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Amazonas é o estado menos seguro do país para dirigir, aponta estudo nacional

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Trânsito com complicações após incêndio em fiação de poste em Manaus. Foto: William Duarte/Rede Amazônica AM

Amazonas foi apontado como o estado menos seguro do Brasil para dirigir, segundo um estudo divulgado nesta semana pelo Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV). A pesquisa avaliou os 26 estados e o Distrito Federal com base em um indicador de segurança viária.

Já o Distrito Federal aparece como o lugar mais seguro para motoristas. O desempenho da capital federal ficou muito acima dos estados da Região Norte, que registraram os piores resultados.

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O índice é calculado a partir dos sete pilares do Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito (Pnatrans). A partir dessa avaliação, é feita uma média que organiza os estados em um ranking, do mais seguro ao menos seguro para dirigir.

O levantamento, chamado Indicadores Rodoviários Integrados de Segurança (IRIS), analisou fatores como qualidade das vias, educação no trânsito, fiscalização, atendimento às vítimas, promoção da saúde e normatização. O Amazonas ficou entre os piores índices em todos esses critérios.

Além dele, outros estados do Norte também aparecem nas últimas posições do ranking, como Pará, Roraima e Amapá.

Ranking de segurança viária no Brasil:

  1. Distrito Federal – 4,00
  2. Rio Grande do Sul – 3,86
  3. Goiás – 3,71
  4. Paraná – 3,71
  5. Rio de Janeiro – 3,71
  6. São Paulo – 3,57
  7. Ceará – 3,29
  8. Mato Grosso do Sul – 3,29
  9. Rondônia – 3,29
  10. Espírito Santo – 3,14
  11. Mato Grosso – 3,14
  12. Pernambuco – 3,14
  13. Paraíba – 3,00
  14. Rio Grande do Norte – 3,00
  15. Santa Catarina – 3,00
  16. Sergipe – 3,00
  17. Tocantins – 3,00
  18. Minas Gerais – 2,86
  19. Bahia – 2,71
  20. Acre – 2,57
  21. Alagoas – 2,57
  22. Piauí – 2,57
  23. Amapá – 2,29
  24. Maranhão – 2,29
  25. Roraima – 2,29
  26. Pará – 2,14
  27. Amazonas – 1,86

Leia também: Livro-reportagem revela bastidores do maior acidente de trânsito da história de Manaus

Agentes de trânsito na Avenida Álvaro Maia, Zona Sul de Manaus, no Amazonas
Foto: Divulgação/IMMU

Metodologia do IRIS

O projeto IRIS avaliou os estados e o DF com base em sete pilares do Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito (Pnatrans):

  • Gestão da Segurança no Trânsito;
  • Vias Seguras;
  • Segurança Veicular;
  • Educação para o Trânsito;
  • Vigilância, Promoção da Saúde e Atendimento às Vítimas;
  • Normatização e Fiscalização;
  • Indicadores de Mortalidade.

Destaques por pilar: veja como o Amazonas se saiu em cada aspecto avaliado pelo estudo

Gestão da Segurança no Trânsito

Avalia governança viária, integração ao Sistema Nacional de Trânsito (SNT), qualidade dos dados do RENAEST (Registro Nacional de Sinistros e Estatísticas de Trânsito) e transparência dos Detrans.

  • Melhores: DF (10), SP (8,1), MS (7,7), RJ (7,7), MT (7,4);
  • Piores: BA (1,7), TO (1,6), RN (1,6), RR (1,1), PI (0,6), PA (0,4), AP (0).

Vias Seguras

Analisa pavimento, sinalização e extensão de rodovias em condições ruins.

  • Melhores: SP (10), DF (8,5), MS (8,1), AL (8,0);
  • Piores: MG (4,9), PA (4,4), MA (4,1), AP (3,9), AM (0,6), AC (0).

Segurança Veicular

Considera itens como airbags, freios ABS e ISOFIX, além da renovação da frota.

  • Melhores: PA (10), MA (9,7), TO (8,8), RR (8,7), MT (8,7), AC (8,0);
  • Piores: SC (3,2), PR (1,2), DF (1,2), RS (0,4), SP (0,1), RJ (0).

Educação para o Trânsito

Avalia comportamento dos condutores e efetividade da fiscalização.

  • Melhores: RS (10), TO (9,1), SC (9,1), ES (9,1), MG (8,5), SE (8,2);
  • Piores: PA (5,7), MT (5,6), PB (5,4), PI (3,3), RR (0,9), AM (0).

Vigilância, Promoção da Saúde e Atendimento às Vítimas

Considera número de profissionais de saúde, leitos per capita e estrutura hospitalar.

  • Melhores: RO (10), RS (9,0), GO (8,5), PI (8,1), PB (8,0), PE (7,8)
  • Piores: SP (4,0), AC (3,4), AP (2,7), PA (2,2), AM (1,1), SE (0)

Normatização e Fiscalização

Avalia cobertura tecnológica, eficiência na aplicação da lei e registro de infrações.

  • Melhores: DF (10), GO (4,5), CE (3,4), RJ (3,4), TO (2,7), PB (2,5);
  • Piores: AL (0,8), MA (0,6), RR (0,5), RO (0,3), AM (0), AC (0).

Indicadores de Mortalidade

Mede taxas de óbitos por veículos, habitantes e quilômetros rodados.

  • Melhores: SP (10), DF (10), RS (8,6), AP (8,5), RJ (8,5), AC (8,3);
  • Piores: PB (3,7), MT (3,7), MA (2,9), AL (2,4), TO (2,0), PI (0).

Desigualdades regionais

O painel revela contrastes claros: enquanto o DF, estados do Sul e parte do Centro-Oeste concentram os melhores indicadores, os estados do Norte dominam a faixa inferior do ranking.

Para os especialistas do ONSV, esse desequilíbrio expõe fragilidades históricas em infraestrutura, fiscalização e atendimento às vítimas nessas regiões.

“O objetivo é transformar os dados apresentados pelas unidades da Federação em informações mínimas para uma melhor gestão do trânsito nas respectivas áreas de atuação”, afirma o Observatório.

Em nota, o Departamento Estadual de Trânsito do Amazonas (Detran-AM) informou que os dados usados no estudo não refletem a realidade do Amazonas porque foram baseados em números de 2022, devido a uma falha no abastecimento da ferramenta Pnatrans. O órgão afirmou que já trabalha na atualização das informações.

Segundo o Detran, as fiscalizações no Amazonas resultaram em aumento de autuações: de 71.139 em 2023 para 95.069 em 2024. Em 2025, até setembro, já foram registradas 94.001 infrações, com expectativa de crescimento de quase 32% em relação ao ano anterior.

