Foto: Divulgação
Por Júlio Olivar – julioolivar@hotmail.com
Há personagens que atravessam os séculos como enigmas. Antônio Raposo Tavares é um deles. Entre herói e genocida, entre cavaleiro da Casa Real e inimigo dos jesuítas, sua vida foi marcada por contradições que fazem parte da formação do Brasil. Ele foi um dos principais bandeirantes paulistas – e neste domingo, 25, é aniversário da cidade de São Paulo. Resolvi relacioná-lo às terras de Rondônia [especifico Rondônia, porque é aqui onde estou, mas o território o assunto abrange partes do Mato Grosso, Amazonas e Pará].
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No século XVII, quando Portugal buscava expandir seus domínios na América, uma ordem secreta determinou que exploradores avançassem rumo ao Oeste, em busca de novas províncias minerais. Coube a Raposo Tavares comandar a chamada Bandeira de Limites, partindo de São Paulo em 1648 com 200 paulistas e mil indígenas. Três anos depois, após percorrer mais de 10 mil quilômetros, apenas 58 homens sobreviveram.
A jornada foi épica e brutal: doenças tropicais, confrontos, fome e a vastidão da floresta. Economicamente, um fracasso. Nenhum ouro de Potosí, nenhum grande saque. Mas politicamente, um triunfo. Ao optar por descer a bacia amazônica, Raposo Tavares abriu rotas estratégicas e consolidou a presença portuguesa em territórios que, sem sua ousadia, poderiam ter permanecido sob domínio espanhol. Rondônia, por exemplo, estaria em outro mapa.

Entre o mito e a sombra
A expedição de Raposo Tavares foi a primeira missão portuguesa documentada na Amazônia. Ele navegou pelos rios Guaporé, Mamoré e Madeira, alcançou Manaus e chegou a Belém. O rei D. João IV recebeu o primeiro relatório oficial sobre a região. Mais de um século depois, o Tratado de Madri (1750) oficializou fronteiras e assegurou a Amazônia a Portugal.
Mas o sertanista não foi apenas desbravador. Foi também destruidor. Suas bandeiras devastaram missões jesuíticas e escravizaram indígenas. A memória de Raposo Tavares ficou por muito tempo silenciada, marcada pela crítica dos padres que o viam como inimigo implacável.
O legado paroxal
Na década de 1920, a historiografia paulista o resgatou como herói da expansão territorial. Seu nome passou a figurar em homenagens oficiais, como a rodovia Raposo Tavares (SP-270), que liga a capital ao interior, além de ter estátuas em museus e é nome de rua até em Lisboa. Assim, o homem que percorreu a maior jornada terrestre da história colonial da América passou a ser lembrado como símbolo de coragem.
Mas a história não se resume a celebrações. Raposo Tavares foi também fruto de sua época: cristão-novo, excomungado pela Igreja, descendente de judeus sefarditas perseguidos pela Inquisição. Um mosaico humano que revela tanto a brutalidade da colonização quanto a audácia que ampliou os horizontes do Brasil.
O sangue e o mapa
Para quem descende de Raposo Tavares, como eu – ele foi meu 11º avô (pelo que me ensina meu mestre em genealogia, José Newton Noronha Almeida, meu primo e igualmente descendente do Raposão) –, sua trajetória não é apenas uma narrativa distante. É parte da própria genealogia. Carrego nas veias o sangue de um homem que, em vida, foi paradoxal: ousado e cruel, visionário e devastador.
Se Rondônia hoje é Brasil, é porque Raposo Tavares decidiu enfrentar o desconhecido. Sua marcha pela Amazônia redesenhou fronteiras e deixou marcas que ainda nos obrigam a refletir: até que ponto a expansão de um território pode ser celebrada sem que se reconheça o preço humano que ela custou?
Raposo Tavares permanece, assim, entre o mito e a sombra. Um personagem que ajudou a mapear o Brasil, mas também expôs as cicatrizes da colonização em território ancestral ameríndio.
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Sobre o autor
Júlio Olivar é jornalista e escritor, mora em Rondônia, tem livros publicados nos campos da biografia, história e poesia. É membro da Academia Rondoniense de Letras. Apaixonado pela Amazônia e pela memória nacional.
*O conteúdo é de responsabilidade do colunista
