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Cultura ribeirinha é reconhecida como patrimônio vivo do Pará

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Foto: Cíntia Matos

A Lei nº 11.325, publicada no Diário Oficial do Pará no dia 14 de janeiro, institui a Política Estadual de Valorização da Cultura Ribeirinha e Paraense. A nova legislação tem origem em Projeto de Lei de autoria do deputado Carlos Bordalo, foi sancionada pelo governador Helder Barbalho e representa um marco ao reconhecer, de forma institucional, as expressões culturais ribeirinhas como parte essencial da identidade histórica, social e cultural do Pará.

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O Pará abriga uma das maiores populações ribeirinhas da Amazônia, distribuídas em comunidades que mantêm modos de vida profundamente relacionados aos rios, florestas e ilhas, elementos fundamentais na formação do território e da identidade paraense.

Leia também: ‘O Rio que Somos’: documentário mostra cotidiano dos ribeirinhos da Amazônia e do Pantanal

Territórios ribeirinhos

De acordo com dados do Instituto Peabiru, na Região Metropolitana de Belém o território conhecido como Belém Ribeirinha compreende mais de 50 ilhas, localizadas nos rios Guamá e Pará, abrangendo áreas de sete municípios: Acará, Barcarena, Belém, Ananindeua, Marituba, Santa Bárbara e Benevides. Somente em Belém, cerca de 40% do território municipal é formado por ilhas.

Essas áreas são habitadas por mais de 6 mil famílias ribeirinhas, muitas delas fortemente vinculadas a práticas tradicionais como pesca, agricultura, extrativismo e manifestações culturais próprias.

Apesar da riqueza cultural e ambiental, essas comunidades ainda enfrentam desafios históricos no acesso a serviços públicos, como transporte fluvial regular e políticas estruturantes.

ribeirinho amazônico em canoa no rio em área de várzea
Foto: Miguel Monteiro/Instituto Mamirauá

Objetivos da lei

A Lei nº 11.325, de 13 de janeiro de 2025, tem como objetivo assegurar a proteção, promoção e valorização dos saberes, práticas e expressões culturais das comunidades ribeirinhas e das demais manifestações da cultura paraense. A política busca garantir que o conhecimento ancestral dos povos das águas e da floresta seja preservado, reconhecido e transmitido às futuras gerações.

A iniciativa também reconhece o papel estratégico dessas comunidades na preservação ambiental e na manutenção de modos de vida sustentáveis, integrando cultura, território e meio ambiente.

Princípios

A Política Estadual de Valorização da Cultura Ribeirinha e Paraense será orientada por princípios como:

  • Valorização da diversidade cultural e dos povos tradicionais;
  • Respeito às práticas sociais, religiosas, econômicas e culturais;
  • Participação efetiva das comunidades na construção e execução das políticas culturais;
  • Descentralização das ações culturais, fortalecendo os territórios onde a cultura é produzida;
  • Integração dos saberes tradicionais aos processos educacionais;
  • Articulação com políticas de preservação ambiental e sustentabilidade.

Ações estruturantes

Para garantir a efetivação da política, o Poder Executivo poderá desenvolver ações como:

  • Registro, documentação e salvaguarda das tradições ribeirinhas, incluindo festas, rituais, culinária, artesanato e práticas religiosas;
  • Proteção de patrimônios materiais e imateriais, sítios históricos, arquitetônicos e culturais;
  • Apoio à realização de festivais, feiras, exposições e eventos culturais;
  • Implementação de oficinas, cursos e atividades formativas voltadas aos saberes tradicionais e à economia cultural local.

Parcerias e governança

A lei autoriza a celebração de parcerias com universidades, instituições culturais, organizações da sociedade civil, entidades privadas e centros de pesquisa, ampliando o alcance das ações e fortalecendo a execução da política pública em diferentes territórios do estado.

Leia também: Influenciadores ribeirinhos: conheça sete vozes da Amazônia que conquistam as redes sociais

Cultura e inclusão social

Além de seu valor simbólico e identitário, a política reconhece a cultura como vetor de desenvolvimento econômico e inclusão social. A valorização de artistas, artesãos e iniciativas culturais ribeirinhas pode impulsionar a economia criativa, fortalecer o turismo de base comunitária e gerar renda, promovendo desenvolvimento sustentável em territórios historicamente vulnerabilizados.

Atualmente, apenas cerca de um terço das famílias ribeirinhas dessas áreas está incluída em assentamentos agroextrativistas reconhecidos, o que reforça a necessidade de políticas públicas integradas, territorializadas e permanentes, conforme aponta o Instituto Peabiru.

Para o deputado Carlos Bordalo, a sanção da Lei nº 11.325 representa um avanço significativo na construção de políticas públicas culturais voltadas aos povos tradicionais do Pará. Preservar a cultura ribeirinha é garantir a continuidade da nossa história, fortalecer a identidade paraense e reconhecer os modos de vida que sustentam o estado”, destacou o parlamentar.

*Com informações da Assembleia Legislativa do Estado do Pará

Websérie ‘Eu Sou Tepequém’ reúne histórias contadas por quem vive na serra roraimense

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A websérie documental ‘Eu Sou Tepequém’ é da produtora Embuá. Foto: Rodrigo Rodrigues

A produtora Embuá lança a websérie documental ‘Eu Sou Tepequém’ sob o olhar dos próprios moradores da região. O material é composto por cinco episódios que narram a história da serra a partir do olhar de quem vive no território.

