Foto: Willame Sousa
A violência contra a mulher nem sempre deixa marcas visíveis, pois muitas vezes se instala de forma silenciosa por meio do controle, da desqualificação e do medo. É dessas formas que transforma a vida de muitas mulheres em um cárcere invisível, construído na mente, que aprisiona mesmo quando não há grades.
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De acordo com dados divulgados em 2025 do Atlas da Violência, o Estado de Roraima registrou a maior taxa de homicídios contra mulheres no Brasil em 2023. Por conta disso, ações como o projeto Bella Causa, realizado pela Fundação Rede Amazônica (FRAM), chega pela primeira vez ao estado com a finalidade de empoderar e capacitar mulheres que sofreram algum tipo de violência.

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Entre as ações realizadas, o projeto conta com oficinas, cursos e rodas de conversa, permitindo que mulheres possam contar e escutar diversas histórias de superação.
É nesse espaço que histórias como as de Maria e Luciana ganham voz e revelam que a libertação começa quando o silêncio é rompido e a superação nasce, sobretudo, da coragem, da rede de apoio e da informação.
A voz de Maria
Fabiana Souza, líder no grupo Mulheres do Brasil e uma das mediadoras do Bella Causa, conta a história da Maria, uma mulher de pouco mais de 30 anos, que é mãe de dois filhos, divorciada, graduada e gestora na área da construção civil, com casa própria, carro e estabilidade profissional.
De acordo com Fabiana, aos olhos de muitos, Maria é uma mulher que ‘deu certo’, mas que por trás das conquistas, vestia uma armadura pesada demais, para sustentar uma imagem de força enquanto ignorava a própria dor.
Após passar por um divórcio, Maria seguiu em frente sem demonstrar fragilidade, colocando a dor no silêncio, engolindo a tristeza, assumindo responsabilidades múltiplas e vivendo no modo sobrevivência, já que precisava ser forte pelos filhos, provar sua competência no trabalho e justificar constantemente suas decisões em um ambiente hostil, onde sua autoridade era questionada simplesmente por ser mulher.
No entanto, em um novo relacionamento, Maria encontrou inicialmente acolhimento, inclusive na relação do companheiro com seus filhos, mas com o tempo, porém, o cuidado deu lugar ao controle.

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“Quando Maria estava trabalhando e não atendia um telefonema dele, ele dizia que era mentira, que ela não estava trabalhando, então ela dizia que estava em reunião e ele dizia que ela estava com outro homem”, relata Fabiana.
A violência psicológica se instalou lentamente e as consequências não demoraram a aparecer, já que noites sem dormir, crises de choro e vergonha afetaram sua rotina e o desempenho profissional. Segundo Fabiana, a agressão contra Maria não possuía empurrões, tapas ou socos, mas sim palavras de questionamento, desconfiança, controle e a proibição do convívio social.
“Para evitar as discussões, evitar o que ouvia, evitar a dor das palavras, que eram piores até que agressões físicas, a Maria ia se isolando. Essas situações começaram a afetar inclusive o rendimento profissional, porque como ela ouvia muitas coisas, ela passava a noite chorando, e no outro dia tinha vergonha de ir com o rosto inchado trabalhar”, conta Fabiana.
Ela relata que Maria começou a se apagar, parou de se arrumar, entrou em depressão e passou a se enxergar a partir do olhar do agressor. Mesmo diante dos sinais, ela permanecia no relacionamento, principalmente pelos filhos, já que tinha medo de romper o convívio deles com alguém que demonstrava carinho, e receio do julgamento social por “mais uma separação”.

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A mudança começou quando ela passou a contar com uma rede de apoio formada por familiares e amigas, que a ajudaram a reconhecer a violência e a fortalecer sua decisão. Maria entendeu que se colocar em primeiro lugar não era egoísmo, mas sim sobrevivência.
“Essa Maria um dia fui eu e contar isso hoje não é por causa do aconteceu comigo lá. É o que eu me tornei através do que eu superei e eu aprendi”, revela Fabiana.
Atualmente, Fabiana atua na conscientização sobre violência contra a mulher, levando sua própria história como ferramenta de transformação.
Ao dar voz à “Maria” que ela foi, permite que outras mulheres reconheçam suas próprias dores, já que em encontros em grupo, ao ouvir sua história, mulheres se levantam e dizem “eu também tenho uma Maria dentro de mim”.
“Hoje eu sigo liderando mulheres e levando informação e consciência para combater a violência contra a mulher. Porque a agressão não é só aquela que a gente costuma ver que é a física, mas a psicológica. Ela também maltrata, deprime e definha. Quantas mulheres hoje não estão passando por isso?”, afirma.
Para ela, quando estandes são montados em feiras do Grupo Mulheres do Brasil com o violentômetro, ferramenta de conscientização, ver que muitos homens também se aproximam querendo entender, mostra que conscientizar é uma ferramenta potente.
“E o nosso trabalho hoje é justamente trazer informação e reforçar que a mulher tem valor, tem lugar, tem voz e tem direito de decisão sobre a própria vida, onde quiser estar e os espaços que quiser ocupar, inclusive cargos de decisão, de liderança, de condução de estados e nações. A mulher tem direito à igualdade e, dentro do grupo voluntário, o nosso lema é claro: uma sobe e puxa a outra”, enfatiza.

Luciana e a denúncia como ato de sobrevivência
Se a história de Maria revela a violência silenciosa, a de Luciana Matos escancara a brutalidade que muitas mulheres enfrentam dentro de casa. Luciana, frequentadora da Casa da Mulher Brasileira em Roraima e participante do Bella Causa, viveu sob violência doméstica: foi agredida pelo ex-companheiro por sete anos.
Durante todo esse tempo, Lucina não teve coragem de denunciar, pois o medo, a dependência emocional, a esperança de mudança e o terror das consequências a mantiveram presa ao agressor.

O limite chegou de forma cruel, quando Luciana sofreu uma agressão grave: o ex-companheiro jogou óleo quente em seus seios.
De acordo com Luciana, foi naquele momento que ela entendeu que não sobreviveria se permanecesse em silêncio, o que a fez buscar ajuda na Casa da Mulher Brasileira, onde encontrou acolhimento e suporte psicológico e social.
“Eu acho que as mulheres que sofrem violência doméstica, elas têm que vir denunciar, elas têm que ter coragem, têm que ter atitude, porque quem bate uma vez vai bater sempre”, afirmou Luciana em seu depoimento durante as atividades do projeto.
Na Casa, ela conta que encontrou mais do que atendimento institucional, “encontrou um espaço onde a dor é ouvida sem julgamento e a mulher é tratada com dignidade e respeito”.
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Luciana reforça que a denúncia é um passo fundamental para quebrar o ciclo da violência, e faz questão de alertar outras mulheres sobre a importância de denunciar e do reconhecimento da violência desde os primeiros sinais.
“Um xingamento é uma agressão, um palavrão é uma agressão. Tudo isso. Basta você ter coragem para denunciar”, incentivou.
Ao compartilhar sua história, Luciana também transforma o trauma em alerta, e faz um convite direto às mulheres de Roraima e de todo o país:
“Denunciem. Procurem ajuda. Não se calem”.
Bella Causa
O Projeto Bella Causa surgiu da necessidade de oferecer suporte a mulheres que enfrentam violência doméstica, proporcionando oportunidades para que resgatem sua dignidade e busquem crescimento pessoal e profissional.
É uma realização da Fundação Rede Amazônica (FRAM), com apoio da LB Construções e Engenharia, PauBrasil RR – materiais para construção e Governo de Roraima.
