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Sábado, 28 Novembro 2020

A Panair do Brasil e Samuel Benchimol

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O pouso foi feito em segurança e os representantes locais chegavam a bordo de uma frágil canoa. A tripulação permanecia em seus postos para eventuais emergências ou fatos inesperados. Em determinados rios havia piranhas em volta da embarcação e, naturalmente, o perigo era iminente. Aquela imensa aeronave afastava-se lentamente, levada pela correnteza, contudo, com o auxílio dos motores, era feito a correção para atracar junto à boia e, o hidroavião parava novamente no ponto de desembarque e embarque. 

Naquele período, o sentimento de desafio daqueles heróis era de grande valia para nossa Amazônia, sempre cercados por moradores da área que por curiosidade permitiam uma crescente cordialidade e naturalmente uma troca de conhecimento, de emoções e de histórias que por muito tempo fizeram parte do imaginário dos povos da floresta, em especial, do jovem Samuel Isaac Benchimol que acabara de completar seus dezoito anos.

Flutuante de Manaus, onde trabalhou Samuel Benchimol. Foto: Livro 'Nas Asas da Historia: lembranças da Panair do Brasil'

Amanhecia na Amazônia e o sol brilhava na lâmina das águas dos rios e já era possível assistir ao transitar frenético de passageiros e tripulantes rumo aquele pequeno flutuante que em meio a pacotes, malas, baús e gaiolas que se amontoavam à espera de acomodação no interior daquele enorme pássaro de alumínio. Samuel Benchimol, um jovem rapaz, de uniforme impecável, observava e ouvia uma passageira contar a lenda do uirapuru. Embora sendo da Amazônia, Samuel fitava aquelas pessoas que, quase isoladas do restante do país, aguardavam o momento da partida, como ele, outros observadores aguardavam por lembranças de um parente, uma encomenda, a esperança de um medicamento ou, simplesmente, a oportunidade de presenciar a chegada e a saída daquele enorme pássaro. 

Samuel Isaac Benchimol guardava essas lembranças como uma celebração que se renovava a cada chegada e saída da Panair do Brasil, que fez sua primeira chegada inaugural em 25 de outubro de 1933. A celebração da solidariedade, da amizade e de algumas saudades que ele não cansava de comentar, como se fora o encontro de poções diferentes de um mesmo Brasil. A presença da Panair do Brasil, na Amazônia, de brasilidade perdida na vastidão do nosso território serpenteado pelas águas. Benchimol, na juventude, no seu primeiro trabalho, escreveu um capítulo na história da Panair do Brasil.

Foi um período rico da nossa história, ao sabor do balanço das águas, o pássaro de alumínio não se perturbava diante dos novos desafios e singrava os céus da Amazônia, a cada decolagem, a certeza de um novo pouso em um espaço mais distante da Amazônia. Foram muitas vezes que a tripulação da Panair do Brasil fazia seu pernoite em alguma cidade da Amazônia. No horizonte, o sol tocava mais um amanhecer e, mais uma vez, testemunhava as expectativas e sonhos dos povosda vida do jovem Samuel Isaac Benchimol. 

Um hidroavião na rota Belém Manaus. Foto: Livro 'Nas Asas da Historia: lembranças da Panair do Brasil'

O apego à vida laboriosa mostrava o que seria mais tarde aquele jovem. Ele acreditava no itinerário da vida, explorando ações empreendedoras, procurando construir o próprio caminho. Rica e intensa foram suas experiências como despachante de bagagem da Panair do Brasil. 

"… Relembro com saudade e emoção que neste tempo eu era humilde e despachante de bagagem da Panair do Brasil, exercendo funções no flutuante ao lado do Roadway da Manáos Harbour onde atendia aos passageiros dos hidroaviões da Panair e da Pan American, que transportavam a borracha dos seringais para o suprimento das Forças Aliadas na Guerra. Trabalhava no expediente da madrugada, das 3h às 6h da manhã. Às 7h já estava na Faculdade de Direito assistindo aula. Era meu companheiro de trabalho Francisco Xavier de Albuquerque, hojeMinistro do Supremo Federal. À noite lecionava economia política na Escola de Comércio Sólon de Lucena." 

*BENCHIMOL, Samuel. Amazônia: Um Pouco-Antes e Além-Depois. Manaus: Calderaro, 1977. Pág.: 31,32.

