Rondonienses relembram 10 anos da cheia histórica do Rio Madeira

O pico da cheia foi no dia 30 de março de 2014, quando o rio chegou ao nível de 19,74 metros: o mais alto já visto em séculos.

Nas paredes de residências, em pontos turísticos e históricos e, sobretudo, na memória da população ainda existem as marcas do maior desastre natural que já ocorreu em Rondônia: a cheia histórica do Rio Madeira, em 2014. 

“É uma coisa que a gente não gosta nem de lembrar”, comenta Nájila, líder comunitária de São Carlos, comunidade ribeirinha do Baixo Madeira, em Porto Velho.

Os relatos remontam o cenário: mais de 30 mil famílias atingidas em 17 bairros, três distritos e todas as comunidades ribeirinhas da capital rondoniense. Cidades como Cacoal, Rolim de Moura, Pimenteiras do Oeste, Costa Marques e Guajará-Mirim também foram afetadas.

O pico da cheia foi no dia 30 de março de 2014, quando o rio chegou ao nível de 19,74 metros: o mais alto já visto em séculos; quase três metros acima da cota de inundação.

Cheia afetou estradas de Rondônia, como por exemplo, o tráfego na BR-364, que liga o Estado ao Acre. Foto: Reprodução/Governo do Acre

Rápido e furioso 

Residências, comércios, cemitérios e pontos turísticos/históricos: tudo foi inundado pela água do rio Madeira em grande velocidade e uma força feroz nos meses de fevereiro e março de 2014. São Carlos foi uma das 50 comunidades ribeirinhas de Porto Velho atingidas pela cheia.

“Nós tivemos famílias que não saíram [da comunidade]. Morava por cima das tábuas, dentro de casa e ficaram lá com medo de perder sua moradia”, relembra Nájila.

Uma dessa famílias foi a de Leonor. Ela viu todo mundo sair de casa às pressas, mas decidiu ficar, junto com o marido. Por meses, eles “acamparam” em um barco, próximo à residência, esperando a água baixar.

Diversos moradores, das zonas ribeirinhas e da zona urbana, viram suas casas e estabelecimentos comerciais destruídos e as plantações que garantiam o sustento das famílias debaixo d’água.

“Eu nasci e me criei aqui [na zona ribeirinha]. Passei duas enchentes grandes: a de 1997 e a de 2014. Em 2014 foi quando eu mais chorei, todo dia eu chorava. Perdi a minha casa, perdi tudo. Nossas plantações centenárias que meu avô plantou, perdemos tudo”, relembra Severino Nobre, morador da comunidade de Cujubim Grande, no Médio Madeira.

Bens históricos da capital também foram invadidos pelas águas do Madeira: o Complexo Turístico da Estrada de Ferro Madeira Mamoré, obra centenária e patrimônio histórico nacional, ficou praticamente embaixo da água.

“Nós saímos em um dia, quando retornamos no dia seguinte a água já estava em torno de 30 cm dentro dos pavilhões, inclusive dos museus. Nós passamos aquele desespero para levantar as peças do museu, quando foi no fim da tarde, a gente já cansado, a água já tava quase onde a gente tinha botado as peças”, relembra o ferroviário Antônio Moisés.

Isolados 

O fornecimento de água potável de quatro distritos foi interrompido e a energia elétrica foi desligada em vários pontos de Porto Velho, segundo a Defesa Civil.

Além disso, a economia da região foi intensamente afetada. A região portuária foi comprometida, dificultando a distribuição de bens, combustíveis e alimentos para Rondônia e outros estados.

Grande parte da BR-364 ficou coberta por água, afetando um dos principais corredores logísticos da região Norte. Como a rodovia é a única via terrestre que liga o Acre ao restante do país, o estado ficou isolado e enfrentou um dos momentos mais críticos. O governador em exercício à época chegou a decretar estado de emergência.

