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Flávio de Carvalho Souza: uma história a ser contada

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Ouvimos algures que algumas das formas da manutenção e perpetuação da espécie humana é através da escrita biográfica, cuja materialização lhe promove a imortalidade, no olhar de seus leitores. Como artífice de muitos trabalhos, especialmente no rádio, na música e no futebol, Flávio de Souza, como é conhecido, representa um amazônida observador das letras, das noites de luar ou escuras de sua juventude, em Cruzeiro do Sul, no Estado do Acre, cidade à época pequena, encravada em plena Floresta Amazônica.


Por tudo isso, coube a ele a tarefa, muitas vezes, árdua, porém sensível de agasalhar nos seus desvãos, no seu mundo interior, todos os motivos, todos os sonhos, todas as crenças, todas as ambições de crescimento, todos os avanços e todos os recuos de que se urde essa tessitura de amor, de todas as artes que se dedicou, carinhosamente, tudo quanto fez e promoveu na sua vida. É neste apostolado de eleitos que Flávio de Carvalho Souza, com a generosidade de seus talentos, oferece o labor humanamente inexplicável toda a arte de criar e recriar tudo quanto fez.

Flávio de Souza. Ex-treinador dos times: Rodoviária, Nacional, Rio Negro, Olímpico, Fast e São Raimundo. (Foto:Acervo Abrahim Baze)



Flávio de Carvalho Souza nasceu na cidade de Cruzeiro de Sul, no Estado do Acre. Veio para Manaus com um ano e meio de idade, na companhia de seus pais, Raimundo de Souza Filho e Lídia de Carvalho Souza e de uma prole de nove irmãos. Eram tempos difíceis, foi residir à Rua Luiz Antony, ao lado do Quartel do 27º Batalhão de Caçadores, onde permaneceu morando por vinte e nove anos. É comum , em conversas, ele comentar casa n. 1 da Vila Residencial, a qual pertence à família, até os dias atuais.


Sua infância foi igual a de todas as crianças de sua época, estudava, brincava, reunia-se com seus colegas para a prática de esportes. Ele gostava de tudo, voleibol, basquetebol, mas o futebol era sua maior paixão, sempre orientado pelos professores de Educação Física do 27º BC. Ele ainda lembra de seus companheiros de juventude, como por exemplo, Humberto Calderaro, Gilberto Mestrinho e tantos outros que marcaram sua época. Flávio lembra da Manaus da Belle Epoquê, de tantos casarões da Rua Luiz Antony, fala com nostalgia desse passado glorioso que conheceu.

Flávio de Souza, jogados do DER-AM. (Foto:Acervo Abrahim Baze)


A busca do conhecimento o levou a estudar no Grupo Escolar Cônego Azevedo, Marechal Hermes, Saldanha Marinho e mais tarde, no Colégio Dom Bosco e Colégio Estadual do Amazonas. Aos dezesseis anos de idade, seu pai costumava, após o jantar, sentar-se com sua mãe para longas conversas e, em certa ocasião, ouviu seu pai comentar que precisava arranjar outro emprego para ajudar no sustento da família, pois o que estava ganhando como funcionário da Prefeitura Municipal de Manaus era muito pouco para cobrir as necessidades diária da família. Ao tomar conhecimento disso, o jovem Flávio partiu a procura de um emprego, tendo conseguido trabalho na empresa Souza & Mesquita, à Rua Marechal Deodoro. Na ocasião, chegando em casa, deu a notícia aos seus pais que passaria a trabalhar durante o dia e estudaria à noite. Foi um momento emocionante, pois seu pai o abraçou e disse, estou muito orgulhoso de você meu filho. Flávio era sempre companheiro de seu pai, para onde ia o pai lá estava Flávio, até mesmo quando ia tocar violão com seus amigos, talvez aí, esteja a preferência pela musicalidade que Flávio abraçou.


Em certa ocasião, foi com seu pai assistir a uma partida de futebol no velho Parque Amazonense, saudoso e de grandes memória do estádio de futebol que fora demolido. Ainda lembra, seleção do Estado do Pará contra a seleção do Estado do Amazonas, ocasião que o Amazonas venceu a partida, mas teria uma prorrogação devido a vitória do Pará no último jogo, em Belém. Quando terminou o tempo regulamentar, seu pai pediu a ele que chamasse um táxi para levá-lo para casa, pois não estava sentido-se bem. Seu pai disse que seguiria para casa e que Flávio continuasse assistindo ao jogo até o final para contar depois. O momento triste dessa história, quando Flávio retornou para sua casa, encontrou seu pai morto e ouviu o clamor de sua mãe: "pronto meu filho, seu pai foi embora, agora você é minha única esperança".


