Foto: Jan Santos/Acervo pessoal
Por Jan Santos – jan.fne@gmail.com
Como tenho dito em textos recentes, acredito firmemente que escrever é uma forma de magia.
Não digo isso como um exagero, eu realmente acho que o ato da escrita se trata de uma maneira de afetarmos a realidade de forma quase sobrenatural.
O primeiro texto literário do mundo, afinal, foi escrito por uma alta-sacerdotisa mesopotâmica, Enheduanna, em honra à deusa Inanna. Trata-se de um texto que combina a criação poética com a experiência religiosa, evidenciando que, desde sua concepção, a escrita tem raízes mágicas.
As runas nórdicas, os ogham celtas e até mesmo os salmos cristãos são exemplos de como a escrita é compreendida como uma maneira de organizar intenções para garantir que a realidade seja transformada, ou para que tenhamos alguma forma de controle sobre ela.
Afinal, todos crescemos com a ideia de que “palavras têm poder”.
No livro de Gênesis, vemos que o Deus hebraico formou todas as coisas, mas coube ao ser humano o último ato criador: nomear cada elemento do mundo recém-feito. Em Língua Portuguesa, nossos enunciados (leiam-se “frases”) mais desenvolvidos são compostos de dois grupos de palavras (chamados de sintagmas), cujos núcleos são sustentados por duas classes de palavras em específico: os substantivos e os verbos. Dessa forma, não é estranho que o ato de nomear, de substantivar, dar substância, seja entendido como um ato mágico.
Dando nome, Adão concede a existência às coisas, chamando-lhes à realidade. Se o ser humano é associado à substância no Gênesis, em João, ao lermos que “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”, a construção da frase fica completa, pois o verbo é ação, o substantivo em movimento. Dessa forma, o ato de enunciar – produzir frases – traduz em linguagem a ação que é conferida à matéria, em um movimento consciente de criação verbal.
Nessa compreensão, dar nome é dar vida à matéria, mas é o “sobre-natural” – ou talvez, o ato mais natural do mundo – que lhes anima, que lhes confere alma, que lhes põe em movimento. Proferir (“declarar”, “trazer à frente”) é um ato de poder, daí a noção de que o profeta é quem anuncia as palavras de um ser superior, organizando em palavra, em narrativa, a vontade dos deuses.
Sempre achei curioso a quantidade de sentidos na palavra inglesa “spell”, que se deriva de uma versão arcaica da língua germânica. Em inglês, ela tanto se traduz como “soletrar” quanto “feitiço”, mas não qualquer feitiço: trata-se de um feitiço falado, narrado, uma vez que, em suas raízes germânicas, também se associa com “contar”, “narrar”. Entendo “spell” como “amarrar em palavra”, e se levarmos para o contexto esotérico, relaciona-se com todo ato mágico que envolve a enunciação.
O mesmo se dá com a palavra “maldição”. Do latim “maledicere”, “dizer mal”, refere-se à toda palavra “mal-dita”, dita para o mal. Em nosso contexto ocidental, é a forma mais ilustrativa da relação entre pronunciar e enfeitiçar, uma vez que sua ação, ainda que pouco salientada, é profundamente temida. Afinal, há quem diga que “maldição de mãe” é eterna, e temos medo de falar sobre coisas que tememos justamente pelo medo de atraí-las. Não seria esse um ato de invocação?
Os sons e intenções que amarramos em palavras revelam um potencial imenso, tanto de criação quanto destruição. Nesse sentido, qual seria o papel do escritor, senão acionar os dois gumes dessa lâmina?
Quando falamos de representatividade em mídias, em aqui foco especialmente em literatura, falamos em trazer à existência, por meio da palavra, vivências e experiências que Adão não teve no início dos tempos. Ou que adãos, sendo humanos, não conhecem, de modo que não podem pronunciá-las, dar-lhes vida.
Quando um amazônida fala sobre sua realidade, quando transforma em prosa ou poesia aquilo que sente, que enxerga, que vive, dá forma a um mundo que a maioria das pessoas desconhece. Escrever, assim, é um ato consciente de criação, de manifestação, a revelar um Éden que os adãos ignoram.

Não à toa, os povos indígenas celebram a força ativa da oralidade, pois é na palavra falada que se concretiza matéria e movimento.
As paragens amazônicas, lar de tantas gentes, ainda têm uma infinidade de édens a revelar, pois têm uma infinidade de adãos e evas a contar suas histórias. É nesse ponto que, entre criar e destruir, a escrita também revela sua propriedade mais potente: a de curar.
Nosso passado colonial nos impõe um presente tortuoso, pautado pelas vontades de um mundo que há muito tempo deixou de pensar em magia. Presos apenas na matéria sem movimento, em um substantivo morto, que tem preço mas não valor, somos esvaziados também dessa magia, de uma potência criativa que jaz latente em nosso sangue.
Estamos doentes, fracos, amarrados nos dizeres do expediente.
Quando nos calamos, deixamos de bendizer, de maldizer, de atingirmos uma forma mágica de existência. No entanto, há algo mágico em compartilhar histórias, em saber que não estamos doentes sozinhos, e nisso, encontramos possibilidades de cura.
Escancarar as mazelas de nosso passado colonial e oferecer nossas contribuições para curá-lo é como sarjar um tumor. Aceitar a dor da cura é uma sensação que, me arrisco dizer, toda pessoa que escreve deve abraçar para produzir um bom texto, pois, da mesma forma que o ferimento não foi individual, a cura também precisa ser coletiva.
Contemos nossas histórias, cantemos nossas toadas, tragamos à realidade nossas dores e nossos deleites.
Quem escreve sabe que pôr em palavras o que nos assombra é materializar o abstrato, é dar nome ao que nos dói, e, dando nome, damos a essa dor um limite. Verbalizando, damos movimento ao que nos estagna, e podemos, quem sabe, conjurar curas.
Diferente das outras colunas que escrevi, este texto é também minha forma de buscar uma cura, pois, enquanto escritor amazônida, tenho apenas uma crença quando me encontro profundamente desacreditado de tudo:
Palavras têm poder.
Sobre o autor
Jan Santos é autor de contos e novelas, especialmente do gênero Fantasia. Mestre em Literatura pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e com graduações em Língua Portuguesa e Inglesa, é um dos membros fundadores do Coletivo Visagem de Escritores e Ilustradores de Fantasia e Ficção Científica, além de vencedor de duas edições dos prêmios Manaus de Conexões Culturais (2017-2019) e Edital Thiago de Mello (2022).
*O conteúdo é de responsabilidade do colunista