Trabalho em família: cuidado com o Jishoi

O grande desafio se tornou a relação entre os membros da família. O que era a grande força, transformou-se em um entrave para o negócio, pelos conflitos que começam a surgir entre eles.

Aylton é um empreendedor nato. Criou o seu primeiro negócio quando ainda era adolescente, comprando e vendendo objetos para os colegas da escola. Os produtos iam de roupas a livros, passando por sandálias ou bolos que a mãe fazia. Podia ser qualquer coisa, desde que atendesse ao gosto dos colegas. Neste tempo, seu apelido na escola era camelô.

Mais tarde, destacou-se em vendas em empresas de diversos setores, até que aos quarenta e pouco anos decidiu que não trabalharia mais para ninguém. Já casado e com dois filhos adolescentes, iria empreender com a família na produção e venda de produtos de informática. A venda para empresas seria com ele, a mulher Vanessa cuidaria da parte financeira e das vendas on-line, a filha mais jovem, Valéria, das redes sociais e o mais velho, Rodrigo, da produção. Ele aprendera a operar uma maquinário, que representou um alto investimento para Aylton, e que ocupava quase toda a garagem da casa.
Tudo funcionaria na sua residência e não tinha como dar errado. Aylton conhecia o mercado, sabia onde ia vender e teria uma boa margem. Ele imaginava que já no primeiro mês de operação ganharia mais do que quando atuava como vendedor. Isto sem contar que a mulher e os filhos também seriam remunerados pelo trabalho. Cada um dos filhos trabalharia meio expediente, em função do horário da escola e isto seria o suficiente.
Passado algum tempo, o quadro não se revelou tal qual o esperado. De fato, o mercado respondeu bem e tudo sinaliza que há um bom potencial de resultados. No entanto, ao contrário do que previram Aylton e Vanessa, o grande desafio se tornou a relação entre os membros da família. O que era a grande força, transformou-se em um entrave para o negócio, pelos conflitos que começam a surgir entre eles. Olhando de fora, não é difícil perceber o quanto pesa a questão do Jishoi (palavra japonesa que significa tempo, lugar e posição, cuja explicação mais detalhada está no artigo “Cuidado, você não é seu Jishoi”.
Imagem: Reprodução/LinkedIn

No mundo convencional das empresas, há uma separação clara entre o tempo do trabalho e o tempo da família; o espaço da empresa e o espaço da família; a posição de chefe e a posição de pai ou do marido. Tudo bem separado e em ordem.

A questão é quando tudo isto se mistura: os tempos, os lugares e as posições, como neste o caso. Aqui, o trabalho e a família ocupam o mesmo espaço. Não há mais o “sair para o trabalho e voltar do trabalho”.

O trabalho pode ser feito a qualquer hora. Há a sensação de se estar sempre ocupado. Esta percepção pode não ser traduzida em horas reais de produção que, muitas vezes, pode ser até menor do que se estivessem em uma empresa, por exemplo, mas nem por isto é menos pesada a sensação. É preciso separar os tempos para o trabalho e para a família.

Quanto a posição, o comercial da empresa é o pai e é o marido. A financeira é a mãe e é a esposa. Os colaboradores são também os filhos. Todos são família e colegas. Mas pai e mãe não são coleguinhas (frase que gosto sempre de lembrar às minhas filhas). Podem e devem ser amigos, mas ocupam o Jishoi de pai e de mãe. Com o passar do tempo, a autoridade se modifica, mas eles serão sempre pai e mãe. No caso da família de Aylton e Vanessa, quando é que está falando o chefe e quando está falando o pai ou a mãe, o marido ou a mulher?

O maior desafio deles, no momento, não é o mercado ou a questão financeira, mas colocar ordem no Jishoi. O espaço (casa) pode até ser o mesmo, mas é preciso separar o tempo e a posição. Sem isto, o que temos é a desordem.

De acordo com um dos Princípios do Método MCI de Felicidade, baseado em Mokiti Okada: o natural da desordem é a desarmonia. Logo ela chegará ao mercado, às finanças e principalmente, agravará as relações da família, colocando em risco o que há de mais importante para o Aylton, para a Vanessa e para todos nós, não é mesmo? O alerta é: se você trabalha em família, cuidado com o Jishoi.

Sobre o autor

Julio Sampaio (PCC,ICF) é idealizador do MCI – Mentoring Coaching Institute, diretor da Resultado Consultoria, Mentoring e Coaching e autor do livro Felicidade, Pessoas e Empresas (Editora Ponto Vital). Texto publicado no Portal Amazônia e no https://mcinstitute.com.br/blog/.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista 

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