A viagem de volta ao Brasil da Família Silva Azevedo

O casal corria para a cidade do Porto e de lá embarcaria à Manaus, como se o refúgio de uma cidade do outro do Atlântico tivesse aberto suas portas para acolher aquela família cheia de sonhos.

A viagem de volta ao Brasil precisamente a Manaus, cidade de onde haviam partido era o destino final. O Brasil que eles deixaram para trás era outro. A República se consolidara, graças à ação enérgica de Floriano Peixoto. O país vivia uma época de certa tranquilidade e euforia. A família Silva Azevedo acompanhara a Revolução Federalista no Rio Grande do Sul e a Revolta Armada, que fizeram perigar a manutenção das novas instituições e que agora não passavam de fatos históricos.

O Movimento de Canudos, nos remota aos sertões baianos pela força das Armas Federais após uma série de desastres impostos pelos homens de Antônio Conselheiro. O Brasil como um todo prenunciava na politica e a recuperação das finanças públicas. O país estava marcado com as administrações que se caracterizavam por um avançado programa de obras públicas, incluindo a campanha sanitária de Oswaldo Cruz e a nova politica exterior do Brasil, executada para a promoção do país no exterior.

Navio Hilary. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal

A borracha nativa do Amazonas já estava definitivamente superada economicamente, Manaus agonizava em crise comercial. Nos seringais, os seringueiros ainda teimavam em sobreviver do látex nativo. As grandes empresas começavam a mostrar suas decadências, tais como: J. A. Leite, J. S. Amorim, Tancredo Porto & Cia, J. G. Araújo, J. A. Mendes & Cia, J. Rufino e tantos outros.

Eram tempos difíceis em Manaus. Neste período, apesar de abalada pelas grandes entradas de borracha natural de plantação do Oriente e, naturalmente, a queda dos preços, a nossa estrutura de extrativismo permaneceu em decadência.

“Os recebedores, na sua grande maioria, eram os mesmos do período áureo da borracha, além das saídas naturais e de algumas falências, durante a grande crise, houvera o crescimento de muitas empresas, substituindo outras que fecharam suas portas ou estavam em declínio”.

Fonte: LOUREIRO, Antônio José Souto. Tempos de esperança: Amazonas, 1917-1945. Manaus: S. Cardoso & Cia, 1994, pág.:14. 

Restaurante. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal

Restaurante. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal

A chegada da família Silva Azevedo à Manaus 

O que fora o sonho do adolescente José da Silva Azevedo de conhecer Portugal, agora já casado, pai do menino José dos Santos da Silva Azevedo e sua esposa gestante da segunda filha. O casal corria para a cidade do Porto e de lá embarcaria à Manaus, como se o refúgio de uma cidade do outro do Atlântico tivesse aberto suas portas para acolher aquela família cheia de sonhos.

Cabine primeira classe. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal

Cabine terceira classe. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal

Foi uma viagem difícil de terceira classe e naturalmente cansativa e sem muitas novidades, a não ser aquela do imenso navio que deslizava nas águas do Atlântico. Às cinco da tarde, era servido o jantar, o pai precisava toma algumas providências, escondera a gestação da esposa, afinal, era expressamente proibido viajar gestante no oitavo mês de gravidez e, que corria o risco de nascer em viagem. A família, porém, estava confiante, o filho que viajava com eles José dos Santos da Silva Azevedo, tinha apenas três anos de idade, criança bonita, logo caiu na graça dos passageiros ingleses e passou quase a viagem toda na primeira classe em companhia de outros passageiros que o levavam para passear, o que de certa forma era agradável a seus pais, que poderiam dar a atenção um ao outro.

A mãe que só escutava os conselhos do marido, muito atenta demonstrava sempre seu interesse em conhecer a cidade, que haveria de ser sua morada. Foram escritos trinta e três dias de viagem. A noite, nada era feito a não ser recolher-se e dormir a espera do brilho do sol dia vindouro.

Tudo que pensavam naquele momento deveria seguir o caminho da busca incessante do aperfeiçoamento, nas conquistas sonhadas, naquele pequeno camarote, no limite dos espaços permitidos em cada ser, que ali viajavam. O pai cheio de sonhos, pensava em um lugar ao sol, independente de quanto já estavam a ocupá-lo e afirmava: ‘Deus criou o mundo para múltiplos e não para um só’.

José da Silva Azevedo e sua mãe Maria Ferreira. Fotos: Acervo familiar

Foto do casamento de José da Silva de Azevedo e Maria da Silva Santos. Portugal, 24 de setembro de 1932. Foro: Acervo familiar

A monotonia da viagem já não lhes permitia conversar muito, ao mesmo tempo tornava-se difícil levar Maria ao refeitório e tão pouco ser vista por alguém, afinal, ela estava em período de gestação. Já o filho José dos Santos da Silva Azevedo, não tinha como pensar por ser muito criança que, mais tarde, se tornaria um dos maiores empresários no ramo de moveis e eletrodomésticos.

Aportaram em Manaus em três de novembro de 1934 e eram esperados pelo tio Manoel Ferreira Bernardes e sua esposa, Maria Balbina Pereira Bernardes. Aproximadamente quarenta e cinco dias depois nasceria a filha do casal que passaria a chamar-se Maria da Conceição dos Santos da Silva Azevedo. Pouco tempo depois, a mãe ficou gestante de outro filho e que lamentavelmente teve problemas e veio a falecer de parto, a mãe e a criança.

Os paquetes, também, chamados de transatlânticos, destinava-se ao transporte e viagem de longo curso, ligando os portos de Manaus e Belém com New York, Liverpool, Le Havre, Hamburgo, Leixões, Marselle, Gênova e de grandes cabotagem. Os nomes desses paquetes, juntamente com sua tripulação e sua oficialidade estão na memória da velha geração de amazônidas, de empresários e de seus pais que outrora, neles viajavam ou importavam suas mercadorias, dentre eles e que tantas viagens fez, está o Hilary.”

Fonte: BENCHIMOL, Samuel. Navegação e transporte na Amazônia. Edição reprográfica: Manaus, julho de 1995, pág.: 11. 

Sobre o autor

Abrahim Baze é jornalista, graduado em História, especialista em ensino à distância pelo Centro Universitário UniSEB Interativo COC em Ribeirão Preto (SP). Cursou Atualização em Introdução à Museologia e Museugrafia pela Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas e recebeu o título de Notório Saber em História, conferido pelo Centro Universitário de Ensino Superior do Amazonas (CIESA). É âncora dos programas Literatura em Foco e Documentos da Amazônia, no canal Amazon Sat, e colunista na CBN Amazônia. É membro da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), com 40 livros publicados, sendo três na Europa.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista 

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