Você conhece a lenda do boto? Confira os causos que envolvem esse animal amazônico misterioso

Para quem vive nos Estados da Região Norte, é comum ouvir muitas histórias sobre o famoso encantador das águas, mas nem todas contam sobre o que pode acontecer se você mexer com um boto.

Quando pesquisamos e procuramos saber sobre a região amazônica, um dos primeiros assuntos que vem à mente – e na internet – são as lendas de seres místicos que vivem na região, em forma de animais ou espíritos protetores das matas

Uma das histórias mais populares do folclores brasileiro é a  lenda do boto cor de rosa, em que um boto se transforma em um homem jovem, bonito e sedutor em noites de lua cheia. Segundo a lenda, ele costuma aparecer nas festividades juninas, vestido de branco e com um grande chapéu a fim de esconder suas narinas, pois sua transformação não ocorre totalmente.

Ele aproveita a transformação para conquistar as moças solteiras e levá-las para o fundo do rio. Elas engravidam e acabam abandonadas pelo homem-boto, que ao fim de seu encanto retorna às profundezas dos rios.

Entretanto, para quem vive na região amazônica, outras histórias um tanto curiosas e até assustadoras envolvem o boto, principalmente entre os moradores de cidades no interior dos Estados.

Na cultura popular amazônica, acredita-se que a pessoa que comer carne de boto ficará louca e enfeitiçada. Também há o costume de pessoas mais velhas aconselharem as mulheres a não tomarem banho de rio quando estão em período menstrual ou grávidas, para evitar atrair o animal. Há inda relatos de botos supostamente atacando canoas, com o intuito de virá-las e levar os ocupantes para o fundo do rio.

Na última semana, algumas histórias envolvendo os golfinhos de água doce repercutiram nas redes sociais. Os “causos” relatam obsessões espirituais, visagens e comportamentos curiosos envolvendo-os. Os “causos” são histórias que podem ser verídicas ou não. 

Eles foram contados pela página ‘Véia dos Causos’, popular no Twitter, onde relatam histórias sobrenaturais de pessoas que viveram ou souberam por parentes e amigos histórias que desejam compartilhar. 

A autora dos causos envolvendo o boto é Ananda Ramos. A escritora, que em um momento de descontração em um sítio com uma amiga de sua família e seu marido, comentou seu apreço por botos e foi então que a mulher, juntamente com o marido, começou a contar as histórias.

“A manicure que contou as histórias era uma conhecida da família tem bem uns 20 anos. Naquele dia ela estava no nosso sítio com o marido e eu comentei que eu gostava muito de botos e daí ela me contou as histórias”,

disse Ananda ao Portal Amazônia.

Segundo Ananda, ela soube das histórias em 2018/2019 e recentemente, quando estava na rede social, encontrou o perfil da ‘Véia dos Causos’ e decidiu compartilhar sua experiência com o projeto. “Quando eu esbarrei no Twitter da Véia dos Causos, eu lembrei dos causos de boto que a manicure havia me contado e relatei tudo. Como eu sou escritora, peguei as histórias dela e só coloquei uma narrativa mais linear”, explicou. 

‘Véia dos Causos’, o projeto 

O projeto ‘Véia dos Causos’ foi idealizado em 2020, pelo casal André Costa e Lorena Villalobos durante a pandemia de Covid-19. André é natural de São Paulo e Lorena é colombiana. Eles são formados em  História pela Universidade de São Paulo (USP)  e Cinema pela Fundación Lumière de Bogotá, respectivamente. No projeto, começaram contando algumas histórias de familiares, amigos e de pessoas que tiveram contato quando moraram em Santarém, no Pará. 

André contou ao Portal Amazônia que eles sempre tiveram um apreço por relatos sobrenaturais. 

“Tínhamos um sonho de um dia rodar pelo país coletando essas histórias. Mas nunca passou disso. Até que em 2020 começamos a escrever inspirados em uma página chamada ‘Relatos de terror’. Nunca imaginamos que cresceria desta maneira”, 

disse André.

Foto: Lorena Villalobos / Cedida

O primeiro causo contado foi uma experiência própria que André teve em uma pensão, quando morava em Buenos Aires (Argentina) e devido a repercussão, criaram a página. O nome um tanto curioso surgiu como uma figura representando a tradição dos mais velhos contando causos para as crianças, no qual as pessoas se sintam a vontade ao redor de um fogão imaginário para “puxar um banquinho”, ouvir e contar as histórias, caso desejem.

