Peixe-boi da Amazônia. Foto: Carolina Oliveira/Instituto Mamirauá
A primeira etapa do projeto ‘Coexistência entre população humana e mamíferos aquáticos em duas reservas de desenvolvimento sustentável na Amazônia Ocidental brasileira’ ocorreu entre 2023 e 2026. Nessa fase, o objetivo foi compreender a relação entre mamíferos aquáticos e populações ribeirinhas por meio de um diagnóstico realizado em 25 comunidades da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá e em 40 comunidades da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Amanã.
A partir do diagnóstico, os pesquisadores puderam compreender melhor a atual relação entre os mamíferos aquáticos e as comunidades que convivem e compartilham o mesmo habitat, além de perceber a real necessidade de avançar com o projeto.
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“Na primeira etapa do projeto identificamos os principais pontos de tensão e de conflitos e, a partir deles, começamos a buscar as melhores práticas e soluções para reverter esses problemas e garantir que essas atividades humanas, seja a pesca e outras do cotidiano continuem acontecendo, mas também resguardando a sustentabilidade dessas espécies”, explicou João Borges, pesquisador do Projeto Viva o Peixe-Boi-Marinho, realizado pela Fundação Mamíferos Aquáticos (FMA).
Os principais mamíferos aquáticos com os quais o projeto planeja trabalhar junto às comunidades, e que fazem parte do cotidiano dessas populações tradicionais, são os botos (tucuxi e vermelho), os peixes-boi, ariranhas e lontras. Essas espécies são frequentemente afetadas por caça, captura incidental ou outros problemas relacionados às atividades de caça de subsistência.
Projeto na prática: próximos passos
Visando a próxima etapa, em fevereiro de 2026, os envolvidos reuniram-se na sede do Instituto Mamirauá para a elaboração de um plano estratégico com o objetivo de debater as melhores iniciativas para o equilíbrio sustentável entre as populações locais e os mamíferos aquáticos, etapa que busca amenizar significativamente os impactos negativos oriundos dessas interações e contribuir para o fortalecimento da coexistência na região.
Durante toda a pesquisa, até a reunião do plano estratégico, os pesquisadores elaboraram uma “teoria da mudança”, cujo objetivo é melhorar as interações entre as populações locais e os mamíferos aquáticos por meio de iniciativas práticas de longo prazo.
“A participação da população amazônica é fundamental para o processo deste projeto. As boas práticas são essenciais para a coexistência em áreas e recursos compartilhados, por exemplo, vigiar a malhadeira durante atividades de pesca, cercar a malhadeira, não colocar malhadeiras na entrada de rios e igarapés. Práticas que podem fazer total diferença para o equilíbrio ecológico”, explicou a pesquisadora Míriam Marmontel, coordenadora do Grupo de Pesquisa em Mamíferos Aquáticos Amazônicos do Instituto Mamirauá.

Seca histórica intensifica monitoramento de mamíferos aquáticos na Amazônia
Com as mudanças climáticas influenciando as secas extremas nos rios da Amazônia, as espécies de mamíferos aquáticos têm ficado ainda mais vulneráveis, tornando a iniciativa ainda mais necessária dentro das comunidades ribeirinhas.
Durante a seca dos anos de 2023 e 2024, o Grupo de Pesquisa em Mamíferos Aquáticos Amazônicos do Instituto Mamirauá destacou-se como uma das instituições à frente das iniciativas voltadas à compreensão da mortalidade de mamíferos aquáticos e à busca por medidas para mitigá-la. Entre essas iniciativas, destaca-se a colaboração com comunidades ribeirinhas.
“Após esse período, nos mantivemos em uma rede de contatos junto com a população local, tanto nas Reservas de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá e Amanã quanto no Lago Tefé, que alerta e aciona o Grupo em caso de mortalidade das espécies em questão”, acrescentou a pesquisadora Míriam Marmontel, coordenadora do Grupo de Pesquisa em Mamíferos Aquáticos Amazônicos do Instituto Mamirauá.
Após a mortalidade dos botos, outras parcerias foram fortalecidas com diversas organizações locais, regionais e nacionais, com o objetivo de monitorar as espécies e estudar a vulnerabilidade desses animais ao clima.
O projeto é uma iniciativa da Fundação de Mamíferos Aquáticos (FMA), em parceria com o Instituto Mamirauá e com o Grupo de Pesquisa em Mamíferos Aquáticos Amazônicos do próprio instituto, que contou com o financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). A iniciativa também mantém vínculo de pesquisa com a Universidade Federal da Paraíba (UFPB), por meio do Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Monitoramento Ambiental (PPGEMA).
*Com informações do Instituto Mamirauá