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Eles que conduzem o público por cachoeiras, trilhas, culinária, festas, desafios e memórias de um dos destinos mais procurados por turistas no extremo Norte do país.

Localizada no município de Amajari, ao Norte do estado, a Serra do Tepequém apresenta atrações como cachoeiras, um platô que chega a quase 1.022 m de altura e um clima ameno durante a noite, proporcionado pelas serras.

imagem colorida ilustrativa sobre a Websérie 'Eu Sou Tepequém'
Foto: Reprodução/Serviço Geológico do Brasil

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Segundo a diretora da websérie, Tayná Frota, as filmagens ocorreram em fevereiro de 2025 e duraram cerca de dez dias. Ao longo do ano, a equipe se dedicou às etapas de edição e trilha sonora.

A direção é assinada por Tayná Frota, Nathalia Piro e Larissa Saldanha, com roteiro de Larissa Saldanha, produção de Embuá e fotografia de José Miguel Zamora. A coordenação local ficou a cargo do Camping Picuá.

“Foram dez dias subindo ladeiras com equipamentos de som, acordando todos os dias às cinco e meia da manhã para registrar o nascer do sol e captar as melhores imagens possíveis. Agora, nesta semana, estamos finalizando o trabalho para entregá-lo ao público”, afirmou.

O evento contará com apresentações musicais de artistas como Euterpe, Eliakim Rufino, Leka Denz e Aleff Mendes, que integram tanto a trilha sonora da produção quanto o cotidiano cultural do Tepequém. A programação inclui ainda um show da banda Guy Bras Ven.

Exibição da websérie

A exibição de estreia da websérie é nesta sexta-feira (16) a partir das 20h, na praça Valdenilson Magalhães Viana, na Serra do Tepequém, interior de Roraima. O evento é aberto ao público.

  • 20h10 – episódio 1
  • 20h45 – espisódio 2
  • 21h20 – espisódio 3
  • 21h55 – espisódio 4
  • 22h30 – espisódio 5

“Quem apresenta o Tepequém são seus próprios moradores: guias, artistas, artesãos, empreendedores do turismo e pessoas que ajudam a construir a história da vila no dia a dia. Não há atores — tudo é real, vivido e contado por quem chama a serra de casa”, destacou a diretora.

A websérie será lançada futuramente no Youtube. O público também poderá conferir coleção “Só Tem no Tepequém”, que reúne peças autorais inspiradas na natureza, na história, feitas por artesãos locais.

*Com informações da matéria publicada pela Rede Amazônica RR

Pescador de Rondônia fisga peixe-elétrico de dois metros, o maior já registrado no Brasil

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O pescador rondoniense Anderson Guedes conseguiu capturar o maior poraquê já registrado no Brasil, segundo a BGFA Recordes. Foto: Anderson Guedes

O pescador rondoniense Anderson Guedes conseguiu capturar o maior poraquê já registrado no Brasil, segundo a BGFA Recordes. A pescaria aconteceu na fronteira do Brasil com a Guiana Francesa.

Os poraquês (Electrophorus electricus) são os peixes-elétricos conhecidos pelo tamanho (podem chegar a até 2,5 metros) e principalmente pela capacidade de emitir descargas elétricas de até 860 volts, capazes de paralisar presas e causar dores fortes em humanos.

Leia também: Poraquês vivem em “condomínios” submersos nas margens dos igarapés do rio Preto, no Amazonas

A captura do peixe foi feita em fevereiro de 2025, mas o vídeo só foi nesta semana. Nas imagens, Guedes se “luta” com o peixe para tirá-lo da água depois de levar um choque.

Anderson contou que pescava com o objetivo de capturar uma traíra quando foi atingido por uma forte descarga elétrica. No início, acreditou ter sido atacado por uma arraia — espécie comum na região onde estava pescando —, mas na verdade tratava-se de um poraquê.

“O peixe-elétrico acompanhou a isca e eu não vi, porque estava sozinho. Ele veio pelo canto e passou raspando, aí deu um choque nas minhas pernas. Doeu demais, demais, demais”, relatou.

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peixe eletrico rondonia Anderson Guedes
Foto: Anderson Guedes

Quando viu o tamanho do animal, Guedes resolveu enfrentar o desafio de capturá-lo, mesmo sabendo da fama do poraquê como um peixe perigoso. De acordo com seu relato, a captura levou aproximadamente 30 minutos, período em que precisou agir com cautela constante para evitar novas descargas elétricas.

Depois de retirar o animal com o auxílio de um alicate de plástico, Guedes mediu o poraquê e verificou que ele tinha dois metros de comprimento — marca que o coloca como o maior exemplar da espécie já registrado no Brasil.

“Eu fiz questão de medir, porque na literatura a gente encontra registros de peixe-elétrico de até um metro e meio. Esse tinha dois metros. Então é um recorde brasileiro. A maioria das pessoas corta a linha ou mata o peixe, mas esse a gente soltou”, contou.

O recorde foi homologado pela BGFA Recordes, entidade responsável pela validação de recordes de pesca no Brasil.

Leia também: Nova espécie de peixe-elétrico é registrada no Amazonas: Microsternarchus javieri

É possível morrer com o choque de um peixe elétrico?