Joias da resistência: mais que uma pesquisa científica, um clamor pela existência

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À esquerda, biojoias feitas com cerâmica marajoara pela artesã Thifany de Soure (PA); ao centro, fibra tururi extraída da palmeira ubuçu já tingida e pronta para fabricação de biojoias; à direta, colar de biojoias feito com sementes jarina e açaí pelas artesãs da AERAJ – Associação Educativa Rural e Artesanal da Vida de Joanes, Salvaterra, (PA). Fotos: Laize Almeida de Oliveira

*Por Conexões Amazônicas – contato@conexoesamazonicas.org

O fazer artesanal sempre foi uma curiosidade para mim. Sempre olhei com admiração para as peças únicas, tecidas de histórias, de ancestralidade, de lágrimas e de alegrias. Como uma boa paraense que sou, me joguei em um mundo que, para muitos, é desconhecido, desvalorizado e frequentemente estigmatizado.

Sou uma pesquisadora paraense que precisou buscar formação em outro estado, já que não havia doutorado na minha área — de Administração — em universidades públicas do Pará. Ainda assim, sempre carreguei comigo minhas raízes, o orgulho do chão que sempre pisei. Por isso, decidi fazer minha pesquisa sobre o trabalho institucional com artesãs de biojoias na nossa Amazônia paraense.

Assim, embarquei em uma grande aventura, tecida de curiosidade, descobertas e acolhimento. Minha primeira parada foi uma visita exploratória em busca de artesãs de biojoias na Ilha do Marajó. Visitei as cidades de Soure, Salvaterra e Muaná. Mergulhei em uma imersão, em uma vivência profunda, e pude observar um campo vasto e produtivo, mas também marginalizado — com pouca visibilidade institucional, fragilidade normativa e estigmatização territorial.

Fui em busca de respostas e encontrei histórias, vidas e uma riqueza traduzida em adornos que refletem muito mais do que beleza.

Eles são enraizados em cultura, em um sentimento de pertencimento às próprias raízes. São resistência. Sim, muitas histórias resistem. São a própria resistência pela sobrevivência de um fazer artesanal que insiste em continuar, que preserva o meio ambiente ao se opor ao uso de produtos tóxicos e transforma sementes, cascas e folhas em matéria-prima rica em biodiversidade.

Nesse percurso, precisei desfazer meus próprios medos para ir mais longe. Foi quando, mesmo sem saber nadar, tive que percorrer o Marajó de balsa e em barcos menores — tudo em busca de lojas de artesanato, de artesãs. Eu não queria apenas observar: eu queria viver junto esse momento.

Nem tudo são flores, aliás, aqui, são sementes. Chegar até as artesãs não foi fácil. Em muitos momentos, pensei em desistir. Por onde eu passava, perguntava se conheciam artesãs de biojoias, e as pessoas iam me indicando lugares, nomes, histórias. Bati em muitas portas que guardavam, sim, uma riqueza e uma vivência no artesanato, mas ainda não eram as artesãs de biojoias que eu buscava. E por que tanta insistência nas biojoias? Porque, para mim, isso é um propósito. Não é apenas uma escrita científica.

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À esquerda, vista da embarcação que faz o transporte de passageiros entre o porto do Camará e Belém (PA. Acima e à direita, visita à Casa do Artesão em Salvaterra (PA). Abaixo e à direita, visita à Casa do Artesanato de Soure (PA). Fotos: Laize Almeida de Oliveira

Carregava comigo não apenas meu caderno de campo, mas também um coração acelerado, ansioso pelas conversas que estavam por vir. Dormi em pousadas simples; por ali também reencontrei amigos de longa data que foram meus primeiros informantes. Partilhei com conhecidos a alegria de um almoço em família, o tradicional açaí com peixe, uma delícia de vivência.

Quando o barco percorria as longas ruas amazônicas que são os rios, uma paz atravessava meu coração. Nunca vi tanta beleza: casas escondidas na mata, uma infinitude de pés de açaí, e o nascer do sol mais lindo que já presenciei. Tive que viajar de madrugada, saindo de Soure para pegar a balsa no porto, e chegamos ao amanhecer justo a tempo de ver o sol surgir das águas calmas do rio.

Em Soure e Salvaterra, mergulhei na cultura local. Vi nas peças feitas de sementes ou cerâmica os grafismos marajoaras. Que peças lindas! E o desejo daquelas artesãs de perpetuar o aprendizado transmitido por suas avós me comoveu. Com esse ímpeto, atravessei o rio em um barco pequeno e confesso: por não saber nadar, estava apreensiva. Mas fui com minha habitual retidão, porque estava indo em busca de mais histórias, de mais artesãs de biojoias.

Decidi, então, atravessar a Ilha do Marajó e voltei a Belém, para visitar o maior polo joalheiro do nosso estado: o Espaço São José Liberto. Que lugar rico! Mas era apenas uma passagem. Meu destino era Muaná, cidade mais ao sul da ilha.

A simplicidade do povo de Muaná me encanta e, ao mesmo tempo, me entristece. Lá, vivenciei a extinção de uma associação de mulheres que produziam biojoias. Havia ali, no passado, uma fábrica de biojoias construída pelo governo do estado do Pará. A região é rica não apenas em sementes de açaí, mas também em uma biodiversidade impressionante. Essas mulheres trabalhavam principalmente com a fibra do tururi, uma palmeira que, até então, eu desconhecia.

À esquerda, palmeira ubuçu, matéria-prima usado em biojoias, encontrada nos campos marajoaras da cidade de Muaná (PA). Acima e à direita, fibra tururi extraída da palmeira ubuçu já tingida e pronta para fabricação de biojoias. Abaixo e à direita, coco da palmeira ubuçu, encontrado nos campos marajoaras da cidade de Muaná, quando em visita a campo. Fotos: Laize Almeida de Oliveira

Minha alma curiosa me levou até os campos marajoaras, atrás dessa palmeira. Depois de alguns quilômetros percorridos numa moto pequena, acompanhada de um amigo, conseguimos encontrar o fruto e a fibra. Ali, pude ver o quanto essas mulheres se esforçam para preparar a matéria-prima e transformá-la em biojoias e outros adornos.

Sem contar que a moto quebrou no meio do nada. E o pensamento que me veio foi: “uns 12 km só empurrando uma moto… tudo bem com isso?” No fim, conseguimos improvisar uma gambiarra e voltar para a cidade.

