fórum de Direitos Humanos e da Terra (FDHT) e Comissão Pastoral da Terra (CPT-MT)