Os hábitos franceses em Porto Velho do início do século 20

A moda e a vida social na época da Belle Époque Tropical.

Avenida Sete de Setembro, seus botequins, cafés, cinema, saraus, boemia, moda, poesia e um coreto em plena via pública. Foto: Autor desconhecido/CDH-RO

Por Júlio Olivar – julioolivar@hotmail.com

Durante a Belle Époque Tropical (1871-1920), o francês era a língua da sofisticação, símbolo de cultura, arte, moda e gastronomia em todo o mundo. Em Porto Velho – assim como em Manaus e Belém –, esse refinamento europeu encontrou solo fértil, impulsionado pelo Ciclo da Borracha e a prosperidade da época, moldando costumes e comportamentos.

As mulheres adotavam vestidos ajustados com cinturas bem marcadas, mangas volumosas e adornos delicados, como rendas e bordados. O espartilho era indispensável, assim como a moda do “peignoir” e da anágua. Sombrinhas e bengalinhas complementavam os trajes femininos.

“Chegaram pelo último vapor, de Paris e Hamburgo, chapéus e enfeites os mais modernos para senhoras. Tem sempre um grande sortimento de toucas e véus para luto”. Foto: Reprodução/Acervo Alto Madeira

Já os homens preferiam vestimentas formais: calças justas, coletes, casacos refinados e “cravates”, sendo comum a venda de colarinhos avulsos. O chapéu era um item essencial para ambos os sexos, com modelos adornados para as mulheres e estilos europeus para os homens. As crianças também seguiam a tendência: os meninos vestiam fatinhos e “bonets”, enquanto as meninas ostentavam vestidos enfeitados com fitas e laços.

Essa atmosfera requintada fomentou o surgimento de modistas e alfaiates especializados em tecidos nobres. Acessórios como leques, bengalas e chapéus eram indispensáveis.

Entre ceroulas e discos para gramofone, a última moda para homens em Porto Velho. Foto: Reprodução/Acervo Alto Madeira

O estilo de vida também incluía perfumes sofisticados, cinema, instrumentos musicais e uma gastronomia refinada, elementos que promoviam uma valorização da vida e da autoestima.

Um dos reflexos desse cenário foi a loja Au bon marché, que comercializava perfumes, armarinhos e calçados. Seu nome era uma homenagem à Le Bon Marché de Paris, considerada uma das primeiras lojas de departamento do mundo e pioneira na transformação do varejo desde sua fundação em 1838. Inicialmente propriedade de Salin Bouez, a filial porto-velhense passou posteriormente para Abdon Jacob Atallah, consolidando-se como um ponto de referência na cidade.

Propaganda da época. Foto: Reprodução/Acervo Alto Madeira

Cafés à moda parisiense

O Café Central, embora administrado inicialmente por espanhóis, trazia fortes referências aos hábitos franceses e se destacava como o mais movimentado. Concorria com estabelecimentos igualmente requintados, como a Rivas – que combinava café e restaurante – e o Café Rio Branco, conhecido por suas exclusividades: sorvete, água gelada da marca Astra, proveniente de uma fonte paraense, o renomado café Moka e uma seleção de importados, incluindo avelãs, passas e outras iguarias exóticas.

Outro reduto de elegância e convívio era a Phenix, um botequim-cafeteria de origem portuguesa, que oferecia uma variedade de sabores e experiências. Seus frequentadores desfrutavam de bilhares, aperitivos finos, frios, frutas, mariscos, coalhada, queijos e requeijões mineiros, além dos irresistíveis doces de cupuaçu e araçá-do Pará. A atmosfera era enriquecida por música ao vivo todos os dias, interpretada por um terceto. O local mantinha ainda uma parceria estratégica com a empresa Fontinelle & Cia, de Manaus, que viabilizava a operação de um cinema, tornando a experiência ainda mais completa.

A elite porto-velhense também cultivava o gosto por eventos refinados. Reuniões privadas, conhecidas como soirées, eram comuns nas residências da cidade, oferecendo jantares requintados, vinhos selecionados e o popular creme de chocolate, verdadeira sensação da época. O termo francês soirée designa encontros sociais realizados à noite, onde música, dança, literatura, teatro e boas conversas fluíam naturalmente.

Além dos cafés e botequins, os bailes de máscara, à fantasia e de carnaval eram promovidos pelo Clube Internacional, celebrando o glamour e o espírito festivo da cidade. Concursos elegiam as donzelas mais belas de Porto Velho por meio de votos impressos em cupons fornecidos pelo jornal local. A música desempenhava papel fundamental nesses eventos, com a Orquestra Filarmônica de Santo Antônio marcando presença e enriquecendo as celebrações com suas apresentações memoráveis.

Esses cafés e encontros sociais não eram apenas espaços de convívio, mas verdadeiros cenários onde a sofisticação e o charme europeu se manifestavam, moldando um período de requinte e transformação cultural na nascente cidade, surgida em 1907 com a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré e instalada, oficialmente, em 1914.

A chegada das bebidas e o florescimento do cinema

A boemia porto-velhense ganhou um novo encanto em 1912 com a introdução de duas marcas genuinamente manauaras: o Chope Amazonense e a Cerva XPTO. Essas bebidas rapidamente conquistaram os paladares da cidade. O responsável por apresentar essas novidades foi Carolino Corrêa, representante vindo de Manaus, que ajudou a consolidar a cultura da cervejaria na região.

O rótulo da famosa XPTO. Abreviação de “ΧΡΙΣΤΟΣ” (Christos), que significa “Cristo” em grego. Era também uma gíria equivalente a “Ok” em Portugal. A indústria foi adquirida pela Brahma em 1972. Foto: Reprodução/Blog do Rocha

Desde 1912, Porto Velho contava com o Cine Caripuna, inicialmente chamado Lé Cinéma, fundado pela influente Família Bouez. Já em 1917, a cidade viu crescer o prestígio do Cine Phenix, que se tornou a principal casa de espetáculos e também servia como auditório para apresentações musicais.

Equipado com tecnologia da empresa francesa Pathé Fréres, adquirida pela Fontinelle & Cia, de Manaus – parceira dos Irmãos Rosa –, o local mantinha uma sofisticada cafeteria e bar ao lado. Em seus salões, os concertos ao bandolim dos músicos Hormisdas Oliveira e João Pinto da Silva, em 1917, foram recebidos com grande entusiasmo.

Os irmãos Rosa. Foto: Divulgação

O envolvimento dos Irmãos Rosa no cenário cultural de Porto Velho foi marcante. Em 1923, inauguraram o Cine-Bar Rosa, vinculado ao Café Phenix, onde arrendaram equipamentos da Fontinelle, sediada em Manaus. O avanço continuou após a Belle Époque. Em 1925 surgiu o Cine-Bar Ypiranga, que além das projeções cinematográficas, abrigou o Grêmio Dramático Pela Pátria, fomentando eventos artísticos e encontros sociais. No mesmo ano, foi fundado o Cinema Avenida, ampliando as opções de lazer na sempre festeira cidade de Porto Velho.

Sobre o autor

Júlio Olivar é jornalista e escritor, mora em Rondônia, tem livros publicados nos campos da biografia, história e poesia. É membro da Academia Rondoniense de Letras. Apaixonado pela Amazônia e pela memória nacional.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

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