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Quarta, 22 Setembro 2021

Imigração da comunidade japonesa no Pará completa 92 anos

Há 92 anos, um grupo de imigrantes vindo do Japão praticamente transformou um pedaço da Amazônia que mais tarde passou a ser denominado de Tomé-Açu,na Região de Integração do Rio Capim, e que durante muitos anos foi associado à monocultura da pimenta-do-reino. O tempo passou e a cidade se transformou na maior produtora da famosa especiaria do Brasil, mas aos poucos passou a ganhar o mundo também por conta da prática sustentável de cultivos, tornando-se referência na produção da fruticultura.

Essas e outras conquistas têm em comum a marca das mãos da comunidade japonesa, que nesta terça-feira (14), completa 92 anos de imigração no Pará, mais precisamente no município de Tomé-Açu. De 1929 até aqui muita coisa mudou no município, mas, permanece a sagacidade da comunidade japonesa em fazer bem o diferente.

Um exemplo da força de trabalho japonesa é a adoção do chamado Sistema Agroflorestal de Tomé-Açu (Safta). Um método de cultivo que une o desenvolvimento econômico com a preservação do meio ambiente, com a peculiaridade de culturas agrícolas frutíferas e espécies florestais na mesma área. Essa prática ecológica não surgiu por um acaso.

Foto: Mateus Costa - Ascom Sedap

 Depois da grave crise da pimenta-do-reino, no final dos anos 60 – quando milhares de pés da especiaria foram dizimados pela fusariose – as famílias japonesas, a essa altura, já formada por filhos e netos nascidos, em Tomé-Açu, se reinventaram.

Os agricultores observaram que ao invés de focar só a especiaria, deveriam se inspirar nos nativos espalhados pelas margens do rio Acará – uma das nascentes fica em Tomé-Açu – e introduzir junto aos pimentais outras espécies, em especial frutíferas como o açaí, cupuaçu, mandioca, citrus, além de espécies, como andiroba e mogno, por exemplo, entre outros.

O experimento deu certo e logo agricultura de Tomé-Açu estava reerguida, ou melhor, estava solidificado um modelo agroflorestal que serviu de exemplo para outras cidades e até para outros estados brasileiros.

Foto: Mateus Costa - Ascom Sedap

Incentivo

A Secretaria de Desenvolvimento Agropecuário e da Pesca (Sedap) acompanha e estimula o método agroecológico adotado pelos produtores de Tomé-Açu para a produção mais sustentável. A engenheira agrônoma, Márcia Tagore, que é membro da secretaria no Fórum de Indicação Geográfica e Marcas Coletivas, diz que o Safta é um exemplo a ser seguido. Em recente visita a Tomé-Açu para tratar sobre os desdobramentos da Indicação Geográfica da amêndoa de cacau do município – conquista essa obtida em janeiro de 2019 – a engenheira agrônoma visitou algumas das propriedades que trabalham com a Safta.

O sistema, ressalta a especialista, busca o equilíbrio natural com utilização de espécies agrícolas e florestais, trazendo benefícios sociais, ambientais e econômicos. "Com aumento da biodiversidade ocorre a melhoria da fertilidade do solo e os ambientes se tornam mais saudáveis, além de permitir receitas permanentes a partir de diferentes produtos e safras", salienta Márcia Tagore.

Uma das áreas que adotou o Safta e foi visitada pela especialista foi a do produtor, Alyson Inada, cuja fazenda de 130 hectares fica no bairro do Breu, na PA- 451. Ele diz que praticamente todos os descendentes de japoneses produtores de Tomé-Açu aderiram ao Safta, ainda nos anos 70. "Você começa com a pimenta-do-reino e maracujá, no segundo ou terceiro ano começa a colocar o cacau e o açaí no meio e árvores de grande porte tanto frutífera quanto madeira", orienta o produtor.

Apontando para a fileira de mogno africano que faz a diferença na paisagem local, Alyson Inada apresenta o resultado desse investimento. "Tudo tem o seu tempo, mas no final é isso que acaba se formando: castanheira, mogno africano, andiroba, açaí de porte médio e o cacau embaixo; no caso específico do cacau, é necessário sombra. Aí forma essa cadeia", descreve.

Além do Sistema Agroflorestal, a propriedade do produtor chama atenção logo na entrada por conta dos três lagos onde ele cria algumas espécies, como por exemplo, o pirarucu. É nesse ambiente que Inada costuma receber os visitantes, formado não apenas pelos amigos mais próximos, como pelos interessados em conhecer um pouco da sua produção.

Chama atenção também os pés a perder de vista da pitaya, uma fruta ainda não tão consumida em Belém, mas já vista cada vez mais nas feiras e supermercados. Inada diz que exporta a fruta e também lembra que o legado foi deixado pelos antepassados.

Da pimenta à mini floresta

Quem visita a propriedade do descendente de imigrantes japonses, Jorge Itó, na comunidade Breu, por um momento pensa que está em um pedacinho da densa floresta amazônica: além das gigantes como a castanheira e a andiroba, há diversas espécies frutíferas, como, cupuaçu, cacau, açaí, citrus, e como não poderia deixar de ser, a pimenta-do-reino.

Jorge Itó ressalta que, especificamente, na área de 10 hectares onde há o Safta, predominam as espécies florestais, como mogno, a castanha-do-Pará, andiroba, cedro, seringa, piquiá, copaíba, jaqueira, eritrina, paricá e diferentes tipos de ipês – nativos da Amazônia e também de São Paulo. "Esse terreno existe desde 1954, mas como Safta meu pai começou a plantar entre 1974 e 1975. Ele veio inserindo aos poucos outros tipos de árvores", explica o produtor nipo-brasileiro. 

