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Sábado, 04 Abril 2020

Pesquisa mostra alta quantidade de lixo em região da floresta amazônica

Pesquisa mostra alta quantidade de lixo em região da floresta amazônica

Uma garrafa peruana de Coca-Cola da edição especial de natal de 2016 no Peru foi encontrada em 2019 em região de floresta da região do Médio Solimões, Amazônia Central. A embalagem foi coletada durante pesquisa do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic) do Instituto Mamirauá com o objetivo de identificar e classificar resíduos sólidos encontrados em florestas de várzea, ecossistema amazônico alagável caracterizado pela dinâmica de cheias e secas.

A pesquisa que conta com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) começou em agosto conduzida pela estudante de Ciências Biológicas da Universidade Estadual do Amazonas (UEA), Zeneide Silva.

Garrafa peruana de refrigerante foi encontrada durante expedição (Foto: Elias Neto/Instituto Mamirauá)

“Os resultados propõem um questionamento. Afinal, como que uma garrafa de Coca-Cola como essa, do Peru, vem parar no meio da floresta amazônica três anos depois de fabricada? ”, questiona Elias Neto, o coorientador do projeto e pesquisador do Grupo de Pesquisa em Ecologia Florestal do Instituto Mamirauá, organização social fomentada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC).

Para o estudo, Zeneide coletou resíduos em cinco parcelas, áreas de um hectare cada definidas previamente e onde são realizadas pesquisas do GP Ecologia Florestal. As áreas de amostragem estão localizadas na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, unidade de conservação da região de várzea.

A coleta aconteceu entre os dias 11 e 13 de novembro em metade das parcelas – que totalizou 2,5 hectares. Para o campo, os pesquisadores aproveitaram a mesma logística do grupo de pesquisa, que realiza medições anuais nas parcelas. 

A cada hectare, 600 gramas de lixo

Foi encontrada uma média de 600 g de resíduos sólidos por hectare para esse tipo de floresta de várzea, o equivalente a 60% da produção diária de lixo por pessoa no Brasil.

O número, de acordo com Elias, pode ser considerado alto. “Apesar de não termos outras pesquisas como parâmetro, encontramos uma média de 15 itens de resíduos por hectare – o que eu considero muita coisa”, afirma.

Maior parte de composição de resíduos sólidos é plástico (Foto: Elias Neto/Instituto Mamirauá)

Plástico é maioria

Os itens encontrados foram variados, como escovas, embalagens de produtos cosméticos, bacias, pedaços de brinquedos, copos e utensílios domésticos. Na composição dos resíduos, o material se dividiu entre 84% de plástico, 8% de borracha e 8% de isopor.

“Alguns produtos já se encontravam com a embalagem deteriorada, mas, em alguns, conseguimos identificar o código de barras”, explica Elias. Com essa identificação, os pesquisadores detectaram, além da garrafa de refrigerante proveniente do Peru, a origem estadunidense de um selante de silicone.

As hipóteses sobre como os resíduos chegaram até uma área central da floresta amazônica são diversas: o lixo pode ter sido proveniente de descarte inadequado nas cidades próximas, como Tefé, e levado até a floresta pelos rios, ou vindo de barcos que passam pela região. “A grande questão é por que ele foi parar lá”, explica o pesquisador.

Os pesquisadores querem ampliar a área de amostra para entender melhor a dimensão do problema de poluição por resíduos sólidos na floresta amazônica. Para isso, entretanto, necessitam de financiamento, já que os custos com logística e análises são altos.

Presença de microplástico no solo

Durante a expedição, também foram coletadas amostras de solo, que estão em fase de análise pela estudante. O objetivo é identificar se há a presença de microplásticos no solo da região, materiais ligados à intoxicação.

Pesquisadores ainda devem analisar presença de microplástico no solo (Foto: Elias Neto/Instituto Mamirauá)

 “Se encontrarmos microplástico nesse solo coletado, vai ser interessante continuar e fazer mais pesquisas”, afirma a jovem.

Elias afirma que já foi detectado esse tipo de material em peixes amazônicos e as consequências da contaminação na fauna e na flora ainda são pouco conhecidas. Deve-se, de acordo com o engenheiro florestal, tentar entender se é possível haver algum tipo de impacto desses materiais na capacidade de regeneração da floresta.

O pesquisador defende que o estudo, que finaliza em julho do ano que vem, deve abrir portas para novas pesquisas sobre a temática na região. “Se a gente encontrar na floresta amazônica, um dos lugares mais remotos da Terra, quem garante que não pode ser encontrado em qualquer outro lugar? ”, pergunta.


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