Peças produzidas por povos indígenas chegam a feira de design em Paris

Produção brasileira foi selecionada entre mais de 600 inscritos para uma agenda de negócios em Paris e chegou a uma das principais feiras europeias de design de interiores

Foto: Divulgação/Tucum

De territórios indígenas da Amazônia para uma das principais vitrines internacionais de design e decoração. Em setembro, peças produzidas por povos indígenas brasileiros chegaram a Paris, na França, onde foram apresentadas a compradores, lojistas e profissionais de diferentes países durante uma agenda voltada à inserção do artesanato brasileiro no mercado internacional.

A movimentação fez parte da segunda edição da Jornada Exportadora do Artesanato, promovida pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil). Entre mais de 600 negócios inscritos, 20 empresas, associações e cooperativas foram selecionadas para participar da programação, que incluiu seminários sobre os mercados francês e europeu, visitas técnicas e rodadas de negócios com compradores internacionais.

Entre as selecionadas estava a Tucum Brasil, plataforma especializada na comercialização de arte indígena brasileira e integrante do portfólio da AMAZ Aceleradora. A iniciativa é coordenada pelo Idesam – Instituto de Conservação e Desenvolvimento da Amazônia, organização que atua com práticas sustentáveis e inovação em bioeconomia na Amazônia, trabalhando com comunidades tradicionais, negócios e organizações para fortalecer redes produtivas e conectar diferentes atores do ecossistema de impacto.

Além da participação na Jornada Exportadora, a Tucum foi uma das 10 iniciativas escolhidas para expor produtos na Maison&Objet, uma importante feira francesa de design de interiores realizada semestralmente em Paris e considerada um dos principais eventos europeus do setor. A empresa integrou a exposição “Brasil Nostálgic”, com produtos selecionados pelo curador Bruno Simões, no estande da ApexBrasil, durante a Maison&Objet, realizada de 10 a 14 de setembro, em Paris.

A participação colocou peças produzidas por povos indígenas brasileiros em contato com profissionais e compradores ligados aos mercados de design, decoração e objetos. Para a Tucum, a experiência também serviu para entender melhor as oportunidades e os desafios de levar essa produção para outros países.

Segundo a fundadora e gestora da Tucum, Amanda Santana, a empresa teve contato com mais de 15 potenciais compradores e lojistas durante a programação. Entre eles estavam representantes da França, Grécia, Islândia, Reino Unido e Bélgica, além de brasileiros que mantêm negócios na Europa.

“Foi uma oportunidade tanto para a Tucum estabelecer contato e, de repente, fechar negócios em maior escala com esses compradores quanto para aprender também”, afirma Amanda.

Amanda Santana, fundadora da Tucum Brasil, apresenta peças de arte indígena brasileira durante agenda em Paris. Foto: Divulgação/Tucum

Da floresta para o mercado internacional

Levar uma peça produzida em uma comunidade indígena até um comprador em outro país envolve mais do que encontrar um mercado interessado. O processo passa pelo tempo de produção, pela dinâmica das comunidades, pela formação dos preços e pela logística necessária para retirar os produtos de territórios muitas vezes distantes dos grandes centros.

Esse é um dos pontos que a Tucum tem buscado apresentar aos compradores internacionais. Segundo Amanda, o artesanato indígena não segue necessariamente uma lógica de produção contínua ou em escala. A confecção das peças acontece de acordo com a rotina de cada comunidade e é conciliada com outras atividades do cotidiano.

“Esse fazer acontece em determinados momentos que são separados para isso. Isso implica também na forma como a gente escala e na forma como a gente forma o preço”, explica.

A distância entre os territórios de origem e os mercados consumidores também pesa. Produtos produzidos em áreas remotas da Amazônia precisam percorrer diferentes etapas até chegar a cidades como Manaus ou Rio de Janeiro e, posteriormente, seguir para outros países.

“Temos a complexa logística de retirar um produto de dentro da floresta para chegar ao Rio de Janeiro ou chegar em Manaus e depois ser despachado para outro país, em outra parte do mundo”, relata.

Nesse cenário, a internacionalização não envolve apenas encontrar compradores, mas também criar condições para que a comercialização considere o modo de produção das comunidades e seja viável para quem está na origem das peças.

Primeira participação na feira francesa

A presença na Maison&Objet marcou a primeira participação da Tucum na feira. A empresa foi selecionada para integrar a exposição “Brasil Nostálgic”, no estande da ApexBrasil, com produtos escolhidos pelo curador Bruno Simões.

Para Amanda, a experiência abriu uma frente diferente das rodadas tradicionais de negócios ao colocar as peças em um ambiente frequentado por profissionais ligados ao design e à decoração.

“Foi a primeira vez que a gente participou de uma feira dessas. Achei muito importante para a gente colocar o nosso produto nesse circuito”, afirma.

A Tucum também recebeu uma Bolsa Exportação da ApexBrasil, no valor de R$ 20 mil, destinada a auxiliar a participação da empresa em outros eventos de promoção comercial organizados pela agência.

A delegação da Jornada Exportadora do Artesanato reuniu 20 empresas, associações e cooperativas selecionadas entre mais de 600 inscrições. Segundo Amanda, 95% dos participantes eram mulheres.

Uma rede de povos indígenas

A Tucum foi fundada em 2013, no Rio de Janeiro, inicialmente como uma loja física. Em 2015, passou a atuar como marketplace de arte indígena, reunindo produtos de diferentes povos e territórios.

Atualmente, a empresa atua em quatro Unidades de Conservação e 56 Terras Indígenas distribuídas por oito estados da Amazônia Legal. A rede reúne associações, cooperativas, grupos e artistas indígenas.

Entre os produtos comercializados estão roupas, bolsas, biojoias, peças de artesanato, pinturas e objetos de decoração. Em 2024, a Tucum comprou R$ 538 mil em mercadorias, beneficiando artesãos e artesãs de 106 povos indígenas que vivem em 62 territórios tradicionais. Entre os povos parceiros estão Baniwa, Baré, Guarani, Kayapó, Ticuna e Yanomami.

A participação na Jornada Exportadora não foi a primeira experiência internacional da empresa. Em 2025, a Tucum integrou a edição realizada em Lisboa, em Portugal. Para Amanda, voltar ao programa um ano depois permitiu comparar as experiências e chegar a Paris com novos aprendizados.

“Eu tenho certeza que ter participado dessa segunda jornada trouxe mais aprendizados e que a gente também teve contato com mais compradores, compradores mais qualificados. Acho que vão surgir bons negócios”, avalia.

Para a fundadora, ampliar o acesso a mercados também pode aumentar as possibilidades de geração de renda para as comunidades produtoras.

“Na nossa missão de valorizar e promover as artes indígenas do Brasil, a Tucum vê na exportação uma oportunidade de gerar mais renda e impactos positivos para as artistas que mantêm seu território com a floresta de pé”, afirma.

A Tucum integra o portfólio da AMAZ Aceleradora, iniciativa coordenada pelo Idesam. O Instituto de Conservação e Desenvolvimento da Amazônia também é parceiro da Fundação Rede Amazônica em iniciativas voltadas ao desenvolvimento sustentável e à valorização de soluções para a Amazônia.

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