Chicha de jora: origem, valor cultural e como preparar a bebida ancestral do Peru

A bebida possui grande valor cultural por protagonizar os rituais de agradecimento e homenagem à Pachamama nos Andes peruanos.

Conhecida como o ‘néctar dos incas’, a ‘chicha de jora‘ é uma bebida milenar que alcançou status sagrado nos rituais e festividades mais importantes do Tahuantinsuyo, território do império dos Incas no Peru. Até hoje continua sendo preparada e consumida em várias regiões do país como protagonista de cozinhas regionais e festividades emblemáticas que fortalecem a identidade cultural peruana.

Feita a partir de grãos de milho maltados que são fermentados para atingir um determinado teor alcoólico, esta bebida, que é tecnicamente uma cerveja artesanal, possui grande valor cultural por protagonizar os rituais de agradecimento e homenagem à Pachamama nos Andes peruanos.

E no litoral, especialmente nas cidades de Piura e Lambayeque , a ‘chicha de jora’ não é apenas a bebida emblemática, mas também o ingrediente chave na preparação de ensopados regionais como parihuela, arroz de pato, malarrabia, entre outros. Além disso, é considerado o acompanhamento perfeito para cebiche, seco de chavelo e outros pratos típicos do País.

Também a bebida tradicional que deu origem às “Chicherías”, lugares de encontro social para conversar e relaxar enquanto bebe um generoso copo de chicha.

Foto: Reprodução/Agência Andina

Origem da chicha de jora 

Segundo relatos antigos, durante o governo do Inca Túpac Yupanqui, fortes chuvas açoitaram o território Tahuantinsuyo, danificando os campos cultivados, e a água incessante se infiltrou nas colcas – ou armazéns – e nos alimentos, como o emblemático milho que era fermentado pela umidade intensa.

Esta infeliz circunstância para a segurança alimentar dos Incas permitiu a inesperada descoberta do malte de milho. No início, tanto o milho umedecido quanto o novo líquido maltado seriam distribuídos à população dada a demanda por alimentos. Mas ao perceber seu cheiro desagradável, os consumidores decidiram descartá-lo.

No entanto, um nativo encontrou restos do milho maltado e do líquido fermentado e decidiu comê-los. Como consequência, ele não apenas saciou o apetite e a sede, mas também ficou bêbado. Isso foi percebido pelos moradores e foi assim que, a partir desse acontecimento, surgiu e cresceu a fama da chicha de jora.

Foto: Reprodução/Agência Andina

Chica 

Durante o império Inca, a chicha, chamada ‘Aqha’ em Quechua, era venerada e oferecida em reverência ao Inti (deus sol), à Pachamama (mãe terra) e também aos apus (guardiões tutelares representados por montanhas e picos cobertos de neve) em vários rituais e festividades.

Atualmente, a chicha de jora continua a ter o estatuto de bebida ritual nos Andes peruanos em cerimónias conduzidas por xamãs, na inauguração de obras públicas e em festividades emblemáticas como o Inti Raymi ou a ‘Fiesta del Sol’.

Em cidades como o distrito de Piura, em Catacaos, a chicha de jora é servida em vasos e copos ornamentais chamados ‘potos’, feitos de barro ou casca de abóbora seca, e decorados com desenhos representativos da cultura local.

Foto: Reprodução/Agência Andina

Cultura significante 

Por isso, a ‘chicha de jora’ faz parte da identidade cultural dos povos andinos e costeiros peruanos. Seu preparo e presença nas cerimônias e rituais, assim como nas festividades tradicionais é fundamental na gastronomia tradicional.

Preparação 

Para obter a chicha de jora, o milho é primeiro semeado em solo úmido e aguardam-se os primeiros brotos. Uma vez que ocorre a germinação, a planta é coletada e deixada para secar ao sol por muitas horas. Em seguida, o grão seco é moído ou triturado e obtém-se o jora, insumo fundamental para preparar a chicha por meio de um processo de fermentação.

Para preparar a chicha, o jora deve ser embebido em água morna por meia hora. Após esse tempo, a água é trocada e deixada de molho por mais meia hora. Em seguida, o jora é coado e fervido em três litros de água. O cozimento deve ser em fogo baixo por oito horas, mexendo sempre. Quando a água começa a ferver, adiciona-se água morna para manter o nível de água anterior, pois a quantidade de água não pode diminuir.

Foto: Reprodução/Agência Andina

Posteriormente, adiciona-se o açúcar (ou chancaca, que é um tipo de rapadura) até que comece a dissolver e espere esfriar. Quando está frio, a chicha é colocada em vasilhas e coberta com algum elemento que permite filtrar o ar para favorecer a fermentação.

A chicha deve descansar por cerca de oito dias. Após esse tempo, a espuma formada pela fermentação é removida, os sedimentos são coados e adicionado o açúcar. Ao final desse processo, a bebida terá obtido cerca de 3% de teor alcoólico e estará pronta para beber e saborear.

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