Pesquisador do Acre afirma que Amazônia Legal não possui sistemas de alerta para eventos extremos

Além disso, o doutor em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Ufac, José Genivaldo do Vale Moreira, disse que a falta de ações e planejamento do poder público agravam mais ainda os desastres.

Ainda em vazante, o nível do Rio Acre marcou 13,57 metros na medição das 6h desta segunda-feira (10), segundo o boletim divulgado pela Defesa Civil de Rio Branco. O índice representa uma redução de 25 centímetros em relação ao registrado às 18h de domingo (9). Porém, o impacto na capital acreana ainda é grande.

A equipe da Rede Amazônica ouviu o doutor em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Universidade Federal do Acre (Ufac), José Genivaldo do Vale Moreira, que disse que eventos extremos têm ocorrido com menor frequência, mas em maior proporção. 

Além disso, disse que a falta de ações e planejamento do poder público agravam mais ainda os desastres. Segundo ele, nenhum dos Estados da Amazônia Legal possui sistemas de alerta e planos de contingência permanentes para eventos como inundações, secas, incêndios florestais e outros.

Foto: Divulgação/Secom AC

Ainda no domingo, na medição das 6h, o manancial deixou a cota de transbordo, que é de 14 metros, e marcou 13,88 metros. O rio estava acima da cota desde 23 de março, e ainda segue acima da cota de alerta, que é de 13,50 metros.

Moradores de Rio Branco têm enfrentado a maior enchente dos últimos 8 anos, com muita chuva e o Rio Acre acima da cota de transbordamento por vários dias seguidos. Foram 42 bairros atingidos, e mais de 3,3 mil famílias precisaram ser levadas a abrigos públicos.

De acordo com o boletim de acompanhamento da Defesa Civil estadual, até o domingo, 617 famílias estavam desabrigadas em Rio Branco por conta da cheia, com um total de 1.939 pessoas. Além disso, nove abrigos montados para atender as famílias afetadas pelas enxurradas dos igarapés e enchente do Rio Acre foram desmontados, de acordo com a Defesa Civil de Rio Branco. Apenas no Parque de Exposições Wildy Viana, o maior abrigo montado para atender os desabrigados, há 428 famílias com 1.235 pessoas.

Conforme o relatório, 290 famílias com 1.131 pessoas, que foram afetadas pela enxurrada dos igarapés, já voltaram para suas casas. Sobre os desalojados, o órgão municipal destaca que 1.982 famílias, com aproximadamente 6.541 pessoas, já retornaram para casa.

Com a enchente desde o fim de março, o Rio Acre chegou à maior alagação em 8 anos, quando alcançou 18,40 metros, maior nível já registrado. Já em 2023, o manancial chegou ao pico de 17,72 metros no dia 2 de abril, quando começou a apresentar vazante. Considerando o histórico, esse foi o segundo maior índice já registrado, superando 1997, com 17,66 metros, e 2012, com 17,64 metros.

Eventos extremos 

Historicamente, eventos extremos, em especial os de natureza hidrológica, têm impacto inversamente proporcional à sua frequência, isto é, os eventos com potencial de impactos mais severos ocorrem mais raramente dos que aqueles com menor potencial danoso. Porém isso tem mudado, segundo a avaliação do doutor em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Universidade Federal do Acre (Ufac), José Genivaldo do Vale Moreira.

Ele também aponta para a redução do intervalo entre essas ocorrências de eventos naturais extremos. O professor ressalta que esses fenômenos dependem de diversos fatores, o que os tornam imprevisíveis.

“Apesar de estarmos atravessando o período conhecido como ‘ inverno amazônico’, quando se registra maior volume de chuvas e de vazões, os eventos registrados recentemente no Rio Acre estão associados a baixas possibilidades de acontecer. Ou seja, estão ocorrendo em ciclos cada vez menores e com maior intensidade. E com isso, há possibilidade maior de causar danos mais severos à população vulnerável. E não somente o impacto social, mas também econômico, uma vez que altera a rotina no ciclo produtivo da região”, 

explica.

