Home Blog Page 614

Crônica: as fendas da história na Semana da Memória em Porto Velho

0

A palestra de abertura da Semana da Memória, em Porto Velho. Foto: Assessoria/TJ

Por Júlio Olivar – julioolivar@hotmail.com

Na Semana de Memória do Tribunal de Justiça em Porto Velho – 1º a 5 de julho de 2024 –, as fendas da história se abriram diante de mim. A cidade, marcada por uma pluralidade arquitetônica e uma identidade sem padrões rígidos, revelou-se como um livro aberto, com páginas que se desdobravam em cada esquina.

Há cinco anos, eu não visitava Porto Velho. O retorno à cidade ocorreu por ocasião de uma palestra que ministrei no CCDH (Centro Cultural de Documentação Histórica) nesta semana. O convite partiu do desembargador Alexandre Miguel, diretor da Emeron (Escola da Magistratura do Estado de Rondônia), um ardoroso entusiasta e conhecedor profundo da cultura e da memória rondonienses.

Minha palestra, embora bem preparada, ficou aquém das minhas expectativas. Não sou um conferencista por profissão, mas por atrevimento. Estudei bastante, elaborei slides e planejei a abordagem da temática proposta. No entanto, talento é inato, e eu, no máximo, sou um esforçado. A boa fala requer equilíbrio entre conhecimento formal e o olhar poético que emana carisma. Como dizia Marco Túlio Cícero: “Poeta nascitur, orator fit”. É importante ressaltar que não sou historiador, mas um pesquisador independente.

Em Rondônia, há renomados historiadores e autores que oferecem vasta bibliografia. Para mim, o ítalo-brasileiro Vitor Hugo foi a porta de entrada para outros nomes que dedicaram suas vidas à elucidação e ao registro da história. Ao escrever, meu olhar é de escritor e jornalista, não de historiador. Inspiro-me na cultura de almanaques, mas baseio-me em pesquisas em fontes primárias – o verdadeiro tesouro para quem aprecia viajar pela história por meio de documentos de época. Às vezes, a imersão é tão intensa que me sinto fazendo uma reportagem contemporânea. As fontes orais também são essenciais, embora carregadas de afetividade e romantismo. Elas complementam o que as fontes primárias podem omitir, pois são discursos fundamentados em interpretações, mesmo que bem-intencionados e impessoais.

O Poder Judiciário é o ponto de convergência de todos os poderes e da sociedade, inclusive pelo que não é dito. A análise de discurso revela desde o contundente até o silêncio e as omissões que invisibilizam as diversas castas sociais. Tudo está mudando. Mas nem sempre a justiça foi plural. As mais de oito mil peças processuais e documentos raros do CCDH permitem um olhar profundo sobre a sociedade desde o início do século XX. Há registros de assassinatos em botecos e grandes conflitos, como o Massacre de Corumbiara e o assassinato do senador Olavo Pires, aqui citados só para ilustrar.

Além do aspecto institucional, os processos revelam hábitos e costumes, vocabulário, moda, consumo de bens e serviços, relações humanas e a sofisticação tecnológica – para a época – do comércio portuário antes da implantação da ferrovia em 1912.

Na abertura da Semana da Memória do Poder Judiciário, apresentei um material preparado com dedicação, mas acabei me perdendo, atropelando o esquema que eu mesmo havia traçado.

Falar em público é visceral, sem filtros, ao contrário da escrita solitária e reflexiva, depurada nas fases de revisão e edição até se tornar um produto final. O vocabulário some sob pressão, e as palavras certas nem sempre vêm à ponta da língua para definir uma ideia. Assim é a vida do orador, do pesquisador, do escritor – um equilíbrio delicado entre o atrevimento e a busca pela verdade histórica.

A minha abordagem na palestra seria não focar exclusivamente na história, mas sim nos processos judiciais essenciais que moldaram a história. O alicerce que eu gostaria de estabelecer envolveria mencionar as fontes formais do CCDH – as quais utilizei principalmente para escrever o livro “A Cidade que Não Existe Mais” – a fim de chegar a determinadas conclusões. A relevância das fontes primárias reside na capacidade de criar uma narrativa original que transcenda o simples “copiar e colar” tão comum na era virtual, em que muitas vezes confundem bibliografia com plágio disfarçado por citações literais.

Embora inicialmente não fosse minha intenção, acabei abordando questões históricas de maneira descontraída, quase como um “almanaqueiro”. Nesse sentido, me inspiro em Elifas Andratto, um grande colecionador de dados, estatísticas, iconografias e curiosidades extraídas das histórias escritas por acadêmicos. Quem se lembra do “Almanaque Brasil”? Essa revista de bordo da TAM, editada por Andreatto, grande artista e editor que também foi responsável por ilustrar capas de discos – uma profissão que, infelizmente, se tornou obsoleta.

A história sempre me fascina e me impulsiona a buscar respostas além do que está registrado em ordem cronológica, conectando-a à geopolítica e considerando fatores antropológicos, sociológicos, arqueológicos e filosóficos. Tudo isso é relevante. No entanto, acredito que a verdadeira escrita histórica não se limita a ser uma mera compilação de fatos; ela deve permitir ao autor empregar adjetivos e explorar discursos que se assemelham a romances ou reportagens jornalísticas.

Laurentino Gomes é um mestre nesse estilo, tendo ganhado dois prêmios Jabuti e se tornado um best-seller no campo da historiografia – algo notável e inédito até então.

A narrativa historiográfica, quando pura e simples, exige impessoalidade e serve como um recurso para pesquisadores que buscam fontes. Geralmente, é repleta de notas de rodapé que transferem a responsabilidade para outros autores quando se afirma algo com incerteza. Aqueles que ousam ir além desse padrão demonstram compreensão do material lido e a capacidade de escrever – e até mesmo cometer erros – por conta própria.

Em resumo, durante a palestra, me vi perdido diante da vastidão do que gostaria de ter dito e não disse, bem como das muitas coisas que surgiram espontaneamente em minha mente e que talvez não devesse ter mencionado. Foi como uma tempestade de ideias que eu desejava compartilhar naquele momento. O meu objetivo sempre é provocar e despertar o interesse das pessoa. Acredito que uma boa palestra deve gerar dúvidas, em vez de apenas confirmar o que todos já sabem ou supõem.

A história está repleta de fendas e nuances, e é nesse espaço que me sinto à vontade. Como um leitor-escritor, observo a história que está escrita, inclusive no cenário mundial, desde os registros precisos dos brasilianistas sobre a vida no Alto Rio Madeira, muito antes da famosa Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, que muitos consideram o marco-zero de Rondônia no século XIX.

Além da palestra, um olhar para o agora

Desde o início de 2009, eu não havia estado em Porto Velho. Durante a Semana de Memória do TJ, tive a oportunidade de revisitar a cidade e comparar muitos aspectos da sua cena cultural.

