Rondon e Major Reis. Foto: Benjamin Rondon
Por Júlio Olivar – julioolivar@hotmail.com
O cinema ainda engatinhava no mundo quando as imagens da Amazônia começaram a falar de forma poderosa para o mundo. Sob o comando do Major Luiz Thomaz Reis (1878-1940), a imensidão dos sertões brasileiros deixou de ser apenas um relato de viajantes para se tornar um documento vivo. Reis, baiano de nascimento e genro do artista plástico italiano Giuseppe Boscagli — que também imortalizou os Nambiquaras de Vilhena em suas telas —, foi o olhar que transformou a marcha de Rondon em narrativa visual.
Em 1912, foi de Reis a sugestão visionária de criar a Seção de Cinematografia e Fotografia da Comissão Rondon. Enquanto Charles Chaplin estreava nas telas americanas em 1914, o Major já cruzava os rios e matas da nossa região com equipamentos adquiridos na Europa, iniciando registros que se tornariam os primeiros filmes etnográficos do planeta.
📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp
A saga do rio da dúvida e o nacionalismo
A contribuição de Reis não foi apenas técnica, mas cultural e política. Ele foi peça-chave na produção de “The River of Doubt”, documentando a célebre expedição Roosevelt-Rondon. Ao levar para os cinemas da elite urbana do Rio de Janeiro obras como “Ao Redor do Brasil” (1932) — que hoje podemos revisitar no YouTube —, ele apresentou o cotidiano de Porto Velho, o pulsar da Madeira-Mamoré e o majestoso Real Forte Príncipe da Beira, na fronteira do Brasil com a Bolívia.
Essas projeções não eram mero entretenimento. Elas fomentavam um sentimento de nacionalismo, transformando a figura do sertanista e a cultura indígena em símbolos de uma identidade brasileira em construção. As imagens serviam como prova do progresso e, simultaneamente, como uma defesa humanista dos povos originários, alinhada à filosofia de Rondon.

O patrimônio e o silêncio
Apesar da importância monumental, o acervo desse período sofreu com o abandono ao longo das décadas. Pouco restou além dos registros salvos pela própria Comissão Rondon e por nomes como o cineasta italiano Mário Civelli e seus descendentes.
A trajetória de Luiz Thomaz Reis nos lembra que Rondônia nasceu sob o signo do cinema. Mais do que registrar a instalação do telégrafo ou a demarcação de fronteiras, ele filmou o encontro do Brasil com suas próprias raízes, deixando um legado antropológico que ainda hoje pulsa em cada fotograma sobrevivente daquela Amazônia.
Leia também: UNIR promove inclusão social na fronteira com curso de português para bolivianos
Sobre o autor
Júlio Olivar é jornalista e escritor, mora em Rondônia, tem livros publicados nos campos da biografia, história e poesia. É membro da Academia Rondoniense de Letras. Apaixonado pela Amazônia e pela memória nacional.
*O conteúdo é de responsabilidade do colunista