Foto: Mateus Costa - Ascom Sedap

Na mini floresta, a cada caminhar, entre as tão bem distribuídas árvores e plantas típicas da Amazônia, predomina o barulho das folhas secas espalhadas por todo o terreno. "Começamos com cacau e o sombreamento com eritrina e paliteira e depois vieram a andiroba e o freijó", descreve o produtor, citando cada uma das espécies que se adaptaram bem ao local.

Assim como ocorreu com o vizinho Alyson Inada, o experiente produtor aprendeu com os antepassados a preservar a floresta. Conta que os pais chegaram a Tomé-Açu em 1954 e trabalharam dois anos como "patrão", denominação que era dada aos imigrantes pioneiros que recebiam outros que chegavam do Japão para dar apoio. "Eles trabalharam dois anos e depois compraram este terreno aqui e se mudaram. No começo, meus pais moraram em barracas feitas de parede de barro, coberta de palha", recorda Itó. Os pais, como lembra, começaram plantando 300 pés de pimenta-do-reino e trabalharam bastante até chegar a contabilizar 18 mil pés.

A área mantida por ele é 100% produtiva, segundo garante. A tônica é a produção sustentável. Para isso, houve necessidade de mudanças. A velha prática de lavar a pimenta-do-reino no pequeno igarapé existente dentro do terreno, por exemplo, foi substituída. "Agora a gente utiliza os tanques para essa fase da produção. Assim, estamos fazendo com o que o igarapé volte a ter no mínimo 70 metros, a contar da beira do rio", anuncia.

Fruticultura

Um dos destaques da economia de Tomé-Açu é a fruticultura, também herança dos imigrantes japoneses. O presidente da Cooperativa Mista de Tomé-Açu (Camta), Alberto Oppata, diz que o legado deixado pelos antepassados foi muito bem mantido e desenvolvido pelos descendentes e precisa ser levado a conhecimento de um número cada vez maior de interessados.

Uma das sugestões apresentadas para isso, assegura Oppata, é a criação de uma rota da imigração japonesa. "O que esperamos que a Indicação Geográfica traga, de fato, virá através da criação de uma rota da imigração japonesa aqui em Tomé-Açu, acredito que junto com o estado e com o município; com isso acreditamos que possamos agregar mais valores para o nosso município", ressalta otimista.

Ele explicou que em função do uso do Safta – patenteado pela Camta – está proporcionando a exportação das amêndoas de cacau. "Quando nosso produto vai ao mercado de externo, é exigido que seja oriundo do sistema florestal de Tomé-Açu; o nosso selo está aí para comprovar que é de um sistema sustentável econômico e social e ao mesmo tempo ecologicamente", destaca o presidente da Camta.

Uma fruta talvez pouco conhecida do grande público e que pode ser encontrada nas propriedades de alguns dos nipo-brasileiros é o zabão, parente da laranja e de outros cítricos, mas de espécie diferente. Um dos cultivadores da fruta é Walter Oppata que não vende em larga escala e produz mais para consumo próprio, embora também comercialize em alguns pontos do município.

Oppata conta que a fruta foi introduzida na área de plantio pelos pais. Aos poucos vai ganhando o paladar de um número maior de consumidores. "Quem consome tem gostado da fruta. Ela é igual uma laranja, mas tem um pouco de amargo nela", explica o produtor, apresentando a fruta, que é grande e esférica, com uma casca grossa. Ao todo, há 10 árvores de zabão na propriedade de Walter Oppata.

Mulheres e Nova Geração

O legado deixado pelas 43 famílias que chegaram a Tomé-Açu, naquele ano de 1929, será mantido no município, se depender da novíssima geração. Um exemplo é a estudante Nicole Sayuri Gomes, de 14 anos. Ela, com outras mulheres, participa de um curso de fabricação de chocolate artesanal com o a orientação da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac).

A adolescente diz que o pai é produtor de cacau e quer continuar seguindo a mesma atividade. "Para poder cuidar da plantação que temos em casa e também porque quero aprender para poder ajudar. Já aprendi a fazer iogurte natural, doce de sibirra (uma das partes do cacau que não era aproveitada) e chocolate", garante Nicole Gomes.

A estudante revela que tem vontade de conhecer o país berço dos seus antepassados e que conhece e gosta muito da cultura japonesa. Junto com a irmã mais nova pretende manter a tradição familiar.

Nicole faz parte do grupo de mulheres que pretendem expandir o seu conhecimento. Lina Oppata, coordenadora do departamento feminino da Camta, diz que a ideia do curso foi proporcionar o aproveitamento e, consequentemente, uma renda extra para as mulheres das comunidades de Tomé-Açu, com produtos que são o carro-chefe do município, como o cacau.

"Temos 120 mulheres cooperadas, mas em função da pandemia, estamos no momento com 20 fazendo o curso; a ideia é formar novas turmas. Queremos mostrar que o nosso produto é sustentável", destaca.

A sede da Camta, assim como o prédio da Associação Cultura de Tomé-Açu (ACTA), são alguns dos exemplos de arquitetura japonesa que podem ser apreciados por quem chega ao município. No prédio da ACTA está instalado um museu que conta toda a história da chegada dos japoneses ao Pará há 92 anos. Os dois prédios ficam no distrito de Quatro Bocas, pertencente a Tomé-Açu. 

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Quinta, 23 Setembro 2021

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