Comemoração histórica: os 50 anos da paróquia que precedeu a cidade de Vilhena

Missionário salesiano fundou a Igreja e é considerado herói no sul de Rondônia.

Paróquia de Nossa Senhora Auxiliadora, fundada em 11 de fevereiro de 1976, em Vilhena, principal cidade do sul do estado rondoniense. Foto: Divulgação

Por Júlio Olivar – julioolivar@hotmail.com

Em 1976, cerca de 90% dos brasileiros eram católicos [hoje, são 56,7%]. Naquele tempo, a presença da Igreja era uma das primeiras sementes necessárias para que uma vila buscasse se firmar como cidade. Em Vilhena (principal cidade do sul de Rondônia, a 700 km de Porto Velho) não foi diferente. Neste 11 de fevereiro de 2026, completa-se meio século da criação da Paróquia de Nossa Senhora Auxiliadora, instalada na antiga vila que só se tornaria município autônomo, separado de Porto Velho, em 23 de novembro de 1977.

Por trás dessa história está a figura de um verdadeiro herói para os católicos locais: o padre ítalo-brasileiro Ângelo Spadari, missionário salesiano que marcou a memória da comunidade.

Padre Spadari: o missionário que chegou montado em um burro

Em 1963, o Sargento Aymoré Pereira acolheu o padre Ângelo Spadari, que percorria a Amazônia montado em um burro. Hospedado em uma cabana da base provisória da Força Aérea Brasileira (FAB), dali partia para missões evangelizadoras em aldeias indígenas e seringais.

No 27 de outubro de 1963, aos 53 anos, celebrou a primeira missa oficial em Vilhena, no pátio da FAB, durante a Semana da Asa — festa em homenagem a Alberto Santos Dumont e ao Dia do Aviador. Cerca de 35 fiéis participaram. O local exato da celebração corresponde hoje ao número 3009 da Avenida Sabino Bezerra de Queiroz, na Vila da Aeronáutica.

Além da FAB, Spadari celebrou missas na região da chamada “Vilhena Velha”, próxima ao antigo posto telegráfico conhecido como Casa de Rondon, e no refeitório do DNER, organizando também procissões ao redor do Campo de Aviação. Em 1964, visitou o Posto Pyrineus (Aldeia Aroeira), onde batizou indígenas durante três dias de missão.

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A campanha pela primeira igreja

Ordenado em São Paulo em 1940, Spadari dirigia o Colégio Dom Bosco em Porto Velho depois de sua passagem pelo Planalto dos Parecis, mas sua vocação missionária o trouxe de volta a Vilhena em 1966. Nesse período, sofreu um acidente de burro, num seringal a 70 km da vila de Vilhena, e contraiu malária, mas não desistiu. Hospedado na pensão Cinta-Larga, abençoou as poucas casas da vila e iniciou, na Páscoa de 1967, a campanha para erguer a primeira igreja.

Organizou festas, rifas e bingos no 5º BEC e na FAB, colocou cofrinhos em bares e posto fiscal, e arrecadou cimento, tijolos, vergalhões e madeira doados por fieis.

Desenho da Paróquia Nossa Senhora Auxiliadora. Foto: Divulgação

Já recuperado de uma malária e da queda de burro, ainda em 67, o padre Ângelo Spadari utilizou o dinheiro arrecadado para comprar dez sacos de cimento em Cuiabá (MT). Os tijolos franceses chegaram de Porto Velho, Ji-Paraná e Pimenta Bueno. Além disso, recebeu doações de vergalhões e madeiras, reunindo aos poucos tudo o que era necessário para erguer a igreja.

O terreno, previamente marcado pelo Sargento Aymoré, foi preparado com máquinas e homens do 5º BEC/DNER. O alicerce contou com o apoio do comerciante Donato Queiroz, que doou 50 metros de pedra. Enquanto a construção ficava parada devido às chuvas e à falta de material, Spadari mantinha viva a fé da comunidade: celebrava missas no posto de saúde, embaixo de uma árvore e, mais tarde, na Escola Isolada Wilson Camargo, com a colaboração da professora Esmeralda Sol-Sol.

Em 1969, o missionário enfrentou novamente a malária e precisou ser internado no Hospital São José, em Porto Velho. Mesmo assim, não desistiu. Após muitas dificuldades, retornou a Vilhena e concluiu a obra. Uma das primeiras edificações em alvenaria da vila dominada por casebres de madeira e pelo improviso.

No dia 24 de maio de 1970, três anos depois de iniciar a construção, Padre Spadari celebrou a inauguração da igreja. O templo, com 8 por 20 metros, parecia “grande demais” para ele, que havia planejado quatro metros a menos. A ampliação foi determinada pelo bispo Dom João Batista da Costa.

Naquele mesmo dia, na igreja ainda sem portas laterais e com piso de cimento, aconteceu a primeira Festa de Nossa Senhora Auxiliadora, seguida de procissão pelas ruas da vila, que já contava com cerca de 300 moradores, além de comércio, serrarias e escola.

Auxiliadora, padroeira da cidade

Embora a primeira missa em Vilhena, em 1963, tenha sido dedicada à Virgem de Loreto, padroeira da aviação, prevaleceu a devoção a Nossa Senhora Auxiliadora, já padroeira de Porto Velho, cidade à qual Vilhena pertencia. Com a emancipação de Vilhena, em 1977, a escolha foi mantida. Hoje, a santa é homenageada com feriado municipal em 24 de maio, tanto aqui quanto na capital.

Educador e missionário

Padre Ângelo viveu em Vilhena até 1981. Além de catequizar, incentivava a educação, citando o intelectual romano Cícero (106 a.C. – 43 a.C.): “A ignorância é a mãe de todos os males.” Falava várias línguas, estudava tupi e outros idiomas indígenas, aplicava injeções, distribuía remédios e ensinava o uso de ervas medicinais.

Foi amigo da primeira professora da cidade, Noeme Barros, falecida em 1997 — o mesmo ano em que Spadari morreu em Manaus. Ao lado do coadjutor Padre Fausto Boem, que chegou em 1972 e partiu junto com ele, Spadari deixou marcas profundas na memória afetiva da comunidade.

Ângelo Spadari e Fausto Boem, os dois primeiros padres da Paróquia de Vilhena, em 1976. Foto: Divulgação

Patrimônio preservado

A igrejinha construída por Spadari permanece como relíquia e cartão-postal de Vilhena, na Avenida Capitão Castro, em frente à praça que leva seu nome. Ao lado dela, ergue-se hoje a moderna Matriz de Nossa Senhora Auxiliadora, símbolos da fé cristã e da história local.

A tradicional “igrejinha”, ao lado do templo construído no final da década de 1980. Foto: Divulgação

Leia também: O adeus ao pioneiro Plínio, que testemunhou o surgimento de Vilhena

Sobre o autor

Júlio Olivar é jornalista e escritor, mora em Rondônia, tem livros publicados nos campos da biografia, história e poesia. É membro da Academia Rondoniense de Letras. Apaixonado pela Amazônia e pela memória nacional.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

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