O adeus ao pioneiro Plínio, que testemunhou o surgimento de Vilhena

A trajetória de Plínio atravessa o segundo ciclo da borracha, a chegada da BR-364 e a transformação de um ponto esquecido na Amazônia em município.

Sinal de vida: Seringal do pai de Plínio visto do avião em 1960, em Vilhena. Foto: João Alves Nogueira

Vilhena perdeu nesta quarta-feira, 14 de janeiro, um de seus moradores mais antigos e emblemáticos. “Seu” Plínio José da Silva, de 83 anos, faleceu vítima de insuficiência renal aguda. Nascido em Nobres (MT) em 1942, ele chegou ainda criança à região e se tornou parte fundamental da história local. Mesmo que anonimamente, ele viu a cidade surgir e se desenvolver.

Plínio foi caminhoneiro, agricultor, mas sua identidade esteve ligada à profissão de seringueiro – atividade que marcou a economia e a formação social de Vilhena desde o início do século XX. Filho de Faustino, dono de um dos seringais mais conhecidos da região, Plínio cresceu em meio à extração da borracha, convivendo com indígenas e acompanhando de perto os ciclos da floresta.

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Um homem, muitas histórias

O pioneiro presenciou momentos decisivos, como a visita do presidente Juscelino Kubitschek, em 1960, para inaugurar a rodovia BR-29 (atual BR-364), marco que impulsionou a migração e deu origem à cidade. “Eu tinha 18 anos de idade, e me lembro claramente do JK aqui”.

Ele também viveu os anos de auge e decadência da borracha natural, quando a concorrência internacional e o surgimento do látex sintético reduziram a importância dos seringais amazônicos. Presenciou muito conflitos agrários e indígenas, pandemias, ataques de onças e a chegada dos primeiros moradores da vila. “E segui acreditando na cidade, mas nunca pensei que Vilhena fosse ganhar as proporções atuais”, destacou, em entrevista.

“Aqui era tudo mato. Percebíamos o encontro do cerrado com a Amazônia, bem aqui onde é o centro da cidade. Aqui é a junção de dois biomas e o tipo de vegetação mudava, claramente”, dizia.

Plínio veio morar em Vilhena quando a região ainda pertencia ao estado do Mato Grosso. “Eu tinha pouco mais de um ano quando foi criado o Território Federal do Guaporé, em 1943. Meu avô, Afonso Mansur, era indigenista, trabalhava junto aos Nambiquara, e já morava na região”, contava o pioneiro, que passou uma temporada no Mato Grosso, para estudar, mas logo voltou ao velho Guaporé e aqui se fez raiz. “Assisti a todos os ciclos econômicos e políticos”.

O seringueiro e a indígena

Casado desde 1962 com Brasilina Zonoecê – com ele na foto à esquerda – , indígena que vivia na Casa de Rondon [como era conhecido o posto telegráfico], filha do telegrafista Marciano Zonoecê – nome histórico da região, falecido na década de 1990 –, Plínio construiu uma família numerosa e deixou cinco filhos, além de netos. “Quem celebrou nosso casamento foi o Padre Rohl, um alemão. Casamos lá no Seringal do Faustino, meu sogro”, contou a viúva, aos 87 anos, na noite do velório de Plínio.

A Família Zonoecê é o primeiro núcleo fora das aldeias indígenas a se estabelecer em Vilhena, há 83 anos. Coincide com a época do nascimento de Plínio. A trajetória dele mistura a memória dos seringais, a luta pela sobrevivência e a transição para a agricultura e pecuária, após a decadência da borracha.

GUARDIÃO DA MEMÓRIA 
– Plínio, em 2023, segura o quadro com fotos de seus pais e irmãos; 
ele aparece na terceira posição da fila superior, 
da esquerda para a direita. 
(Foto: Júlio Olivar)
Guardião da Memória: Plínio, em 2023, segura o quadro com fotos de seus pais e irmãos; ele aparece na terceira posição da fila superior, da esquerda para a direita. Foto: Júlio Olivar

Vida nos seringais e legado

Plínio relatava que os trabalhadores acordavam de madrugada para sangrar até 200 árvores por dia, enfrentando chuvas, animais selvagens e doenças. A produção era levada em tropas de bois e burros, somando dezenas de toneladas por ano. Ele se considerava um “soldado da borracha”, responsável por manter viva uma atividade que sustentou gerações.

Sua vida atravessa os ciclos da borracha, da chegada dos migrantes e da transformação da vila em município. O velório aconteceu em sua residência, na avenida Beira-Rio, onde a família Zonoercê-Silva foi a primeira a se instalar. A quantidade de amigos que passaram pelo local em homenagem ao decano comprova o quanto ele era querido. Sobre o caixão, permaneceu uma camiseta que ele usava para frequentar o Terço dos Homens, um movimento da Igreja Católica.

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Sobre o autor

Júlio Olivar é jornalista e escritor, mora em Rondônia, tem livros publicados nos campos da biografia, história e poesia. É membro da Academia Rondoniense de Letras. Apaixonado pela Amazônia e pela memória nacional.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

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