Secom Acre/Arquivo

A luta e a reconstrução 

Por meses, órgãos como Corpo de Bombeiros, Defesa Civil e as administrações públicas estadual e municipal se empenham para socorrer e subsidiar as famílias afetadas pela cheia histórica.

Uma das forças que integrou as equipes de socorro foi o sargento do Corpo de Bombeiros, Silveira. Nascido e criado em São Carlos, ele precisou voltar ao local de origem para pedir que as pessoas abandonassem as próprias residências por causa do risco que corriam.

“Acompanhei todo o sofrimento sendo que eu fui criado aqui. Foi complicado ver as pessoas com aquela esperança de que o rio não subisse tanto e a gente tendo que aconselhar e convencê-los a sair. É complicado a pessoa sair do seu lar”, conta.

Depois de meses, quando as águas finalmente baixaram e as famílias retornaram para suas casas, foi iniciada uma força tarefa para reconstrução do lar e das próprias histórias .

“Tivemos apoio dos governantes? Tivemos. Mas a maior força foi a nossa. A vontade de sair para onde nunca deveríamos ter saído”, relembra Nájila.

Depois de tudo limpo e reerguido, as marcas do que aconteceu em 2014 são permanentes, tanto nas paredes da residência de Leonor, nas colunas da igreja histórica de São Carlos e na memória de todo mundo que presenciou o maior desastre natural de Rondônia.

Foto: Ivanete Damasceno/Rede Amazônica

 Evento histórico e incomum

“O que aconteceu em 2014 foi um evento muito atípico. Se a gente pegar a série histórica, não consegue notar uma tendência. […] Desde 1971 essas cheias acontecem mais ou menos dentro de uma média. Essa de 2014 escapou totalmente deste ‘normal'”, aponta o Pesquisador em Geociências pelo Serviço Geológico do Brasil, Marcus Suassuna.

O rio Madeira é um dos maiores do Brasil e banha três países: Brasil, Bolívia e Peru. De acordo com pesquisadores, a cheia de 2014 foi motivada por chuvas extremas e constantes em toda a Bacia do rio.

“A gente naquele ano viveu um fenômeno. Geralmente em dezembro e janeiro é muito comum que a Amazônia envie chuva pro restante do Brasil. Cria-se um corredor de umidade. Naquele ano esse corredor não se formou. É como se a umidade atmosférica tivesse ficado represada na Amazônia”, explica Rafael Franca, doutor em Geografia e Climatologia.

O extremo oposto 

Dez anos depois da cheia histórica do rio Madeira, a preocupação de pesquisadores, especialistas e órgãos responsáveis pelo monitoramento do rio é outra: a seca extrema. Em 2023, o Madeira ficou abaixo de 1,20 metros: o menor nível da história.

Montanhas de pedras e bancos gigantes de areia se formaram onde antes só era possível ver água. A paisagem de água em abundância se transformou em uma imagem semelhante ao deserto. As famílias ribeirinhas que antes tiveram as casas invadidas pela água sofreram justamente pela ausência dela.

“Aqui tá todo mundo sem acesso à água potável, os poços secaram e a água [que restou] está amarela, suja. Está uma crise horrível, tudo seco, as praias enormes”, relatou Severino Nobre, à época.
Meses depois da escassez de água, os órgãos competentes preveem uma seca ainda mais severa no estado de Rondônia.

“Hoje a gente tá em um cenário muito diferente. O esperado para esse período do ano seria algo em torno de 14 metros: o rio está bastante baixo. A estação chuvosa começou tardiamente e está bem fraca. Das piores secas [da história], quatro aconteceram nos últimos anos”, comenta Marcus Suassuna.

Nas comunidades ribeirinhas, o medo da cheia deu lugar a outro:

“Sem água ninguém vive, a água é fonte de vida”, aponta Leonor.  

*escrito por Jaíne Quele Cruz e Isabella Bagni do Grupo Rede Amazônica

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