Uma das minhas paradas foi no Museu da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (EFMM). O espaço apresenta uma nova configuração, diferente das revitalizações anteriores. Não vou entrar em detalhes sobre o formato estético e de conteúdo atual, que perdeu parte da rusticidade original. No entanto, notei um rigor maior nas visitações, guiadas e orientadas. Concordo que tudo deva ter uma certa disciplina, ainda mais quando se trata de equipamento públicos que, quando sucateados, passam anos sem manutenção.

Dentro do museu, a exposição permanente sobre a epopeia da ferrovia está bem contada e didática.

Algo me chamou a atenção: um painel com 424 cabeças esculpidas em argila e sedimentos do Rio Madeira, obra do artista plástico Bruno Souza. Cada rosto, cada expressão, representa uma pessoa diferente que contribuiu para a construção de tudo o que Porto Velho é hoje. Essa diversidade humana é a verdadeira riqueza da cidade.

No museu da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, as cabeças de cerâmica. Foto: Júlio Olivar

Mas não foram apenas os pontos culturais que me chamaram a atenção. A transformação digital, ditada por IA e algoritmos, também deixa suas marcas. Os sebos, outrora redutos de livros usados, perderam força, e as bancas de jornal não mais exibem publicações atualizadas. O mundo virtual se impõe, mas a vida, teimosa, continua analógica.

Claro que esse cenário não é exclusivo de Porto Velho; é uma tendência global. Tudo se virtualizou, está nas nuvens, acessível na palma da mão. Mesmo a EFMM, apesar de sua beleza, perdeu parte de sua presença tátil. A vida, no entanto, continua analógica. Como alguém que chegou ao novo milênio aos 27 anos, posso afirmar: envelhecemos junto com as mudanças irreversíveis.

Em meio a essa dualidade – virtual e tangível –, percebi que as fontes primárias continuam sendo o lastro essencial para qualquer produção textual. Elas nos conectam ao passado, às vozes que ecoam nas entrelinhas da história. E assim, na palestra no CCDH, exaltei a importância dessas fontes, lembrando que a verdadeira riqueza de Porto Velho reside em seu povo diverso, nas fendas que nos permitem enxergar além do óbvio. As memórias, como as cabeças no painel de Bruno Souza, são fragmentos que se unem para contar uma história.

E naquele momento, diante da plateia atenta, eu me senti parte dessa narrativa, navegando pelas águas do Rio Madeira, entre o analógico e o virtual, entre o passado e o presente.

Nota do autor: A história é um mosaico, e cada peça tem sua relevância. Que possamos explorar as fendas, as brechas, e descobrir nelas a essência de quem somos.

Sobre o autor

Júlio Olivar é jornalista e escritor, mora em Rondônia, tem livros publicados nos campos da biografia, história e poesia. É membro da Academia Rondoniense de Letras. Apaixonado pela Amazônia e pela memória nacional.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Ministério da Cultura e Banco da Amazônia promovem ações de fomento à cultura e à Indústria Criativa na Região Norte

0

O Banco da Amazônia e o Ministério da Cultura realizam no dia 11 de julho, em Belém (PA), a cerimônia de assinatura dos primeiros contratos de projetos classificados em programa de incentivo à cultura na Amazônia, o Rouanet Norte. Foram selecionadas 125 propostas. O investimento total será de R$ 24 milhões, soma do aporte dos financiadores Banco da Amazônia, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e Correios.

Também no dia 11, Banco da Amazônia e MinC assinam Protocolo de Intenções que tem como objeto desenvolver ações integradas de cooperação técnico-científica e cultural e o intercâmbio de conhecimentos para fortalecer as cadeias produtivas e a economia do setor cultural dos Estados do Norte do país. A iniciativa é o ponto de partida para a implantação do primeiro Centro Cultural do Banco da Amazônia na Região Norte, em Belém.

A solenidade será conduzida pelo presidente do Banco da Amazônia, Luiz Lessa, e terá a presença da ministra da Cultura, Margareth Menezes. O evento será realizado no auditório Rio Amazonas, na sede da instituição, na avenida Presidente Vargas, às 10 horas. Segundo o presidente Luiz Lessa, as parcerias institucionais possibilitam a ampliação da circulação da produção cultural e amplificam a política cultural do Banco da Amazônia.

Implantado pelo Ministério da Cultura (MinC), por meio da Secretaria de Economia Criativa e Fomento Cultural, o programa Rouanet Norte tem como objetivo nacionalizar os recursos da Lei Rouanet e estimular projetos culturais no Norte do país, dando protagonismo aos agentes locais. Por meio da concessão de crédito às atividades econômicas da área cultural, visando ao fortalecimento de suas cadeias produtivas, promove a democratização do acesso às manifestações artístico-culturais na região amazônica.

“O Programa Rouanet Norte, instituído pelo Ministério da Cultura, foi lançado em novembro de 2023 para incentivar projetos culturais com vistas a fomentar atividades que desenvolvam o setor cultural nos sete Estados da região Norte. O edital foi aberto para a inscrição de projetos até o limite de R$ 200 mil. Participaram do processo de seleção somente proponentes da região”, explicou Geraldo Monteiro Júnior, Analista de Patrocínio do Banco da Amazônia e membro Avaliador do Programa.

O MinC conduziu todo o processo de inscrições. Em seguida houve as análises das propostas pelos órgãos parceiros que estão participando como signatários do edital – Banco da Amazônia, Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil e Correios.

“Chegamos ao número de 125 projetos classificados que já estão aptos para a contratação. As linguagens contempladas neste edital são: artes cênicas, música, artes visuais e literatura”, disse Geraldo Júnior. “O MinC solicitou que o Banco da Amazônia realizasse a formalização dos primeiros contratos deste edital. Entre os projetos elegíveis, três foram escolhidos para representar os contratados”, completou.

O Rouanet Norte foi criado para atender aos produtores culturais do Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins com financiamento específico. O programa fortalece a concepção que há três décadas orienta a Lei Rouanet: nacionalizar o investimento na cultura do país.

Com o Rouanet Norte, informa o MinC, uma região historicamente desassistida e com os menores índices de captação da Lei de Incentivo à Cultura receberá um volume expressivo e inédito de recursos para o setor cultural. A articulação para a implantação do programa contou com a participação das secretarias de Cultura dos Estados do Norte – diretriz do MinC que orienta o alinhamento de ações entre os entes federados, com o objetivo de contemplar todos os territórios com recursos. O termo de cooperação técnica foi assinado entre MinC, Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom), Banco da Amazônia (Basa), Banco do Brasil (BB) e Caixa Econômica Federal (Caixa).

Momento histórico

“Pensamos de que forma poderíamos unir forças e trabalhar de uma forma mais integrada pela Região Norte. Pensamos em como melhorar a distribuição dos recursos da Lei Rouanet de uma forma mais nacionalizada e sempre com o objetivo de levar arte para todos os Estados da Amazônia de forma mais democrática. Serão R$ 24 milhões para o programa, com o aporte de R$ 6 milhões de cada empresa. A estratégia faz parte do planejamento estratégico de marketing do banco e para nós é uma felicidade muito grande promover a primeira assinatura do contrato do Programa em Belém”, afirma a gerente da Central de Marketing e Comunicação do Banco da Amazônia, Ruth Helena Lima.

