Dona Úrsula e a imagem de Nossa Senhora Auxiliadora: religiosidade, pertencimento e amor à educação. Foto: Acervo pessoal
Por Júlio Olivar – julioolivar@hotmail.com
Neste dia 1º de janeiro, Rondônia ficou mais pobre. Morreu, com problemas respiratórios, a professora Úrsula Depeiza Maloney, a “Tia Sula” de tantos alunos, personagem emblemática da educação rondoniense. Ela havia completado 89 anos de idade duas semanas antes. Corpo será sepultado nesta sexta, 2, no tradicional Cemitério dos Inocentes.
Filha de imigrantes barbadianos que ajudaram a fundar a cidade, Úrsula nasceu em 1936, quando Porto Velho ainda era uma promessa de futuro e tinha apenas 22 anos como cidade constituída. Seu pai, Oscar Depeiza Maloney, chegou às barrancas do rio Madeira em 1908 para ajudar na construção da Estrada de Ferro Madeira Mamoré e foi o primeiro bombeiro hidráulico da capital, responsável pelo abastecimento das lendárias Três Caixas D’Água — monumento que até hoje simboliza a identidade urbana da cidade. Da herança paterna, herdou o senso de missão: servir à coletividade.
Com apenas 23 anos, em fevereiro de 1960, iniciou sua carreira no magistério. Formada em Comunicação e Expressão, foi pioneira ao cursar Letras na primeira faculdade instalada em Porto Velho, ainda como extensão da Universidade do Rio Grande do Sul. Desde então, sua vida se confundiu com a própria história da educação rondoniense.
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Supervisora e coordenadora na transição de território para estado, esteve ao lado de nomes como a professora Marise Castiel, de quem foi chefe de gabinete, à época em que esta foi secretária de Educação. Percorreu escolas às margens do Rio Madeira e ao longo da BR-364, levando a língua portuguesa como ferramenta de emancipação e contribuindo na formação de dezenas de educadores. Lecionou em instituições que hoje são marcos da memória coletiva — Duque de Caxias, Castelo Branco, Barão do Solimões, John Kennedy, Getúlio Vargas — e dirigiu a Escola Municipal Antônio Ferreira da Silva.
Úrsula também foi presença ativa nas comissões que regulamentaram o ensino particular, planejaram materiais e obras, e estruturaram o sistema educacional nascente. Sua atuação ajudou a dar forma ao que hoje é a rede de ensino de Rondônia.
Aposentou-se do serviço público em 1994, mas não abandonou a vocação. Continuou no SESI e no Colégio Dom Bosco, sempre como professora e supervisora, sempre como referência. Recebeu homenagens que traduzem o reconhecimento coletivo: a Medalha do Mérito Marechal Rondon, insígnias da Assembleia Legislativa, da Câmara de Vereadores e da Prefeitura. Em 2016, foi escolhida para conduzir a tocha olímpica – que percorreu o mundo – em Porto Velho, gesto simbólico que iluminou sua trajetória como chama viva da educação.
Religiosa, discípula de Nossa Senhora Auxiliadora, de sorriso cativante e modos gentis, dona Úrsula é uma cidadão reconhecida e amada. Sua vida é testemunho de que a educação não se faz apenas com livros e salas de aula, mas com coragem, dedicação e amor à comunidade. Porto Velho, Rondônia e todos que passaram por suas lições sabem: a professora Úrsula é uma heroína da educação.
Pai herói
Desde os primeiros anos, as caixas eram cuidadas por um legítimo barbadiano, Osmar Depeize Maloney. Barbados era então um domínio inglês. Osmar foi o primeiro profissional hidráulico a trabalhar nas Três Caixas d’Água, chegando ao Brasil em 1908, aos 18 anos de idade, e constituindo família com uma brasileira, Cleta Francisca, de Vila Bela da Santíssima Trindade (MT). Tiveram sete filhos, entre eles a conhecida professora Úrsula Maloney, que acaba de nos deixar.
Desde os primeiros anos, as caixas eram cuidadas por um legítimo barbadiano, Osmar Depeize Maloney. Barbados era então um domínio inglês. Oscar foi o primeiro profissional hidráulico a trabalhar nas Três Caixas d’Água, chegando ao Brasil em 1908, aos 18 anos de idade, e constituindo família com uma brasileira, Cleta Francisca, de Vila Bela da Santíssima Trindade (MT). Tiveram sete filhos, entre eles a conhecida professora Úrsula Maloney, nascida em Porto Velho em 1936, e muito respeitada como uma personalidade marcante pela sua memória carregada de histórias ascendentes e por suas vivências e contribuições como educadora.
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Sobre o autor
Júlio Olivar é jornalista e escritor, mora em Rondônia, tem livros publicados nos campos da biografia, história e poesia. É membro da Academia Rondoniense de Letras. Apaixonado pela Amazônia e pela memória nacional.
*O conteúdo é de responsabilidade do colunista