Tudo isso me atravessou as histórias, os rios, os cheiros, o barro, o açaí. Ser pesquisadora na Amazônia é um compromisso ético, afetivo e político. É escutar com o corpo inteiro, molhar-se nas travessias e encontrar sentido nos olhos de quem compartilha sua história com esperança e dor.

Acima e à esquerda, vista de embarcações no porto de Muaná (PA); acima e à direita, percurso de barco entre a cidade de Soure e Salvaterra (PA); abaixo, porto da cidade de Muaná. Fotos: Laize Almeida de Oliveira

Encontrei mais que dados: encontrei memórias tecidas por resistência. Em cada semente nas mãos das artesãs, pulsa uma economia criativa silenciada pelas instituições, mas viva. Um saber que não está nos editais, mas que transforma vidas.

Ser mulher pesquisadora aqui é também enfrentar o machismo e o colonialismo acadêmico que deslegitima nossas escolhas e territórios. Escolhi olhar para o meu chão, para minhas raízes, para o fazer potente e invisibilizado dessas mulheres. Isso também é um ato político.

Ao final de cada entrevista, sentia que ganhava algo de volta. Meu caderno virou diário de campo e de afeto. Escrevo não só para a academia, mas para devolver voz e reconhecimento a essas mulheres. Nem toda joia brilha no ouro, algumas brilham no tururi, no açaí seco e na coragem de existir.

O fazer cotidiano das artesãs de biojoias, ainda que silencioso e afastado dos centros de poder simbólico, revelou uma capacidade de reconfigurar identidades, preservar saberes ancestrais e construir novos espaços de pertencimento, reafirmando que o trabalho institucional também nasce das resistências e dos gestos cotidianos, muitas vezes mediados pelas distintas formas de reflexividade presentes em seus fazeres.

Evidenciei, ao longo da pesquisa, que a atividade das artesãs de biojoias se insere em um campo institucional atravessado por cinco dimensões centrais: (i) assimetrias de poder; (ii) desigualdades regionais; (iii) fragilidade normativa; (iv) atuação fragmentada das instituições; e (v) resistência criativa. Entre tantas fragilidades, encontrei nelas um trabalho institucional que se revela como uma resistência social silenciosa, não feita de discursos grandiosos, mas de gestos cotidianos que contestam a desvalorização simbólica e reafirmam o direito à cultura. Foi principalmente entre mulheres que percebi essa força: são elas que, no fazer artesanal, tecem redes solidárias, preservam memórias, ressignificam identidades e transformam sementes em joias carregadas de pertencimento.

Com a colaboração de:

Laize Almeida de Oliveira, nascida na cidade de Bom Jesus do Tocantins-PA, é doutoranda em Administração pela Universidade Federal de Lavras (UFLA). Pesquisa o trabalho institucional de artesãs de biojoias da Amazônia paraense. Apaixonada por adornos regionais, dedica-se a experienciar esse campo vasto e produtivo do artesanato de biojoias da Amazônia paraense.

Sobre o Conexões Amazônicas

O coordenador da ONG Rede Conexões Amazônicas, Ayan Fleischmann, é pesquisador titular do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, sendo mestre e doutor em recursos hídricos. Em sua trajetória tem pesquisado as águas e várzeas amazônicas em suas múltiplas dimensões. É representante da ONG na coluna no Portal Amazônia, onde recebe pesquisadores convidados que contam os bastidores de suas experiências de pesquisa na Amazônia.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Cota mínima do Rio Negro em Manaus pode ser em torno de 18 metros em 2025, aponta SGB

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Foto: Divulgação/SGB

O Serviço Geológico do Brasil (SGB) divulgou, no dia 17 de setembro, uma nota técnica com projeções de níveis mínimos para o rio Negro, em Manaus (AM), em 2025. Segundo a análise, o cenário mais provável aponta para uma seca de intensidade fraca, com níveis previstos entre 17,70 m e 18,90 m.

O período de estiagem abaixo da cota de 20 m deve ser de 60 a 85 dias – essa é uma cota de referência usada para o monitoramento da navegação, ainda que não necessariamente implique restrições a essa atividade. Atualmente, a cota é de 24,9 m (observada em 16/09). 

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O SGB ressalta que a comunidade de Manaus começa a sentir impactos mais severos para a navegação em torno da cota de 16 m e entra em alerta em torno da cota de 17 m. Ou seja, não se prevê impactos significativos a partir dos cenários traçados para a vazante de 2025. A nota técnica foi elaborada pelos pesquisadores do SGB Andre Martinelli Santos, Artur Matos, Bruna Gomes Amancio e Marcus Suassuna Santos. 

As análises apresentadas mostram que, em um cenário hipotético mais severo – com descidas mais intensas e atraso no início da estação chuvosa, o rio Negro poderia se aproximar da cota de 17,3 m. O SGB reforça que essa é uma possibilidade pouco provável considerando a situação atual na bacia e que, mesmo que ocorra, ainda estaria dentro da faixa de normalidade para o período. 

As projeções usam dados da série histórica do rio Negro (1903–2024), que reúne 122 anos de registros, e informações sobre os fenômenos El Niño e La Niña (ENSO), que influenciam os padrões de chuva na Amazônia. Para 2025, a expectativa é de neutralidade climática, o que sugere condições próximas à média histórica. Esse comportamento contrasta com as secas extremas de 2023 e 2024, associadas a um dos episódios mais intensos de El Niño já registrados.

Portal Amazônia responde: como El Niño e La Niña afetam a região amazônica?

Encontro das águas do Rio Negro e Rio Solimões. Foto: David Rego Jr.

Tendência de agravamento

A análise da série histórica  confirma uma tendência significativa de agravamento das secas na estação de Manaus ao longo das últimas décadas.

“Desde o início do século passado, as mínimas anuais tiveram flutuações de longo prazo, contudo é observada uma redução média de 4,3 cm por ano desde 1970, o que indica que as vazantes têm sido cada vez mais severas”, afirma o pesquisador do SGB Marcus Suassuna.

Em 2024, o rio Negro atingiu 12,13 m, o menor nível já registrado, durante a seca extrema que impactou severamente a região.

Além disso, foi identificada forte correlação entre as cotas mínimas e a duração das estiagens: quanto mais baixos os níveis, mais tempo leva para o rio se recuperar.

“Essa relação é importante para qualificar a gestão dos recursos hídricos, uma vez que não só o mínimo é importante, mas também o tempo em que alguma restrição de uso pode ser observada”, indica a nota técnica.