O Programa Rouanet Norte foi uma solução inovadora proposta pelo Secretário de Economia Criativa e Fomento Cultural do MinC, Henilton Menezes, em 2023. “É uma ação inédita e emblemática e esperamos que a partir dessa iniciativa, outras empresas tenham esse olhar para a importância de nacionalizar os recursos destinados à cultura”, afirma Menezes ressaltando que é a primeira vez que quatro empresas financiadoras da Lei criam a possibilidade de beneficiar exclusivamente projetos da região que historicamente foi a que menos teve acesso aos recursos.

Centro

A gerente da Central de Marketing e Comunicação do Banco da Amazônia, Ruth Helena Lima, Ruth Helena também destacou a importante parceria com o MinC para a implantação do primeiro Centro Cultural do Banco na Amazônia em Belém. “A cidade é onde está localizada a nossa sede, mas o propósito é que no futuro a nossa empresa amplie essa iniciativa para os demais Estados onde temos área de atuação. Este momento é histórico e queremos fazer a diferença na vida das pessoas junto com o Ministério da Cultura e o Governo Federal, movimentando a economia com a geração de mais cultura, emprego e renda para a região”.

Ela classifica o Protocolo de Intenções como um marco para o Banco da Amazônia. “É nossa missão também fomentar a economia da cultura e o desenvolvimento das cadeias produtivos do setor cultural. Dentre as iniciativas do Protocolo de Intenções, temos as seguintes diretrizes: promover a democratização do acesso às cadeias produtivas, apoiar a produção, fruição e formação artísticas culturais, lançar editais de ocupação para os Centros Culturais que vamos implantar na Amazônia, dentre outras iniciativas para o fortalecimento das cadeias produtivas de fomento à cultura”, finaliza.

A assinatura de contratos do Programa Rouanet Norte para incentivo à cultura e do Protocolo de Intenções para a implantação do Centro Cultural Banco da Amazônia, acontece dia 11 de julho, às 10 horas no auditório Rio Amazonas, Banco da Amazônia, avenida Presidente Vargas com rua Carlos Gomes, Campina, em Belém (PA).

Impacto de fotografias históricas em estereótipos sobre Amazônia é apresentado por pesquisador de Roraima

0

Historicamente, a Amazônia teve a própria imagem criada e divulgada por pessoas que não viviam nela. Agora, por meio da ciência, a região será retratada “de dentro para fora” no X Congresso Latino-Americano de Semiótica, que ocorre na Universidade de São Paulo (USP) desde o dia 2 de julho. É o que propõe o professor e pesquisador da Universidade Federal de Roraima (UFRR), Maurício Zouein.

Ele comanda o primeiro painel dedicado à Amazônia e outras três atividades no evento da USP. Além de Zouein, pesquisadores de outras universidades da Região Norte participam das discussões.

Na avaliação de Zouein, a presença de pesquisadores da Amazônia no congresso internacional na USP é uma oportunidade para mostrar a região a partir do olhar de pessoas que vivem nela. A missão é evidenciar, por meio da ciência, como o olhar de fora criou estereótipos sobre a Amazônica ao longo dos séculos.

“Tem gente que vem aqui para fazer turismo e quer pescar ou ver um indígena pintado. Mas não é só isso. A Amazônia é lugar de indígena, de quilombola, de pesquisador, de jornalista, de médico, etc. E todos muito competentes”, reflete.

Participam do evento na USP cientistas de universidades renomadas da América do Sul, como a Pontíficia Universidade do Peru e do Chile, e da Europa, a Universidade da Coruña e de Sevilla da Espanha, além da Univeritá di Torino, da Itália.

Além de participar como pesquisador, Maurício Zouein é parte do Comitê Científico e da organização do congresso internacional — Foto: Arquivo Pessoal
Foto: Maurício Zouein/Acervo pessoal

Atividades sobre Amazônia na USP

Durante o evento, Maurício Zouein integra as seguintes atividades:

  • ‘Painel Ecossistemas sígnicos na Amazônia: diversidade cultural, ecologia e semiótica’, que ocorre nesta sexta-feira (5), no auditório Lupe Cotrim, da Escola de Comunicação e Artes da USP.

Na ocasião, cientistas de universidades de todo o mundo debatem sobre a construção da imagem da Amazônia ao longo dos séculos. Completam o painel ao lado de Zouein os pesquisadoras Aparecida Zuin, da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), Laura Lago, da Universidade Federal do Pará (UFPA), Milton Chimarelli Filho, da Universidade Federal do Acre (UFAC), Mirna Feitoza Universidade Federal do Amazonas (UFAM), e Jacqueline Ausier (USP).

  • Apresenta o trabalho ‘Aos Olhos de Judas: imagem e memória na Amazônia’, que contará com imagens presentes no livro ‘A ideia de civilização nas imagens da Amazônia 1865-1908’, resultado de 40 anos dedicados à pesquisa e indicado ao Prêmio Jabuti 2023.

“Não queremos mostrar uma Amazônia que nunca foi vista, não é esse o impacto que queremos gerar. O que queremos mostrar é uma Amazônia diferente daquela que vem sendo cultuada”, explica o professor.

  • Orienta a estudante do curso de Jornalismo da UFRR, Yasmim Trindade, na apresentação do trabalho ‘A Identidade Imagética da Amazônia criada pela Inteligência Artificial’, também nesta sexta-feira.
  • Promove uma exposição fotográfica com imagens feitas por cinco fotógrafos de Roraima: Jorge Macedo, Conceição Escobar, Andrezza Mariot, Marcelo Mora e Pablo Sérgio.

Com tema livre e sob curadoria de Zouein, os fotógrafos foram orientados a retratar a própria percepção que eles têm sobre a Amazônia. Foram selecionadas duas fotos de cada um. Veja algumas:

O que é semiótica?

Principal área de pesquisa de Maurício Zouein, a semiótica é o estudo de como os sinais e os símbolos são usados para transmitir significados e ajuda a entender como os humanos dão sentido ao mundo através desses símbolos.

Palavras, imagens, gestos e até sons são sinais que comunicam algo, e essa ciência investiga como eles são criados e entendidos pelas pessoas, além de como podem ter significados distintos em diferentes contextos sociais e culturais.

“A Amazônia é necessária pela sua abundância de natureza, de filosofia, pelas culturas tradicionais. Ela é necessária para a humanidade. Só que ‘semioticamente’ falando, a Amazônia, ainda é consumida por símbolos criados externos a ela, por gente dos Estados Unidos, da Europa e de outras partes do Brasil, que constroem um significado muito diferente do que ela é”, afirma.

‘Aos Olhos de Judas’

O trabalho ‘Aos Olhos de Judas: imagem e memória na Amazônia’ reúne imagens presentes no primeiro livro de Zouein ‘A ideia de civilização nas imagens da Amazônia 1865-1908’ e ocorre no dia 4 de julho. Lançado em 2023, a obra propõe uma reflexão sobre como as pessoas da Amazônia foram retratadas por fotógrafos europeus no final do século XIX e início do século XX.

