Rotina de indígenas no início do século passado é tema de primeiro filme feito em Roraima

O filme, que também é um dos primeiros da Amazônia, integra o acervo do doutor em história social e pesquisador na Universidade Federal de Roraima (UFRR), Maurício Zouein.

“A rotina dos povos da comunidade Taurepang, no Norte de Roraima em 1911, mostrando brincadeiras, costumes e tradição”. É isso que o filme ‘Aus dem leben der Taulipang in Guayana‘, feito por Theodor Koch-Grunberg, apresenta em menos de nove minutos.

O filme, que também é um dos primeiros da Amazônia, integra o acervo do doutor em história social e pesquisador na Universidade Federal de Roraima (UFRR), Maurício Zouein. Em comemoração ao aniversário de Roraima em 5 de outubro de 2023, ele cedeu as imagens à reportagem do Grupo Rede Amazônica.

A relíquia mostra filmagens feitas pelo explorador alemão em uma das visitas ao extremo Norte do território que hoje compreende o Estado de Roraima. O título, em livre tradução, significa “A vida do povo Taulipang na Guiana” – na época ainda não havia uma divisão clara do território brasileiro com o guianense.

Indígenas Taurepang brincam balançando na rede em filmagem dem 1911, feita por Theodor Koch-Grunberg. Foto: Maurício Zouein/Acervo pessoal

O filme é sem som e em preto e branco. Foi gravado com uma das primeiras câmeras de filmagem, feitas com manivela. Na primeira cena, após as apresentações dos créditos, aparece Koch-Grunberg sentado, conversando com os indígenas.

Ao longo do filme, os Taurepang foram registrados fazendo artesanato, farinha e até crianças brincando com o que parece ser cama-de-gato, o conhecido jogo com barbante entrelaçado entre os dedos.

O filme foi gravado na região que atualmente compreende a divisa do Brasil com a Guiana, no município de Uiramutã, na Raposa Serra do Sol. Roraima é o segundo estado mais indígena do país e Uiramutã é o município com maior população indígena do Brasil, compreendendo 97% dos moradores.

Saiba mais: Uiramutã: cidade mais indígena do país também é a mais jovem, segundo Censo 2022

Na avaliação do pesquisador, a rotina captada pelo explorador mostra que “existem aqueles que respeitam e cuidam da terra e aqueles que desrespeitam e não cuidam da terra”.

“Então, os indígenas são aqueles que sabem qual é o valor da terra. Cuidam e respeitam”,

destacou.


Depois

Antes


Theodor Koch-Grunberg foi um dos pioneiros no uso de recursos cinematográficos e fonográficos em pesquisas de campo – ele era conhecido pelas etnografias de grupos indígenas, afirma Zouein. Foi dele, inclusive, o primeiro registro fonográfico feito no território roraimense. O explorador morreu de malária em Caracaraí, município da região Sul.

Os filmes não eram editados e o material era finalizado de maneira bruta. Maurício conta que Koch-Grunberg instalava o equipamento de filmagem em um lugar fixo e capturava a rotina dos indígenas. Essa técnica era usada para mostrar com naturalidade dos povos da época.

“É nesse momento que ele faz um filme em uma duração de média para longa-metragem. Ele não faz uma edição, são filmes brutos na sua matriz. São os primeiros documentos audiovisuais feitos aqui em Roraima. Esse período foi rico para Roraima mesmo que seja por meio de um olhar estrangeiros, mas hoje são documentos que nós podemos fazer uso”,

explica o pesquisador.

Os filmes também não tinham uma narrativa e nem uma história pré-definida. De acordo com Maurício, a ideia não era apresentar uma trama, mas sim, a realidade do povo, mas ele não precisava se esconder para filmar. Como o explorador participava do dia a dia da comunidade, ele pedia permissão para rodar o filme. Para filmar, era necessário girar uma manivela.

“O que acontecia era que ele pensava ‘agora quero filmar as brincadeiras dos meninos macuxi’. Então ele chamava as crianças e falava para eles brincarem enquanto ele ficava com o aparelho filmando, parado. Era uma construção de fases, de etapas e gerações que as comunidades fazem aleatoriamente e ele convidava as pessoas aleatoriamente para filmar”, destaca.

Três indígenas macuxi e wapichana sorriem em fotografia tirada em 1911. Foto: Theodor Koch-Grünberg/Acervo de Maurício Zouein

O professor destaca que na época o equipamento usado para fazer o filme era considerado “de ponta” pois os alemães na época eram referência na captação de imagens — tanto cinematográfica como fotográfica. A técnica era tanta que só de falar “fotografia alemã” que já era sinônimo de qualidade. “O equipamento que ele usava para filmar, no olhar de hoje, é arcaico mas naquela época era um equipamento de ponta, não tinha como não ser. Era de última geração”.

“O filme que Koch-Grunberg fez aqui, além de ser o primeiro feito em Roraima, é um dos primeiros da Amazônia e um dos primeiros filmes etnográficos da América Latina. Ele trouxe para cá equipamentos que tinham excelência técnica para poder filmar o que ele filmou e nas condições em que foi filmado”.

Indígenas Taurepang reunidos em filmagem de 1911, em Roraima. 

As pesquisas feitas por Koch-Grunberg também resultaram em extensas obras etnográficas escritas em três volumes de livros. Além dos Taurepang, o alemão também pesquisou os povos Macuxi, Wapichana e Yekuana.

“O interesse dele era educativo, documentar para que outras pessoas pudessem ver. Ele se encantou com a região, como se fosse abraçado por Macunaíma, e começou a documentar as culturas locais e a fazer registros. Hoje, existe um museu em Grunberg, na Alemanha, que leva o nome dele, e a sobrinha-neta dele trabalha nesse museu, cuidando dos artefatos que ele produziu”, diz Maurício.

Koch-Grunberg também é o autor de uma das fotos que mais emocionou o professor. O retrato mostra um singelo sorriso de três mulheres indígenas Macuxi e Wapichana.

Além do filme, outras produções cinematográficas mostram Roraima no início do século XX, como a “No País Das Amazônas”, feito por Silvino Santos em 1922; “No Rastro do Eldorado”, que mostra a expedição de Hamilton Rice no Rio Branco em 1924.  

*Por Caíque Rodrigues, do Grupo Rede Amazônica

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