Cotas máximas e mínimas tem variado nas últimas décadas

O SGB também chama atenção para a variação dos níveis dos rios ao longo do ano, ou seja, a diferença entre níveis mínimos e máximos em um mesmo ano, que tem aumentado nas últimas décadas.

Suassuna explica: “A diferença entre as máximas e mínimas cotas anuais era de cerca de 8,6 m em 1970 e atualmente essa amplitude média é de 12,8 m, um aumento estimado de 4,2 m. As diferenças entre os níveis máximos e mínimos anuais nos anos de 2023 e 2024 foram de 15,6 e 14,7 m, respectivamente, as máximas variações de nível de todo o histórico de monitoramento em Manaus”. 

Essa oscilação cada vez mais intensa amplia os desafios para o manejo dos recursos hídricos e para a segurança das populações que dependem e vivem às margens dos rios na Amazônia.

ANOMÍNIMA ANUAL (M)
202412,13
202312,70
201013,63
196313,64
190614,20
199714,34
191614,42
192614,54
195814,74
200514,75

Confira aqui a nota técnica.

Leia também: Portal Amazônia responde: como funcionam os processos de enchente e vazante dos rios?

O monitoramento em Manaus é realizado a partir de estação que faz parte da Rede Hidrometeorológica Nacional (RHN), coordenada pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) e operada pelo SGB. As informações estão disponíveis na plataforma SACE e são atualizadas diariamente. 

*Com informações do SGB

Conheça os sintomas e como se prevenir de mordidas de serpentes; Sespa orienta

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Sespa alerta à população sobre os acidentes ofídicos, que são as mordeduras de serpentes. Foto: Divulgação

A Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa) alerta à população sobre os acidentes ofídicos, que são as mordeduras de serpentes. Segundo a secretaria, entre janeiro e agosto de 2025, o Pará registrou 3.012 acidentes envolvendo serpentes.

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Os sintomas

serpentes
O estado do Pará registrou 3.012 acidentes envolvendo serpentes. Foto: Divulgação

Os sintomas de uma mordedura de serpente podem variar dependendo do tipo de serpente envolvida, mas geralmente incluem dor intensa, inchaço (edema), manchas arroxeadas (equimose), sangramentos e, em casos mais graves, o surgimento de bolhas no local da picada.

Sintomas sistêmicos incluem náuseas, vômitos, sudorese excessiva, dor de cabeça (cefaleia), mal-estar geral e, em casos mais críticos, dificuldades respiratórias e choque. A falta de tratamento rápido e adequado pode resultar em complicações graves e até risco de morte.

Leia também: Saiba como se prevenir de acidentes com animais peçonhentos durante o inverno amazônico

Prevenção

A coordenadora estadual de Zoonoses, Elke Abreu, destaca que a prevenção é essencial e envolve cuidados tanto pessoais quanto ambientais. Entre as principais medidas preventivas estão o uso de calçados fechados, luvas e perneiras durante atividades rurais e de jardinagem, bem como a inspeção cuidadosa de calçados, roupas pessoais, roupas de cama e banho antes de usá-los.

Entre as principais medidas preventivas estão o uso de calçados fechados. Foto: Divulgação

Leia também: Estudo identifica áreas de risco de acidentes com cobras no Maranhão

Elke também recomenda o afastamento de camas das paredes, evitar acumular entulhos e materiais de construção, e a vedação de frestas em paredes, assoalhos e rodapés, além de utilizar telas e vedantes em portas, janelas e ralos.

Além disso, é fundamental manter os arredores das residências limpos e organizados, como jardins, quintais, paióis e celeiros, e evitar plantas trepadeiras e bananeiras próximas às casas.

Também é recomendado cortar a grama regularmente e limpar terrenos baldios, especialmente nas áreas próximas a cercas e muros (pelo menos de um a dois metros).

“As vítimas de serpentes devem ser tratadas com soro antiofídico específico. O tratamento rápido e preciso é essencial para reduzir os danos à saúde”, explicou Elke de Abreu.

Leia também:Cuidados para evitar acidentes com animais peçonhentos devem ser redobrados no período de chuvas

É fundamental manter os arredores das residências limpos e organizados, como jardins, quintais, paióis e celeiros. Foto: Guia de Cobras/INPA

Leia também: Conheça 3 aranhas mais venenosas que vivem em Rondônia; especialista explica riscos e como evitar acidentes

A Sespa ainda orienta que, em caso de acidente ofídico, as principais unidades de atendimento no Estado incluem Prontos Socorros, Hospitais Regionais, Hospitais Municipais e algumas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs). Caso ocorra uma mordedura, a recomendação é lavar imediatamente o ferimento com água e sabão e buscar atendimento médico imediato, não tentar tratar o ferimento de forma caseira e, sempre que possível, identificar a serpente para facilitar o diagnóstico e o tratamento correto.

Atenção aos tipos de serpentes

As serpentes mais comuns no Pará, responsáveis pela maioria dos acidentes ofídicos, são as jararacas, cascavéis e cobras-corais, sendo mais de 90% dos acidentes ocasionados por jararacas. A Sespa orienta que, ao se deparar com uma serpente, a população não deve tentar capturá-la ou matá-la, pois isso aumenta o risco de mordeduras. É recomendado chamar profissionais especializados para o manejo adequado desses animais.

Leia também: Portal Amazônia responde: Cobra e serpente são diferentes?

A Sespa reforça que, embora as serpentes desempenhem um papel ecológico importante, os acidentes ofídicos são preocupantes, especialmente em áreas rurais e periféricas, onde o desmatamento e a urbanização desordenada podem forçar os animais a se aproximarem das áreas habitadas.

*Com informações da Agência Pará

Amazônia, a cicatriz viva do planeta: relato de uma travessia

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Por Júlio Olivar – julioolivar@hotmail.com

“A Amazônia tem sido uma fonte de fascínio, mistério e mal-entendidos para o mundo, principalmente para os europeus.” Assim começa o prefácio escrito por Nilson Gabar Jr., diretor do Museu Paraense, para o livro Amazónia: Viagem por uma ferida aberta no planeta (Editora Ideias de Ler, 272 páginas), do jornalista português Manuel Carvalho.

A obra nasce com fôlego de clássico. Com estilo direto e sensível, Carvalho constrói um mosaico de relatos que ajudam a decifrar esse universo verde — tão exuberante quanto ameaçado.

O livro revisita a história da colonização da Amazônia, mas seu foco é o presente. “Da criação do mundo até 1970, a humanidade destruiu 0,5% da maior e mais rica floresta tropical do planeta; daí até aos nossos dias, arrasou mais de 20%. E continua a arrasar”, alerta a sinopse. Essa constatação é o ponto de partida para uma narrativa que combina objetividade jornalística com análise sociológica afiada — da ocupação portuguesa ao neocolonialismo, passando pelos conflitos que envolvem indígenas, garimpeiros e produtores de soja.

