Foto: Jan Santos/Acervo pessoal
Por Jan Santos – jan.fne@gmail.com
Como manter os clássicos vivos em um mundo dominado por telas? Um mundo em que até a literatura mais contemporânea disputa atenção com o Tik Tok?
Quando me convidaram para assistir à montagem teatral feita por Daniel Dantas e Letícia Sabatella de “A Ilíada”, no dia 15 de fevereiro, eu aceitei sem pensar muito. Entenda: o primeiro livro que li inteiro foi uma edição para crianças de “A Odisseia” e sempre fui apaixonado pelas histórias que o poeta Homero – tão mítico quanto seu próprio trabalho – traz em seus versos épicos.

De coração aberto, não pesquisei muito sobre como os dois atores interpretaram as aventuras de Aquiles e o ataque dos gregos à cidade de Troia, apenas fui. Afinal, assistir a um espetáculo no Teatro Amazonas é sempre um programa bem-vindo. Acontece que, de início, me peguei confuso, pois não esperava que Dantas e Sabatella começassem de forma tão… não teatral. A impressão que tive era de que estava assistindo a uma aula de Literatura, uma que eu mesmo já dei vez ou outra, explicando sobre o enredo e os cantos que trariam ao palco: apenas o 1 e o 20, além de um breve glossário de palavras em grego que cruzariam suas falas.
Durante essa introdução, falaram que a tradução que adotaram foi a de Manoel Odorico Mendes, em um “português difícil” feito para funcionar quase exclusivamente no contexto do poema de Homero. Dizer que sua apresentação será “difícil” de entender, para mim, é um tiro no pé, uma vez que, de antemão, criamos uma barreira entre espectador e aquilo que ele espera ver, o que fez com que meu estranhamento só aumentasse…
Até que Dantas começou a interpretar os versos iniciais de um dos textos mais icônicos do Ocidente.

Imagino que Cristo, quando confrontou o homem possuído por uma Legião, tenha tido a mesma sensação que eu: em um escuro quase ritualístico, vi Dantas encarnar uma pluralidade de vozes com uma velocidade assustadora, e ia de um personagem a outro com a mesma facilidade com que tomamos fôlego. Sim, o português era desafiador. Sim, não foi um linguajar feito para ser compreendido sem uma introdução e um glossário a tiracolo.
Quando me dei conta, o jogo de luzes que brilhava de forma dinâmica sobre o ator ajudava a diferenciar suas personagens em uma sincronia automática. Beto Bruel é o gênio por trás da linguagem construída com sua iluminação e a performance de Dantas, que, embora só, deixa bem claro que não se trata de um monólogo. Vi uma dúzia de vozes naquele homem, uma dúzia de almas em um único corpo, e senti arrepios a cada instante.
Dantas se responsabiliza pelo Canto I, no qual são descritas as desavenças internas entre os gregos que planejavam invadir Troia, e ao fim de um pandemônio entre deuses perfeitamente executado, foi a vez de Sabatella trazer uma magia diferente ao palco no momento em que interpretou o consideravelmente mais violento Canto 20.

A linguagem de mil luzes, vozes e gelo seco se consolida na interpretação de Letícia, que adiciona graciosos movimentos de dança e um estudo curioso de sotaques brasileiros à performance, dando tanto continuidade à atmosfera inquietante quanto um encantamento especial ao ritual que ela e Dantas trouxeram ao Teatro Amazonas. Sem fazer concessões à dificuldade do idioma que decidiram trazer ao palco, é a combinação dos fatores cênicos que torna a peça compreensível, uma vez que o espectador entende que é a experiência artística, acima de qualquer facilidade que um português adaptado e popular possa trazer, que eleva a obra ao nível de espetáculo.
Ao final, me senti completamente dividido.
Por um lado, por ser professor, sempre defendo que o lúdico deve criar estratégias para que a arte seja acessível (e compreensível) a todos – o que, por meio da palavra, a obra não faz – ; por outro, fiquei chocado em como a composição feita no palco assume esse papel, apostando sim em um “português difícil”, mas também em todo um conjunto cênico, para criar um idioma próprio para os palcos, uma linguagem que vai além da compreensão simples e afeta diretamente sentidos que não sabemos ter.
O que foi feito naquela noite foi uma verdadeira experiência sensorial que, mesmo dispensando as facilidades do português atual, garante compreensão por recursos alternativos que por vezes esqueço que – erro meu, que também sou humano – só o teatro pode oferecer.
Eu, que sou tão investido em uma literatura acessível apenas por meio da leitura, esqueço que o teatro também proporciona uma experiência literária potente, imensamente assustadora, que encontra formas diferentes de falar, formas em que a palavra assume papel secundário: eu posso não ter “ouvido” Poseidon naquele palco, mas senti toda a sua força e imponência na luz azul que banhava Sabatella, enquanto imitava um tridente com os dedos e proferia suas falas com um forte sotaque carioca. E com certeza eu vou me lembrar da deusa Hera fumando à la Clarice Lispector.

Em tempos em que a leitura é um ato ameaçado pela emergência das novas tecnologias, é apaixonante ter a certeza de que as artes ainda encontram formas diversas de celebrar a linguagem. A peça, ao mesmo tempo que destaca o clássico, encontra uma forma poderosa de torná-lo apresentável a um público contemporâneo, usando cada um dos recursos cênicos que dispõe de maneira simples e absolutamente efetiva.
Durante os três dias em que a peça ficou em cartaz em Manaus, acredito que os espectadores tiveram uma experiência religiosa: às vezes incompreensível a princípio, mas com certeza divina.
Sobre o autor
Jan Santos é autor de contos e novelas, especialmente do gênero Fantasia. Mestre em Literatura pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e com graduações em Língua Portuguesa e Inglesa, é um dos membros fundadores do Coletivo Visagem de Escritores e Ilustradores de Fantasia e Ficção Científica, além de vencedor de duas edições dos prêmios Manaus de Conexões Culturais (2017-2019) e Edital Thiago de Mello (2022).
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