Nesse momento de perda irreparável, pesou sobre os ombros de Flávio toda a responsabilidade, afinal, era o filho homem mais velho de três irmãos e ainda tinha mais seis irmãs, por isso, avocou a responsabilidade de trabalhar muito, para sustentar a casa, afinal, eram dez bocas para alimentar. Flávio não esquece de lembrar a sua mãe guerreira e de fibra, que passou a lavar roupas para alguns vizinhos, o que ajudava na sobrevivência da família.


Há quem construa na trajetória da vida sua própria história, Flávio de Carvalho Souza pôde apresentar-se, já a partir de sua inserção no mundo do trabalho e da luta pela sobrevivência um exemplo de conquista. Feliz o homem que faz de seu existir um testemunho de sua luta diária para construir sua própria história, são seres dessa estirpe que ajudam a vida ser melhor. Foi essa ação constante, metódica, consciente, heroica algumas vezes e abnegadas outras tantas, que forjou o seu caráter, sua história, com tantas passagens importantes constitui o mútuo e legítimo orgulho de seus familiares.



Tempos depois, conquistou um emprego na Comissão de Estrada e Rodagens do Amazonas, como trabalhador de campo. Sua dedicação, logo foi observada, tendo sido transferido para o escritório, passou a trabalhar como auxiliar de tesouraria e, logo em seguida, tesoureiro geral da referida instituição.


Na época de ouro do rádio amazonense, a Rádio Baré tinha teatro ao ar livre, à Rua Marquês de Santa Cruz, de frente para baía do Rio Negro, nas proximidades do antigo Hotel Amazonas e, a Rádio Difusora do Amazonas, também tinha seu teatro à Avenida Getúlio Vargas. A Rádio Baré fazia seus programas na Maloca dos Barés e Cine Politheama e, a Rádio Difusora, no Cine Guarany. Nessa época, o Rádio Amazonense era muito concorrido com grandes locutores, cantores e elenco de rádio novelas, todos do Amazonas. Flávio de Souza, como músico, acompanhou grandes nomes da musicalidade amazonense, como por exemplo, Kátia Maria, Lélia de Souza, sua irmã, Almir Silva e tantos outros artistas que vinham se apresentar em Manaus do caster da Rádio Tupy, Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Muitos que aqui se apresentaram, Jorge Veiga; Ciro Monteiro; Gilberto Alves; Dicinha Batista; Linda Batista; Marlene; Nelson Gonçalves; Benedito Lacerda; Pixinguinha; Trio de Ouro; Dalva de Oliveira e outros nomes importantes da musicalidade nacional. Flávio guarda na memória que acompanhou a grande cantora portuguesa Maria da Luz, que lhe presenteou um violão.


Bem mais além do que mero meio de comunicação, o rádio em todo país e muito especialmente no Amazonas, possibilitou a consolidação de gêneros musicais e teve importante participação na formação política do Brasil, no decorrer da metade do século XX, cuja participação, crescimento e difusão das ondas foram importantes nas décadas de 1920 e 1930.

Trio Barecéa: Flávio, Ivanildo e Hélio. Rádio Baré-AM. (Foto:Acervo Abrahim Baze)

A profissionalização dos cantores do rádio tanto no Brasil, quanto no Amazonas veio junto de repertório, por isso, não foi ao acaso que, em 1930, o samba ganha cada vez mais relevância no cenário cultural brasileiro, tornando-se mais comercial, aliou-se a figura do cantor as ondas radiofônicas, por consequência, a venda de discos e ao gênero musical em um circuito que nos permite visualizar uma lógica mercadológica sobre as canções. No entanto, foi a partir desse momento que passaram a ser ouvidas com destaque as composições de Ismael Silva, Wilson Batista, Noel Rosa e tantos outros. Nessa senda, surgiram grandes intérpretes como Mário Reis, Francisco Alves e, as intérpretes Araci de Almeida, Carmem Miranda e Dalva de Oliveira.


