Rios que banham a engenharia com poesia

É pelas águas que chegamos aos nossos destinos, o que torna impossível não nos relacionarmos com ela.

“O rio fala com o homem.
O rio diz o que o homem deve fazer”.

Thiago de Mello

Quando as dúvidas aparecem, os caminhos tornam-se turvos e as respostas parecem não existir, fica o convite para ouvir atentamente o que o rio tem a dizer. Trabalhar com as águas é assim: pesquisa e vida se misturam numa conexão fluida, cíclica e maleável junto ao próprio rio. Rios que são caminhos, cuja lei “não cessa nunca de impor-se sobre a vida dos homens”. Pesquisar na região amazônica é emaranhar-se no “império da água”, ainda que o tema da pesquisa não esteja necessariamente vinculado a esse bem. É pelas águas que chegamos aos nossos destinos, o que torna impossível não nos relacionarmos com ela.

Nascer do sol no Rio Solimões. Foto: Taína Martins Magalhães

No meu caso, essa relação é dupla. Atuando na área do saneamento ambiental, no grupo de pesquisa que atua com tratamento de esgoto nas várzeas da Amazônia, minha conexão com a água se dá quase automaticamente. Mas, para além dos aspectos mais técnicos relacionados à qualidade da água, à engenharia de sistemas de tratamento de esgoto ou tratamento e distribuição de água potável, convido o leitor a se conectar por meio da poesia, que me acompanha pelos caminhos fluidos sempre que entro numa voadeira, barco, lancha ou rabeta para realizar alguma ação da pesquisa. Para isso, lanço alguns trechos de versos do Thiago de Mello, poeta amazonense, que com tanta sensibilidade nos vincula à poética das águas.

Vem ver comigo o rio e suas leis.
Vem aprender a ciência dos rebojos,
vem escutar os cânticos noturnos
no mágico silêncio do igapó
coberto por estrelas de esmeralda.

É com este primeiro verso que começo esse relato. Durante a pesquisa, muitas decisões precisam ser tomadas, mudanças de direção, cancelamento e retomadas, e muitas vezes as respostas não são claras e triviais. Aproveito o trajeto pelas águas para escutar o que elas têm a dizer, e isso vale também para assuntos que vão além da pesquisa, claro. Uma moradora da região certa vez me disse: “essas águas do Solimões curam”. Com um pouquinho de atenção, conseguimos escutar nossas respostas e saber o que fazer.

Vamos avançando Amazonas abaixo. As águas estão mais crespas. O calor mais intenso. Cedros de bubuia. Ilhas de capim. Arquipélagos errantes e fictícios. O Sol tira esplendores ricos de um pobre casebre coberto de folhas de zinco. Uma canoa velha, semi-alagada na beira. Um boi estica o pescoço, encomprida o focinho e alteia o olhar, humilde muito, no rumo do céu. Uma velha mungubeira está de flores novas.

Paisagens do trajeto para coleta de amostra. Foto: Taína Martins Magalhães

Cenas descritas pelo poeta que nos acompanham também em nossa jornada. Em muitos trabalhos de campo encontramos dificuldades, desconfortos e provações que nos testam em nossa missão. Embora trabalhar com esgoto possa ser muitas vezes cômico e cheio de trocadilhos – afinal, quem nunca fez uma merdinha na pesquisa? – nem sempre é a coisa mais agradável de se fazer no dia.

Coleta de amostra de esgoto. Foto: Miguel Monteiro

Mas aquilo que saltou aos olhos do poeta, tornando-se versos em seus escritos, também ressalta em meu olhar durante os trajetos da pesquisa, me relembrando da minha conexão com a água.

Água que corre no furor da correnteza, água que leva, água que lava, água que arranca, água que se oferta cantando, água que se despenca em cachoeira, água que roda no rebojo, água que vai, ainda bem que começou a baixar, mas de repente volta em repiquete, água de rio que quase não corre, um perigo quando vento vem, o vento não avisa, água que se agarra no vento para poder voar, água que gosta de ficar parada no silêncio do igapó. […] Água de doenças: água de ameba, água de febre negra. Mas também água de cacimba: no ardor úmido da selva, o olho-d’água se ofertando frio, nunca para de minar.

Essas são as várias “almas da água”. Almas que conectam a engenheira – metódica, sistemática, regrada, meticulosa – com a poesia – anárquica, desregrada, sensível, maleável, encantadora. Dentre as almas, temos também a água de doença, que:

abriga animais e seres humanos. Da mesma água bebem porcos e crianças; uns chafurdam, outros brincam, barrigudos de vermes e amebas. Juntinho às casas, toscamente armados pela ignorância, flor cinzenta da miséria, estão os banheiros, cubículos de madeira sem telhado, rentes à água que apodrece estagnada. Uma água onde até o sol se afoga

As doenças de veiculação hídrica, causadas pela ingestão de água contaminada, são ainda muito comuns e muitas vezes negligenciadas, sendo a região Norte a mais afetada segundo dados da DATASUS. Contaminação que vejo consequências dia a dia em minhas vivências, e Thiago de Mello não deixou de registrar:

Sinto muito, leitor querido. Muito mesmo. É com pena, com indignação de permeio, que lhe digo que as águas amazônicas já não são as mesmas. […] acontece que estão ficando sujas.

É por essas águas, que me levam, me alimentam, me inspiram, que atuo na pesquisa, e o rio me lembra disso. E quando retorno para a cidade, após o dia de campo, sob uma nova perspectiva de tempo mais fluida, dinâmica e flexível, tenho a certeza que:

[…] com essas águas convivo amorosamente de tal maneira, que elas viajam dentro de mim, quando a vida me leva para longe delas.

Obs.: Todas as citações (em itálico) são do poeta amazonense Thiago de Mello.

*Com a colaboração de:

Taína Martins Magalhães é engenheira química, e trabalha há um ano e meio na Amazônia com pesquisa em saneamento rural. Fez mestrado em Engenharia Civil no departamento de Saneamento e Ambiente pela Universidade Estadual de Campinas. Atualmente é bolsista do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá e atua no Grupo de Pesquisa em Inovação, Desenvolvimento e Adaptação de Tecnologias Sustentáveis.

Sobre o autor

Ayan Fleischmann é pesquisador titular do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, sendo mestre e doutor em recursos hídricos. Em sua trajetória tem pesquisado as águas e várzeas amazônicas em suas múltiplas dimensões. É o presidente da ONG Rede Conexões Amazônicas e seu representante na coluna Conexões Amazônicas no Portal Amazônia, onde recebe pesquisadores convidados.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Publicidade
Publicidade

Relacionadas:

Mais acessadas:

Portal Amazônia responde: o que é comida ‘remosa’?

Um estudo buscou promover uma revisão bibliográfica sobre o tema e propor uma hipótese teórica para o fenômeno.

Leia também

Publicidade