De acordo com o biólogo Flávio Terassini, mortes causadas por peixe-elétrico não são comuns, mas podem ocorrer em situações específicas. O maior risco acontece quando a pessoa está completamente dentro da água no momento da descarga.

“A eletricidade se dissipa pela água e atinge a musculatura da pessoa, causando uma paralisia temporária. Com isso, ela não consegue nadar e pode acabar se afogando”, explicou.

Ao Grupo Rede Amazônica, a coordenadora do Laboratório de Ictiologia e Pesca da Universidade Federal de Rondônia (Unir), Dra. Carolina Doria, explicou que a descarga elétrica do poraquê, isoladamente, não costuma ser letal. No entanto, ressaltou que fatores como a profundidade da água, o tempo de exposição e as condições físicas da vítima podem tornar a situação perigosa.

“Tem vários fatores que contribuem para que a pessoa morra e o local é um deles, como em lugares lodosos [lamacentos], mas o que mata é essa soma de fatores. É necessário alertar, senão daqui a pouco, o pessoal tá aí matando poraquê”, relata.

*Por Mateus Santos, da Rede Amazônica RO

Justiça torna definitiva a proibição de turismo irregular em território indígena no Pará

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Turismo irregular foi registrado em terras indígenas paraenses. Foto: ACP MPF (extraída do site Acute Angling, em 2022)

A Justiça Federal acolheu pedidos do Ministério Público Federal (MPF) e tornou definitiva a proibição de atividades turísticas irregulares promovidas pelas empresas Acute Angling e Amazon Peacock Bass na Terra Indígena Nhamundá-Mapuera, na região do Território Wayamu, no noroeste do Pará.

A sentença, publicada no final de dezembro, confirma a decisão liminar de setembro de 2022, que já havia suspendido as operações no local.

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A ação judicial movida pelo MPF apontou que as empresas operavam sem licenciamento do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), sem autorização da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e sem o estrito cumprimento do direito à Consulta Prévia, Livre e Informada (CPLI) dos povos indígenas afetados.

Centralidade da CPLI 

Um dos pontos centrais da sentença foi a análise sobre a relação entre as empresas e as comunidades locais. A defesa alegou que a presença na área decorria de convites e acordos feitos com algumas lideranças indígenas. No entanto, a Justiça Federal rejeitou esse argumento como base legal para a exploração econômica.

Na fundamentação, a Justiça Federal enfatizou que a legislação indigenista e a Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) exigem que a consulta seja ampla, abrangendo toda a comunidade afetada e respeitando seus protocolos próprios de deliberação.

A sentença esclareceu que “acordos informais com lideranças isoladas” não possuem validade para autorizar a exploração da terra indígena por terceiros, nem dispensam a necessidade de regulação estatal.

Leia também: Inclusões e renovações: Pará fortalece presença no Mapa do Turismo Brasileiro

Justiça torna definitiva a proibição de turismo irregular em território indígena no Pará
Localização da Terra Indígena Nhamundá Mapuera, em vermelho. Imagem: Reprodução/Research Gate

Proibições para preservação do turismo na região

Ao julgar a ação, a Justiça Federal confirmou a condenação das empresas e de seus sócios a uma série de obrigações para impedir a continuidade da exploração comercial na Terra Indígena Nhamundá-Mapuera ou em qualquer outra área do Território Wayamu. Ficou determinado que, sem a CPLI e sem as licenças estatais, os réus não podem:

  • Realizar qualquer atividade turística na região;
  • Instalar ou manter pousadas e acampamentos;
  • Vender pacotes turísticos relacionados à área;
  • Adentrar o território indígena sem autorização da Funai e anuência das lideranças e das associações representativas locais.

A sentença também obriga a empresa a cancelar pacotes pendentes e remover da internet qualquer publicidade referente à pesca no Rio Bateria.

Danos materiais e morais

Embora tenha confirmado a ilegalidade administrativa e a necessidade de paralisação das atividades, a Justiça julgou improcedente o pedido do MPF para condenar os réus ao pagamento de R$ 3 milhões em indenizações. Da sentença, ainda cabe recurso.

Ação Civil Pública nº 1015433-24.2022.4.01.3902

*Com informações do MPF

O adeus ao pioneiro Plínio, que testemunhou o surgimento de Vilhena

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Sinal de vida: Seringal do pai de Plínio visto do avião em 1960, em Vilhena. Foto: João Alves Nogueira

Por Júlio Olivar – julioolivar@hotmail.com

Vilhena perdeu nesta quarta-feira, 14 de janeiro, um de seus moradores mais antigos e emblemáticos. “Seu” Plínio José da Silva, de 83 anos, faleceu vítima de insuficiência renal aguda. Nascido em Nobres (MT) em 1942, ele chegou ainda criança à região e se tornou parte fundamental da história local. Mesmo que anonimamente, ele viu a cidade surgir e se desenvolver.

Plínio foi caminhoneiro, agricultor, mas sua identidade esteve ligada à profissão de seringueiro – atividade que marcou a economia e a formação social de Vilhena desde o início do século XX. Filho de Faustino, dono de um dos seringais mais conhecidos da região, Plínio cresceu em meio à extração da borracha, convivendo com indígenas e acompanhando de perto os ciclos da floresta.