Cartão postal enviado em 1904 com fotografia tirada em 1894 mostra três crianças indígenas — Foto: Fotografia/George Huebner/Acervo/Maurício Zouein
Foto: Fotografia/George Huebner/Acervo/Maurício Zouein.

O livro, indicado ao Prêmio Jabuti 2023, mostra como as riquezas culturais e sociais das pessoas da Amazônia eram desvalorizadas e ocultadas através de fotografias raras e antigas. As imagens foram capturadas por fotógrafos europeus e divulgadas em cartões-postais e álbuns financiados por governadores do Amazonas e Pará, com objetivo de valorizar a cultura dos estrangeiros.

“É uma pesquisa de anos, mostrando como a Amazônia era retratada: como um lugar com pessoas pobres e ‘a ser civilizado’. Até hoje ainda existe, essa questão de mostrar a Amazônia enquanto um lugar exótico”.

Três indígenas macuxis e wapichanas sorriem em fotografia tirada em 1911 — Foto: Fotografia/Theodor Koch-Grünberg/Acervo/Maurício Zouein
Foto: Fotografia/Theodor Koch-Grünberg/Acervo/Maurício Zouein.

Com as imagens produzidas na região, os europeus buscavam colocar a percepções de mundo deles acima da cultura das populações locais, como se a Amazônia precisasse passar por um processo civilizatório. Ao mostrar como essa dinâmica ocorreu ao longo da História através de documentos e da pesquisa, o livro ajuda a pensar em como o processo de opressão cultural ainda acontece e se repete ao longo dos anos.

“Quando se tratava de civilização, [as pessoas da Amazônia] eram [mostradas como] pobres e quando mostradas ao mundo, eram exóticas. Quantas vezes a nossa história foi jogada por debaixo do tapete para que esses projetos de progresso e civilização pudessem existir?”, questiona.

Primeiro cartão postal enviado no Brasil em 1898 — Foto: Divulgação/Maurício Zouein
 Foto: Divulgação/Maurício Zouein.

Reconhecimento da ciência de Roraima

Para o professor, a participação no congresso representa uma realização pessoal, mas também é importante para a comunicação de Roraima e para a própria UFRR. Estampar o nome da universidade na qual se formou e hoje é professor ao lado de instituições mundialmente renomadas é o reconhecimento da qualidade da ciência produzida no estado, avalia o pesquisador.

“O valor simbólico, além de toda experiência acadêmica, é a possibilidade de discutirmos e apresentarmos a imensa potência estética e valores éticos originários da nossa região. Os participantes terão a oportunidade de conhecer fotografias repletas de significados históricos e identidade imagética da Amazônia”, disse Ticianeli.

Já a representante da USP e organizadora do congresso, a professora Clotilde Perez, destacou a apresentação do primeiro painel específico sobre a Amazônia. Para ela, a ocasião será uma chance de aprender, discutir e se inspirar através dos signos da região.

José Geraldo Ticianeli, reitor da Universidade Federal de Roraima (UFRR) — Foto: g1 RR
 Foto: g1 RR.

“O painel vai tratar das singulares linguagens amazônicas que se expressam com imensa potência estética e valores éticos originários do nosso país. Certamente esse será um momento privilegiado para promover a reflexão sobre quem somos, como nos expressamos e para onde queremos ir”, afirmou a professora.

Zouein cita ainda que que ter a ciência produzida em Roraima apresentada numa das maiores universidades do mundo é um passo para mostrar a competência dos pesquisadores da região Norte. Ele frisou que o acesso ao conhecimento é dificultado no estado devido à distância dos grandes centros, o que precisa ser mudado.

“Se você comprar um livro de R$50 reais aqui, você precisa pagar mais R$ 50 de frete para ele chegar. A pessoa que mora no centro-sul paga só os R$50 e a pessoa que mora na região norte paga o dobro pelo mesmo conteúdo. Isso aqui não está legal; O fato de você estar distante não te dá as mesmas possibilidades que outros. Isso é lógico mas não pode ser normal e tão pouco natural. Temos que lutar para mudar isso e mostrar a nossa competência”, conclui.

*Por João Gabriel Leitão, da Rede Amazônica RR

Animais silvestres amazônicos precisam andar em grupos; entenda o por quê

0

Na natureza, cada ser vivo é responsável por manter o ecossistema funcionando em equilíbrio e quando se pensa em grupos a responsabilidade é ainda maior. Em Rondônia, o aparecimento e registro de famílias de animais silvestres está se tornando comum.

Assim como para os humanos, a família é muito importante para o reino animal. Viver em comunidade para os animais silvestres não é só para a reprodução, mas também é fundamental para existência da espécie.

Para o biólogo Flávio Terassini, a família na natureza facilita a obtenção de alimentos, já que se um indivíduo encontrar um alimento, os outros já terão o que comer. O especialista destaca que, em sua maioria, os grupos familiares são lideradas por um macho alfa.

“Geralmente tem o macho alfa que vai proteger aquele grupo; Nós temos grupos de capivaras (Hydrochoerus hydrochaeris), que podem ter até 50 indivíduos, sendo um macho alfa, que é aquele que vai proteger o grupo”, explica.

O biólogo diz que são diversos os animais que vivem em família, no bioma amazônico, dentro deste meio ele destaca os primatas, que já foram vistas manadas de até 100 indivíduos, com até três espécies diferentes de macaco: o macaco-prego, o saimiri e o macaco-aranha. Eles buscam lugares que tenham alimentos, um local de abrigo e espaço onde constituir uma nova família através da reprodução.

Família de primatas Zogue-zogue (Plecturocebus bernhardi) Alta Floresta do Oeste — Foto: Projeto Hapia/Carlos Tuyama — Foto: Projeto Hapia/Carlos Tuyama
 Foto: Carlos Tuyama/Projeto Hapia

Desequilíbrio ambiental

O viver em comunidade no reino animal, também tem um papel importante para a preservação da espécie, já que a formação da comunidade, facilita a proteção dos animais contra predadores naturais, encontrar alimento, se reproduzir e manter a espécie viva e preservada.

Com o desaparecimento destas famílias, o meio ambiente e ecossistema entram em colapso, pois muitas dessas espécies são fundamentais para a fauna e a flora. O biólogo explica que o desaparecimento desses bandos, gera um problema ambiental que desencadeia uma pirâmide ambiental, onde alguns animais são a base alimentar de outros maiores.

Fotos: João Pedro Salgado

Flávio Terassini diz, que animais como as capivaras e a cutia, são naturalmente alimentos para a onça. Se ocorrer o desaparecimento desses roedores, a onça começa a procurar outro alimento, causando assim um desequilíbrio.

Animais como a Cutia ainda tem outra função para o equilíbrio do meio ambiente, assim como as antas, o roedor é uma ‘Jardineira das florestas’. Eles ajudam a equilibrar a flora da floresta com a dispersão de sementes de árvores nativas.

