A Dramaturgia e o Comendador José Azevedo

O teatral juvenil da Divina Providência marcou sua época, tendo instalado toda a parte eletrônica pelo próprio José Azevedo.

Os registros históricos da Igreja Católica nos levam a uma amostragem de sua influência na formação de grupos de teatro. Aqui no Amazonas isto também é verdadeiro.

No decorrer da década de quarenta foi montado, pelos padres capuchinhos, no prédio da Divina Providência, exatamente na Rua Tapajós canto com a Rua Ramos Ferreira, no sobrado e mais tarde já no auditório, na parte de baixo que se chamou primeiramente o “Coro falado nas onomásticas dos frades capuchinhos”.

O sucessor enorme obriga os padres a organizarem-se e daí surgiu o grupo cênico e o espaço teatral, com todos os requisitos exigidos para a montagem de um espetáculo, com respaldo nas seguintes características:

“[…] Palco italiano, caixa do ponto, bambolinas, gambiarra, que permitiam iluminações coloridas e uma planteia com aproximadamente 400 lugares. Posteriormente, foi introduzido um sistema de caixa de som ao longo da plateia, o que permitia o uso de trilhas sonoras no espetáculo”. 17

 

Teatro Juvenil, na apresentação das peças Cavaleiro do Amor e A vida de São Francisco. Da esquerda para a direita, José Bandeira Cabral, José Azevedo, Dioclestes Rabelo, José Torres, Donaldo Jana, Nilton Vicente de Paula Pereira e Ivens Lima, 1955. Foto: Acervo/Abrahim Baze

 O teatral juvenil da Divina Providência marcou sua época, tendo instalado toda a parte eletrônica pelo próprio José Azevedo; seu público fiel lotava as sessões, até porque havia uma perfeita divulgação das peças a serem encenadas, tanto nas igrejas como na imprensa local. Muitos foram os nomes em destaque no movimento teatral: Ivan Nobre da Silva, Donaldo Jana, Alcestes Rebelo, José Bandeira Cabral, José Rufino Torres, José dos Santos Silva Azevedo. Francisco Barbosa, Aníbal Beça, Ediney Azancoth, Robério Braga, Maria de Nazaré Rodrigues Palheta (Bia) e tantos outros que marcaram época.

Equipe do Teatro Juvenil da Divina Providência. Manaus 1950. Foto: Acervo/Abrahim Baze

 Por sua vez o teatro juvenil possuía uma organização administrativa com a responsabilidade de uma diretoria eleita pelos atores, que administrava o grupo por um período de dois anos.

A diretoria e os membros elaboravam a programação teatral e as atividades recreativas e sociais. José Azevedo foi por algumas vezes presidente do grupo, além de excelente ator.

José de Azevedo. Foto: Acervo/Abrahim Baze

 A criatividade na produção e consequentemente a escolha das peças a serem encenadas pelo grupo era decidida pelo coordenador-geral, que normalmente envolvia um padre capuchinho e a diretoria do teatro juvenil da Divina Providência. Esse fato era muito discutido até encontrarem um denominador comum, pois havia rigorosamente o compromisso da própria igreja com peças que ressaltam os valores históricos e morais da própria sociedade. Com esses princípios tornava-se clara a contribuição social e moral do grupo de teatro. Segundo José Azevedo, muitas foram as peças apresentadas, dentre elas: Cavaleiro do Amor, O Segredo do Padre Basílio, O Crime do Libório, O Castelo Mal-Assombrado, O seu Bilhete foi Premiado, Operação de Improviso, O Segredo do Padre Jeremias, Vote em Mim dona Xandoca, Milagre do Calvário, A Virgem de Fátima, Solteira é Que Não Fico e tantas outras que foram encenadas.

Hoje, o prédio que abrigava o teatro da Divina Providência, que por sinal ainda pertence à Igreja de São Sebastião, está alugado para a Faculdade Objetivo, porém, permanecendo de forma silenciosa como repositório do trabalho coletivo da dramaturgia do Amazonas.

17 AZANCOTH, Edney; VALE, Selda. Cenário de memórias: movimento teatral em Manaus (1944-1968). Manaus: Valer, 2001. Pág.: 297.

