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Segunda, 26 Julho 2021

As mãos talentosas que produzem arte vazada

As mãos talentosas que produzem arte vazada

A floresta amazônica inspira grandes artistas plásticos e artesãos. A arte está presente na paisagem ribeirinha por meio da construção de embarcações de madeira, de artesanatos, pinturas, instrumentos musicais e objetos oriundos dos produtos da floresta, desde sementes, galhos e sobras de madeiras utilizadas na fabricação de lindas obras de arte.

Os profissionais, oriundos de diversos lugares da Amazônia, dedicam-se aos trabalhos artísticos, sendo um deles a arte vazada, técnica em entalhe feita na madeira, e produzida com excelência pelo artesão Evandro Pires, nascido em Manacapuru-AM. De suas mãos talentosas saem grandes obras de arte que encantam, sensibilizam e emocionam quem conhece o trabalho pela primeira vez. 

Artesão Evandro Pires mostra os tucanos na arte vazada.

A inspiração desse trabalho artístico surgiu do incentivo do pai Arnaldo Pires de Almeida, que era carpinteiro naval e civil no Amazonas. E o amazonense Evandro aprendeu a gostar de trabalhar com madeira, assim como seus irmãos que ajudaram o pai no primoroso trabalho de carpintaria.

Evandro faz questão de lembrar o interesse pelas madeiras tidas como "mortas", as quais não seriam mais aproveitadas para nenhuma finalidade e costumava encontrá-las nas serralherias ou à margem do rio Solimões na época da enchente.

Em 1997, Evandro Pires mudou-se para Porto Velho com objetivo de aperfeiçoar sua arte, de mostrar a Amazônia no entalhe de suas peças e dedica-se até hoje ao trabalho com arte vazada e se emociona ao falar dessa experiência:

"O trabalho com madeiras, muitas vezes sem nenhum valor, tem um significado especial porque depois de trabalhadas chegam a casa das pessoas em forma de arte, dão prazer e ajudam na preservação da floresta amazônica".

A arte é uma criação do espírito, proporciona esse prazer estético e provoca esse fervilhamento nas emoções de quem tem o acesso aos trabalhos produzidos na região amazônica. O artesão de Manacapuru teve a oportunidade de divulgar sua produção artística em várias exposições no país e lembra de algumas de suas peças enviadas ao exterior, destacando o valor da criação e da arte sustentável na Amazônia.

A floresta inspira o artesão Pires e quando produz cada peça costuma ser envolvido por uma concentração diferenciada na qual transcende a imaginação fértil, extravasa a emoção na liberdade de criação. Os temas de suas obras são inspirados na vivência amazônica, nas memórias, nas tradições familiares, no espaço ribeirinho, sendo retratados botos, pescarias, rios, canoas, araras, tucanos, beija-flores, plantas, ou seja, uma convivência com a floresta marcada de afã estético. 

Beija-flor na arte vazada

O olhar do artesão é fonte de observação, vai sendo talhado no sentido de descobrir as nuances da vida, das qualidades plásticas do mundo interior dos pássaros, das pessoas, dos lugares, das plantas, detalhando em cada entalhe a observação expressiva da força do viver e da biodiversidade encontrada no espaço amazônico.

O artesão encanta-se por entalhar beija-flor, o qual expressa beleza, liberdade, velocidade e o carinho pela flor. Na sua jornada de criação inspira-se na liberdade desse pássaro e de forma assertiva o coloca na arte vazada, permitindo evidenciar os traços, as expressões, os movimentos, a beleza da fauna e da flora.

Outro pássaro inspirador do artesão é a arara, possuidora de grande beleza, que apresenta o comportamento de valorização do parceiro. De acordo com Evandro Pires "A arara quando escolhe seu parceiro se mantém fiel até a morte e mesmo depois de uma partida não costuma buscar outro companheiro".

Essa leitura do artesão traduz o maravilhamento, emoções, a beleza do amor eternizada no cafuné, simbolizando o carinho, a fidelidade, o estar juntos e o companheirismo marcante entre as araras. 

O cafuné como símbolo da fidelidade

Evandro Pires comunica a Amazônia por meio da arte vazada, valoriza os saberes locais, o sentido de pertencimento das pessoas aos lugares, a importância da preservação da floresta e o movimento da vida. A expressividade poética chama atenção porque amplia a nossa emoção e o entendimento da sustentabilidade na prática e proporcionado pelo olhar do artesão que escolheu Porto Velho para aperfeiçoar sua arte.

Que esta experiência de Olhar Amazônia com pertencimento e justiça social possa ser multiplicada para a definição de campos possíveis de ação nas políticas públicas destinadas às populações ribeirinhas. Continue nos acompanhando e envie suas sugestões no e-mail:


Lucileyde Feitosa

Professora, Pós-Doutoranda em Comunicação e Sociedade (Universidade do Minho/Portugal), Doutora em Geografia/UFPR, Integrante do Movimento Jornalismo e Ciência na Amazônia e colunista da Rádio CBN Amazônia/Porto Velho.

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