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Embora recheado de referências bibliográficas, o que mais se destaca é a vivência do autor. O livro é fruto de uma marcha de 12 mil quilômetros por estradas, rios e cidades amazônicas. De capitais como Belém, Manaus e Porto Velho a vilarejos dominados pelo agronegócio, Manuel ouviu vozes diversas — do povo simples aos especialistas — e não poupou críticas, inclusive às cidades que, segundo ele, deformaram paisagens milenares.

livro amazônia de manuel carvalho
O livro lançado em Portugal. Foto: Divulgação

Do clichê turístico do encontro das águas entre os rios Negro e Solimões às imagens-denúncia da devastação ao longo da Transamazônica, o autor disseca com olhar crítico e escrita fluente temas que deveriam estar no centro do debate global. Porque a Amazônia, afinal, é um assunto planetário.

Mas a floresta ainda é, em muitos discursos, romantizada. Não no caso de Manuel, que a descreve com rudeza e ternura — em simbiose — como um cronista forjado nas redações dos grandes jornais portugueses. A biodiversidade, frequentemente tratada como ativo financeiro por setores do agronegócio, é também pauta de ativistas ignorados ou desacreditados pelas instâncias de poder. “Sustentabilidade”, nesse contexto, vira palavra malvista, associada a um suposto entrave ao progresso — como dizem seus detratores.

O olhar estrangeiro, como o de Manuel, revela o que os locais muitas vezes não enxergam. Não por acaso, os relatos de viajantes continuam entre as obras mais emblemáticas sobre a região — como Tristes Trópicos (1938), de Claude Lévi-Strauss, para ficarmos num exemplo.

A obra de Manuel Carvalho merece leitura atenta. Pela coragem de ouvir, pela capacidade de filtrar opiniões díspares e pela entrega ao trabalho de campo — algo raro em livros que saem dos muros acadêmicos.

QUEM É – Nascido em 1965, Manuel Carvalho é jornalista premiado, com carreira consolidada no jornal Público, um dos mais influentes de Portugal, onde atuou como diretor entre 2018 e 2023. Formado em Direito e História, é autor de obras como A guerra que Portugal quis esquecer (2015).

O autor, Manuel Carvalho. Foto: Divulgação

Sobre o autor

Júlio Olivar é jornalista e escritor, mora em Rondônia, tem livros publicados nos campos da biografia, história e poesia. É membro da Academia Rondoniense de Letras. Apaixonado pela Amazônia e pela memória nacional.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Roteiro histórico: seis locais que ajudam a entender o passado do Amapá

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A história do Amapá é marcada por mudanças políticas, sociais e econômicas. Parte dessa memória está preservada em museus que mostram desde a colonização até os saberes dos povos tradicionais.

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Os espaços têm entrada gratuita e oferecem uma imersão no passado, com exposições que ajudam a compreender a trajetória do Estado e de seus habitantes.

O Grupo Rede Amazônica preparou um roteiro que inclui temas como cultura indígena, vida ribeirinha, presença colonial, memória negra e até vestígios da Segunda Guerra Mundial:

Museu sobre a colonização portuguesa no Amapá

Dentro da Fortaleza de São José, no Centro de Macapá, o museu mostra como a coroa portuguesa participou do povoamento do Amapá. O espaço também destaca o uso de mão de obra escravizada na construção da fortificação.

O acervo inclui mapas e maquetes que retratam a influência portuguesa na região. A fortaleza é um dos principais símbolos da presença colonial no estado.

Funcionamento: segunda a sábado, das 8h às 17h.

Leia também:Maior fortificação do Brasil: 10 curiosidades sobre a Fortaleza de São José de Macapá

Foto: Divulgação/GEA

Museu Kuahi

O Museu Kuahí, em Oiapoque, foi reaberto em julho após 12 anos fechado. O espaço abriga acervos das etnias Karipuna, Galibi Marworno, Galibi Kali’na e Palikur.

O museu tem cerca de 500 peças etnográficas, biblioteca, salas de exposição, espaço pedagógico, loja de artesanato, redário, refeitório e área voltada à produção artística indígena.

Funcionamento: terça-feira a domingo
Horário: 9h às 17h
Endereço: Avenida Barão do Rio Branco, n. 160, Centro, Oiapoque

Leia também: Museu Kuahí é reinaugurado no Amapá e pajé mais antigo do povo Karipuna celebra: ‘renascimento’

Museu Kuahi faz parte de roteiro turístico histórico do amapá
Foto: Aog Rocha/GEA

Museu de Artes, Culturas e Memórias Negras

Inaugurado em junho, o Museu de Artes, Culturas e Memórias Negras funciona em Macapá e é coordenado pelo Instituto Municipal de Promoção da Igualdade Racial (Improir).

O acervo valoriza os costumes da população negra do Amapá, com esculturas africanas, fotografias, objetos do dia a dia, cerâmicas quilombolas, arte contemporânea e livros.

Segundo o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Amapá tem 12.524 pessoas quilombolas.

Funcionamento: terça a domingo, das 9h às 17h
Endereço: Rua Eliezer Levy, esquina com Avenida Mendonça Furtado

Foto: Emanuelle Gomes/Prefeitura de Macapá

Museu Histórico do Amapá Joaquim Caetano da Silva

Fundado em 1895, o Museu Joaquim Caetano da Silva é o terceiro prédio mais antigo do Estado e funciona como museu há 75 anos, sendo reaberto ao público em 2022.

O prédio já foi sede da Intendência, prefeitura e delegacia. Hoje, abriga uma biblioteca com itens raros de arqueologia, incluindo urnas do período pré-colonial.

Funcionamento: terça a domingo, das 8h às 18h
Endereço: esquina da Avenida Mário Cruz com Rua Binga Uchôa, Centro de Macapá

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Foto: Rafael Aleixo/Rede Amazônica AP

Museu Sacaca

Inaugurado em 1997, o Museu Sacaca é coordenado pelo Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá (IEPA). O espaço homenageia Raimundo dos Santos Souza, curandeiro que popularizou o uso de plantas medicinais no estado.

O museu tem réplicas de casas ribeirinhas, malocas indígenas, casa de farinha, barco regatão, planetário e exposições sobre medicina natural e cultura amazônica.

O Museu Sacaca oferece uma imersão na cultura amazônica a poucos minutos do Centro de Macapá.

