Manaus 30º • Nublado
Segunda, 27 Junho 2022

Meninos do Manaquiri, reencontro com suas origens

Meninos do Manaquiri, reencontro com suas origens
O rio Solimões é exatamente o mesmo. Majestoso, intrépido, arrojado. Navegá-lo é penetrar um pouco na intimidade amazônica, no fulgor daquelas águas barrentas; viver parte de seus mistérios, enigmas e segredos confidenciais. É buscar no mais recôndito escaninho de suas memórias a vida que ali transcorre plena de regionalidade e cumplicidade para com suas verdades próprias, inalcançáveis à maioria dos seres estranhos à Amazônia.


Como no texto-poema de Thiago de Mello, desce “da altura extrema da cordilheira, onde as neves são eternas, a água se desprende, e traça trêmula um risco na pele antiga da pedra: o Amazonas acaba de nascer. A cada instante ele nasce. Descende devagar, para crescer no chão. Varando verdes, faz o seu caminho e se acrescenta. Águas subterrâneas afloram para abraçar-se com a água que desceu dos Andes. De mais alto ainda, desce a água celeste. Reunidas elas avançam, multiplicadas em infinitos caminhos, banhando a imensa planície cortada pela linha do Equador”. 

Foto: Divulgação
Pois bem. Singrando o rei dos rios, numa lancha rápida conduzida pelo experiente e educado piloto Irailton, minha comitiva chegou, numa viagem de uma hora em lancha rápida, partindo do porto do Iranduba, ao município de Manaquiri onde se realizaria uma apresentação à comunidade local de meu livro “Meninos do Manaquiri”. Evento programado especialmente como  parte da Agroshow - Luzes Empreendedoras, organizado pela Prefeitura em parceria com o Sebrae Amazonas, ao qual compareci à convite do prefeito Jair Souto.

Tomei um susto ao chegar à cidade e, posteriormente, quando me vi diante da multidão comprimida no auditório da sede da administração municipal. Estudantes, gestores de escolas, técnicos administrativos e secretários, representações comunitárias e crianças, muitas crianças. Emocionado, senti orgulho daquele exato momento, do privilégio de poder compartir com os manaquirienses os relatos memoriais do livro, uma evocação de meus tempos de pré-adolescência lá vividos com um grupo de irmãos, primos e amigos durantes as férias escolares.

Os instantes vividos nesta ocasião ultra especial, revelaram, em todas as dimensões, o poder de um livro. Na verdade, o “Meninos do Manaquiri” é mais do que um simples livro. É na verdade uma obra  literária que retrata as origens de um povo, a simplicidade de uma comunidade de lavradores, pescadores e produtores agrícolas e pecuários, que exerciam a vida livremente, longe de valores monetários, e que, talvez até inconscientemente participavam da construção de  de uma municipalidade próspera, ordeira e consciente do seu papel na conjuntura econômica do Amazonas.

O Manaquiri, com efeito, evoluiu daqueles povoados singelos, espalhados ao longo do paraná e lagos, cujos negócios baseavam-se no escambo garantido a fio de bigode. Transformado no maior produtor de batata doce do Estado, vem investindo forte no setor primário (na produção de melancia, milho, jerimum, farinha e derivados; na pecuária bovina, ovina e avícola),  graças a planos e projetos da administração municipal comandada com eficiência e responsabilidade pelo prefeito Jair Souto. Um gestor moderno que trabalha, diferentemente da maioria dos prefeitos brasileiros, sobre propostas concretas de ações diretamente exercidas junto às comunidades de produtores.

A gestão municipal tem um objetivo inarredável: tornar realidade o preceito de não dar o peixe, mas fornecer a vara e ensinar a pescar. Única forma de livrar amarras que aprisionam o cidadão a verbas assistenciais improdutivas que, mesmo garantindo, embora precariamente o sustento de sua família, fere, porém, sua dignidade.

Viajando pelo interior do município revi a placidez das águas do paraná e dos furos, onde se  encontram instaladas as tradicionais comunidades banhadas pelos lagos do Jaraqui, do Cai N’água, S. Francisco, Fuxico, Miraaua, Limão, Meru, Meruzinho, Araçatuba, Ubim,  Andiroba, Salsa e Sumaúma. Tive o privilégio de presenciar, extasiado, como nos tempos de garoto, a mesma elegância dos voos de garças e maguaris, dos irrequietos mergulhões e patos do mato, da vivacidade de socós, jaçanãs, saracuras, papagaios e curicas,  como também a timidez das desconfiadas ciganas.

Admirei a mesma serenidade dos  pescadores que, desde que nascem, descem suas redes, tarrafas e espinhéis em busca  dos preciosos pescados armazenados vivos em despensas naturais - rios e lagos -, permanentemente abastecidas pela mãe natureza que ali se mantém intocada, íntegra, dadivosa, generosa, harmoniosa e bela. Com uma diferença, o meio de transporte hoje é motorizado. O caboclo aposentou em definitivo o remo. Suas canoas e pequenos barcos são movidas a motores de popa, rabetas ou de centro. Alguns deles guiados sem rodas de leme. Acredite-se, por remos manipulados à mão.

As terras ali são boas, podendo-se desenvolver, de maneira sustentável, a agricultura, pecuária, piscicultura, produção de mel e óleos essenciais. O município, que tem experiência acumulada no setor, em breve se tornará o maior produtor de farinha do Amazonas. A Prefeitura, por meio de sua secretaria de Agricultura, está investindo forte na assistência técnica aos produtores, transmitindo-lhes noções básicas de gestão por resultado. E, com efeito, alcançar nível de excelência na qualidade do produto, lastreada  nos fundamentais cuidados sanitários e de higiene.

Outra vocação inata do Manaquiri: turismo e artesanato. Há enorme potencial do setor, particularmente no tocante ao turismo esportivo e de aventura, pesca e observação de pássaros. Artesãos locais são muito criativos, podendo, com treinamento adequado em sistemas de produção e sobre noções mercadológicas, alavancar economicamente o setor.

O Manaquiri, hoje dotado de luz elétrica, telefone e internet está conectado com o Brasil e mundo. Do meio do rio Solimões - quem diria - pode-se participar de reuniões on-line, fechar negócios em qualquer lugar do mundo ou simplesmente se comunicar com sua comunidade por meio das redes sociais.


Os tempos, definitivamente, são outros. Ainda bem.

Veja mais notícias sobre Osiris Silva.

 

Comentários:

Nenhum comentário feito ainda. Seja o primeiro a enviar um comentário
Visitante
Terça, 28 Junho 2022

Ao aceitar, você acessará um serviço fornecido por terceiros externos a https://portalamazonia.com/