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Um homem, muitas histórias

O pioneiro presenciou momentos decisivos, como a visita do presidente Juscelino Kubitschek, em 1960, para inaugurar a rodovia BR-29 (atual BR-364), marco que impulsionou a migração e deu origem à cidade. “Eu tinha 18 anos de idade, e me lembro claramente do JK aqui”.

Ele também viveu os anos de auge e decadência da borracha natural, quando a concorrência internacional e o surgimento do látex sintético reduziram a importância dos seringais amazônicos. Presenciou muito conflitos agrários e indígenas, pandemias, ataques de onças e a chegada dos primeiros moradores da vila. “E segui acreditando na cidade, mas nunca pensei que Vilhena fosse ganhar as proporções atuais”, destacou, em entrevista.

“Aqui era tudo mato. Percebíamos o encontro do cerrado com a Amazônia, bem aqui onde é o centro da cidade. Aqui é a junção de dois biomas e o tipo de vegetação mudava, claramente”, dizia.

Plínio veio morar em Vilhena quando a região ainda pertencia ao estado do Mato Grosso. “Eu tinha pouco mais de um ano quando foi criado o Território Federal do Guaporé, em 1943. Meu avô, Afonso Mansur, era indigenista, trabalhava junto aos Nambiquara, e já morava na região”, contava o pioneiro, que passou uma temporada no Mato Grosso, para estudar, mas logo voltou ao velho Guaporé e aqui se fez raiz. “Assisti a todos os ciclos econômicos e políticos”.

O seringueiro e a indígena

Casado desde 1962 com Brasilina Zonoecê – com ele na foto à esquerda – , indígena que vivia na Casa de Rondon [como era conhecido o posto telegráfico], filha do telegrafista Marciano Zonoecê – nome histórico da região, falecido na década de 1990 –, Plínio construiu uma família numerosa e deixou cinco filhos, além de netos. “Quem celebrou nosso casamento foi o Padre Rohl, um alemão. Casamos lá no Seringal do Faustino, meu sogro”, contou a viúva, aos 87 anos, na noite do velório de Plínio.

A Família Zonoecê é o primeiro núcleo fora das aldeias indígenas a se estabelecer em Vilhena, há 83 anos. Coincide com a época do nascimento de Plínio. A trajetória dele mistura a memória dos seringais, a luta pela sobrevivência e a transição para a agricultura e pecuária, após a decadência da borracha.

GUARDIÃO DA MEMÓRIA 
– Plínio, em 2023, segura o quadro com fotos de seus pais e irmãos; 
ele aparece na terceira posição da fila superior, 
da esquerda para a direita. 
(Foto: Júlio Olivar)
Guardião da Memória: Plínio, em 2023, segura o quadro com fotos de seus pais e irmãos; ele aparece na terceira posição da fila superior, da esquerda para a direita. Foto: Júlio Olivar

Vida nos seringais e legado

Plínio relatava que os trabalhadores acordavam de madrugada para sangrar até 200 árvores por dia, enfrentando chuvas, animais selvagens e doenças. A produção era levada em tropas de bois e burros, somando dezenas de toneladas por ano. Ele se considerava um “soldado da borracha”, responsável por manter viva uma atividade que sustentou gerações.

Sua vida atravessa os ciclos da borracha, da chegada dos migrantes e da transformação da vila em município. O velório aconteceu em sua residência, na avenida Beira-Rio, onde a família Zonoercê-Silva foi a primeira a se instalar. A quantidade de amigos que passaram pelo local em homenagem ao decano comprova o quanto ele era querido. Sobre o caixão, permaneceu uma camiseta que ele usava para frequentar o Terço dos Homens, um movimento da Igreja Católica.

Leia também: Rondônia celebra 44 anos de instalação como Estado

Sobre o autor

Júlio Olivar é jornalista e escritor, mora em Rondônia, tem livros publicados nos campos da biografia, história e poesia. É membro da Academia Rondoniense de Letras. Apaixonado pela Amazônia e pela memória nacional.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Boa Vista garante lazer e qualidade de vida para todas as idades

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Os locais incentivam a prática de atividades físicas, o contato com a natureza e momentos de descanso. Foto: Richard Messias/PMBV

Boa Vista se destaca por oferecer diversos espaços de lazer que promovem bem-estar, convivência social e qualidade de vida à população. Parques, praças e áreas verdes em toda a cidade funcionam são pontos de encontro para famílias, crianças, jovens, adultos e idosos, incentivando a prática de atividades físicas, o contato com a natureza e momentos de descanso.

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Confira espaços de lazer na capital:

Selvinha Amazônica – Implantada nas praças da cidade, a Selvinha Amazônica é um projeto que faz parte da política pública da Primeira Infância, desenvolvido em Boa Vista. Os animais que compõe a fauna da região são representados em tamanho grande e coloridos para que as crianças possam desenvolver a coordenação motora e a criatividade, de forma lúdica.

É possível encontrar as esculturas no Complexo Ayrton Senna, Parque Germano Augusto Sampaio, Praça do Mirandinha, Nova Cidade, Conjunto Pérola do Rio Branco, 13 de Setembro, Praça dos Bambus, Pricumã, Praça Linear do Cinturão Verde, Cabos e Soldados, Cidade Satélite, Cruviana e Parque do Rio Branco. Para que o projeto siga sempre destaque entre as crianças, a prefeitura tem revitalizado as representações.