Funcionamento: terça a domingo, das 8h30 às 17h30. Fecha às segundas.
Endereço: Avenida Feliciano Coelho, nº 1509, bairro Trem

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Foto: Divulgação/GEA

Museu à Céu Aberto da Segunda Guerra Mundial

No município de Amapá, a antiga Base Aeronaval construída em 1941 virou o Museu a Céu Aberto da Segunda Guerra Mundial. O local abrigou militares dos Estados Unidos e serviu como ponto de reabastecimento de aeronaves durante o conflito.

Com 623 hectares de área, a base foi usada como apoio estratégico para voos rumo aos Estados Unidos e à África.

Um projeto da Universidade Federal do Amapá (Unifap) quer transformar o museu em um parque histórico, incluindo áreas externas que também foram usadas durante a guerra.

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Estudantes conhecendo a Base Aeronaval do Amapá. Foto: Reprodução

*Por Mariana Ferreira, da Rede Amazônica AP

Com mais de 100 milhões de anos, insetos em âmbar revelam floresta tropical no Equador

Mosca da família Chironomidae preservada em âmbar. Foto: Mónica Solórzano-Kraemer/Museu de História Natural Senckenberg

Entre aproximadamente 113 milhões e 100,5 milhões de anos atrás, em uma floresta tropical bastante úmida localizada onde hoje é o Equador, mosquitos, moscas, aranhas, vespas e besouros circulavam entre dinossauros e pequenos répteis.

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As árvores altas, finas e com longos galhos que existiam nesse ambiente pareciam um bom refúgio para esses insetos e aracnídeos, mas alguns acabaram em uma emboscada: as araucárias, muito parecidas com as que existem hoje, expeliam uma resina capaz de aprisionar os pequenos bichos para sempre.

“Essa resina é produzida para bloquear vírus, bactérias, fungos e outros patógenos que atacam as árvores e por isso tem propriedades que retardam a decomposição dos animais aprisionados”, conta o paleontólogo espanhol Xavier Delclòs, do Instituto de Pesquisa em Biodiversidade (IRBio) da Universidade de Barcelona, na Espanha, a Pesquisa FAPESP, por e-mail.

Ele é um dos autores de um artigo publicado no dia 18 de setembro na revista Communications Earth & Environment, que descreve as espécies de artrópodes encontradas no âmbar. “Se a resina se polimerizar e for enterrada, ela pode se transformar em âmbar e preservar restos de organismos de milhões de anos atrás em três dimensões, como se ainda estivessem vivos”. Os achados descritos são os primeiros da América do Sul com inclusão de animais. As araucárias desse período eram exceção, visto que a vegetação mais comum no Cretáceo era de ambiente mais árido.

O nível de resistência da resina varia de árvore para árvore. “Não é porque a resina foi produzida que ela vai virar âmbar”, comenta o geoquímico Ricardo Pereira, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), que não participou do estudo.

“Ela pode ser destruída por vários processos ao longo do tempo e sua resistência varia conforme a composição química, que difere de uma espécie para outra”. O curioso é que as araucárias, que produziram o âmbar no Equador, têm resina frágil. Pereira pesquisou âmbar do Brasil ao longo mestrado e doutorado.

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insetos em âmbar
Camada de rocha com 70 centímetros de espessura e milhares de peças de âmbar na pedreira Genoveva. Foto: Xavier Delclòs/Universidade de Barcelona

Na pedreira Genoveva, província do Napo, onde os fósseis de insetos e os demais foram encontrados, o âmbar brilha entre as camadas escuras do sedimento ancestral. No passado, além da floresta, a região era cortada por rios que desaguavam em um lago.

“Às vezes, o âmbar é escuro por conta da reação com componentes do petróleo na rocha onde ele fossiliza, mas isso não impediu a identificação das espécies”, diz Delclòs.

Nos casos mais desafiadores, os cientistas usaram uma ferramenta potente, a luz síncrotron, para examinar melhor a anatomia dos insetos. “O petróleo é importante porque átomos de carbono e hidrogênio, os hidrocarbonetos, reagem com a resina da araucária e ajudam na sua preservação”, diz Pereira.

Ao todo, os pesquisadores identificaram 21 insetos

São eles:

  • mosquitos que se alimentam de sangue (Ceratopogonidae),
  • insetos que vivem perto da água (Chironomidae e Trichoptera),
  • vespas parasitoides (Scelionidae e Stigmaphronidae),
  • percevejos da família Hemiptera,
  • moscas-brancas (Aleyrodidae),
  • moscas comuns (CeratopogonidaeChironomidae e Dolichopodidae)
  • e um besouro da família Tetratomidae.

Em um fragmento de âmbar bem claro, a equipe encontrou fragmentos de uma teia de aranha. “É uma quantidade muito grande de material”, comenta Pereira, que faz uma comparação:

“Quando somo todo o âmbar dos depósitos que estudei, não chega a 100 gramas desse material. O que vemos no Equador é um verdadeiro depósito”.

As amostras de âmbar têm grande variação de cor. Foto: Mónica Solórzano-Kraemer/Museu de História Natural Senckenberg

É possível supor algumas interações com o ambiente a partir dos fósseis. “Os mosquitos provavelmente se alimentavam de vertebrados, como dinossauros. Já a teia de aranha pode indicar alguma relação de predação de animais voadores”, lista Delclòs. “Apesar disso, não encontramos nenhuma interação ecológica direta dentro do âmbar”.

O paleontólogo Marcelo Carvalho, do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (MN-UFRJ) ajudou a equipe a identificar amostras de pólen e esporos entre os sedimentos da pedreira. Para isso, submeteu o material a um processo químico com ácidos, que removeu os componentes inorgânicos e conservou os pólens.

Um pedaço de teia de aranha aparece como fios capturados pela resina. Foto: Enrique Peñalver/Instituto Geológico e de Mineração da Espanha

“Os pólens e esporos foram importantes para datar o material”, conta Carvalho, que explica que o âmbar não pode desempenhar essa função porque não tem nenhum componente datável. No caso das plantas, os paleontólogos sabem, com base em outras pesquisas, que determinadas espécies só viveram em um período específico. “Quando identificamos uma dessas espécies em uma camada sedimentar, sabemos que aquele sítio está dentro de determinado intervalo temporal”, acrescenta Carvalho.

Ao todo, a análise revelou 68 tipos de pólen, divididos entre representantes de gimnospermas – como os pinheiros, que não produzem flores nem frutos –, de angiospermas, que têm flores, e de vegetais vasculares sem sementes, as pteridófitas. “Essa análise ajudou a confirmar que o ambiente era bastante úmido”, conta Carvalho.