Com apenas os dois na equipe, o projeto já conta com blog e podcast, além das redes sociais que “fazem o maior sucesso” com publicações quase diárias. Ao ser perguntado qual era o sentimento ao criarem o projeto, André respondeu de forma positiva:

“Adoramos! Imagine que amamos ler e contar histórias. Aí recebemos essa quantidade toda e nos dão o presente de poder contá-las! É incrível! Claro, somos humanos e às vezes cansamos, principalmente porque o Twitter pode se tornar um ambiente tóxico em um piscar de olhos. Mas sempre nos apegamos aos que curtem nosso trabalho e é o que nós faz seguir”, 

assegurou.

Foi a primeira vez que eles receberam uma história relacionada a Amazônia do público e esperam que, a partir de agora, mais histórias sobre encantados amazônicos possam chegar até eles. Apesar do costume, eles ainda se assustam e se surpreendem com frequência com o conteúdo de várias histórias. 

“Essas do Boto nos surpreenderam. Fugiu da abordagem mais conhecida, que é a do boto conquistador, para algo ainda mais tenebroso. Recentemente recebemos uma história incrível sobre uma fazenda no interior de São Paulo que nos assombrou bastante”, revelou.

Para o futuro,  eles desejam publicar um livro, mas sem deixar a página e o podcast. “Essas histórias são patrimônio de todos, não podem ter um acesso exclusivo”,  finalizou André.

ALERTA: Conteúdo sensível

O Portal Amazônia recebeu a autorização para reproduzir as histórias pelos responsáveis da página e pela própria autora. Mas alertamos e aconselhamos que quem possui sensibilidade com histórias sobrenaturais não prossiga com a leitura.

O Boto Obsessor

“Certo dia, minha manicure e o esposo dela estavam me contando causos relacionados ao boto cor de rosa, porque eu gosto muito de ver os bichinhos sempre que tenho a oportunidade de visitar cidades ou flutuantes adjacentes ao rio. Ela é proveniente de uma comunidade próximo ao município de Manacapuru (Amazonas).

O esposo dela era bastante aberto quanto ao desdém que ele tinha pelos botos, os achava nojentos e perigosos, e pra alguém que sabe do quanto os animais são caçados tanto pelo seu uso na pesca quanto pelas superstições e lendas, a atitude dele me intrigava bastante.

A manicure Ana (nome fictício) começou dizendo que perto da vila dela, havia um lago que secava durante a vazante do Rio Amazonas – e que quando o lago estava seco, os botos que lá viviam desapareciam para voltar apenas durante a cheia.

O primeiro causo aconteceu na família dela. Ana tinha uma irmã mais velha e dois irmãos mais novos, e todos os dias eles atravessavam o rio de canoa para ir pra escola acompanhados do primo mais velho.

O irmão caçula dela, que sempre foi muito bonito, detestava pegar a canoa para atravessar aquela parte do rio pois, de alguns anos pra cá, um boto seguia a embarcação e por vezes tentava virá-la – e isso só acontecia de manhã cedo ou no final da tarde, e sempre que o caçula estava na canoa. Certo dia, se organizaram para tentar matar o boto. Mesmo com o protesto das mulheres, os homens implacáveis arpoaram o animal e o arrastaram para a margem.

Descobriram ali que se tratava de uma fêmea e os pais de Ana foram bem resolutos: a bota estava apaixonada pelo caçula e tentou levá-lo para o fundo do rio com ela. Deixaram a bota pra morrer na margem do rio, mas eis que o primo mais velho vai sozinho para ver o animal.

Ana diz que não sabe ao certo, mas, pelo jeito que ela desconversava quando questionei sobre o que o primo foi fazer lá, já pude imaginar o que havia acontecido. Provavelmente, foi algo que jamais deveria acontecer entre um ser humano e um animal vulnerável como aquele.

Na noite seguinte ao fato, o primo mais velho começou a se sentir abalado por pesadelos. Pulava da cama lavado de suor e assim passou a ser privado de sono. Uma semana depois, estava paranoico e ouvindo zumbidos incessantes, e à noite acordava a casa toda aos berros.

Em pouco tempo, mesmo que raras, até convulsões ele passou a ter. Os tios de Ana se viram obrigados e fazer um cômodo separado da casa só para o primo, pois seus urros e manias atormentavam todos da família.

