Calçadões bicolores são famosos no país, mas história vai além. Foto: Reprodução
Ao conhecer vários lugares do mundo, é possível se aventurar por diversos pontos turísticos que se tornam paradas ‘obrigatórias’ em viagens, como praias, museus e outros. No Brasil, o levantamento da ONU Turismo aponta que o país registrou o maior crescimento em chegadas de turistas internacionais entre os 50 principais destinos do mundo, com alta de 48,2% no primeiro semestre de 2025.
Na Amazônia, o Centro Histórico da cidade de Manaus (AM), tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), tornou-se ponto obrigatório entre os turistas que visitam a região. O Centro abriga casarões antigos, bares e museus que ficam ao redor de um ponto muito querido pelos manauaras: o Largo de São Sebastião, que dá acesso ao Teatro Amazonas e à Igreja São Sebastião.
Mas uma de suas principais características é o chão bicolor, feito por granitos preto e branco e o famoso Monumento à Abertura dos Portos, do escultor italiano Domenico de Angelis, ao centro. A calçada da praça faz parte de um conjunto de obras viabilizado pelos magnatas da época áurea da borracha.
E o padrão que lembra o encontro das águas é famoso não só no Norte, como também na região Sudeste do Brasil, com o calçadão que expande para a praia e os edifícios de Copacabana, um dos bairros mais famosos e turísticos do Rio de Janeiro. Os granitos desse calçadão apresentam a mesma coloração que a calçada manauara: pedras pretas e brancas que formam ondas, neste caso representando as ondas do mar.
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O Portal Amazônia já contou a história que une esses dois ícones na disputa do “quem veio primeiro”: Portal Amazônia Responde: Quem veio primeiro: o Largo de São Sebastião ou o Calçadão de Copacabana?
No entanto, antes mesmo desses dois icônicos lugares brasileiros, em Portugal já existia uma calçada bicolor e com ondas que simbolizavam os oceanos.
Assim, a equipe do Portal Amazônia buscou mais informações e organizou uma linha do tempo que conta qual a ordem do “nascimento” desses locais.

Contexto histórico
Segundo o jornalista Otoni Menezes, o início da cronologia começou com as técnicas de calcetaria portuguesa. Mesmo que esse procedimento já existisse em outros lugares do mundo como Londres e Paris, com desenhos diferenciados, os portugueses se destacaram pela técnica.
O estilo português de calcetaria começou no século XIX, utilizando as pedras de cor preta e branca nas calçadas das praças portuguesas, no período de reformas urbanas no país. A partir disso, Portugal levou esse estilo para suas cidades e colônias, como o Rio de Janeiro que, no período, era a capital do Brasil.
De acordo com o historiador Abrahim Baze, interpretações mais antigas definem que o desenho encontrado nos calçadões brasileiros aparece inicialmente na praça do Rossio (antiga D. Pedro IV), atualmente Teatro Nacional Dona Maria II, em Lisboa (Portugal).
A praça foi inaugurada em 13 de abril de 1846, durante as comemorações do 27º aniversário de Dona Maria II, em cuja inauguração foi apresentado o Ato O Magriço e os Doze de Inglaterra, do autor Jacinto Aguiar de Loureiro. O teatro português abriga áreas culturais e turísticas, como as calçadas brasileiras.
O historiador Abrahim Baze, em sua coluna no Portal Amazônia, contou a história da praça Dona Maria II: O calçadão Teatro Dona Maria II em Portugal.

Largo São Sebastião x Calçadão de Copacabana
O mesmo desenho da praça Dona Maria II, foi reproduzido, em seguida, no Largo São Sebastião, no Centro Histórico de Manaus. No final da primeira metade do século XIX, com a instalação do Monumento à Abertura dos Portos, em 1901, as ondas bicolores foram aplicadas em torno do Largo.
De acordo com a obra ‘Entidades e Monumentos do Amazonas’, de Gaitano Antonaccio, o granito em preto e branco começou a ser projetado em 1867, cerca de 17 anos antes do assentamento da pedra fundamental do Teatro Amazonas (em 1884).
Os granitos europeus chegaram na época em que Manaus estava no auge da produção da borracha, no final do século XIX, e ganhava contornos da arquitetura europeia, financiados pelos grandes empresários da borracha. Tanto que passou a ser conhecida como a “Paris dos Trópicos”.
De acordo com as datas registradas, o Calçadão de Copacabana surgiu em 1905, portanto quatro anos depois do pavimento manauara. No início, os desenhos eram diferentes, com uma faixa muito estreita em que o desenho corria de forma perpendicular ao mar, segundo Otoni.
Porém, na década de 1930, as águas do mar invadiram a orla e a calçada carioca foi destruída. Assim, eles reconstruíram um novo passeio nos anos 30 e dessa vez seguindo o modelo amazonense. As calçadas também tiveram sua orientação alterada e passaram a ser paralelas ao mar.
“É aí que vai surgir o famoso calçadão de Copacabana, que se sobrepõe a todos os outros, levando as pessoas a deduzirem que ele veio primeiro que o Largo São Sebastião e a praça Dona Maria II”, explica o jornalista Otoni.

Linha do tempo
A historiadora Gisella Braga organizou em ordem cronológica as datas dos calçadões:
Lisboa e a Calçada Portuguesa (1842)
• 1842: A técnica e o desenho são criados e inaugurados na Praça do Rossio (Praça D. Pedro IV), em Lisboa. Este é o marco zero da calçada de ondas, feito com pedras de calcário (claro) e basalto (escuro).
Manaus e o Largo de São Sebastião (1901)
• Final do Século XIX (anos 1890): No auge do Ciclo da Borracha, Manaus passa por uma intensa modernização urbana, buscando replicar os padrões europeus.
• 1901: O calçamento em mosaico de ondas no Largo de São Sebastião é finalizado, em frente ao Teatro Amazonas. Manaus é a primeira cidade no Brasil a instalar esse padrão específico de ondas.
Rio de Janeiro e Copacabana (1905)
• 1905–1906: Durante a reforma urbana do Rio de Janeiro (então capital federal), o mosaico português começa a ser instalado em Copacabana e na Avenida Rio Branco. Inicialmente, o desenho de ondas era muitas vezes transversal (perpendicular) à praia.