“As samambaias, por exemplo, abundantes na região, precisam de muita umidade para reprodução”. Isso chama a atenção porque o Cretáceo, entre cerca de 145 milhões e 66 milhões de anos atrás, foi um dos períodos mais quentes da história da Terra, marcado por condições áridas. “Já sabíamos que o Cretáceo tinha tido algumas fases úmidas, mas identificá-las precisamente no tempo e espaço é importante”, diz o pesquisador do Museu Nacional.

Outro ponto relevante foi a expressiva presença das angiospermas, que corresponderam a 37% dos exemplares. “Essas plantas já haviam surgido anteriormente, mas foi no Cretáceo que passaram por grande radiação e ampla dispersão, impulsionadas inclusive pela interação com animais, como os insetos polinizadores”, comenta Carvalho.

“É como se estivéssemos olhando para os indícios do que mais tarde seria o que chamamos hoje de floresta amazônica”.

Artigo científico
DELCLÒS, X. et alCretaceous amber of Ecuador unveils new insights into South America’s Gondwanan forestsCommunications Earth & Environment. v. 6, n. 745. 18 set. 2025.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Revista Pesquisa Fapesp, escrito por Enrico Di Gregorio

Você conhece a história do Hino de Porto Velho? Letra enaltece a Madeira-Mamoré, operários e forja dos bravos pioneiros

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Hino de Porto Velho foi escrito pelo pesquisador Cláudio Feitosa em 1983. Foto: Leandro Morais/Secom RO

Na margem direita do rio Madeira, Porto Velho (RO) é um município de encantos, de muita história, de um caldeirão cultural e com um povo trabalhador. Através do suor de muitos operários da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (EFMM), a cidade foi criada em 1914.

Além da ferrovia, pioneiros e construções antigas, se destaca também o hino do município, escrito por Cláudio Batista Feitosa, membro da Academia de Letras de Rondônia. Reconhecido por sua contribuição à literatura e à cultura local, Feitosa criou a letra e a música do hino, que expressam valores de orgulho, identidade e pertencimento da população da capital.

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A obra foi escolhida entre 12 projetos apresentados e foi oficializada no dia 11 de outubro de 1983, por meio da Lei Municipal nº 249, assinada pelo então prefeito Sebastião Assef Valadares, tornando-se um símbolo permanente da história e da memória de Porto Velho.

O hino oficial é um dos símbolos mais representativos de uma cidade, expressando sua identidade, história e valores. Ele desempenha um papel importante em cerimônias cívicas e eventos locais, conectando os cidadãos à sua identidade.

De acordo com o historiador, Aleks Palitot, além do hino, em 1983 também foram criados outros símbolos: a bandeira e o brasão do município. A letra e a melodia buscam capturar a essência de Porto Velho, desde sua beleza natural, com seu patrimônio histórico, até o espírito de seu povo.

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“O simbolismo do hino é significativo e profundo. A interpretação do autor, Cláudio Batista Feitosa, canta ‘No eldorado uma gema brilha / em meio à natureza, imortal / Porto Velho, cidade Ocidental’ – justamente no Eldorado e assim como é considerado o Estado, a cidade é privilegiada por concentrar todo um sistema de vias de transportes quadrantes, os interesses econômicos de Rondônia e de outras unidades da Federação”, disse Aleks Palitot.

“Nascente ao calor das oficinas/
Do parque da Madeira-Mamoré/
Pela forja dos bravos pioneiros/
Imbuídos de coragem e de fé ” (trecho do hino).

hino de porto velho é inspirado na construção da cidade
Foto: Wesley Pontes

Segundo o historiador, se as duas primeiras estrofes enaltecem a importância da situação geográfica de Porto Velho no concerto da Amazônia Ocidental, a terceira enfoca a sua origem, as suas raízes, alimentadas pela coragem, pela tenacidade e pela fé dos bravos pioneiros, de quantas bandeiras, que vieram construir a Estrada de Ferro Madeira- Mamoré, no alvorecer deste século. Porto Velho, a cidade, nasceu realmente ao calor das oficinas da lendária ferrovia marco indelével do progresso e do desenvolvimento desta região do alto Madeira.

Última estrofe, idêntica à primeira, enfatiza a imagem da gema da joia preciosa que é Porto Velho“A última estrofe, idêntica à primeira, enfatiza a imagem da gema da joia preciosa que é Porto Velho, que deve continuar brilhando, singela, nos ideais e nas vozes da juventude do nosso Município responsável pela preservação da nossa memória. A música é extremamente simples. Com apenas duas variedades propositadamente para facilitar a memorização das estrofes cujas palavras podem ser articuladas por completo, com indisfarçável facilidade, dispensados quaisquer artifícios”, finaliza Palitot.

Assim, o hino de Porto Velho é mais do que uma simples canção. É principalmente um símbolo enraizado na origem e na história da capital rondoniense. Ele continua a ser executado como um lembrete da história, da construção da ferrovia e dos bravos pioneiros, e de um município que é orgulho da Amazônia Ocidental.

Conheça o hino completo:

*Com informações da Prefeitura de Porto Velho

Amazônia, o mega desafio de produzir-preservar-desenvolver

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Foto: Divulgação/Sepror AM

Por Osíris M. Araújo da Silva – osirisasilva@gmail.com

Para a geógrafa e amazonóloga Bertha Becker o desafio do desenvolvimento da Amazônia pressupõe implementar modelo que utilize o patrimônio natural sem destruí-lo, atribuindo valor econômico à floresta a partir de uma constatação elementar: o Brasil, no século XX, viveu quatro revoluções tecnológicas seminais: a criação da Petrobrás, em 1953; da Embraer, em 1969; da Embrapa, 1973, e a instituição do Proálcool, em 1975.

Segundo Becker, a quinta revolução tecnológica brasileira será a da Amazônia. O desafio, por conseguinte, é nosso, de mais ninguém. O caminho tem como base o estímulo ao uso “do fator biodiversidade como elemento estratégico de desenvolvimento regional”, enfatiza. Com efeito, o foco deve ser, ao que Becker defende, “colaborar com o planejamento do espaço rural, com vistas a equilibrar produção com conservação, voltado à sustentabilidade ambiental”.