Por este caminho, cada vez mais, focaliza-se a figura do artista e sua representatividade na sociedade, esse processo se transforma com o tempo, mas, é o embrião da figura do ídolo que ficou conhecido à época e que não foi diferente em Manaus, nos 1950. Na Rádio Difusora e na Rádio Baré, fosse por meio dos concursos das rainhas do rádio, na década de 1950, que a nível nacional imortalizaram Dalva de Oliveira, Ângela Maria e Emilinha Borba ou pelo fenômeno que se tornou Calby Peixoto, Orlando Silva e Nelson Gonçalves. É neste contexto que Flávio de Carvalho Souza se destaca com o seu conjunto Príncipes da Melodia, com os seguintes componentes: Antônio Costa, Carlos Coelho, João Barroso e Flávio Souza que tocavam na Rádio Baré.


Mas foi no esporte que novamente Flávio de Carvalho Souza mostrou sua habilidade como técnico de futebol, dirigindo o time do Atlético Rio Negro Clube, em 1974. Pelo Campeonato Brasileiro saboreou, em pleno Mineirão, um empate sem gols com sabor de vitória, contra o Atlético Mineiro, comandado por Telê Santana. Poderiam até ter vencido, mas o árbitro carioca José Aldo Pereira, para não contrariar os mineiros, deixou de marcar um pênalti legítimo a favor do Rio Negro.


Em sua bonita trajetória como técnico de futebol, no Rio de Janeiro, Flávio de Carvalho Souza foi estagiário com o grande Flávio Costa, técnico da seleção brasileira de 1950 e Carlos Alberto Pereira, ocasião que provou sua competência. Com condições mínimas de trabalho e muita disciplina tática, o experiente e inteligente Flávio de Carvalho Souza fez muito mais pelo nosso futebol que muitos técnicos rotulados.


Seu amor incondicional pelo futebol o levou a participar do I Simpósio Internacional de Educação Física, realizado no Rio de Janeiro de 09 a de 16 de janeiro de 1974, onde se destacou. Flávio de Carvalho Souza guarda na sua memória muitas lembranças de grande ícones do futebol, como Deni Menezes que se destacou na Rede Globo. Ainda na Rádio Baré foi repórter de campo, comentarista de futebol, comentarista de arbitragem, presidiu Associação dos Cronistas e Locutores Esportivos do Estado do Amazonas. Como assistente de técnico de futebol, esteve ao lado de grandes nomes como Cláudio Coelho, que foi técnico do Atlético Rio Negro Clube, Martins Francisco, que foi técnico da Rodoviária, Décio Leal, que também foi técnico do Atlético Rio Negro Clube, João Bosco Ramos de Lima, que foi técnico do Nacional e José Maria Moares, também técnico do Rio Negro.


Como preparador físico do Nacional Futebol Clube escreveu seu nome e teve oportunidade de fazer um estágio nos seguintes clubes: Fluminense, Flamengo, Vasco da gama e América do Rio de Janeiro, como técnico de futebol trabalhou nos seguintes Clubes: Rio Negro, Rodoviária, Olímpico, Nacional, Fast Clube e São Raimundo. Como técnico da Copa do Brasil foi treinador do Rio Negro, Nacional e Rodoviária e, no ano 2000 foi professor da Escola de Futebol do Olímpico Clube.



A música sempre lhe acompanhou, Flávio de Carvalho Souza é músico, compositor, cantor, jogador e técnico de futebol, foram essas atividades que preencheram sua vida. Importante registrar que foi ele que compôs o hino do Nacional Futebol Clube, fato que lhe dá muito orgulho. Outro fato interessante e que não passa despercebido, foi na administração do Prefeito do Município de Autazes, Tércio Araújo da Silva, que em 31 de Janeiro de 1980, Flávio de Carvalho Souza compôs letra e música do Município. O rádio, a música, o futebol e a escola de samba, fazem parte do cotidiano do ser humano Flávio Souza. Em 1990, compôs o samba enredo da Verde Rosa, com letra e música da cidade de Cruzeiro do Sul, além de inúmeras músicas e letras de sua autoria. É o autor do samba enredo da Escola de Samba em Cima da Hora. Flávio Souza é um frequentador assíduo do Bar do Caldeira.


O Amazonas muito deve a este acreano, de Cruzeiro de Sul, que por força do destino escolheu Manaus para viver.


*Pesquisa e informações da família.

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