Jovem indígena une tradição e tecnologia em grife de moda on-line

Segundo o empreendedor da etnia Kokama, Joeliton Vargas Moraes, o nome da startup 'Ikaben' significa ‘voz’ no dialeto Kayapó e carrega uma mensagem de respeito e valorização dos grafismos ancestrais da Amazônia.

Foto: Reprodução/Ikaben

Pertencente ao povo Kokama, Joeliton Vargas Moraes já acumula importantes conquistas no mundo do empreendedorismo digital, antes uma terra árida para a disseminação da cultura dos povos originários da Amazônia.

Ele se formou em Administração no Instituto de Natureza e Cultura (INC) da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) em janeiro de 2025, mas dois anos antes, já ingressava no mercado das startups com uma proposta inovadora. A empresa Ikaben, idealizada por ele ainda quando cursava a disciplina de Empreendedorismo, em 2023, dá visibilidade aos grafismos de significado milenar entre os Kokama por meio da moda.

“A Ikaben é mais que uma marca, é uma voz. No dialeto Kayapó, Ikaben significa ‘voz’, e essa escolha não é por acaso. Queríamos não apenas falar por nós e pelos nossos parentes mais próximos, mas sim que a nossa voz ecoasse junto com a de outros povos indígenas, de etnias e territórios distintos, porque a nossa luta, a nossa cultura e a nossa resistência ultrapassam as fronteiras. A Ikaben não é só sobre uma identidade, mas sobre muitas identidades que se conectam. É sobre atribuir visibilidade a culturas que resistem há milênios e que seguem firmes, preservando suas raízes e sua sabedoria. Queremos que cada peça e cada criação carregue a mensagem de pertencimento, respeito e valorização”, explica o empreendedor.

Leia também: Grafismo indígena: a importância da arte como símbolo de resistência dos povos originários

Tudo começou quando o jovem universitário foi desafiado pelo professor Pedro Henrique Mariosa a pensar numa proposta de empreendimento que fosse capaz de valorizar a cultura indígena. Na época, Joeliton comercializava bonés comprados na capital para os parentes de sua comunidade, no município de São Paulo de Olivença.

A venda, no entanto, gerava lucros para as marcas já consolidadas na indústria da moda. Foi então que aluno e professor refletiram se não seria o caso mudar o sentido daquela equação, com a venda de produtos que valorizassem os elementos culturais próprios daquele povo e ainda gerando renda para a comunidade.

Empresa Incubada

A Ikaben germinou ali mesmo, na sala de aula, mas ganhou corpo depois de ser integrada à Incubadora de Negócios de Impacto Socioambiental do Alto Solimões (InPaCTAS). Em 2024, o professor Pedro Henrique Mariosa foi um dos três proponentes da Ufam contemplados no edital Pró-Incubadoras, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Amazonas (Fapeam), e a InPaCTAS recebeu aporte de R$150 mil para potencializar as propostas aptas à incubação na região do Alto Solimões, onde fica o campus de Benjamin Constant.

À época da contemplação, o coordenador mencionou já haver demanda pelo serviço. “O Provalor identifica, mapeia e organiza iniciativas que promovam a inversão da subalternidade na Amazônia”, disse o professor Mariosa em 2024. De fato, é exatamente essa a ideia por trás da criação da Ikaben.

Durante a pré-incubação, houve oficinas, capacitações e mentorias, com o objetivo de estruturar as ideias dos proponentes. “A InPactas não é sobre aprender a vender, mas sobre como criar um negócio com propósito, impacto e sustentabilidade, fortalecendo redes de contato estratégicas para nos conectar ao mercado”, ressalta Joeliton Moraes.

A fase de incubação propriamente tem ajudado a empresa a crescer com bases sólidas e olhar para o futuro com mais estratégia e segurança.

“A importância desses processos não pode ser subestimada pelos novos empreendedores. No nosso caso, foi a partir dessas experiências que conseguimos transformar uma ideia, que um dia foi motivo de dúvida e até risadas, em um negócio real, estruturado e com impacto positivo na nossa região”, completa o jovem.

Foto: Reprodução/Ikaben

Tecnologia de rastreabilidade

A Ikaben foi fundada em 2023, como uma loja de roupas contendo grafismos atribuídos ao povo Kambeba, com atuação on-line. Ao aliar o uso de recursos tecnológicos a uma tradição cultural milenar, que são os grafismos indígenas do povo Kokama, a startup foi além.

Joeliton explica que o uso da tecnologia blokchain (cadeia de blocos, em tradução literal) é o que garante a rastreabilidade de origem no processo que envolve a fabricação de produtos como camisas, bolsas e bonés pela Ikaben. O emprego dessa tecnologia resultou da colaboração entre duas startups incubadas na InPaCTAS: a Ikaben e a Puwakana.

O modelo traz ao menos dois benefícios diretos: protege a propriedade intelectual dos grafismos indígenas e garante que haja um repasse financeiro justo para as comunidades.

“Unimos empreendedorismo socioambiental, tecnologia e tradição, conectando consumidores globais a histórias milenares e fortalecendo a voz dos povos originários da Amazônia”, orgulha-se Joeliton.

Além disso, o uso de blockchain fortalece toda a cadeia de valor em torno daquele negócio e incrementa o preço de venda das peças, pois permite a catalogação e monitora o uso comercial dos grafismos ancestrais, assegurando que haja mais transparência e respeito aos povos indígenas detentores desse artefato cultural.

Agora, ela busca acelerar o emprego da tecnologia blockchain para garantir a rastreabilidade e a autenticidade de peças vendidas pela própria empresa por outras lojas parceiras. Cada peça recebe o registro único digital, contendo o nome do artesão, o local de produção, os materiais utilizados e o significado cultural daquela arte.

O processo permite ainda que o produtor seja recompensado financeiramente, e que 15% dos lucros sejam repassados à comunidade. “Nós unimos empreendedorismo socioambiental, tecnologia e tradição, conectando consumidores globais a histórias milenares e fortalecendo a voz dos povos da Amazônia”, destaca Joeliton.

De acordo com o empreendedor, a ideia é mesmo construir junto com os artistas, visitando cada comunidade para apresentar a startup e facilitar o processo de entendimento pelos povos, cada qual com língua e cultura próprias, além de auxiliar no cadastro dos artesãos daquele povo. “Agora temos um caminho claro para seguir. Vamos expandir a coleção, trabalhar no desenvolvimento da tecnologia e criar oportunidades para que artistas indígenas se conectem ao mercado de forma justa e transparente”, conclui o jovem.

Fomento

A Ikaben foi selecionada na quinta edição do edital ‘Elos da Amazônia – Empreendedorismo Científico Indígena‘, do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam), para receber um aporte financeiro de R$ 1 milhão em investimentos.

O edital é parte do Programa Prioritário de Bioeconomia, Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) e do Instituto de Desenvolvimento Tecnológico (INDT), e tem o apoio da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii).

*Com informações da UFAM

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