Manaus também sofreu com as chuvas. Foto: Wiliam Duarte/Rede Amazônica

O professor também destaca que não se deve descartar fatores antrópicos, como ocupação urbana em áreas susceptíveis aos impactos dos fenômenos naturais. Na avaliação de Moreira, Rio Branco está inserida em um contexto geográfico típico que sofre consequências da variabilidade acentuada nos processos hidrológicos. Com isso, é comum a ocorrência de extremos, tanto de cheias quanto de estiagem cujos impactos são acentuados, sobretudo à população de menor renda.

“Vale lembrar que um evento natural só oferece risco se houver bem exposto. Ou seja, está relacionado a probabilidade de ocorrência de um evento com a expectativa de perdas causadas por ele. Por isso, tem sido mais impactante na capital, visto que há maior ocupação e exposição de bens vulneráveis. E o pior, não há um planejamento coordenado de ações em longo prazo, com vistas à atenuação dos impactos. E isso é urgente, pois diante das perspectivas, o enfrentamento às emergências provocadas por tais eventos impactam severamente nas condições econômicas e, consequentemente, no desenvolvimento da região. Sejamos realistas: todos os setores são afetados. O problema não é só nos bairros atingidos diretamente com as cheias”, avalia.

Possíveis ações 

Apesar da ocorrência dos eventos extremos ser praticamente inevitável, por conta dos fatores que os regem, as consequências podem ser gerenciadas. O professor destaca a necessidade de ações tanto estruturantes quanto não estruturantes, especialmente em longo prazo, e que não se tratam, necessariamente, de obras de grande complexidade.

Moreira lista uma série de ações que podem integrar esse gerenciamento se colocados em prática de maneira conjunta pelo poder público, e integra várias vertentes: prevenção, mitigação, preparação, resposta e recuperação (ciclo da gestão de riscos).

Entre as possíveis medidas, estão: 

  • Mapeamento de áreas de risco;
  • Plano de redução de risco;
  • Integração com plano diretor;
  • Qualificação de pessoal;
  • Parques lineares;
  • Recuperação de nascentes e reflorestamento de áreas estratégicas;
  • Sistemas alarme;
  • Deslocamento de pessoal para área menos susceptíveis.

“Neste sentido, é importante trazer à tona o relatório ‘Emergência climática: estratégias subnacionais na Amazônia’, publicado em 2021, que apresentou, como parte de suas conclusões, que nenhum dos Estados da Amazônia Legal possui sistemas de alerta e planos de contingência permanentes para eventos como inundações, secas, incêndios florestais e outros. Isso acentua a vulnerabilidade, associada aos impactos de tais processos, em grande parte por fatores atribuídos às ações antrópicas, adicionada a estruturas de drenagem inadequadas. É importante destacar que, mesmo não havendo sistemas de alerta, por exemplo, já houve, em Rio Branco, a implementação de medidas que ajudavam a diminuir os impactos. Um exemplo disso, eram os planos de desobstrução de canais e igarapés que atravessam o perímetro urbano (como o São Francisco) especialmente no período que antecede o inverno amazônico”, pondera.

Além de ações que permitam atenuar possíveis impactos de eventos como as enchentes, Moreira ressalta ainda a necessidade de atenção ao desenvolvimento habitacional especialmente na capital do Acre.

“A ocupação desordenada, especialmente de áreas de risco, às margens dos cursos d’água contribuem sobremaneira para a ocorrência de inundações, uma vez que interferem no escoamento. Com isso, a ocorrência de eventos extremos cada vez mais frequentes e mais intensos, aliado à ausência de medidas de atenuação de seus impactos, provocam danos de diversas naturezas, especialmente às populações mais vulneráveis”, finaliza.  

*Por Victor Lebre, do g1 Acre

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