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Domingo, 03 Março 2024

O Português Marçal Gonçalves Ferreira, avô de Lúcio Marçal Ferreira Ribeiro de Lima Costa

Foto: Julieta Sobral (neta de Lucio Costa)/Reprodução do livro 'Lucio Costa - Registro de uma vivência'

[…] Meu pai, o engenheiro naval Joaquim Ribeiro da Costa, era natural de Salvador, filho Ignácio Loyola da Costa e de Maria Firmina Ribeiro de Lima, morta aos trinta anos. Como era o mais velho, ficou de certo modo responsável pelos irmãos e irmã, entre os quais Alfredo que foi Ministro do Supremo Tribunal Militar, Ignácio, inspetor da Alfandega de Santos e Laura.

Serviu de início, cinco anos na Comissão de Limites do Amazonas onde conheceu minha mãe, Alina, filha de Marçal Gonçalves Ferreira, homem sereno, mas, empreendedor: montou a primeira indústria de roupas feitas – calças e blusões de algodão, vendidas no interior da Província, ao longo dos irmãos e igarapés; e de Libânia Theodora Rodrigues Pará, nascida em Belém, voluntariosa professora: certa vez, cansada de pedir material escolar, botou a criança a escrever em folhas de bananeira durante a visita do inspetor à escola.

Lembro de dois irmãos de minha mãe, Tio Quincas, tocador de violão e boêmio (foi estudante de medicina em Coimbra, mas, acabou farmacêutico); o Tio Olavo, engenheiro formado em São Paulo – que tocava violino com minha mãe ao piano. Levou-me um dia à Cavé para tomar chocolate. Vendo os brioches, perguntei: "que fruta é essa?". Ele respondeu simplesmente: "Não tem caroço e come-se com casca". E lembro também ter subido na liteira a Teresópolis, onde meu padrinho Thaumaturgo de Azevedo – fundador da Cruz Vermelha e pioneiro do Acre – me fez perder o folego num brusco mergulho no Paquequer.

Como a noiva ainda fosse muito moça, foi mandada para o internato de Mademoiselle Roussel em Lisboa, onde afinal se casaram na Igreja de São Jorge, seguindo de lá diretamente para o Havre, depois para Marselha, onde tiveram um filho e uma filha. Noutra estada ficaram em Toulon, onde nasci na Villa Dorothée Louise, no Mourillon.

Minha mãe tinha uma amiga francesa que costumava visitá-la que começava a conversa perguntando pelas crianças. Diante das queixas tranquilizava: "Ne vous em faites pas, madame, c'est la croissance". Certo dia, ao chegar, ela mesma começou a lamentar-se das próprias mazelas – não estava bem, sentia isto e aquilo – e meu irmão mais velho que estava por perto brincando no chão, virou-se e devolveu-lhe a frase "C'est la croissance, madame!". Assim, 'é do crescimento" ficou sendo a desculpa vale tudo da casa.

De retorno ao Brasil, meu pai foi diretor do Arsenal de Marinha e, em 1910, voltou à Europa integrando a missão naval comandada pelo Almirante Huet de Bacellar, em Newcastle. Tratava-se da construção da nova esquadra. Frequentei então, o Royal Grammar School onde jogava cricket no verão e rugby no outono com os meninos ingleses. As cores eram verde, vermelho, branco e marrom e como raro estrangeiro minha cor era verde, correspondente à dos moradores do arrabalde.

Na primavera de 1914, ainda na Inglaterra, ele se indispôs com o Ministro Alexandrino e pediu reforma. Foi com toda a família – oito pessoas – para Paris onde moramos três meses no primeiro andar do 18, Clément Marrot. Seguimos dali para a Suíça, primeiro Friburgo, depois Beatenberg, perto de Interlaken, com os belos crepúsculos da Jungfrau e o intenso Azul do Lago de Thun, e foi ali que a Guerra a primeira, nos surpreendeu. Fomos então para Montreux, onde nos fixamos e onde estudei no Collége National.

Voltamos em fins de 1916, depois de uma estada em Liverpool, a bordo do "Darro" da Royal Mail. às escuras por causa dos submarinos. No ano seguinte, meu pai – que estranhamente sempre desejou ter um filho "artista"- matriculou-me na Escola Nacional de Belas Artes, onde afinal me formaria em arquiteto. Ainda vestido de menino inglês e muito mais moço que os outros, sempre fui respeitado porque desenhava melhor que eles.

Uma tarde, o diretor e famoso paisagista Baptista da Costa, homem casmurro, sempre de cara fechada mandou-me chamar. Temeroso e intrigado, entrei no enorme salão da diretoria, que dez anos depois eu iria ocupar; quando de perto o encarei, ele se abriu num largo sorriso aconselhador. Era marido de uma irmã de Oswaldo Cruz, e seu sobrinho, Bento casado com Maria Luisa Proença, pretendia fazer algumas obras na antiga casa da propriedade de Lopes Quintas que estava sendo loteada.

