Candidatos e programas

Tinha prometido não falar de politica nem eleição até o final no segundo turno, mas vendo os programas dos candidatos ao governo do Amazonas, verifiquei que são ocas e sem conteúdo, e lembro que na conhecida peça de Pirandello, tratava-se de seis personagens à procura de um autor. No nosso caso, parece que se trata de seis candidatos à procura de um programa. O que há até o momento em matéria de propostas não passa de afirmações vagas e genéricas, mais o reino da indefinição do que da determinação, mais o âmbito da inocência do que do compromisso. Por isso mesmo, têm sido vistas como equivalentes.

Temos, por um lado, a continuidade sem continuísmo, por outro, a descontinuidade sem descontinuísmo. Em outros termos, lá, continuidade com descontinuidade; aqui, descontinuidade com continuidade. Ou será o contrário? Em suma, tudo se assemelha a um giro ou a uma revolução de 360 graus. Com uma grande desvantagem para quem pretenda efetivamente mudar: se os discursos se confundem dessa maneira, se as palavras se misturam de todas as maneiras, por que apostar na mudança/continuidade do lado de cá, com toda a incerteza do imprevisível, se disponível a continuidade/mudança do lado de lá, com toda a segurança do previsível? Nesse terreno fértil e propício, crescem naturalmente em importância as técnicas de marketing político.

Foto: Divulgação
A indefinição ou a indeterminação das propostas faz com que se sobreponha a forma ao conteúdo, o pouco ao muito. Podem alguns pensar que permanece de qualquer maneira a possibilidade de uma vez alguém vitorioso, tirar ele da cartola a solução nunca sugerida ou expressa, embora sempre pensada. Além da ilusão, reflete atitude ou omissão muito conveniente para o establishment, já que qualquer política de mudanças consistentes e sérias exige apoio social manifesto, antes de tudo no próprio processo eleitoral.

Entretanto, como explicitar apoio se não se formulam efetivamente as propostas, como ouvir e responder se não se fala? Os mais otimistas podem observar que a carência de programas, o acento na imagem dos candidatos, a ênfase nas técnicas de marketing político, entre outras coisas, decorre da tradição de personalização da vida política nacional e da característica imperial de nosso presidencialismo. Mas esquecem que esse desprezo pelo eleitor e pelo cidadão resultante da falta de propostas claras e objetivas pode ter como resultado o desinteresse ou a desafeição para com a política, terminando por deslegitimar os partidos, de direita ou de esquerda, e o próprio sistema político.

Eis aí refletido o desencanto de cidadãos cujo voto é a mais legítima expressão da soberania popular. Não é difícil apontar a causa de tal desapontamento. Ocorre que os aspirantes ao poder deveriam pautar sua conduta pela maturidade atingida pela sociedade brasileira e pelo vigor com que se resguarda nesta nação o Estado de direito tão arduamente conquistado. Em suma, deveriam desde já travar um debate elevado sobre os grandes desafios econômicos e sociais do Brasil e as suas propostas para superá-los. Deveriam expor com lealdade seus programas e suas metas, os projetos que acalentam para que este se transforme em um país mais próspero e mais justo.

Deveriam defender o ideário de seus partidos e a filosofia de ação que os norteia. Deveriam, assim, permitir que a escolha dos votantes não se desse em função de dossiês, de jogadas de marketing, de brilhaturas efêmeras, mas em razão do conhecimento adquirido dos disputantes e de sua identificação com o que pregam. Que então os candidatos lancem suas cartas na mesa que o eleitor paga para ver!
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