“ Poucas árvores vão nascer, as onças vão começar a ficar com fome, e isso porque desaparece uma espécie [cutia]. Então você tem ali um problema ambiental generalizado, levando à extinção de muitas outras espécies. Dessa pirâmide alimentar”, finaliza.

Cutia (Dasyprocta) uma das 'Jardineiras da Floresta' — Foto: Projeto Hapia/Carlos Tuyama
Foto: Carlos Tuyama/Projeto Hapia

Registrando famílias

O registro da vida silvestre também é realizado por profissionais que se dedicam em capturar a fauna silvestre. Esse é o caso do fotógrafo e pesquisador Carlos Tuyama, integrante do Projeto Harpia. O profissional diz, que viu na fotografia um modo de documentar as diversas espécies no bioma Amazônico.

Ao grupo Rede Amazônica, o fotógrafo contou que a paixão pela fotografia começou ainda na adolescência, mas foi há uns 10 anos que realmente começou a fotografar e evoluir. Se dedicando principalmente à fotografia de vida selvagem.

Carlos e sua esposa, são voluntários do Projeto Harpia, um programa nacional de conservação de espécie ameaçada. Por meio deste projeto, Carlos conseguiu várias oportunidades de acesso ao habitat de diferentes representantes da fauna silvestre.

Fotógrafo e pesquisador, Carlos Tuyama — Foto: Reprodução/redes sociais.
Foto: Reprodução/redes sociais – Carlos Tuyama

“Isso tem nos possibilitado várias atividades em porções de florestas conservadas, então para quem busca registrar imagens da fauna amazônica, é como unir o útil ao agradável”, destaca o fotógrafo.

Para Carlos, é uma grande alegria registrar filhotes de animais, ainda mais quando eles estão acompanhados por sua mãe ou pai, pois isso quer dizer que essa espécie está conseguindo se reproduzir e manter consequentemente a linhagem para as gerações futuras.

O fotógrafo explica que quando identifica animais em locais de florestas alteradas e empobrecidas, o registro se torna ainda mais importante por constatar que eles estão conseguindo se reproduzir, mesmo em condições que não são ideais.

“O avistamento se torna ainda mais importante, pois se trata de paisagens bem diferentes daquela que o animal está adaptado no seu processo evolutivo. Em lugares assim, constatar que eles estão tendo sucesso na reprodução, é alentador”, enfatiza Carlos.

O fotógrafo destaca, que ainda existem animais como a Harpia e outras águias florestais, que por estarem no topo da cadeia alimentar, são exigentes.

“Esses, por serem predadores de topo de cadeia, são ainda mais exigentes no processo de reprodução e normalmente estão entre os animais mais ameaçados de risco de extinção” , destaca.

A lista de registro de Carlos é bem extensa, indo de Harpias que é o foco de seus registros, até primatas. Os modos de busca e captura são diversos. Já foram usadas câmeras convencionais, drones e câmeras traps, que significam armadilhas fotográficas.

Confira algumas fotografias registradas por Carlos Tuyama para o Projeto Harpia:

*Por Mateus Santos, da Rede Amazônica RO

Cientistas identificam moléculas associadas ao risco de recaída no sangue de pacientes com malária

0

A forma mais comum de malária no Brasil é a causada pelo parasita Plasmodium vivax. Embora a espécie provoque um quadro mais brando em comparação à P. falciparum, ela possui uma característica que torna o controle da doença muito difícil: a capacidade de produzir formas dormentes do protozoário no fígado do hospedeiro que podem ser reativadas meses após o término do tratamento. De acordo com a literatura científica, esse fenômeno, denominado recorrência ou recaída, pode ser responsável por aproximadamente 90% dos casos no país.

Em artigo publicado na revista Scientific Reports, pesquisadores brasileiros descreveram, pela primeira vez, possíveis biomarcadores associados à recorrência da malária vivax. Financiada pela FAPESP, a pesquisa fornece informações relevantes sobre potenciais alvos para o desenvolvimento de antimaláricos e possíveis marcadores relacionados ao risco de recaída.

Para identificar esses biomarcadores, pesquisadores das universidades Estadual de Campinas (Unicamp), do Estado do Amazonas (UEA) e Federal de Goiás (UFG) analisaram o plasma sanguíneo de 51 pacientes amazônicos com malária vivax recorrente e de 59 não recorrente (que estavam ainda no primeiro episódio da doença).

As amostras foram analisadas por meio de metabolômica não direcionada, técnica que avalia todo o conjunto de metabólitos presente na amostra. O objetivo foi compreender como o metabolismo dos voluntários foi afetado durante esses dois momentos da infecção.

Imagens ilustrativas de Plasmodium vivax. As setas indicam os estágios sanguíneos assexuados de anel (cinza), trofozoíto (azul), esquizonte (verde) e o estágio sexuado conhecido como gametócito (vermelho). imagens: Laboratório de Doenças Tropicais/Unicamp

Os pacientes foram acompanhados por 180 dias e, majoritariamente, apareceram com o ‘novo’ episódio entre 40 e 60 dias após o inicial. A análise com espectrometria de massa (equipamento que identifica compostos com base na massa molecular) revelou 52 e 37 metabólitos significativos nos participantes recorrentes e não recorrentes, respectivamente.

“No momento em que o paciente chega com o episódio inicial de malária, há uma superexpressão de metabólitos, situação que muda completamente nos episódios de recorrência, caracterizada pelo maior número de metabólitos diminuídos”, relata Jessica Alves, pesquisadora do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp e uma das autoras do trabalho.

“Além disso, entre os pacientes com recorrência, observamos uma modulação principalmente em vias lipídicas envolvidas na produção de prostaglandina e leucotrienos – moléculas envolvidas na resposta imune do hospedeiro. Já o grupo que estava no primeiro episódio foi caracterizado por alterações no metabolismo do triptofano e da vitamina B6 [piridoxina], que já foram descritos na literatura científica como importantes nutrientes do hospedeiro utilizados pelo parasita para se desenvolver”, diz a pesquisadora.

Os pesquisadores realizaram ainda uma análise de dados mais aprofundada, que revelou o enriquecimento de outras vias metabólicas para o fenótipo da malária recorrente, incluindo substâncias como butanoato, aspartato, asparagina e N-glicano.

“Todos esses marcadores podem sugerir vias com associação à recorrência e podem, no futuro, ser usados para caracterizá-la”, diz Gisely Melo, pesquisadora da UEA que também assina o estudo.

Perspectivas

“A principal contribuição do trabalho foi direcionar as análises em relação a quais vias metabólicas precisamos investigar mais profundamente para tentar entender e preencher lacunas que envolvem o estudo das recorrências”, diz Fabio Trindade Maranhão Costa, professor do IB-Unicamp e coautor do artigo.

No entanto, os pesquisadores destacam duas limitações do estudo: o número de participantes (relativamente pequeno) e a incerteza sobre a origem das recorrências (poderia ser uma recaída ou um nova infecção, por exemplo).