Ainda aluno terceiro ano, tratei logo de trabalhar. Meu primeiro emprego como desenhista foi na firma Rebecchi, onde ganhava trezentos mil réis mensais, passando depois para o "Escriptorio Technico Heitor de Mello"morto o arquiteto, que além de catedrático era homme du monde – projetava e construía por administração para os seus pares da sociedade – a firma continuou sob a responsabilidade de seus colaboradores Memoria e Cuchet.

O escritório ocupava todo andar do predio nº10 da Rua da Quitanda. Os arquitetos ficavam na parte da frente; os desenhistas, chefiados por Baldassini, trabalhavam sob as claraboias do corpo central do sobrado; Müller, o calculista suíço, tinha a prancheta junto às janelas na sala dos fundos. Na chegada da escada. Ficava a mesa do senhor Pinto, o contador, que se entendia no fim da tarde com os dois mestres, o velho competentíssimo e o moço presunçoso, chamados igualmente Bernardino, ambos portugueses. Foi então que, com Evaristo Juliano de Sá, fiscalizei a construção do meu primeiro projeto, casa em "estilo inglês", para Rodolfo Chambelland, na Avenida Paulo de Frontin. Sempre que, no viaduto passava por lá, via a ponta de sua empena aflorando da copa das árvores – até que um dia sumiu.

Com esse proceder perdi dois anos e o meu primeiro amigo, o letrado José Defranco que, embora de São del - Rei curiosamente nunca me falara do aleijadinho. Assim, quando, em 1922 a turma de formou meu colega Fernando Valentim para sócio, nosso primeiro escritório foi na Rua Gonçalves Dias 30, ao lado da Confeitaria Colombo. Depois mudamos para o 46 da Avenida Rio Branco, Edifício das Docas de Santos, que ainda existe com sua monumental porta entalhada cuja chave eu costumava trabalhar até maltas horas da noite continua comigo.

Era a época do chamado ecletismo arquitetônico. Os estilos "históricos" eram aplicados sans façon de acordo com a natureza do programa em causa. Tratando-se de igreja, recorria-se ao receituário romântico, gótico ou barroco; se de edifício público ou palacete, ou Louis XV ou XVI; se de banco, ao Renascimento Italiano; se de casa, a gama vaiava do normando ao basco, do missões ao colonial.

Em 1926, por motivos sentimentais insolúveis, resolvi viajar. É engraçado, pois não havia ainda os traveller's checks. Levei uma carta de crédito City Bank, ou seja, uma larga folha de papel encorpado onde os caixas davam baixa à mão de cada retirada até o valor do crédito se esgotar. Com 28 contos de réis, se não me engano passei quase um ano folgado na Europa.


Fonte: Texto concedido a Roberto Marinho de Azevedo em 1982 a título de entrevista, atualizado apenas no que respeita à prole.

COSTA, Lúcio. 1902-1998. Registro de uma vivência/Lúcio Costa. Apresentação de Maria Elisa Costa; Posfácio de Sophia da Silva Telles – São Paulo: Editora 34/Edições Sesc São Paulo, 2018.

Alina (filha de Marçal Gonçalves Ferreira), mãe de Lúcio Costa, recém-casada. Foto: Reprodução do livro 'Lucio Costa - Registro de uma vivência'

A criação da Província do Amazonas 

Natural de Portugal por um determinado período residiu em Belém do Pará, tendo exercido a profissão de alfaiate, casou-se com a professora Libânia Theodora Rodrigues, de nacionalidade paraense. Ao chegar em Manaus, logo procurou instalar sua alfaiataria, o que era comum naquela época e naturalmente obteve rápido sucesso.

Revelou em pouco tempo, ser um homem de larga visão e apurado tino para negociar, tendo montado uma indústria de roupas onde eram confeccionados blusões e calças de algodão, muito utilizado na época pelos seringueiros. Há quem afirme, que ele foi um dos pioneiros nessa indústria no Amazonas. Na verdade foram grandes os obstáculos para trazer a Manaus os equipamentos necessários para montar seu estabelecimento comercial.

Com essas atividades, Marçal Gonçalves Ferreira logo amealhou alguns recursos, com os quais foi adquirindo vários imóveis. Entre as propriedades adquiridas, consta uma bela residência no Centro de Manaus, onde residiu por um determinado tempo e um amplo terreno, cuja, área hoje corresponde ao trecho entre a Rua 10 de julho, 24 de Maio, Costa Azevedo até a confluência da Getúlio Vargas.

Desse poderio econômico, existe ainda um imóvel na Rua Costa Azevedo n° 278, onde residiu um dos netos do casal, José Marçal filho de dona Virgínia Ferreira Cabral dos Anjos, conhecida na intimidade como Nenê e de João Cabral Osório dos Anjos, este Comendador da Ordem de Cristo, destaca-se ainda José Marçal que presidiu a Bolsa de Valores do Amazonas e que era conhecido desportista em nossa cidade. Até a bem pouco tempo, seus descendentes ainda permaneciam morando no mesmo imóvel, que hoje faz parte do conjunto arquitetônico existente no Largo de São Sebastião.

