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Segunda, 10 Mai 2021

Os medos atuais no espaço ribeirinho

 O espaço ribeirinho é repleto de saberes tradicionais, histórias, imaginários, oralidades, mitos e experiências interessantes. A forma de conhecer esse espaço amazônico é por meio de barcos de madeira e lanchas expressos que ajudam nesse deslocamento dos passageiros no rio Madeira e seus afluentes.

A experiência de viajar nos barcos recreios (destinados a passageiros e cargas) na Amazônia acaba sendo fascinante pela oportunidade de conhecer a região amazônica, conviver com os passageiros e moradores, vivenciar o dia a dia das comunidades ribeirinhas, sendo viagens com duração de horas ou dias, dependendo do itinerário escolhido.

Barco recreio no terminal de passageiros em Porto Velho - Foto: Mario Venere

Atualmente, existem dois medos que fazem parte do cotidiano das populações ribeirinhas: pandemia da Covid-19 e enchente, sendo o primeiro determinante na hora de optar ou não por viajar de barco, em razão da aproximação dos passageiros ser inevitável, colaborando para a disseminação da Covid-19.

A pandemia da Covid-19 aprofundou mais os problemas sociais e ambientais existentes, desde a falta de saneamento básico, destinação correta dos resíduos sólidos que acabam sendo lançados nos rios da região, o precário fornecimento de água potável e acesso ao atendimento básico de saúde, sendo alguns dos problemas agravados.

O Novo Coronavírus tem afetado comunidades ribeirinhas, causando óbitos e a maneira de prevenção tem sido a medicina tradicional com uso de plantas para chás, rezas e emulsões naturais (garrafadas) dando alívio e conforto àqueles que precisam de cuidados e auxílios. Há todo tipo de receita caseira tradicional para ajudar a vencer o medo da pandemia nesse cenário de guerra, dores, tristezas e perdas. 

Jirau de plantas medicinais, comunidade de Calama no Baixo Madeira - Foto: Lucileyde Feitosa

 O segundo medo presente no espaço ribeirinho é a enchente, uma vez que altera drasticamente o viver ribeirinho, pois traz inúmeros prejuízos, desde a casa atingida com água ou soterramento e condições desfavoráveis de sobrevivência. E os moradores são obrigados a deixarem suas casas por questões de segurança, monitoramento e proteção à vida.

A enchente em 2014, por exemplo, na cidade de Porto Velho arrasou muitas das comunidades ribeirinhas, deixou escolas e casas soterradas, cemitérios alagados, águas contaminadas, vestígios até hoje de maior incidência de urubus, cobras (pico de jaca/surucucu, coral e jararaca) e roedores. Esse cenário evidencia um modo de vida ribeirinho resistente frente às ações públicas não priorizadas adequadamente no interior da Amazônia. 

Enchente de 2014 na Estrada de Ferro Madeira Mamoré - Foto: Mario Venere

Associa-se a esses fatores, a falta de divulgação de Plano de prevenção e gestão de riscos naturais e desastres ambientais junto às populações ribeirinhas, o que ajudaria no enfrentamento dos medos, no fortalecimento da comunicação comunitária, na diminuição da disseminação da Covid-19, evitando surtos de doenças como dengue e malária.

O espaço ribeirinho não estar alheio a pandemia e nem a chegada da enchente. Se tivéssemos rádios comunitárias ajudariam muito no fortalecimento das identidades regionais, na proteção à vida, com ações voltadas ao enfrentamento da pandemia e suas variantes, da enchente e combate às desinformações e fake News existentes.

Que esta experiência de Olhar Amazônia com pertencimento e justiça social possa ser multiplicada para a definição de campos possíveis de ação nas políticas públicas destinadas às populações ribeirinhas. 

Continue nos acompanhando e envie suas sugestões no e-mail: [email protected]



Lucileyde Feitosa

Professora, Pós-Doutoranda em Comunicação e Sociedade (Universidade do Minho/Portugal), Doutora em Geografia/UFPR, Integrante do Movimento Jornalismo e Ciência na Amazônia e colunista da Rádio CBN Amazônia/Porto Velho. 

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