Árvore gigante na Amazônia. Foto: Rafael Aleixo/GEA
A Amazônia é uma casa antiga para muitos animais, plantas, árvores e outros ecossistemas, que são importantes para o funcionamento do bioma. Nesse contexto, a existência de árvores centenárias são cruciais para a floresta. Mas, afinal, o que são essas árvores?
De acordo com o pesquisador Diego Armando, coordenador do Centro de Estudos em Ecologia e Manejo na Amazônia, do Instituto Federal do Amapá, uma árvore centenária é aquela que ultrapassa aproximadamente 100 anos, mas, segundo ele, a idade não significa apenas tamanho.
“Muitas espécies amazônicas crescem lentamente e podem levar séculos para atingir dimensões monumentais.
A identificação da idade envolve diferentes técnicas. Em alguns casos, utilizamos trados de incremento para analisar anéis de crescimento, quando presentes. Em outros, recorremos à datação por carbono-14. Também usamos modelagem de crescimento baseada em inventários florestais de longo prazo e tecnologias como LiDAR aerotransportado, que permite analisar estrutura, altura e biomassa com alta precisão”, explica o pesquisador.
O pesquisador analisou que árvores centenárias funcionam como verdadeiros centros de biodiversidade dentro da floresta amazônica. Por serem enormes e terem uma estrutura corporal diferente, criam múltiplas espécies de micro habitats que sustentam uma ampla variedade de organismos.
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Nas copas e troncos dessas árvores é comum encontrar comunidades diversificadas de plantas epífitas (plantas que vivem sobre outras plantas, mas não possuem hábitos parasitas), como bromélias, orquídeas e samambaias, além de líquens e musgos que dependem de superfícies estáveis e de longa duração para se desenvolver. E as árvores centenárias são ideais nesse cenário, segundo Diego.

Além disso, muitas dessas espécies produzem flores, frutos e sementes que são fundamentais para a alimentação dos animais que vivem na floresta, executando um papel importante nas redes de dispersão e na regeneração florestal.
Por reunirem diferentes formas de vida e interações ecológicas em um único indivíduo, essas árvores podem ser consideradas verdadeiros “microecossistemas verticais”, sustentando processos ecológicos que influenciam a dinâmica da floresta como um todo.
Árvores centenárias da Amazônia
O Portal Amazônia, em conjunto com o pesquisador Diego, procurou algumas árvores centenárias que habitam na Amazônia para exemplificar a importância delas ao bioma e ao planeta.
“Cada uma dessas espécies representa não apenas longevidade, mas também papel ecológico estratégico”, afirma Diego.
A Amazônia Legal abriga espécies emblemáticas e longevas, como:
Bertholletia excelsa (castanheira)
A Bertholletia excelsa, é conhecida também como castanheira. Está presente, por exemplo, no Acre, mas é amplamente distribuída e pode ultrapassar 500 anos.
É uma das árvores mais representativas da floresta amazônica, originária das matas de terra firme, e é uma das mais longevas, de maior crescimento em diâmetro do tronco (há registros de indivíduos com mais de 5 metros de diâmetro) e a segunda maior em altura (atinge 50-60 metros de comprimento), ficando atrás apenas dos angelins, conforme a Embrapa.
Leia também: Maior que o cristo redentor: conheça o Angelim Vermelho, a árvore mais alta da Amazônia

Dinizia excelsa (angelim-vermelho)
Angelim Vermelho é registrada no Amapá e Pará, uma das espécies mais altas já identificadas na Amazônia, a mais alta registrada possui 88 metros de altura – algo equivalente a um prédio de 24 andares.
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Dipteryx odorata (cumaru)
Cumaru, cumari, cumbari e sarrapia, ou internacionalmente tonka, fava tonka ou tonka beans. Essa é a baunilha da Amazônia. Seu nome Dipteryx deve-se ao fato de a flor apresentar duas asas e o epíteto odorata é devido ao forte aroma de cumarina, de acordo com informações da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).
Geralmente chega a 30 metros de altura, mas pode chegar a 40 metros ou mais em florestas primárias.

Manilkara huberi (maçaranduba-do-pará)
É uma árvore comum de se encontrar em Roraima, espécie extremamente longeva. Manilkara huberi é uma árvore com cerca de 40-50 m de altura. Ocorre geralmente nas regiões de terra firme da Amazônia de até 700 m de altitude. Dentre as espécies do gênero, Manilkara huberi é a mais conhecida e com a maior distribuição na Amazônia.
Buchenavia huberi (tanimbuca)
A Buchenavia huberi é uma árvore de grande porte, que chega a atingir 45 metros de altura. Em Manaus (AM) há um dos exemplares mais populares, com mais de 600 anos, no Bosque da Ciência, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia.
A tanimbuca é uma árvore comum na região amazônica, e no Bosque ela dá nome à ilha, que contem ainda um córrego com espécies de peixes e quelônios, além de vegetação secundária e com exemplares botânicos úteis e de interesse ecológico, como o apuí.

Ameaças enfrentadas pelas árvores longevas
Apesar de sua importância ecológica, árvores centenárias estão cada vez mais expostas a diferentes pressões. Entre as principais ameaças estão o desmatamento. Diego Armando destaca a exploração seletiva de madeira de alto valor comercial, a expansão de atividades ilegais – como o garimpo – e os impactos associados às mudanças climáticas – que incluem secas mais intensas e aumento da ocorrência de incêndios florestais.
“Diante desse cenário, a preservação dessas árvores depende de um conjunto de estratégias integradas. Entre elas estão o monitoramento contínuo por meio de tecnologias como sensoriamento remoto e LiDAR, a criação e consolidação de unidades de conservação (como por exemplo o Parque Estadual das Árvores Gigantes), o fortalecimento de práticas de manejo florestal sustentável e o reconhecimento do valor dessas árvores em políticas climáticas e mecanismos de pagamento por serviços ambientais”, afirma o pesquisador.
De acordo com o pesquisador, na mesma medida, é importante a integração entre ciência, comunidades locais e gestores públicos.
“Muitas das áreas onde essas árvores ocorrem estão inseridas em territórios tradicionais ou regiões de uso sustentável, e a participação das populações locais é fundamental para garantir a proteção de longo prazo desse patrimônio natural”, conclui Diego Armando.
*Por Karla Ximenes, estagiária sob supervisão de Clarissa Bacellar
