Sexta-feira 13: Os mistérios e as lendas que assombram Porto Velho

De túmulos que “ganham vida” a aparições em casa de shows, Porto Velho preserva um vasto catálogo de lendas urbanas que misturam cenários reais e fenômenos paranormais.

O prédio administrativo da UNIR, onde funcionou um hotel, é tido como mal-assombrado. Foto: Arquivo Público

Sexta-Feira 13. O dia sempre desperta mais do que apenas superstições em Porto Velho. A cidade está inserida no folclore amazônico, rico em figuras como o Mapinguari, Matinta-Perera, Saci-Pererê e Lobisomem. Mas a capital rondoniense também nutre um folclore próprio: as lendas urbanas. Descritos pela gíria local como ‘cabulosos’ — termo que evoca mistério e perigo —, esses causos de arrepiar atravessam gerações, habitando o limite entre a ficção e os registros históricos da cidade.

O Mistério do Major Amarante

O Cemitério dos Inocentes é um dos cenários das visagens locais. O relato mais emblemático envolve o túmulo do major Emanoel Silvestre do Amarante, genro do marechal Rondon. Amarante, morto de febre tifoide em 1929, teria se transformado em uma cobra imensa que aparecia em noites de lua cheia. O militar, vaidoso e poliglota, delirou no leito de morte dizendo que não queria partir para o além — e sua recusa o manteve “vivo”.

Desde então, corre a lenda de que uma cobra imensa habita sua sepultura, que frequentemente amanhecia trincada em noites de lua cheia e tempestades. Popularmente, dizia-se que a serpente era a transfiguração do próprio major, que em vida fora um poliglota e inventor brilhante.

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A mulher-árvore e as almas penadas da ferrovia

Outro ponto de assombro é o Cemitério da Candelária, onde repousariam os restos de uma mulher que, segundo a tradição oral, tirou a própria vida após uma desilusão amorosa com um engenheiro da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (EFMM). A lenda diz que, como “castigo”, uma castanheira brotou de seu túmulo, fundindo-se ao cadáver e transformando-se na temida Mulher-Árvore.

A historiadora Yêdda Borzacovi, nascida em 1939 e testemunha ocular da era de ouro da ferrovia – que é o epicentro da cidade –, recorda que os sussurros e o arrastar de correntes eram relatos comuns. Com cerca de seis mil mortes registradas durante a construção da EFMM, entre 1907 e 1912, a crença popular é de que muitos trabalhadores, vindos de mais de 50 países, nunca deixaram os trilhos, permanecendo em busca de um caminho de volta para casa.

Muitas aparições foram registradas ao longo dos anos: de ferroviários caminhantes a navios-fantasmas navegando o Madeirão.

Na região do Baixo Madeira, especialmente na comunidade Nazaré, há incontáveis histórias.

Prédios que falam

A arquitetura histórica de Porto Velho também guarda seus segredos. No prédio da Universidade Federal de Rondônia, no Centro Histórico, antigos vigilantes noturnos relatam lamentos e o som de portas batendo nos corredores onde outrora funcionou um hotel. Já um casarão, onde viveu uma tradicional família, é alvo de temor por quem transita pela rua José Bonifácio durante a madrugada, com relatos de vozes que emanam de seu gradil centenário.

A escritora Sandra Castiel compartilha memórias pessoais de um casarão já demolido na Rua Campos Salles. Ela morou no local com pais e irmãos, no início da década de 1960. E recorda o susto da cozinheira da família ao ouvir crianças brincando na cozinha vazia e no pomar. e a sensação nítida de uma presença andando pelos corredores.

O capiroto da casa de shows

As lendas não ficaram presas ao passado. Em 2011, as redes sociais de Porto Velho foram tomadas pelo relato de uma aparição em uma casa de shows local. Um homem elegantemente trajado, com terno e chapéu brancos, teria derretido durante uma dança, revelando chifres e rabo antes de desaparecer no banheiro, deixando apenas as roupas para trás. O episódio, que remete à estética da boemia antiga da cidade, dos tempos do Ciclo da Borracha, com homens vestidos de roupas de linho, chegou a causar desmaios e se tornou um dos primeiros fenômenos virais de terror na internet rondoniense.

Por que o medo da Sexta-Feira 13?

A mística em torno da data é uma construção que une religião e cultura pop. No cristianismo, o número 13 é associado à Última Ceia (Jesus e os 12 apóstolos, sendo o 13º o traidor Judas) e a sexta-feira é o dia da crucificação.

Na matemática simbólica, o 13 rompe a perfeição do número 12 (meses do ano, signos do zodíaco). O medo é tão real para alguns que possui nome científico: parascevedecatriafobia. O cinema, com franquias como “Sexta Feira 13”, apenas selou o destino da data no imaginário coletivo como o dia oficial do terror.

Leia também: Comemoração histórica: os 50 anos da paróquia que precedeu a cidade de Vilhena

Sobre o autor

Júlio Olivar é jornalista e escritor, mora em Rondônia, tem livros publicados nos campos da biografia, história e poesia. É membro da Academia Rondoniense de Letras. Apaixonado pela Amazônia e pela memória nacional.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

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