Boa Vista garante lazer e qualidade de vida para todas as idades
Esculturas cativam crianças. Foto: Richard Messias/PMBV

No Parque do Rio Branco, a Selvinha Amazônica conta com mais de 160 elementos, dentre eles, esculturas de jacaré, cobra, iguana, borboletas, formiga, abelha, lagarta, arara, tucano e macaco, além de árvores, folhas e flores. O espaço é composto por duas áreas: seca e molhada. Ambas ficam abertas ao público de quarta-feira a domingo, das 15h às 20h.

Complexo Ayrton Senna – Espaço ao ar livre voltado ao lazer e prática de esportes, como corrida, tênis, skate, vôlei, dentre outras atividades. O complexo conta também com ambientes de playground, lanchonetes, fontes e espelho d’água, tudo para oferecer experiências agradáveis às famílias. Recentemente, a prefeitura instalou uma cabine de hidratação no local, promovendo o cuidado com a população.

Leia também: Obras nas avenidas Estrela D’Alva e São Sebastião melhoram trânsito em Boa Vista

População pratica diversos esportes no complexo. Foto: Jonathas Oliveira/PMBV

Praças Públicas – Para garantir o bem-estar das famílias, Boa Vista conta com 72 praças públicas na cidade. Os equipamentos possuem quadras poliesportivas, parques infantis, além de quiosques. Esses ambientes passam por manutenção periódica, como a Praça Cabos e Soldados, localizada no bairro Caranã, que recebeu novas quadras de vôlei de areia e calçadão.

Bosque dos Papagaios – Aberto ao público de terça a sexta-feira, exceto feriados e pontos facultativos, o horário de funcionamento do parque ecológico é das 8h às 18h. Sábado e domingo funciona das 8h às 12h e das 14h às 18h. Espaço de proteção e guarda da biodiversidade amazônica, o local recebeu bicicletas para que os visitantes possam passear pelas trilhas.

Mirante possui 120 metros de altura. Foto: Tony Will/PMBV

Mirante Edileusa Loz – Inaugurado em 2020, o local possui 120 metros de altura, sendo o ponto de observação mais alto de Boa Vista e da região Norte. Funcionando de quarta-feira a domingo, das 15h às 21h, os ingressos são gratuitos à população. Interessados devem fazer o agendamento pelo site do equipamento. Cada entrada tem permanência de 20 minutos no observatório.

Praça do Mirandinha – Um dos espaços verdes mais procurados pelas famílias e amigos para fazer piquenique, festas de aniversários, ensaios fotográficos, dentre outros, o Mirandinha possui quadras de esporte e quiosques. Interessados em fazer celebrações devem ficar atentos às regras, pois é recomendável a solicitação de autorização de uso, na Secretaria Municipal de Conservação Pública.

Observatório da Restauração aponta 39,7 mil hectares de floresta em recuperação na Amazônia

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Nova edição do Observatório da Restauração mostra que área mapeada na Amazônia aumentou 173% em quatro anos. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

A Amazônia teve um avanço considerável de reporte de áreas em processo de restauração em relação aos dados de 2021, ano em que o Observatório da Restauração (OR), uma das plataformas de dados do país dedicada a esta atividade, foi lançado: de 14,5 mil hectares, o bioma passou a contabilizar quase 40 mil hectares restaurados, um aumento de 173% em quatro anos.

No conjunto dos seis biomas nacionais, o país registra 204,2 mil hectares em processo de restauração, um aumento de 158% em relação a 2021. 

A nova edição do observatório, mantido pela Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, foi lançada em dezembro e está disponível AQUI.

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“Esse aumento vertiginoso pode ser atribuído a diversos fatores, destacando o papel de políticas públicas e iniciativas privadas”, explica Tainah Godoy, secretária-executiva do OR.

“Vemos, nos últimos anos, o aumento da oferta por editais voltados à restauração de ecossistemas, além de ações envolvendo organizações da sociedade civil e empresas. Houve ainda, no ano passado, o lançamento pelo governo federal da iniciativa Arco pela Restauração, que visa recuperar a região do Arco do Desmatamento, onde ocorrem 75% da devastação da floresta”, completa.

A recuperação da vegetação nativa é fundamental para a manutenção do fornecimento de sistemas ecossistêmicos essenciais para a saúde, a produção agrícola, a segurança hídrica, a igualdade social e o desenvolvimento sustentável.

Em sua contribuição ao Acordo de Paris, o Brasil comprometeu-se a restaurar 12 milhões de hectares até 2030 — a meta foi reforçada pelo governo federal em 2024, no Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg). Estima-se que a atividade pode gerar mais de 2,5 milhões de empregos diretos.

Leia também: Projetos buscam restauração ecológica produtiva de áreas degradadas no Amazonas

O OR tornou-se pioneiro na articulação com coletivos atuantes nos seis biomas brasileiros, que reportam dados com base em uma metodologia única, desenvolvida pela gestão da plataforma. 

“O Observatório é uma ferramenta essencial não somente pela contabilização de hectares em si, mas pela articulação e visibilidade aos atores que fazem a restauração acontecer”, explica Godoy. Dessa forma, a plataforma consegue integrar dados de qualidade que trazem a realidade do campo para os tomadores de decisão, como o poder público e investidores.

