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Segunda, 12 Abril 2021

Hanseníase: a doença que machuca e não causa dor física

Manchas avermelhadas, esbranquiçadas e alteração na sensibilidade da pele: essas são algumas características da hanseníase. A doença que não causa dor física e sim feridas na alma. O Brasil ocupa o segundo lugar no ranking mundial de casos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) coletou dados em 2017 que mostram que mais de 210 mil casos foram registrados em diversos países.

Em Rio Branco, os dados do Sistema de Informação Nacional de Agravos de Notificação mostra que a hanseníase se manteve estável nos últimos anos, um total de 46 casos novos identificados, ao contrário de décadas atrás, onde Rio Branco já chegou a agregar 1.606 hansenianos, incluso os já 400 de 1927.

Adelaide Apolônio dos Santos é amazonense e vive há 61 anos na Acolhida Souza Araújo e trata da doença. Ela descobriu a hanseníase com 7 anos de idade e aos 18 chegou na Colônia, ela conta como foi difícil ficar longe da família, pois a doença afastou seus entes. Além do enfrentamento do medo, já que a hanseníase é contagiosa.

Com medo do contágio, comunidades foram isoladas e a desinformação deu lugar ao preconceito. A rejeição à doença fez com que milhares de pessoas se sentissem desamparadas e sozinhas.

Adelaide conta que gosta de escutar rádio e também gosta de assistir os jornais. "Eu acordo todo dia às 4 horas da manhã e faço meu café. Quando eu era jovem, gostava de dançar samba break, eu gostava e gosto de viver. A vida é um romance, única herança que Deus dá para nós".

Com medo do contágio, comunidades foram isoladas e a desinformação deu lugar ao preconceito. (Foto: Danna Anute/Secom)

"Eu me machucava e não sentia dor"

João Pinto de Mesquita conta que está na Colônia Souza Araújo pela segunda vez. "Vai fazer 3 anos, mas antes disso eu passei 2 anos. Nasci no Ceará, em Serra Grande, mas me criei no Acre. Notei que estava com hanseníase com 25 anos, pois pegava febre. Eu cortava seringa, fazia muita borracha, era muito trabalhador", explica.

Mesquita enfatiza que descobriu que estava doente pois se machucava, mas não sentia a dor. "Então, eu falei com meu irmão que achava que estava doente! E disse a ele que estava com o 'mal da pele', na conversa, meu irmão disse que iria me ajudar e isso fica só entre nós, não precisa falar pra ninguém, pois tu sabe como é nossos outros irmãos. Quando meus irmãos souberam que eu estava com hanseníase, eles se afastaram de mim, até minhas roupas, minha tia parou de lavar. Eu notei que meu outro irmão deixou de conversar comigo. Mas esse meu irmão, Antônio, nunca me desprezou, disse que estaria ao meu lado acontecesse o que acontecesse", conta emocionado.

Quando indagado pelas dificuldades que passou durante a descoberta da hanseníase, João disse que passou por muitas coisas, o preconceito das pessoas. "As pessoas não gostavam de mim, alguns até me xingavam, apesar disso eu nunca ficava magoado, pois muita gente me tratava bem, e eu ia passando. Tinha aquela fé, pois eu pedia a Deus esperança, eu tinha um sonho, e Deus foi me dando. Fui me cuidando por meio dos remédios e fui melhorando. O trabalho me ajudou muito", explica.

"Tive um patrão que gostava muito de mim, e certa vez a gente conversou e ele perguntou: 'João, tu é feliz do jeito que você hoje é?' Respondi para ele que me sentia feliz, pois isso não aconteceu só comigo, isso aconteceu com várias pessoas, e eu não sou culpado por isso. Estou vivo e com esperança, na hora, meu antigo patrão começou a chorar", relata João Mesquita. 

Me sinto feliz, pois isso não aconteceu só comigo, isso aconteceu com várias pessoas, e eu não sou culpado por isso. (Foto: Danna Anute/Secom-AC)

Como tratar a doença

O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece tratamento gratuito. Quanto mais rápido a pessoa procura um médico, e dá início aos cuidados, menores são as chances de incapacidades físicas e transmissão da bactéria.

No Acre, a Fundação Hospitalar tem dado assistência integral às pessoas que foram acometidas pela hanseníase, a coordenadora estadual do Serviço de Dermatologia e fisioterapeuta, Franciely Gomes Gonçalves, conta que os pacientes encontram todo o apoio que precisam. "A Fundhacre oferece o serviço especializado, onde o paciente vai passar pelo hansenólogo, quando necessário, e encontra o acompanhamento de um fisioterapeuta, enfermeiro e ortopedista", explica.


Na Fundhacre é feito o diagnóstico e tratamento dos casos de hanseníase, principalmente quando os municípios têm dificuldades com essa primeira análise. Gonçalves explica que o diagnóstico deve ser feito na unidade básica de saúde. "O paciente, ao se autoexaminar e encontrar algumas manchas que não dói, não coça e não incomoda, deve procurar a unidade de saúde mais próxima da residência. Depois de exames, o paciente começa o tratamento, em casos iniciais da doença. O tratamento dura seis meses, e os casos mais avançados, um ano de tratamento", comenta.

Hanseníase em Rio Branco e a Colônia Souza Araújo

A história da hanseníase em Rio Branco começa com a colônia Souza Araújo. Em 1927, o local era conhecido como leprosário, nesse período, o governo isolava as pessoas com a doença. A colônia mantinha 30 hansenianos fora do convívio social, mas em alguns anos ela passou a abrigar 400 hansenianos. Já no ano de 1947, médicos, religiosos e políticos solidarizados com a situação de exclusão de homens e mulheres reuniram-se e trabalharam para melhorar as condições de assistência e acompanhamento médico, isso ajudou a diminuir a carência de atenção aos pacientes.

Atualmente, a Acolhida Souza Araújo está localizada na BR 364, KM 10. A obra social faz parte de uma das ações da Diocese de Rio Branco. (Foto:Danna Anute/Secom-AC)

Atualmente, a Acolhida Souza Araújo está localizada na BR 364, KM 10. A obra social faz parte de uma das ações da Diocese de Rio Branco. Os internos contam com atividades de de computação, alfabetização e passeios. Além disso, psicóloga, assistente social e nutricionista fazem visitas periódicas para debater sobre temas que despertam o interesse dos internos.

O que é a hanseníase?

A doença é causada pela bactéria Mycobacterium leprae. Até a década de 1970, era chamada simplesmente de lepra. Um tempo depois, a doença passou a ser chamada de hanseníase.

Ardência nos olhos, diminuição da força muscular, inchaço, formigamento, sensação de choque e nariz entupido, são sintomas da doença. A transmissão ocorre, principalmente, pelo contato com pessoas já infectadas.

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