Roraima no MASP

A exposição ‘Árvore da vida’ reúne obras da artista Carmézia Emiliano Williams, da comunidade indígena macuxi do Japó, no município de Normandia. Ela é a primeira artista plástica indígena do Estado a realizar uma exposição no Museu de Arte de São Paulo.

Está marcada para amanhã, dia 23 de março de 2023, a partir das 20h, a abertura da exposição ‘Árvore da vida’, que reúne as obras da artista Carmézia Emiliano Williams. Nascida na comunidade indígena macuxi do Japó, no município de Normandia, em Roraima, ela é a primeira artista plástica indígena de Roraima a realizar uma exposição dos seus quadros no mais prestigiado museu de arte do Brasil, o Museu de Arte de São Paulo, o MASP.

Carmézia Emiliano. Foto: Marcus Lyon

Ela percorreu um longo caminho até chegar ao MASP. Tudo começa quando ela deixa a comunidade do Japó e vem para a cidade de Boa Vista, capital de Roraima, no final dos anos 80. Depois de algum tempo na cidade ela conhece e se casa com o pernambucano de Caruaru, Leonildo Assis, artista circense, conhecido como Léo Malabarista ou Palhaço Léo.Há muitos anos ele é dono do único Circo em atividade no Estado de Roraima. Quando Carmézia casou com Léo Malabarista ela já era mãe de dois filhos pequenos. Esses dois meninos foram adotados por Léo, criados no Circo e ainda hoje trabalham no elenco. Léo e Carmézia tiveram dois filhos, um menino e uma menina que também foram incorporados ao trabalho no circo.

A própria Carmézia trabalhou durante anos no Circo. Ela cuidava da produção e venda de pipocas e maçãs do amor para o público presente aos espetáculos. Na companhia do Palhaço Léo, Carmézia passou a frequentar os espaços culturais da cidade de Boa Vista, conhecer artistas e participar do meio cultural. Um dia, em 1991, visitando uma exposição de artes plásticas na Galeria Cunhã, espaço que funcionava na sala da minha casa, olhando os quadros, Carmézia me confidenciou que se tivesse material de pintura, tela, pincel e tinta, seria capaz de pintar quadros também. Nem hesitei, fui ao ateliê do meu irmão, Elieser Rufino, que é artista plástico, e doei seis telas, tubos de tinta e pincéis.

‘Cavalo selvagem’, coleção pessoal de Eliakin Rufino. Foto: Eliakin Rufino/Acervo pessoal

Moringa criada por Carmézia, peça particular exclusiva da coleção de Eliakin Rufino. Foto: Eliakin Rufino/Acervo pessoal

Para minha surpresa, em poucos dias, recebi a visita de Léo e Carmézia. Ela havia pintado o primeiro quadro e me trouxe de presente. Fiquei emocionado pelo gesto e mais emocionado pelo conteúdo da obra: um buritizal típico da paisagem de Roraima estava ali com detalhes, animais bebendo água, pássaros que fazem ninho nos buritizeiros, pormenores que estavam na memória, imagens da infância na comunidade indígena. E aí Carmézia não parou mais, embora esteja vivendo há mais de trinta anos em Boa Vista, ela continua pintando as cenas da paisagem e do dia-a-dia da comunidade do Japó. Carmézia recria o Japó e emociona todos nós.

Carmézia Emiliano. Foto: Amanda Carneiro

E aí vieram as exposições individuais e coletivas, os convites, a venda dos primeiros quadros, os elogios ao trabalho, o reconhecimento. Se para mim é motivo de orgulho ter dado o primeiro material, meus aplausos nesse momento que Carmézia chega ao MASP vão para o roraimense José Augusto Luitgards Moura, que estendeu a mão e conduziu Carmézia nos últimos vinte anos, buscando espaço para o seu trabalho, acreditando no seu talento. Foi assim que Carmézia começou brilhando na Bienal de Arte Naif de Piracicaba. Augusto Moura, com seu trabalho de promoção da arte de Carmézia, é o responsável pela sua chegada ao MASP.

Com essa trajetória existencial extraordinária, Carmézia está preparada para sua estréia amanhã. Seu trabalho, original e criativo, retrato vivo da vida em uma comunidade indígena em Roraima, vai agora para o mundo. Todos nós que acompanhamos e participamos ao longo desses anos do seu trabalho, estamos felizes e orgulhosos em ver Carmézia fazendo sucesso com os seus quadros. Mulher indígena de Roraima, talento e arte, no MASP.

‘Árvore da vida’, trabalho que dá nome à exposição. Foto: Eliakin Rufino/Acervo pessoal

Convite da exposição. Foto: Divulgação

Sobre o autor

Eliakin Rufino é poeta, compositor, professor e filósofo. Nasceu e reside em Boa Vista, Roraima.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista 

Publicidade
Publicidade

Relacionadas:

Mais acessadas:

Abelhas são fonte de renda extra para agricultores familiares no Mato Grosso

Projeto Semêa, realizado pela Fundação Bunge, incentiva o uso de abelhas para fomentar agricultura regenerativa e de baixo carbono.

Leia também

Publicidade