O processo de coleta e validação dos dados tem, portanto, uma análise diferente da feita por outras instâncias, como o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) — que, em um evento na COP 30, anunciou que o país conta com 3,4 milhões de hectares nesse processo. 

Os indicadores do MMA consideram diferentes dinâmicas de recomposição do território, incluindo extensas áreas de vegetação secundária em regeneração natural — ou seja, florestas que avançam de forma natural e espontânea. Já o OR trabalha com um recorte metodológico específico, baseado em informações autodeclaratórias de empresas e organizações que desenvolvem ações de restauração com algum nível de manejo ou intervenção planejada. 

restauração florestal
Foto: Ronaldo Rosa/Embrapa

A restauração em outros biomas

Segundo o OR, os biomas mais beneficiados com projetos de restauração são a Mata Atlântica (com 131,2 mil hectares mapeados, o equivalente a 64% da área total monitorada) e a Amazônia (39,7 mil hectares, ou 19%). 

No Cerrado, foram identificados 31,7 mil hectares em restauração (15% do território mapeado). Na Caatinga foram compilados mil hectares (0,06%), enquanto o Pantanal soma 280 hectares (0,01%) e o Pampa, 260 hectares (0,01%).

“A Mata Atlântica, Amazônia e Cerrado possuem redes multissetoriais pela restauração, consolidadas há anos, que impulsionam a recuperação de seus biomas. Isso contribui para o engajamento da sociedade, o desenvolvimento de pesquisas e a formação de mão de obra qualificada para a atividade”, ressalta Godoy.

“Já os coletivos da Caatinga, o Pampa e o Pantanal iniciaram recentemente suas operações, e a estruturação de redes leva tempo”.

Nova versão do Observatório

Lançado em 2021, o OR é uma plataforma independente e multissetorial dedicada ao mapeamento de áreas em restauração. Seu comitê gestor é formado por Coalizão Brasil, WWF, WRI Brasil, Imazon e The Nature Conservancy.

Em sua terceira edição, o Observatório da Restauração anuncia a retirada do termo “Reflorestamento” de sua nomenclatura, reforçando seu compromisso exclusivo com a recuperação da vegetação nativa e da biodiversidade. A decisão reflete o amadurecimento técnico e normativo da agenda ambiental, que diferencia claramente a restauração ecológica — voltada à integridade dos ecossistemas — de práticas de reflorestamento associadas a plantios comerciais e espécies exóticas.

Com essa atualização, o Observatório garante maior clareza conceitual e alinhamento com compromissos nacionais e internacionais, como o Planaveg e o Marco Global da Biodiversidade de Kunming‑Montreal.

Nos últimos quatro anos, o grupo gestor do OR dedicou-se à qualificação dos dados, à coleta de novas informações, atualizações em seus processos de monitoramento e ao estabelecimento de parcerias com grupos atuantes no setor de restauração nos seis biomas brasileiros, conhecidos como coletivos biomáticos. São eles:

  • Pacto pela Restauração da Mata Atlântica,
  • Rede pela Restauração da Caatinga,
  • Pacto pela Restauração do Pantanal,
  • Articulação pela Restauração do Cerrado (Araticum),
  • Aliança pela Restauração da Amazônia
  • e Rede Sul — esta última, com atuação no Pampa.

Sobre a Coalizão 

A Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura é um movimento composto por mais de 400 organizações, entre entidades do agronegócio, empresas, organizações da sociedade civil, setor financeiro e academia. A rede atua por meio de debates, análises de políticas públicas, articulação entre diferentes setores e promoção de iniciativas que contribuam para a conservação ambiental e o desenvolvimento socioeconômico do Brasil

Desmatamento: modelos mostram que a floresta amazônica mantém microclima no solo

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Floresta mantém microclima no solo. Foto: Liana Anderson

Um estudo confirmou em microescala o que mostram os modelos sobre o efeito climático do desmatamento em grandes regiões de floresta. Pesquisadores brasileiros, norte-americanos e britânicos usaram imagens de satélite para esquadrinhar a Amazônia.

Eles dividiram o bioma em 204 quadrados com 55 quilômetros (km) de diâmetro, e calcularam a proporção de mata em cada um deles.

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Comparando o clima de regiões desmatadas, com cobertura florestal inferior a 60%, com as mais preservadas, com 80% ou mais de vegetação, eles constataram que a perda de árvores contribuiu para aumentar a temperatura do solo, diminuir a transpiração das plantas e a frequência das chuvas.

“Esse clima afasta as espécies vegetais mais sensíveis da floresta úmida, favorecendo as gramíneas exóticas e outras espécies resistentes ao clima mais seco”, observa o especialista em sensoriamento remoto Marcus Silveira, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Leia também: Desmatamento na Amazônia ameaça igarapés e segurança hídrica

O estudo indica que as regiões com a perda vegetal no estado de Rondônia, no sudeste do Pará e no norte de Mato Grosso são as mais afetadas (Communications Earth & Environment, 21 de novembro).

Estudo aprofunda referências para mapear desmatamento

Desmatamento: modelos mostram que a floresta amazônica mantém microclima no solo
Imagem: Reprodução/Acervo do estudo

Todas essas células da grade estão inteiramente dentro do bioma de floresta úmida, apresentaram perda florestal insignificante entre 2013 e 2021 e foram agrupadas por sua porcentagem de cobertura florestal remanescente em 2021 (≤40%, 40–60% ou 60–80% para células desmatadas e cobertura florestal >80% para células de referência).