Samuel Benchimol, desde o início dos anos 1970, por meio de sua extensa obra, já se opunha à tese da planetarização, ou internacionalização da região, que alguns chefes de Estado tentaram fazer ressurgir na reunião de cúpula do G7, realizada em Biarritz, França, em agosto de 2019. Para Benchimol, cujas teses desenvolvimentistas impactou o mundo”a esse desafio planetário vamos responder, com vontade política e as armas da ciência e da tecnologia, vamos ocupar e desenvolver a Amazônia, sem poluir e sem alçar o deserto, mas não nos deixamos intimidar pelo medo do desconhecido. Somos, afinal, um país de bandeiras e pioneiros que aprendeu desde cedo a enfrentar distâncias, a vencer dificuldades, a resistir ao sofrimento e a seguir generosos na vitória”.

Chovem ofertas de recursos de diversas origens para ajudar a Amazônia no combate a incêndios e desmatamentos. Ou são valores apenas simbólicos, ou, quando expressivos, apenas prometidos e não honrados.

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O Acordo de Paris-2015 teve por meta reduzir as emissões de gases de efeito estufa, que contribuem de maneira significativa para o aumento da temperatura do planeta. No que respeita a recursos financeiros para enfrentar esses foram propostos investimentos, por países desenvolvidos, de 100 bilhões de dólares (por ano) aplicáveis em medidas de combate à mudança do clima e políticas sustentáveis por países em desenvolvimento, ao abrigo da “cooperação Sul-Sul”. Nenhum centavo foi liberado até hoje. Atenção COP30.

Seria razoável convergir pensamentos e ações sobre o foco central da questão. Ajudas oferecidas no varejo, em geral insignificantes, para combate a incêndios, em quase nada contribuem para a contenção de queimadas e desmatamentos. O problema é mais complexo. O que defato ajudaria, eficaz e eficientemente: os países do G7 unirem forças ao Brasil na constituição de “um capital inicial” de 1 a 2 bilhões de dólares destinados ao financiamento de projetos de desenvolvimento não apenas na áreas constituída pelo “arco do fogo” mas em todo o complexo amazônico com vocações econômicas mebsuradas, especialmente nas macrorregiões com potenciais de crescimento multi setoriais definidos.

Ao contrário de ações paliativas, inquestionavelmente só o desenvolvimento econômico e social trará estabilidade geopolítica e garantia de preservação ambiental da região. O novo Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm, 2023-2027), lançado em junho de 2022, é apenas restritivo e ameaçador. Atendendo a conveniências internacionais e sob pressão de ONGs estrangeiras, contrárias ao trinômio produção-preservação-crescimento econômico, a busca do “desmatamento zero” ignora solenemente os anseios de uma população de 30 milhões de habitantes que clama por crescimento econômico, educação de qualidade e bem estar social. Ao contrário do que seria razoável, o Plano não oferece alternativas nem soluciona problemas graves como os referentes à regularização fundiária, ao Zoneamento Ecológico Econômico (ZEE) e às vocações econômicas da região.

Sobre o autor

Osíris M. Araújo da Silva é economista, escritor, membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) e da Associação Comercial do Amazonas (ACA).

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Piquiá: fruto é um dos tesouros escondidos da Amazônia

Foto: Reprodução/ Instagram-@Tom_marinhochef

O piquiá (Caryocar villosum) é um fruto nativo da floresta amazônica que, apesar de ser pouco explorado como o açaí e o buriti, quando comparado a outros frutos, pode ser considerado um fruto tropical escondido na biodiversidade amazônica.

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As árvores onde nascem os piquiás podem chegar a atingir 50 metros de altura e 2,5 metros de diâmetro, considerada uma árvore de grande porte.

A casca do piquiá é espessa e responsável por 76% do peso do fruto, enquanto a polpa só representa cerca de 10%. Além disso, as funcionalidades do fruto vão desde a culinária até a produção de móveis, mesmo que a cada 1 tonelada processada, quase 900 quilos sejam descartados em resíduos. 

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livro reúne informações sobre o piquiá da amazonia

Propriedades nutritivas 

Apesar da pouca polpa aproveitável, ela é extremamente nutritiva, pois possui proteínas, fibras e alto teor de lipídios. Além de ser fonte de minerais como cálcio, magnésio, fósforo, ferro, selênio e vitaminas C, E e A.

Além disso, o fruto também apresenta uma grande quantidade de ácidos graxos, como o ácido oleico (o mesmo encontrado no azeite de oliva), que contribui para a redução do colesterol ruim e a proteção do coração.

Funcionalidades do piquiá 

O fruto é bastante versátil já que o óleo extraído da polpa e da amêndoa pode ser aproveitado também na produção de sabonetes, cremes hidratantes, cosméticos e até na conservação de alimentos.

Já a casca, por sua resistência, pode ser utilizada na produção de farinhas, enquanto a madeira da árvore tem sido usada no ecodesign de móveis.

Mesa de centro feita com piquiá
Mesa de centro feita com piquiá. Foto: : Juliana Mendes de Oliveira

Cerrado x Amazônia 

Embora o pequi do Cerrado seja mais conhecido nacionalmente, o piquiá da Amazônia compartilha o mesmo gênero botânico e muitas propriedades semelhantes. A grande diferença está no tamanho do fruto e na proporção da polpa, o que torna o piquiá mais aproveitável. 

Piquiá, um fruto curioso 

A polpa do piquiá só pode ser consumida depois de cozida ou assada. Além disso, depois da polpa, o fruto possui espinhos que devem ser retirados na hora de comer. 

A árvore tem dificuldade de nascer e crescer na floresta, pois suas mudas não se dão bem na sombra. No entanto, nas áreas onde a árvore consegue crescer, suas flores costumam atrair diversas espécies de caça, como a paca, cutia, veado e tatu.

A casca do fruto é rica em tanino e substitui a noz de galha na preparação da tinta para escrever, para tingir rede de dormir e fio. No entanto, o óleo da amêndoa pode ser usado para cozinhar, fazer sabão, perfumes, cosméticos e até biodiesel.

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pequiás
Foto: Reprodução/ Facebook- Rema-Feira de Orgânicos

Cada piquiá pode pesar de 250 g a mais de 700 g, maiores que o do Cerrado. Apesar disso, o fruto geralmente possui poucos caroços, de 1 a 2 pirênios (caroços internos), recobertos de polpa amarela e oleosa. A casca e os caroços, que seriam descartados, podem ser aproveitados na alimentação de bovinos e suínos.

Além disso, a madeira também pode ser aproveitada nas construções civil e naval, e nas comunidades rurais essa árvore também é a escolhida para fazer canoas e, muitas vezes, tem sido derrubada nas áreas ao longo dos rios, devido ser compacta, pesada, não se decompor facilmente, além de possuir alta qualidade.

*Com informações da Universidade Federal do Oeste do Pará