 Foram dias e noites de leituras de textos, ensaios, partilhados pelo amor à arte de interpretar, pelo prazer da criação e pelo compromisso com o público na arte de entreter. Tudo isso hoje são apenas tênues lembranças e memórias de uma juventude, cenários, vozes, seguidos da interpretação cênica, reproduzidas agora numa viagem de volta ao tempo do homem José Azevedo.

A história real desse cenário foi lembrada por ele, pois foi marcado de grandes momentos retirados do baú da sua memória, ou imortalizadas pelo silêncio do seu arquivo iconográfico do velho álbum de recordações.

Toda essa matéria viva da sua história contribui também na sólida formação do seu compromisso com a sociedade e, não foi diluída pelo esquecimento da memória. Bem faz o homem que sabe escrever sua história para a humanidade. 

Momento histórico na vida da dramaturgia do Amazonas: Francisco Barbosa, Procópio Ferreira e José Azevedo, no Teatro Amazonas em 1958. Foto: Acervo/Abrahim Baze

As pastorinhas: histórias que ficaram no tempo

Toda essa trajetória estabeleceu, na época, que o maior desafio do ser humano era fazer dramaturgia encenando grandes peças, vivenciando a realidade que pairava em sua volta. É como se olhando para trás produzisse uma ação, um sentimento como a possibilidade de um novo encontro com aquela inusitada época. O sentimento do fazer teatro descortinava a esperança da promoção do bem comum do homem.

Era a edificação da arte dramática voltada para o entendimento e, em especial para a solidariedade humana, cujo, alto de fazer mostrava a alma desnuda do sentimento da vaidade. Era a produção teatral aliada ao sentimento do profundo desejo da busca da felicidade dos necessitados. O script da fala, a produção do cenário, tudo era feito sem abrir mão de uma realidade, a filantropia, mesmo que tudo parecesse igual, vivenciaram o mesmo tom da emoção da arte de representar e pisar no solo sagrado do maior tempo, o Teatro Amazonas. Foi nesse éden da germinação de tantas óperas, tantas peças trazidas do exterior, que os lusitanos ecoaram suas falas, seus movimentos corporais desfilando no centenário palco com suas formas artísticas de fazer o bem.

“[…] Olhos atentos no centro do palco, a cena lembra uma floresta úmida e fria. Já havia passado o quarto ato, surge de forma inesperada o diabo, no centro do palco, o áudio era ensurdecedor, provocando mais atenção da plateia, folhas de zinco a produzir barulho e um forte ador de enxofre.

A garotada se manifesta, uns com pavor passavam a correr, outros estáticos a espera do que vai acontecer.

A grande apresentação da Pastoral do Luso Sporting Club, cujos, atores em sua maioria eram portugueses, homens e mulheres simples, pequenos comerciantes, especialmente do mercado Adolpho Lisboa.

Essas apresentações tomavam conta da atenção e do sentimento da cidade especialmente durante a quadra natalina. Não havia uma só família que não levasse suas crianças para assistir o Auto de Natal.

A diretoria reunia os atores para o desfile em caminhões que, desfilando pela cidade, com os seus personagens caracterizados, convidam a população a participar do evento. O destaque principal era a figura do famoso “Cão do Luso”, o Lúcifer – todo vermelho com enorme garfo preto, muitas crianças se atemorizavam.

Por mais de quarenta anos, a Pastoral do Luso Sporting Club e do Teatro da Divina Providência foi programa obrigatório dos festejos natalinos”.

José Azevedo marcou época nessas apresentações. ¹8

18 AZANCOTH, Edney; VALE, Selda. Cenário de memórias: movimento teatral em Manaus (1944-1968). Manaus: Valer, 2007. Pág.: 239.

 Sobre o autor

Abrahim Baze é jornalista, graduado em História, especialista em ensino à distância pelo Centro Universitário UniSEB Interativo COC em Ribeirão Preto (SP). Cursou Atualização em Introdução à Museologia e Museugrafia pela Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas e recebeu o título de Notório Saber em História, conferido pelo Centro Universitário de Ensino Superior do Amazonas (CIESA). É âncora dos programas Literatura em Foco e Documentos da Amazônia, no canal Amazon Sat, e colunista na CBN Amazônia. É membro da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), com 40 livros publicados, sendo três na Europa.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

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