Esse espaço carregado de memórias e significados compartilhados oferecia ao jovemSamuel Benchimol a oportunidade de pensar sobre os diferentes recursos, estratégias e sobrevivências, no processo de adaptação e construção de uma nova vida. De certa forma, impulsionado pela necessidade e pela vontade de progredir, ele, Samuel Benchimol, soube somar e compartilhar experiências singulares em um espaço marcado pela diversidade cultural e até contradições sociais.

O porto situado às margens do Rio Negro, era, naquele período, a porta de entrada da pequena cidade. Cercado de prédios construídos no Período do Látex, emoldurados pelo verde da mata. Foi neste espaço físico que brotou o aprendizado nas vertentes da vida e que proporcionaram uma excelente oportunidade. De fato, o contato com os imigrantes nordestinos, em particular, os cearenses que chegavam ao "Roadway" diariamente e que se engajavam na "batalha da borracha",suscitou em Benchimol o interesse de pesquisador. 

Uma agência no interior da Amazônia. Foto: Livro 'Nas Asas da Historia: lembranças da Panair do Brasil'.

"… Fui muito feliz em compreender esse momento histórico que esse drama representou para a Amazônia e conseguiu fixá-lo naquele trabalho que mais tarde apresentaria ao X Congresso Brasileiro de Geografia, com o título "O Cearense na Amazônia". Posteriormente, quando o flutuante da Panair foi transferido para a Colonia Oliveira Machado, no Bairro de Educandos, lancei-me à nova empreitada, inconclusa da Geografia e Ecologia, Social da Calamidade. 

*BENCHIMOL, Samuel. Amazônia: Um Pouco-Antes e Além-Depois. Manaus: Calderaro, 1977. Pág.: 32. 

As imigrações fazem parte das sociedades humanas desde o início e são uma constante na história urbana. De fato, foi por meio delas que se ocupou a terra, mas, por consequência, foram adquiridas facetas diferentes ao longo dos tempos, pela distância de suas origens, pelo modo como foram feitas, em nosso caso, na maioria das vezes, por barcos e navios, individualmente ou em grupos. A chegada de nordestinos, em especial, os cearenses, contribuiu para o aumento da população urbana, embora passageira, pois, na sua maioria, seguiam viagem para os seringais. O último quartel do século XIX presenciou um crescimento brutal na circulação de informações, decapitais, de mercadorias e, principalmente, de pessoas em todas as escalas geográficas.

Agência flutuante em Parintins. Foto: Livro 'Nas Asas da Historia: lembranças da Panair do Brasil'
Samuel Benchimol na formatura de Direito. Foto: acervo Abrahim Baze

O professor Samuel Benchimol foi partícipe da vida acadêmica. Essa intensidade foi também vivenciada por outros contemporâneos de sua época que souberam aproveitar esse momento, fazendo política, em especial, no "Direito Acadêmico": editaram e distribuíram o  pequeno Jornal "Folha Acadêmica". Foram atuantes no concurso literário e até escreveram artigos para jornais da cidade, sempre se fazendo presente nos acontecimentos culturais. Foi um período rico de aprendizado. Participou de embaixada de estudantes em viagens para outros estados e em alguns momentos para o exterior. Esse era o único meio de buscar novos horizontes afastando-se da"clausura provinciana", para a realização desses eventos, buscavam contribuições do comércio, doEstado e da Prefeitura. 

"… Recordo-me de duas delas de que participei: uma embaixada ao Recife, em 1941, em companhia de Aldemir de Miranda, Milton Catanhêde, Agnelo Bittencourt e Manary Vasconcelos Mendes e a Embaixada Brasileira "Pedro Teixeira", em 1942, organizada e integrada pelos acadêmicos do Pará e Amazonas: Clóvis Ferro Costa, Raimundo Chaves, José Lino, Otávio Carreiro, Francisco Alves Santos e Agnelo Bittencourt. Fomos a Iquitos, Peru, participar dos festejos do IV Centenário do Descobrimento do Rio Amazonas por Francisco Orellana". 

*BAZE, Abrahim. Professor Samuel Isaac Benchimol - Ensaio biográfico de um educador empresário. Abrahim Baze. 3 edição. Manaus: Editora Valer, 2014. Págs.: 105, 106,107 e 108. 

*BENCHIMOL, Samuel. Amazônia: Um Pouco-Antes e Além-Depois. Manaus: Calderaro, 1977. Págs.: 31,32.



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