Chamaram um benzedeiro, ou um praticante de pajelança da vila, para dar o diagnóstico: ele estava sendo obsessionado pela bota que havia matado e violado. A solução pareceu simples, mas não era prática.

A reza e as garrafadas, banhos ou tratamentos espirituais não ajudariam onde a medicina moderna havia falhado – visto como era precária a saúde pública naquela região. A melhor solução seria mandar o primo de Ana para o sanatório em Manaus, onde ele receberia o tratamento para a psique perturbada e o mais importante: ficaria bem longe do rio, onde a influência do espírito obsessor podia alcançá-lo. 

Ana concluiu o causo dizendo que passados quase 20 anos após o ocorrido, o primo já estava reabilitado e havia até conseguido um emprego em Manaus. E, penso eu, não tenha intenções de voltar para a vila ribeirinha do interior assim tão cedo… Não se sabe se alguém ainda o espera por lá”.

Trecho do relato publicado pela ‘Véia dos Causos’.

A criança levada pelo Boto

“Havia uma família muito abastada na vila e todas as crianças brincavam juntas no igarapé – que são trechos de rio que funcionam como uma espécie de veia adjacente da artéria principal que é o Rio Amazonas. Avistamentos de botos não eram raros naquele lugar.

A avó de Ana (nome fictício), juntamente com os filhos da família rica da cidade, brincavam no igarapé quando a mocinha mais nova – que de acordo com Ana tinha seus 14 ou 15 anos -, foi puxada para baixo d’água por alguma coisa.
As crianças gritaram apavoradas enquanto o boto afogava a menina e a levava para longe dos demais. A filha da família abastada havia sido levada pelo animal. Nem sequer um enterro digno lhe fora providenciado, pois não haviam encontrado o corpo da moça.
Os pais, desesperados, foram ao benzedeiro – que eu não pude confirmar com Ana se era o mesmo do causo anterior, mas provavelmente era sim – perguntar o que eles poderiam fazer.
Estavam resignados com a morte da filha, mas se houvesse algum meio de encontrar seu corpo ou qualquer vestígio, eles estavam dispostos a fazer de tudo para que fosse possível.
Ana disse que o benzedeiro se retirou para sua casa dentro da mata e voltou com uma reposta dias depois. Ele disse que a filha do casal já não pertencia mais a este mundo, mas lhe foi concedida a permissão para que os pais a vissem uma única vez – e que tivessem ciência… que isso só era possível porque quem a levou havia o permitido. Eles a veriam atravessar um caminho aberto na mata e depois retornaria ao rio. Eles não poderiam falar, acenar ou interagir com ela.
Assim sendo, os pais abriram o caminho na mata que ela faria o percurso e benzeram o trecho para sua passagem. Na data marcada, eles e os demais entes próximos da mocinha – incluindo a avó de Ana – se puseram a esperar na mata a travessia da menina levada pelo boto.
Chegado o momento, já no alto entardecer, surge alguém de dentro do rio que começa a seguir pelo caminho marcado. Nesse momento, pedi a Ana para descrever a visagem e isso ela o fez de prontidão – como quem já havia escutado a mesma história diversas vezes e tinha a descrição na ponta da língua.
De acordo com o que a avó havia lhe descrevido, a visagem tinha uma silhueta vagamente humana. Andava se arrastando, como que desacostumada à gravidade da terra.
Era osso e pele, com os cabelos compridos cobrindo o rosto, emaranhados em matéria orgânica e folhas e algumas salpicadas por seu corpo malmente coberto por um vestido antes branco, agora esverdeado e rasgado consumido pelos musgos.
A pele da mocinha estava branca, quase transparente, e lisa como a de um sapo. O brilho que ela refletia era multicor, como e de escamas dos peixes. Os dedos de suas mãos estavam palmados, como os de um pato. Todos ficaram imóveis, esperando a passagem da visagem quase espectral do que um dia foi uma mocinha cheia de vida. 
Ela encontrou o benzedeiro sentado num toco no meio do caminho e ele disse algumas coisas para ela antes que a visagem voltasse a caminhar em direção ao rio, de encontro àquele que havia permitido seu breve retorno à superfície. Ana concluiu seu caso e eu fiquei pensando nas possíveis razões pela qual alguém poderia inventar uma história como aquela”.


Trecho do relato publicado pela ‘Véia dos Causos’.
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