A distribuição das diferenças climáticas entre as células desmatadas de cada grupo de desmatamento em comparação com as células vizinhas de referência foi comparada com a distribuição das diferenças climáticas entre as células de referência e suas respectivas vizinhas, como também exemplificado no painel à direita.

As células de referência em verde desbotado foram adicionalmente utilizadas em uma segunda avaliação para gerar, em toda a região de estudo, 1000 amostras aleatórias de 150 pares de diferenças climáticas entre as células de referência e suas vizinhas.

A distribuição original das diferenças climáticas entre as células desmatadas e as células de referência foi então comparada com cada uma das 1000 distribuições de células de referência aleatórias para avaliar a consistência dos padrões a partir dos testes estatísticos. Os mapas base do oceano e do terreno foram obtidos do Natural Earth

Monitoramento do SGB indica recuperação dos níveis no rio Solimões e estabilidade no Negro

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Monitoramento dos rios é realizado pelo SGB. Foto: Chico Batata/Acervo Secom-AM

A última semana foi marcada pela retomada do processo de enchente no rio Solimões, em Tabatinga (AM). É o que indica o 2º Boletim Hidrológico da Bacia do Amazonas divulgado pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB), no dia 13 de janeiro.

De acordo com os dados do monitoramento, o nível subiu cerca de 1 metro e chegou à marca de 7,58 m. Esse comportamento deve ser observado em outras estações da calha nos próximos dias e influenciar também os níveis do rio Negro em Manaus (AM). 

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“Esse cenário já era esperado e a tendência, a partir de agora, é que o processo de enchente seja normalizado na região”, explica o pesquisador Andre Martinelli, gerente de Hidrologia e Gestão Territorial da Superintendência Regional do SGB em Manaus. 

Em Manacapuru (AM), o Solimões apresentou oscilações e está na cota de 13,16 m. O mesmo ocorre com o rio Negro, em Manaus, que chegou a 22,01 m, uma variação de 4 cm em relação aos dados do boletim da última semana. Os níveis estão dentro da faixa de normalidade para o período. 

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Monitoramento do SGB inclui o rio solimões
Rio Solimões. Foto: Liam Cavalcante/Rede Amazônica AM

Já o monitoramento do rio Amazonas registrou redução no ritmo de subida, fazendo com que os níveis ficassem próximos às médias para a época. Em Porto Velho (RO), o rio Madeira continua o processo de enchente e o nível chegou a 11,54 m. 

Ao longo da semana, o rio Acre, em Rio Branco (AC), registrou subida de 2,74 m e ficou acima da faixa de normalidade para o período. Na terça-feira (13/1), a cota observada foi de 13,11 m. 

Enquanto isso, o rio Branco segue no processo de vazante, com estabilidade em Boa Vista (RR) e Caracaraí (RR). As cotas observadas são: 1,27 m e 1,80 m, respectivamente. Há previsão de chuvas com anomalia positiva, o que pode elevar os níveis dentro dos próximos 15 dias, indica o SGB.

Monitoramento dos níveis dos rios

O monitoramento dos rios é feito a partir de estações, que fazem parte da Rede Hidrometeorológica Nacional (RHN), coordenada pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA). O SGB opera cerca de 80% das estações e gera informações que apoiam os sistemas de prevenção de desastres, a gestão dos recursos hídricos e pesquisas. As informações estão disponíveis na plataforma SACE e são atualizadas diariamente. 

*Com informações do SGB

Parceria internacional fortalece pesquisas arqueológicas em reserva extrativista no Pará

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O objetivo das pesquisas científicas é desenvolver, por meio de ciências participativas, estudos em sambaquis. Foto: Divulgação/ICMBio

O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) acompanha a segunda etapa do projeto: ‘Janelas para a biodiversidade do baixo Amazonas (JABBA): contribuições dos sambaquis do passado para a preservação ambiental no presente amazônico’, em execução na Reserva Extrativista (Resex) Verde para Sempre, localizada no Município de Porto de Moz, no Pará

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O projeto, coordenado por pesquisadores da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA) e do Museu Nacional de História Natural de Paris, combina a escavação arqueológica no sítio arqueológico Munguba com atividades de difusão científica junto à comunidade local, Nossa Senhora de Nazaré.

Pesquisas na Resex Verde para Sempre
O projeto de pesquisas conta com a participação de estudantes, professores, pesquisadores e colaboradores de instituições brasileiras e do exterior. Foto: Ronald Azulay/ICMBio

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O objetivo da iniciativa científica é desenvolver, por meio de ciências participativas, estudos em sambaquis (termo de origem tupi-guarani, no qual tamba significa “concha” e ki, “amontoado”), antigos monumentos indígenas construídos por uma mistura de sedimentos diversos, conchas de moluscos, restos de peixes e outros materiais orgânicos e minerais.  

Estes sítios arqueológicos possibilitam compreender as antigas arquiteturas desenvolvidas pelos povos que habitaram o Baixo Amazonas e o manejo das paisagens de várzea ao longo do tempo.

Nesse contexto, o eixo central do projeto consiste em analisar as transformações da biodiversidade a partir do cruzamento de dados arqueológicos com informações contemporâneas sobre as várzeas amazônicas, com foco especial nas áreas localizadas entre os Rios Tapajós e Xingu, caracterizadas por um expressivo vazio de pesquisas tanto nas áreas da biologia quanto da arqueologia. 