“Não temos, hoje, como diagnosticar as recaídas e tratá-las adequadamente”, sublinha Melo.

Segundo os autores, os próximos passos envolvem a condução de estudos multicêntricos, com um maior número de pacientes e uma cobertura geográfica mais ampla do P. vivax. Além disso, o grupo pretende associar à metabolômica plasmática investigações lipidômicas (conjunto de lipídeos), proteômicas (conjunto de proteínas), transcriptômicas (conjunto de RNAs transcritos) e genômicas (sequenciamento genômico). Também devem ser feitas análises do perfil imunológico de pacientes com ou sem recorrências.

Além da FAPESP, apoiaram a pesquisa agora divulgada o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), The World Academy of Science (TWAS), a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam) e o Instituto Serrapilheira.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência FAPESP, escrito por Julia Moióli

Dourada e piramutaba são primeiros peixes amazônicos a entrarem em lista de proteção internacional

0

Entre as cerca de 2.500 espécies de peixes encontradas na Bacia Amazônica, dois bagres ocupam um lugar especial na economia dos estados da região e na biologia mundial, a dourada (Brachyplatystoma rouseauxii) e a piramutaba (Brachyplatystoma vaillantii).

Além de serem bastante apreciados na culinária e terem um alto valor comercial, esses peixes realizam as mais longas migrações em água doce. A dourada chega a nadar aproximadamente 11 mil km durante o seu ciclo de vida.

Mas no ano passado esse peixe teve seu grau de ameaça atualizado na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), agora considerada como ‘vulnerável’ à extinção. A piramutaba, que ainda não consta na lista, também deve figurar em breve ali, antecipam especialistas.

Outro passo dado para chamar a atenção do mundo sobre a ameaça à sobrevivência dessas duas espécies emblemáticas de peixes amazônicos foi a inserção na lista da Convenção sobre Espécies Migratórias de Animais Selvagens (CMS), conhecida como Convenção de Bonn, durante um encontro realizado pelos membros do tratado em Samarkand, no Uzbequistão, em fevereiro de 2024.

“Nos últimos anos, a área de ocupação e migração da dourada já diminuiu em 37% por causa da construção de barragens na Bacia do Rio Madeira”, afirma o biólogo Guillermo Estupiñán, especialista em Recursos Pesqueiros na Wildlife Conservation Society (WCS), que esteve presente no evento, onde o governo do Brasil apresentou a proposta da inclusão das espécies no Apêndice II da convenção.

Estupiñán explica que os animais migratórios listados no Apêndice I são aqueles que necessitam de medidas mais drásticas de proteção por estarem muito ameaçados. Já os inclusos no Apêndice II são espécies que começam a preocupar especialistas e indicam que medidas devem ser tomadas para melhorar o seu estado de conservação, evitando que sua ameaça à extinção aumente.

“A dourada e a piramutaba são os primeiros peixes amazônicos a entrarem na lista da CMS”, revela. “Estar no apêndice II é muito importante na conservação de espécies e seus hábitat, cujas rotas são compartilhadas por mais de um país, importante para promover o diálogo e a cooperação entre governos dos locais onde elas são observadas, nesse caso Brasil, Peru, Bolívia, Colômbia, Equador e Venezuela”.

A dourada (Brachyplatystoma rouseauxii) é o peixe de água doce com a mais longa migração do mundo: cerca de 11 mil km. Foto: Michael Goulding/ WCS

Mais longa migração em água doce do mundo

Esses dois grandes bagres encontrados no norte do Brasil são peixes de couro, ou seja, sem escamas. Esse é um dos motivos pelos quais agradam tanto os cozinheiros locais, pois sua limpeza e retirada de espinhas são muito mais fáceis. A dourada é bem maior, pode atingir até 80 cm na fase adulta e 40 kg; já a piramutaba chega no máximo a 40 cm e pesa de 6 a 8 kg.

E o que torna o ciclo de vida de ambos tão peculiar e, ao mesmo tempo, tão frágil nos dias atuais, é justamente a longa distância percorrida durante o processo de migração.

Estima-se que a piramutaba viaje cerca de 5.500 km, desde o estuário do Amazonas, em Belém, área rica em alimentos, na transição entre o rio e o mar, até Iquitos, no Peru, onde faz a desova. Depois disso, as larvas são levadas pela correnteza de volta ao canal principal dos rios, como o Solimões e o Amazonas.

Contudo, a jornada da dourada é realmente a mais impressionante porque ela volta ao lugar onde nasceu, nos sopés da Cordilheira dos Andes, para se reproduzir – um percurso migratório de 11 mil km, o mais longo conhecido pela ciência entre espécies de água doce.

É como, caso houvesse um rio imaginário, a espécie nadasse, ida e volta, de Boa Vista, em Roraima, até Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Do extremo norte ao extremo sul do país.

Com cerca de dois anos, após se alimentarem no estuário, as douradas começam a subir o rio Solimões numa viagem de volta, passando por Santarém, Manaus, Tefé, Alto Solimões até a região do Peru, perto da Cordilheira dos Andes. Imagem: Ibama

Só que, nos últimos anos, os cursos dos rios que a dourada e a piramutaba utilizam foram alterados. Duas usinas hidrelétricas de grande porte, Jirau e Santo Antônio, foram construídas entre 2008 e 2016, no Rio Madeira. Elas estão entre as maiores do mundo.

Os impactos observados por pesquisadores sobre as duas espécies foram enormes, como citou Estupiñán mais acima. Nos países vizinhos, aconteceu o mesmo.

“O perigo está em todos os lugares. Há implantação de barragens tanto no Brasil como em outros países amazônicos também. Não são tão grandes como as nossas, mas em tributários formadores da bacia”, ressalta Carolina Doria, professora do Departamento de Biologia da Universidade Federal de Rondônia.

Segundo ela, a captura da dourada em áreas acima das hidrelétricas brasileiras caiu mais de 70% nos rios tributários da Bolívia. “Isso demonstra que um grande volume de peixes não consegue mais migrar por causa dessas barreiras. Houve a interrupção da conectividade”.

Falta de estatísticas pesqueiras

Não são somente as barragens que provocam o declínio na população desses bagres amazônicos, predadores de topo de cadeia – eles também sofrem com a pesca.

Tem-se mais informações e números sobre a dourada, mas especialistas sabem que a piramutaba também sofre com as mesmas ameaças. Entretanto, não existem estatísticas oficiais, apenas levantamentos promovidos por algumas organizações ou pesquisas acadêmicas.

“No Brasil, desde 2011, nenhum órgão ou instituição pública responsável pela pesca emitiu nenhum boletim sobre desembarques pesqueiros. E para a Amazônia, a última vez que se teve uma coleta de dados nos principais portos foi em 2004”, afirma Estupiñán.

Na prática, isso significa que não se tem a mínima ideia do que, onde e quanto é capturado de peixes nos rios da Bacia Amazônia, ou é comercializado nos principais portos e mercados da região. Então, como é possível proteger espécies ameaçadas sem saber o volume e o que está sendo pescado?