Pais de Lúcio Costa: Alina e Joaquim. Fotos: Reprodução do livro 'Lucio Costa - Registro de uma vivência'


[…] Vale a pena lembrar que ainda guardado pela família com todo cuidado, a planta do terreno denominado Vila Marçal. Foi no ano de 1906 após o senhor Marçal Gonçalves Ferreira a verem falecidos a grande globa de terra foi dividida em trinta e dois lotes distribuídos entre seus descendentes. Abrange até hoje quatro quadras e contem duas ruas, como era comum na época. Rua Marçal no sentido Costa Azevedo a Getúlio Vargas, que veio a ser também conhecida como Beco J. G. Araújo e Rua Dona Libânia, que inicia na Rua 10 de julho e finaliza na Rua 24 de Maio.

No centro urbano mesmo dois anos depois em que Marçal Gonçalves Ferreira chegara a Manaus, existiam apenas 243 casas, das quais 122 eram cobertas de palha, segundo relata o professor emérito Agnello Bittencourt em sua obra Fundação de Manaus – Pródomos e Sequência.

Ainda no mesmo livro, o inesquecível historiador transcreve informação de Lourenço da Silva Araújo e Amazonas, em seu Dicionário Topográfico, Histórico e Descritivo, da Comarca do Amazonas, publicado em Recife em 1852, pelo qual se tem notícia de somavam apenas 8.500 os habitantes, sendo 4.080 indígenas; e os demais eram brancos, mamelucos, mestiços e escravos. Registra-se que existe uma discrepância quanto a data deste documento, visto que, em seu livro Uma Introdução à Historia do Amazonas, o escritor Manuel Callado a severa ser de 1850, o mencionado dicionário.


*SILVA, Yomar Desterro. Uma Família Ferreira e o Amazonas. Manaus. Governo do Estado do Amazonas. Secretária de Estado da Cultura, 2007. Pág.28.

Outro fato que eu considero de fundamental importância e histórica é o registro da obra do professor Agnello Bittencourt com o título Chorographia do Estado do Amazonas, publicada em Manaus pela Tipografia Palácio Real, em maio de 1925. A Ata de instalação da Província do Amazonas, assinada por João Batista de Figueiredo Tenreiro Aranha, consta inúmeras assinaturas das pessoas daqueles que se fizeram presente, entre tantas estas destacamos a assinatura do português Marçal Gonçalves Ferreira, a 05 de setembro de 1850.

Chácara da Cabeça, 1908. Alto da Rua Lopes Quincas. Foto: Reprodução do livro 'Lucio Costa - Registro de uma vivência'

A criação da Beneficente Portuguesa

A história da criação da Real e Benemérita Sociedade Portuguesa Beneficente do Amazonas que teve a sua sessão preparatória às 11h do dia na casa do senhor Comendador Francisco de Souza Mesquita reuniram-se 70 portugueses residentes domiciliados em Manaus com o propósito da criação de um hospital que pudesse atender a demanda daquele período. Novamente encontramos o registro como fundador do sonhado hospital de Marçal Gonçalves Ferreira.

Não se atendo exclusivamente a sua atividade comercial Marçal Gonçalves Ferreira teve destacada posição na sociedade local e desempenhou permanente atividade na solidificação do hospital português. Cuja fundação ocorre no dia 31 de outubro de 1873. Marçal Gonçalves Ferreira já nesta oportunidade assumia a diretoria na função de mordomo, eleito com 21 votos.

Marçal Gonçalves Ferreira e a Primeira Loja Maçônica

Ainda registro especial merece ser destacado, sua presença na fundação da Grande Benemérita Loja Simbólica Esperança e Porvir nº1. Logo sendo eleito para o cargo de 1° Experto nesta Oficina Maçônica que acaba de completar 150 anos de fundação. Sua atuação na abolição de escravatura do Amazonas foi de papel preponderante, tendo participado da Sociedade Emancipadora Amazonense. Essa sociedade entre tantas outras foi a primeira a ter nascido com este objetivo, promover a libertação dos escravos, em equivoca demonstração de sua capacidade de fazer o bem.
Fundador da Província do Amazonas, Beneficente Portuguesa e da Grande Benemérita Loja Simbólica Esperança e Porvir N 1, Marçal Gonçalves Ferreira. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal

Agradecimento

Agradeço à jornalista Conceição Freitas pelas informações importantes sobre Lúcio Costa. 

Sobre o autor

Abrahim Baze é jornalista, graduado em História, especialista em ensino à distância pelo Centro Universitário UniSEB Interativo COC em Ribeirão Preto (SP). Cursou Atualização em Introdução à Museologia e Museugrafia pela Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas e recebeu o título de Notório Saber em História, conferido pelo Centro Universitário de Ensino Superior do Amazonas (CIESA). É âncora dos programas Literatura em Foco e Documentos da Amazônia, no canal Amazon Sat, e colunista na CBN Amazônia. É membro da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), com 40 livros publicados, sendo três na Europa.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

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