“Os sambaquis são sítios que possuem uma conservação excepcional dos restos orgânicos, assim, esta descoberta representa uma grande oportunidade para compreender melhor como as populações que os construíram se relacionavam com o meio ambiente”, destaca a pesquisadora Gabriela Prestes Carneiro, professora no Museu Nacional de História Natural de Paris e colaboradora do Programa de Pós-graduação em Antropologia e Arqueologia (PPGAA) da UFOPA. 

Ela continua que o sambaqui era conhecido pela comunidade como um “pedral” e foram os próprios moradores da Resex que entraram em contato com os profissionais de arqueologia, que só chegaram à área em 2022.

Nesta última escavação em 2025, foram encontradas diversas camadas arqueológicas que estão sob esse pedral, incluindo madeiras, possivelmente esteios de casas, pranchas instaladas antes da construção do sambaqui ou até estruturas de palafita.  

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Pesquisas com atividade de escavação para a turma de arqueologia mirim da Escola Nossa Senhora do Carmo. Foto: Divulgação/Projeto Jabba

Durante as pesquisas de campo, o projeto contou com o apoio de especialistas em madeira. O objetivo do trabalho com as madeiras será de identificar espécies e analisar anéis de crescimento para tentar correlacioná-los a mudança climática. 

Também buscou-se refinar as primeiras datações, que apontam que o sambaqui foi ocupado entre 3.800 e 500 anos atrás, por diferentes grupos humanos, associadas a diferentes estilos cerâmicos. Também serão estudadas a vegetação e a fauna no entorno para entender se as condições ambientais no período em que o pedral estava sendo construído se aproxima das atuais. 

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Até agora, em termos de biodiversidade, foi observada uma grande variedade de espécies de peixes típicas de águas calmas, como pirambóia, pirarucu e muçum. Além dos peixes, neste sítio também havia consumo de tartarugas, jabutis, jacarés, peixes-boi, veados e porcos-do-mato.

Em relação à vegetação do sítio, vestígios botânicos demonstram que, no período das primeiras ocupações, o ambiente era diferente, pois foram encontradas uma grande quantidade de sementes e restos de espécies vegetais que hoje não ocorrem na várzea da região, como taperebá, uxi, maracujás variados, indicando que o sítio era rico em espécies frutíferas consumidas pelos habitantes, como informa a profa. Myrtle Pearl Shock, da UFOPA.  

O sítio Munguba 

De acordo com os pesquisadores, o sítio precisa ser entendido como um monumento construído para ser visível e marcante para as populações indígenas do passado. São cerca de 60 sepultamentos registrados até o momento. Por isso, a equipe também é composta por especialistas em arqueologia funerária, que investiga gestos e práticas relacionadas ao cuidado com os mortos.  

Dada a conservação excepcional dos restos orgânicos no sítio Munguba e a variedade de material arqueológico encontrado, segundo a equipe coordenadora do projeto, vários anos serão necessários para que se possa compreender os povos que construíram os sambaquis e como eles se relacionavam com o meio ambiente.

Ainda assim, já se sabe que estes povos fizeram o manejo da biodiversidade das paisagens de várzea da Amazônia, trazendo e levando espécies de plantas, estabelecendo redes de troca de pessoas e materiais com várias outras regiões como Santarém (PA) e o estuário do Amazonas, região complexa e vasta, caracterizada por ser uma foz mista e um dos maiores arquipélagos fluviais do mundo, dominado pela Ilha do Marajó (PA). 

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Imagem: Reprodução/ Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade

Diálogo com a comunidade 

Antes da realização das etapas de campo, o projeto tem se reunido com a comunidade Nossa Senhora de Nazaré para fazer os pedidos de autorização e organizar em conjunto as atividades das pesquisas, de maneira a envolver diferentes públicos. Em especial, os alunos da escola mais próxima, a escola Nossa Senhora do Carmo, que atende crianças de 5 a 11 anos. 

Tendo em vista que a etapa de campo reúne falantes de várias línguas, a demanda das professoras no último ano foi desenvolver com as crianças uma pequena iniciação a línguas estrangeiras, como o inglês e o francês.

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Além das línguas, as crianças foram recebidas no sítio arqueológico onde realizou-se uma oficina de escavação de arqueologia mirim e de produção de pigmentos naturais.

  • O projeto conta com a participação de estudantes, professores, pesquisadores e colaboradores de instituições brasileiras e do exterior. Pelo Brasil: 
  • Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA),
  • Universidade Federal do Amazonas (UFAM),
  • Universidade Estadual do Amazonas (UEA),
  • Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), 
  • Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) 
  • e Universidade de São Paulo (USP).

Na França: o Museu Nacional de História Natural de Paris e Université Paris 1 Panthéon Sorbonne. Da Alemanha: Max Planck Institute for Evolutionary Anthropology. 

Ao permitir compreender práticas de uso e manejo sustentável da paisagem ao longo do tempo, evidenciar patrimônio cultural associado à paisagem, e gerar conhecimento que subsidia estratégias atuais de proteção e gestão territorial, o projeto arqueológico contribui para a conservação da Resex Verde para Sempre. 

*Com informações do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade.