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Terça, 19 Outubro 2021

Prática de esportes em ambientes externo em Manaus não poderão ser realizadas em 2070. Saiba o por quê!

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O aquecimento previsto para o país nas próximas décadas tornará mais difícil a quebra de recordes em diversas modalidades. No período de 2070 e 2099, elevações bruscas de temperatura, no pior cenário de emissões de carbono, farão com que 12 capitais brasileiras tenham restrições à prática esportiva durante vários períodos do ano. Isso acontecerá caso não se cumpra as promessas de corte de emissões do Acordo de Paris.

Manaus está entre as 12 capitais onde as temperaturas máximas poderão chegar acima dos 32ºC durante o ano todo. De acordo com a Fifa, esse limite é considerado prejudicial para praticar esportes, visto que o limite de tolerância do organismo humano é uma temperatura de 35º de bulbo úmido.

A capital do estado do Amazonas será a mais afetada, caso não se faça nada para conter as emissões de gases de efeito estufa,  poderá tornar-se um lugar vedado ao esporte o ano inteiro.

As elevações de temperatura influenciam diretamente no desempenho do atleta, ou seja, com as temperaturas aumentando cada vez mais, a tendência para os próximos anos é que as disputas esportivas terão como fator preocupante, a fadiga dos atletas mais cedo, mesmo que continuem a prova ou a partida até o fim. Essa fadiga não acontece apenas por uma resposta cardiovascular, já que ocorre uma aceleração do coração, mas também por uma reação neuromuscular. O calor leva à perda de força e à falta de precisão dos movimentos.

O relatório realizado em 2016 pelo Observatório do Clima mostra que temperaturas cada vez mais altas forçarão treinos e competições a horários alternativos, como a madrugada.

De acordo com o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), as amostras feitas em 2013 apontam um planeta mais quente até o fim do século XXI se não for possível conter a emissão de gases de efeito estufa. Em melhor cenário, a temperatura em 2100 aumentará cerca de 1ºC em relação ao período entre 1986-2005. O chamado RCP 8.5, que representa como pior cenário, em consequência do desequilíbrio energético do planeta, no qual a temperatura subiria 3,7ºC. Nos dias atuais, mesmo cumprindo à risca as metas propostas pelos países no Acordo de Paris, o mundo ainda sim, esquentaria até 3,1ºC em comparativo a era pré-industrial.

Foto: Shutterstock

 Para compreender melhor o impacto das mudanças climáticas, são analisados dados comparativos da elevação da temperatura média e a medição dos extremos. É possível analisar, as médias das temperaturas máximas de um ano ou a média das mínimas.

Várias cidades brasileiras têm registros de picos de temperatura máxima nos últimos anos, de acordo com dados do INMET, 4 cidades bateram recordes absolutos de calor. Manaus está registrada como uma das 4, com 39ºC.

Entretanto, o IPCC atua em um levantamento na medida 200 km por 200km, modelo considerado de resolução baixa para uma perspectiva regional baixa, já que alguns processos climatológicos que afetam uma região, ocorrem em pequena escala.

Esses extremos de temperatura e umidade têm impacto direto sobre o organismo humano, Ao longo das últimas décadas, cientistas vêm criando índices para testar a resistência do organismo com temperaturas elevadas, baseado na fisiologia humana. Dois índices são utilizados atualmente em saúde ocupacional: o WBGT (sigla em inglês para "temperatura global do bulbo úmido") e o UTCI (em inglês "índice térmico climático universal")

O WBGT é uma combinação de parâmetros para determinar quanto tempo de exposição um trabalhador suporta o calor antes que o organismo seja prejudicado. Usa-se principalmente dados de temperatura e umidade.

Diferença de temperatura entre o final do século e os dias atuais no Brasil segundo projeções regionalizadas feitas pelo Inpe. Foto: Reprodução

Como o organismo reage em condições normais

Em condições normais de temperatura, os músculos geram calor quando se contraem, as fibras dos músculos esqueléticos, responsáveis pelos movimentos voluntários do corpo, onde sempre eliminam calor. Nos esportes de alto rendimento, como o caso do triatlo, essa liberação cresce em até 25 vezes. Quando o corredor expira, se a temperatura externa é menor do que a do próprio corpo, ele perde até 15% do excesso de calor produzido pelos músculos por condução e os outros 3% pelo vapor que sai junto.

Com isso, o sistema nervoso manda as glândulas sudoríparas aumentarem a produção do suor, que ao evaporar, resfria o corpo.

A temperatura central do corpo deve ficar perto dos 37º C. Já a da pele, 31º visto que o calor corporal reage de dentro para fora.

Reações do corpo com aumento da temperatura

Quando a sensação térmica se iguala à temperatura do corpo, a irradiação e a condução deixam de fazer o efeito necessário, causando sintomas de desidratação como dor de cabeça, contrações involuntárias ou enfraquecimento dos músculos, estômago embrulhado, etc.

Isso acontece quando os neurônios não aguentam a falta de água que se perde com o suor. Em seguida, o atleta apresenta confusão mental e costuma perder os sentidos. Nos casos extremos, a pessoa pode entrar em convulsão e acabar morrendo por desidratação.

A comunicação entre o sistema nervoso e a musculatura também sofrem consequências. Os movimentos se tornam descoordenados e lentos, além da perda da força e contrações por falta de sódios e potássio que perdem através do suor.

Atletas quando não aguentam acabam caindo ao chão por consequências da exaustão, o sangue deixa de circular direito no aparelho digestivo, causando enjoo, como tentativa do organismo para informar o indivíduo para parar.

Atletas começam a sentir umidade em Manaus

O Portal Amazônia entrevistou o atleta de triatlo, Fábio Skar, para saber se as previsões da alta de temperatura e a umidade já começam a serem sentidas nos treinos. De acordo com o atleta, em um de seus treinos, realizado na pista de atletismo, em alguns momentos, sentiu-se mais cansado do que o habitual, como se o corpo estivesse queimando.

Nos treinos de natação, onde a touca acumula líquido junto com o suor e acaba aquecendo, causando uma agonia e ficando mais ofegante.

"Teve um dia de treino que tive que dar um intervalo maior em um dos tiros, tirei aquele líquido, joguei água fria na cabeça e continuei." comenta.

Em casos na trilha, de acordo com Fábio, em uma simples caminhada, a diferença de temperatura é mais sentida, similar a uma sauna. A sensação é como um clima mais pesado e denso.

"Quando eu estudava no ifam, lembro que treinava as 16 horas, era sofrido, mas não tanto quanto hoje. Acho que hoje seria um suicídio até porque o rendimento iria cair, tentei fazer isso, mas a sensação é de cansaço, esgotamento. Então esse horário já não é mais possível, a não ser que o tempo todo se tenha uma hidratação, mas mesmo assim o desgaste é muito." afirma

Adaptação para lidar com o aumento de temperaturas

A Copa do Mundo do Catar, em 2022, será a primeira competição da história a ser disputada nos meses de novembro e dezembro, quebrando a tradição, disputada nos meses de junho e julho. Essa mudança foi feita por conta do calor. Em junho e julho, as temperaturas máximas em Doha chegam a 40ºC.

Além da mudança para o fim do ano, organizadores estão construindo estádios climatizados para a competição, desembolsando US$ 30 bilhões, em torno de R$ 100 bilhões. 

Outra alternativa para lidar com essas mudanças de temperatura, são as alterações dos horários dos treinos e competições para a parte da noite.

Como uma forma de preparar o corpo para o chamado "mormaço" manauara, Fábio Skar intensifica a hidratação em seus treinos com isotônicos e beber bastante água. 

"Eu acompanhei as olimpíadas e vi que muitos atletas caíram, passaram mal e desistiram da prova. Vão chegar um tempo que poucas pessoas conseguiram se adaptar. As competições de corridas serão as primeiras a sentir essa consequências, depois os esportes como futebol, vôlei de praia. Vai chegar um tempo que competições serão feita pela madrugada ou noturna.  A gente está em uma situação irreversível, então fica claro que um dia tudo isso vai parar e não vai mais importar. A questão será a corrida pela vida, é se manter vivo buscando se adaptar de acordo com sua realidade" comenta Skar.

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