O atual governo federal, todavia, parece estar mais interessado no problema. Promovido a Ministério da Pesca e Aquicultura – na gestão anterior era uma secretaria –, o órgão irá apoiar um monitoramento da pesca em toda a bacia da Amazônia brasileira, que começará em 2024, terá duração de um ano e poderá ser renovado.

“Queremos entender como está a pressão sobre essas espécies e seus estoques. Iremos analisar informações como dados biométricos e desembarque de peixes, por exemplo”, diz a professora da Universidade de Rondônia, que fará parte do estudo.

É importante ressaltar que não são apenas a dourada e a piramutaba que estão ameaçadas. Um levantamento inédito divulgado recentemente alerta que 44% das espécies migratórias globais apresentam queda em suas populações. Dentre os peixes, o relatório State of the World’s Migratory Species aponta que a situação é ainda mais preocupante, com uma redução de 90% na população de 37 espécies de peixes migratórios desde os anos 1970.

“Em relação ao impacto das espécies do Rio Madeira, ele é difícil de ser revertido. O objetivo agora é evitar que seja ainda maior, com a construção de novas usinas naquela área. E é fundamental que haja uma ação conjunta entre vários países”, conclui.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Mongabay, escrito por Suzana Camargo

Inpe aponta queda de 38% do desmatamento na Amazônia

0

A área sob alertas de desmatamento na Amazônia caiu 38% no primeiro semestre em relação ao mesmo período de 2023, segundo dados do sistema Deter-B, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), divulgados em 3 de julho. No Cerrado houve queda de 15% de janeiro a junho, a primeira redução para o período desde 2020.

No mês de junho houve queda de 31% na Amazônia (457 km², ante 663 km²) e de 24% no Cerrado (662 km², ante 875 km²). Os dados foram apresentados pelas ministras Marina Silva (MMA) e Luciana Santos (MCTI) em entrevista coletiva na sede do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), em Brasília (DF).

“Os dados mostram uma tendência de queda consistente do desmatamento na Amazônia e o início de uma tendência de queda no Cerrado. Isso nos dá esperança de que, vendo o que ocorre na Mata Atlântica, com a queda continuada do desmatamento, vamos conseguir desmatamento zero até 2030”, disse Marina.

Leia também: Apesar de menor registro de desmatamento, seca aumenta incêndios na Amazônia em 36%

No primeiro semestre, a área sob alertas de desmatamento na Amazônia foi de 1.639 km², a menor desde 2018. O resultado ocorre após redução de 50% em 2023 na comparação com 2022.

De agosto de 2023 a junho de 2024, a área sob alertas de desmatamento no bioma foi de 3.644 km², redução de 51% na comparação com o período de agosto de 2022 a junho de 2023. O número é indicativo da taxa anual de desmatamento, medida sempre de agosto a julho por outro sistema do Inpe, o Prodes. Falta, portanto, um mês para o fechamento do ciclo.

O Prodes usa imagens de satélites mais precisas do que as usadas no Deter, que emite alertas diários para apoiar a fiscalização em campo realizada por Ibama e ICMBio.

“Os dados são resultado da decisão política e da convicção que move o governo do presidente Lula no desafio da descarbonização do país, de enfrentar a mudança do clima e, portanto, os eventos extremos”, disse a ministra Luciana Santos.

Cerrado

No Cerrado, a área sob alertas de desmatamento no primeiro semestre foi de 3.724 km², queda de 15% na comparação com os 4.396 km² registrados no mesmo período do ano anterior. A área sob alertas de desmatamento no bioma de agosto de 2023 a junho de 2024 (6.571 km²) teve aumento de 16% em relação ao intervalo anterior (5.735 km²).

O resultado indica tendência de estabilização do desmatamento no bioma, após aumento de 43,6% em 2023 na comparação com 2022.

“É uma tendência que está se configurando, ainda não está consolidada. É extremamente importe, porque a gente tinha o Cerrado em crescimento acelerado”, disse o secretário-executivo do MMA, João Paulo Capobianco.

*Com informações do MMA

Verão na Rede: edição de Macapá conta com transmissão ao vivo de shows nacionais

0

A estação mais quente do ano promete ser ainda mais especial com a chegada do projeto ‘Verão na Rede’, da Fundação Rede Amazônica (FRAM). E para garantir que todos da região possam acompanhar as atividades que acontecem em Macapá (AP), o ‘Verão na Rede’ conta com transmissão ao vivo pelo canal Amazon Sat. Entre os shows confirmados para transmissão, estão Joelma e Diante do Trono.

“Os telespectadores poderão se conectar de qualquer lugar e desfrutar dos eventos em tempo real, tornando a experiência acessível a um público ainda maior”, destacou o coordenador do canal, Lemmos Ribeiro. O Portal Amazônia também disponibilizará a transmissão.

“O nosso objetivo é alcançar a comunidade em geral com informações que as levem a se divertir neste mês de férias escolares, sabendo qual a melhor programação, qual a melhor dica de cultura, esportiva ou gastronômica. Mas além disso queremos também orientar as pessoas a curtir o nosso verão amazônico de forma segura, sabendo como proteger a sua saúde. E, por fim, nos engajamos às causas solidárias levantadas pelo Verão na Rede”, destacou Arilson Freires, gerente de jornalismo da Rede Amazônica Amapá, que contará com uma equipe de jornalismo para realizar a cobertura completa no g1 Amapá e telejornais locais.

O projeto conta com ações que visam democratizar o acesso à cultura e a cidadania para a população local e para os visitantes, proporcionando entretenimento de qualidade e fomentando a integração social com campanhas educativas.

“A junção dessas iniciativas garante que moradores e turistas possam desfrutar de um verão repleto de opções de lazer e entretenimento. A programação do Macapá Verão inclui shows musicais, apresentações teatrais, feiras de artesanato e gastronomia, competições esportivas e muitas outras atrações que destacam a riqueza cultural e a diversidade da região”, destacou Mariane Cavalcante, diretora executiva da Fundação Rede Amazônica.

Paralelamente ao ‘Verão Na Rede’, Macapá realiza mais uma edição do tradicional “Macapá Verão”, um evento que acontece há quase 50 anos, com programação diversificada que inclui shows e atividades recreativas, assim a cidade se transforma em um verdadeiro polo de atividades, oferecendo experiências únicas e inesquecíveis para todos os públicos. Esses eventos são fundamentais para fortalecer o turismo local e regional, além de contribuir para o desenvolvimento econômico e social de Macapá e região.

Verão na Rede

O projeto Verão na Rede é uma iniciativa da Fundação Rede Amazônica (FRAM) que visa promover a cultura, a arte, o entretenimento e o turismo em Macapá (AP).

Além de valorizar artistas regionais, também enfatiza a importância da preservação ambiental e da sustentabilidade, promovendo conscientização e educação ambiental entre os participantes e a comunidade local.

