Moradores da comunidade indígena Tatuyo se unem em projeto de reflorestamento. Foto: Reprodução/Rede Amazônica AM
Um projeto de reflorestamento intitulado ‘Reflora’ está mudando a realidade de comunidades indígenas em Manaus (AM). A iniciativa transforma áreas degradadas em agroflorestas sustentáveis, unindo saberes tradicionais e ciência para recuperar a floresta e gerar renda sem destruir o meio ambiente.
Na comunidade Tatuyo, localizada às margens do Rio Negro, na zona rural de Manaus, mudas de árvores nativas, como andiroba e castanheira, são cultivadas. Garantir que o reflorestamento seja feito de maneira adequada no local é a realização de um sonho antigo, garante o ribeirinho Edmildo Pimentel Yhepassoni.
“Há muito tempo eu sonhava com isso, mas não tinha como buscar conhecimento. Hoje em dia, graças a Deus, esse sonho está sendo realizado. Eu coleto sementes, ando por onde me convidam, falo sobre reflorestamento, porque precisamos recuperar a Amazônia. Isso não é só para nós aqui, é para todo mundo”.
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A esposa, Carmen, vê no reflorestamento uma forma de garantir o futuro da família. “Eu quero que meus filhos, meus netos, plantem junto comigo. Que todos trabalhem juntos para que isso cresça e se torne algo grande.”
A nova geração também está comprometida com o futuro da floresta. Santiago, filho de Edmildo, vê no projeto uma oportunidade de garantir um futuro mais sustentável para a comunidade.
“Daqui a alguns anos, isso aqui vai estar com árvores altas, que dão semente, frutos, sombra. Vai ser melhor, porque daqui pra frente, a gente vai plantar agora, vai ter pequenas árvores, mas logo estarão grandes, pra nossos filhos colherem e plantarem”.
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Apoio técnico e desafios do projeto
O projeto Reflora, do Instituto de Pesquisas Ecológicas (Ipê), fortalece comunidades locais e dá suporte técnico. Segundo o coordenador executivo Paulo Roberto Ferro, a iniciativa nasceu da própria demanda dos moradores.
“O projeto surgiu da própria demanda dos comunitários, o que é mais interessante, porque aí a gente está surgindo como uma instituição apoiando essas atividades vindas da própria comunidade. Isso fortalece ainda mais a Reserva de Desenvolvimento Sustentável e, consequentemente, a cadeia da restauração no estado do Amazonas”, explica.
Um dos maiores desafios é a logística. Para levar mudas até a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Puranga Conquista, em Manaus, foram necessárias até oito horas de barco pelo Rio Negro.
“A dimensão amazônica é tudo maior, mais gigantesca. A logística não deixaria de ser um dos grandes desafios. Muitas espécies vieram de longe, até de Rondônia e da divisa com o Pará. No futuro, a gente quer coletar e produzir as mudas aqui mesmo, reduzindo custos e garantindo espécies mais adaptadas”.
Sistema de agroflorestas
A técnica usada é o sistema agroflorestal, que combina espécies agrícolas, frutíferas e florestais.
“É uma técnica de restauração produtiva que traz retorno econômico e ambiental. A curto prazo entram as agrícolas, a médio prazo as frutíferas e a longo prazo as madeireiras, que podem gerar madeira e outros produtos, como sementes e casca para chá e remédio”, explica a extensionista Ananda Matos.
Em 2025, sete mil mudas de árvores nativas chegaram à reserva, com a meta de restaurar 200 hectares de áreas degradadas e fortalecer a economia local.
Além da recuperação ambiental, o projeto incentiva a geração de renda para 18 comunidades. A coleta de sementes e a produção de mudas abastecem viveiros locais e podem ser usadas até na indústria de cosméticos e medicamentos.
“Sustentabilidade não é só conservar a floresta, mas também gerar renda para quem mora aqui. O projeto ajuda a fortalecer a economia local, seja pela produção de mudas, pelo manejo sustentável ou pelo uso das sementes”, afirma Paulo Roberto Ferro.
Para Carmen, o maior desejo é plantar para as próximas gerações. “O que eu mais espero é plantar para meus filhos, para os netos, para que todos possam colher no futuro. A gente planta com amor e esperança para o amanhã”.
*Por Breno Cabral, da Rede Amazônica AM
