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A Revolução Paulista de 1932 teve reflexos diretos na Amazônia. A movimentação política nacional gerou tensão em várias regiões e, nos estados da Amazônia, o episódio ficou marcado pelo afundamento dos navios Jaguaribe e Andirá. O fato, ocorrido no município de Óbidos (PA), envolveu forças revolucionárias e legalistas, em um conflito que abalou a navegação e a segurança dos rios da região.
As comunicações entre as cidades amazônicas, feitas principalmente pelos rios, tornavam os navios peças centrais tanto para o transporte quanto para a estratégia militar. A notícia da rebelião paulista chegou com atraso, mas rapidamente ganhou força.
Em pouco tempo, parte das guarnições locais começou a se mobilizar O governo do Amazonas, estado fronteiriço a cidade paraense, reagiu com medidas de contenção.
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A partir de então, a região vivenciou momentos de incerteza. Tropas leais ao governo federal e grupos alinhados com os revoltosos entraram em confronto. O episódio de Óbidos se tornou um dos mais emblemáticos da história dos navios da Amazônia, reunindo civis e militares em um cenário de forte tensão política.
O historiador e artista Moacir Andrade, no livro ‘História, costumes e tragédias dos barcos do Amazonas’, narra o contexto, as ações e as consequências dessa tragédia fluvial, que marcou profundamente a história da navegação na Amazônia e a memória militar da região.
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Contexto político e a chegada dos navios
Durante o período, o Brasil enfrentava grande instabilidade. Na região, a repercussão dos afundamentos dos navios em São Paulo dividiu opiniões e despertou temores de insurreição. O governo do estado, chefiado por interventores federais, mantinha vigilância constante sobre as embarcações que circulavam pelos principais rios.
O Jaguaribe, um dos navios mais conhecidos da região, estava a serviço da Amazon River Steam Navigation Company, empresa inglesa que dominava o transporte fluvial. E o Andirá, de propriedade da Amazon Telegraph Company, era igualmente importante. Ambos foram requisitados para fins militares.
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Em 1932, com o avanço dos rumores de revolta, forças legalistas foram enviadas para conter supostos focos de rebeldia. Os portos de Parintins, Itacoatiara, ambos no Amazonas, e Óbidos, no Pará, tornaram-se estratégicos.
A flotilha legalista, sob comando do capitão de corveta Mário de Oliveira, partiu em direção a Óbidos, onde circulavam informações de que rebeldes teriam tomado a cidade.
Quando a embarcação Jaguaribe se aproximou, os defensores locais resistiram. O confronto foi intenso, confirme a narrativa de Andrade, envolvendo tiros de canhão e fuzilaria. Segundo o relato do autor, a troca de disparos durou horas e resultou em grandes danos às embarcações e à população ribeirinha.
O combate e o afundamento
O Jaguaribe e o Andirá foram alvejados durante o confronto. As forças rebeldes, munidas de armas posicionadas às margens do rio, resistiram à aproximação dos legalistas. O tiroteio se intensificou quando as embarcações tentaram ultrapassar as defesas de Óbidos.
Em meio ao fogo cruzado, um dos projéteis atingiu o Jaguaribe, causando graves danos à estrutura. A embarcação começou a adernar e, em pouco tempo, afundou parcialmente. O Andirá, que estava logo atrás, também foi atingido e teve o mesmo destino. O rio Amazonas, naquele trecho, tornou-se palco de uma das maiores tragédias fluviais da época.
Os tripulantes, em desespero, tentaram se salvar com o auxílio de canoas e jangadas. Parte dos soldados conseguiu alcançar a margem, enquanto outros desapareceram nas águas. A destruição dos navios representou uma grande perda para a logística regional e para a segurança dos transportes local
O livro relata ainda que a cidade de Óbidos ficou em estado de alerta por dias. Os combates deixaram dezenas de mortos e feridos, entre civis e militares. Após o episódio, o governo federal determinou o envio de reforços para restabelecer a ordem.
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Repercussões e registros históricos
O afundamento dos navios teve grande repercussão na região. As embarcações Jaguaribe e Andirá simbolizavam o poder da navegação fluvial e eram vistas como pilares do transporte e da comunicação regional. Sua destruição marcou o fim de uma era em que os grandes vapores dominavam os rios amazônicos.
Moacir Andrade destaca que a tragédia foi resultado de ordens militares mal coordenadas e da falta de informações precisas sobre a real situação política em Óbidos. O episódio passou a ser lembrado não apenas como um fato bélico, mas também como um alerta sobre os riscos da guerra em território amazônico.
Com o passar do tempo, o local do afundamento tornou-se ponto de referência histórica. Pescadores e navegadores da região relatavam a presença de destroços dos navios sob as águas, que ainda podiam ser vistos em determinados períodos de estiagem.

Memória e legado fluvial
O registro feito por Moacir Andrade preserva a memória desse episódio, que uniu política, guerra e tragédia em pleno coração da Amazônia. O autor enfatiza que o rio Amazonas, palco de tantos ciclos econômicos e sociais, também foi cenário de confrontos armados que deixaram marcas profundas.
O afundamento do Jaguaribe e do Andirá representa um dos capítulos mais dramáticos da história naval brasileira na região Norte. Ele evidencia a importância estratégica dos rios amazônicos e o impacto das decisões políticas nacionais sobre as populações ribeirinhas.
Ainda hoje, o episódio é lembrado como símbolo de resistência e como parte da identidade histórica de Óbidos e do rio Amazonas. A força dos rios, os riscos da navegação e a memória dos que perderam a vida nesses conflitos permanecem como lembranças vivas de um passado que moldou a trajetória da Amazônia fluvial.
