‘Tereza de Benguela: Rainha do Guaporé’ resgata líder negra que desafiou a Coroa no coração da Amazônia

Uma trajetória, quase apagada dos livros oficiais, que o jornalista, escritor e membro da Academia Rondoniense de Letras, Júlio Olivar, resgata no livreto.

“Tereza de Benguela: Rainha do Guaporé” resgata líder negra que desafiou a Coroa no coração da Amazônia. Foto: Divulgação

Durante duas décadas, Tereza de Benguela governou um reino livre no Vale do Guaporé. Transformou o Quilombo Grande, o Quariterê, em nação autônoma, com forjas, roças e um conselho de deputados que desafiava a Coroa Portuguesa. Capturada em 1770, morreu na cadeia de Vila Bela da Santíssima Trindade. Seu povo resistiu por mais 25 anos.

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É essa trajetória, quase apagada dos livros oficiais, que o jornalista, escritor e membro da Academia Rondoniense de Letras, Júlio Olivar, resgata no livreto ‘Tereza de Benguela: Rainha do Guaporé’, lançado pelo selo Amazônia Livros.

Com base nos Anais de Vila Bela — única fonte primária sobre o quilombo, hoje preservada na Newberry Library, nos EUA — e na história oral colhida de Elísio Ferreira de Souza, o primeiro a pesquisar Tereza nos anos 1940, Olivar constrói uma obra enxuta, mas densa.

O diferencial do livreto está no olhar interdisciplinar. Além da biografia da líder que deu origem ao Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra (Lei nº 12.987/2014), o autor traz uma contribuição original sobre linguística.

Defende que a Língua Caipiresa — falada no universo que vai de São Paulo a Mato Grosso e Rondônia — é um elo entre o tupi antigo, o português de Camões e elementos africanos, e lança a hipótese de que o próprio nome do quilombo do Quariterê tenha origem no nheengatu normatizado pelos jesuítas.

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Tereza de Benguela
Foto: A pintura a óleo “Mulher Negra Sentada de Frente”, criada em 1911 pelo artista plástico suíço Félix Edouard Vallotton (1865- 1925), foi adotada pelos movimentos negros brasileiros para representar Tereza de Benguela, homenageando-a como uma rainha quilombola. Imagem: Reprodução/Domínio público

Legado de Tereza de Benguela

Olivar também costura o passado ao presente. Lembra que Vila Bela ainda é 72% preta e parda e, segundo a pesquisadora Silviane Ramos, “é uma pequena África em Mato Grosso”. Mostra os nove quilombos que resistem hoje em Rondônia e os quase 12 mil quilombolas de Mato Grosso, 2,6 mil deles em Vila Bela. E critica a forma como a história oficial apaga a mão de obra negra, como nos mais de 360 escravizados que ergueram o Forte Príncipe da Beira.

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A obra traz ainda curiosidades pouco lembradas, como a homenagem feita pela Escola de Samba Viradouro (RJ) em 1994, quando três supostas descendentes de Tereza — Tereza, Vitória (irmãs de Vila Bela) e Inês (de Cáceres) — desfilaram no abre-alas na Marquês de Sapucaí, pesquisadas pelo carnavalesco Joãosinho Trinta, e a confusão criada ao chamá-la de “Rainha do Pantanal” por conta do sucesso da novela da Manchete.

Com fotos atuais de Vila Bela feitas pelo próprio autor, gravuras de Rugendas e imagens de arquivo, o livreto é, segundo o autor, “um gesto de idealismo”.

“Uma leitura necessária para academia, professores, estudantes e para quem quer entender que Vila Bela ainda é, e Tereza vive”.

O livreto é distribuído gratuitamente em formato PDF, com patrocínio do próprio autor, que não teve recursos para a impressão:

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