O projeto conta com apoio da GEAP Saúde e da Prefeitura de Macapá, que realiza paralelamente o ‘Macapá Verão’, que consiste em uma série de eventos culturais e atividades ao ar livre, proporcionando momentos de lazer e integração comunitária.

Amazonas tem produção de fruta ameaçada por Mosca do Mediterrâneo 

0

Pesquisadores encontraram em mangas comercializadas em Manaus, uma espécie denominada de ‘Mosca-das-Frutas’, até então, sem registro de sua presença no Amazonas

A descoberta foi anunciada em nota, ‘Marchtothe North: Ceratitiscapitata (Wiedemann, 1824) (Diptera, Tephritidae) reaches Manaus, state of Amazonas, Brazil’, publicada na revista científica Entomological Communications.

As mangas, importadas de outro estado brasileiro, foram adquiridas numa quitanda em um dos bairros de Manaus no dia 28 de janeiro deste ano. Ao degustá-la, observou-se que a polpa estava enegrecida e continha larvas brancas (tapurú) que ao se locomoverem davam pequenos saltos, comportamento típico dessa espécie de mosca. Com a emergência dos adultos a partir das larvas/pupas, constatou-se tratar-se da espécie Ceratitiscapitata, conhecida mundialmente como a ‘Mosca do Mediterrâneo’.

Os pesquisadores são Agno Nonato Serrão Acioli, Neliton Marques da Silva e Francisco Clóvis Costa-Silva do Laboratório de Entomologia Agrícola da Faculdade de Ciências Agrárias da Universidade Federal do Amazonas (LEA/FCA/Ufam), Ricardo Adaime (Embrapa/Amapá) e Roberto Zucchi (Esalq/USP).

Foto: Reprodução/Artigo ‘Marchtothe North: Ceratitiscapitata (Wiedemann, 1824) (Diptera, Tephritidae) reaches Manaus, state of Amazonas, Brazil

Essa espécie de mosca ataca cerca de 420 espécies de frutos diferentes. É considerada uma das principais pragas do mundo em regiões produtoras de frutas. Este registro é um alerta aos agentes da defesa agropecuária para que seja intensificada as amostragens de frutos e instaladas armadilhas ‘caça-mosca’ em pontos estratégicos do Amazonas, priorizando estradas interestaduais, portos, aeroportos e estabelecimentos comerciais (frutarias, feiras e supermercados).

Autoridades devem priorizar a coleta de frutos nativos para detectar possível ocorrência dessa espécie de mosca. Esse monitoramento é importante para verificar se a ‘Mosca-do-Mediterrâneo’ vai se estabelecer nos pomares do estado do Amazonas, e torcer para que este registro seja apenas uma constatação episódica de uma entrada acidental de Ceratitiscapitata no Estado.

*Com informações da UFAM

O hábito da reclamação

Por Julio Sampaio de Andrade – juliosampaio@consultoriaresultado.com.br

– Já reparou o quanto você reclamou nestes poucos minutos que estamos juntos?

– Como assim, reclamou?

– Você reclamou que eu parei o carro longe da entrada do prédio e que, por isso, se molhou. Reclamou que eu cheguei atrasada e foram apenas dois minutos. Reclamou de todo o dia e do seu chefe, que não para de perseguir você.

– E você? Reparou que está reclamando da minha reclamação?

O diálogo do casal aconteceu mais ou menos assim e para quem assistia, como eu, não deixou de ser engraçado. Reclamar e reclamar da reclamação é algo comum e pode ser divertido para quem está fora deste círculo vicioso, mas apenas para quem está fora. Para quem vive nele, pode ser bastante pesado.

Em grande parte dos casos, a reclamação torna-se um hábito, e como todo hábito, não se baseia na racionalidade. Quem responde pelos hábitos são os gânglios neurais, tão rápido, que os estímulos não chegam ao cérebro, que assim, poupa energia, resguardando-se para outras funções em que precisará ser acionado. Há hábitos positivos que nos aproximam da felicidade e hábitos que nos distanciam dela. É o caso da reclamação, um hábito que representa exatamente o contrário do que recomendam a neurociência e a psicologia positiva para a construção de felicidade: a gratidão.

São inúmeros estudos que indicam que criar um modelo mental positivo e grato favorece um estado mais contínuo de emoções positivas. O modelo mental da reclamação e da ingratidão, porém, instala-se mais facilmente, sem nenhum esforço. Não são necessários os tais exercícios de 21 ou de 30 dias, que se tornaram conhecidos pelo grande público.

Nossa natureza límbica, associada à sobrevivência, reconhece instantaneamente as imperfeições ou ameaças e corre na frente, manifestando-se antes que a gratidão tenha chances de estar presente. Se nos entregarmos aos instintos, a reclamação predomina. Criar um modelo mental positivo requer consciência e uma certa determinação, algumas vezes, esforço.

Lembro que quando era jovem, tinha o hábito de dizer várias vezes por dia: “estou cansado”. Na época, fazia faculdade à noite e trabalhava desde cedo, dormindo talvez umas 5 horas por dia, um tempo insuficiente. No entanto, dizer várias vezes que estava cansado, apenas agravava a situação. Era uma espécie de reclamação que, com o tempo, fazia com que eu me sentisse assim, mesmo quando não havia razões físicas para tal.

Alguém me fez perceber isto (em geral é o cônjuge da gente que faz isso, reclamando da nossa reclamação, como no casal acima). Demorou um tempo até que o antigo mantra fosse substituído por uma nova afirmação: “estou me sentindo bem”. Depois de um tempo, não precisei mais dele. Não passei a dormir mais, porém, estava menos cansado.

Dificilmente eliminamos um hábito sem a substituição por um novo. As velhas conexões neurais continuam por lá e é necessário que novas sejam criadas e fortalecidas, até que se tornem realmente predominantes. Até lá, necessitam, da nossa racionalidade intencional. É um dos passos para a construção consciente da felicidade.

Há uma história antiga que ilustra os efeitos da reclamação e da gratidão. Ela envolve um cachorro preso por uma corrente a uma carroça, que segue o seu caminho na estrada. O cachorro pode seguir feliz ao lado da carroça, mas se resistir, será arrastado por ela. A metáfora se refere à maneira de seguir a natureza e lidar com os acontecimentos. Com base nesta metáfora, o filósofo antigo Cleantes de Assos afirmou: “o destino guia aqueles que o aceitam e arrasta os que o recusam”.

O hábito da reclamação, que é alimentado por nós mesmos, não tem o poder de transformação, que requer outras forças. Também não nos faz caminhar alegremente. O que ele faz é nos arrastar, como no exemplo do cachorro, por um caminho que se torna mais difícil. Vale refletir. Estamos nutrindo o hábito da reclamação?

Sobre o autor

Julio Sampaio (PCC,ICF) é idealizador do MCI – Mentoring Coaching Institute, diretor da Resultado Consultoria, Mentoring e Coaching e autor do livro Felicidade, Pessoas e Empresas (Editora Ponto Vital). Texto publicado no Portal Amazônia e no https://mcinstitute.com.br/blog/.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista