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Cidades

Indígena conta como evangelização no Alto Rio Negro o levou a se tornar padre

"Não é porque eu fui para o seminário que deixei de ser indígena, pelo contrário, eu me sinto mais preparado e com melhor identidade indígena", disse em entrevista ao Portal Amazônia

William Costa e Diego Oliveira

jornalismo@portalamazonia.com


E para comemorar o Dia do Índio, a equipe do Portal Amazônia entrevistou um padre, que também é indígena da etnia Arapaso, que são índios que vivem nas margens do Rio Uaupés e seus afluentes, no Amazonas, e revela como foi o processo de integração entre a realidade indígena e católica de Reginaldo Lima Cordeiro. Confira:

 

Portal Amazônia: Padre, a partir de sua história, como foi o momento que culminou com sua decisão pelo sacerdócio?

 

Padre Reginaldo: Minha história está muito ligada a evangelização dos salesianos no Alto Rio Negro. No decorrer da história da evangelização passaram alguns por lá, franciscanos, jesuítas, e outros, mas os salesianos chegaram a partir de 1915, e da lá foram indo para os territórios, passando por várias etnias do rio Uaupés, sempre com o trabalho de evangelização e educação.

 

Os meus pais foram alunos internos dos Salesianos. E minha vocação nasce a partir da história de atuação de meus pais, que atuavam no catequese e foram líderes nesse âmbito religioso e católico, participando na vida comunitária, e eu queria ser como meus pais. Meu pai era bem quisto, um bom líder, bom caçador, e minha mãe sempre uma boa colaboradora. 

 

A partir disso foi nascendo meu desejo de ser como meu pais, e eles como tiveram uma educação católica, me proporcionaram também, meu desejo como padre nasceu aí, pois fui gostando, e até que surgiu o convite dos Salesianos para eu fazer uma experiência, pois eles viam que eu era diferente, fui fazer o experimento e acabei ficando até hoje.

 

 

 

 


Portal: Você é da etnia Arapaso, como foi o processo de transição de indigena para padre? Foi tranquila?

 

 

Padre: Não muito, na família somos 7 filhos, eu sou o mais novo, e o último filho na tradição dos Arapasos, tem uma responsabilidade maior. Se for o último filho e homem, tem a tarefa de cuidar do pai e mãe. E isso era claro pra mim. Casar, dar netos e cuidar deles. Então, no sentido comunitário, o elemento forte-cultural, que eu deveria ter seguido era esta regra e acabei quebrando.

 

Como meus pais foram alunos internos, eles diziam que essa minha escolha não ia durar muito tempo, pois nas casas dos padres tem horário para tudo, eles diziam que eu não sei ia aguentar. Sempre querendo que eu ficasse com eles. Pelo contrário, fui me adaptando, e gostei. Até meus sete anos de minha formação, minha família ficou esperando que eu desistisse até chegar os votos definitivos, perpetuo pelos salesianos. Senti dificuldade nessa relação com meus pais por estar quebrando a regra cultural, mas no decorrer da formação, as irmãs salesianos foram conversando e mostrando outro parecer, outra perspectiva, mas inicialmente eles tiveram uma resistência muito grande.

 

 

Portal: Sobre as tradições indígenas, como foi o seu percurso de identidade, no sentido, de ser indígena e padre. Você seguia as tradições dos Arapasos antes do sacerdócios? E depois de padre, ainda segue?  

 

 

Padre: A questão do ser indígena é ser sua essência, sua cultura, sua raiz, não dá pra você deixar, pelo contrário, as coisas tem que se integrar, eu tive que fazer esse processo de integração. O que tem na realidade cultural indígenas que vive o valores? Os valores da tradição, da cultura, e elementos que constroem a sociedade, o homem, a mulher, a dignidade e os valores da religião católica também. Não vou deixar de viver os valores da relação cultural indígena, com os valores da igreja católica.



Esse processo de integração tinha que ser muito bem dialogado, bem acompanhado, nesse sentido os padres souberam fazer um trabalho muito grande. Quando eu fiz o seminário nunca deixei totalmente de ser quem eu era, era meu sangue, minha vida, mas no sentido de integrar minhas realidades e valores, realidade cultural, para ser um sacerdote indígena salesiano. 

 

Nunca me afastei totalmente, continuo com minhas tradições da formação como homem, eu conservo, eu tenho. Não é porque eu fui para o seminário que deixei de ser indígena, pelo contrário, eu me sinto mais preparado e com melhor identidade indígena. Eu acredito que é isso, o evangelho é o encontro da culturas que torna o ser, o jeito de viver a vida de forma diferenciada.

 

Portal: Sobre o Dia do Índio e ser indigena no Brasil, você acredita que existe algo para comemorar?



O fato para mim é uma benção, do ponto de vista religioso, a gente percebe que a cultura indígena é uma cultura com características próprias, nem superior, nem inferior, existem formas de se viver.

 

Pelo olhar histórico, é a visão antiga, preconceituosa, é um ser superior, a falta de conhecimento com os povos indígenas com suas tradições e culturais.

 

Dia do indio reconhecimento dos povos, que tem suas culturas, aqui no norte, temos uma grande riqueza cultural.

 

O bonito seria conhecer, perceber e aprofundar o estudo para a questão indigne, Dia do Indio: reconhecimento dos povos que merecem ser valorizados, pois tem seus valores, assim como suas limitações. Não uma comemoração, mas um reconhecimento de que existem outras vidas que podem somar, e no decorrer da minha vida eu sempre procurei mostrar.

 

Eu tive a graça de morar 8 anos da Itália, aprendi outras línguas, e julgar que o indígena não sabe é preconceito.  O ser-humano é igual, só muda a cor e estatutura. E mais uma vez, no dia do Índio, não é para comemorar, mas um momento de reconhecimento e valorização.


Sobre o padre

 

 

Nasceu no dia 08/03/1982 em São Gabriel da Cachoeira, AM. O primeiro contato com os salesianos foi em 1996, na Missão Salesiana de Iauareté, AM. Fez a primeira profissão religiosa em 31/01/2002; a profissão perpétua no dia 17/08/2008. Foi ordenado diácono em 20/06/2009 na basílica de Maria Auxiliadora, em Roma, e ordenado presbítero em 15/08/2010 em São Gabriel da Cachoeira, AM, pela imposição das mãos de dom Edson Damian.

 

É mestre em Missiologia pela Pontíficia Università Urbaniana de Roma e graduado em Teologia pela Universidade Salesiana de Roma. Possui a graduação em Filosofia pela Universidade Católica Dom Bosco de Campo Grande, MS.

 

 

Foi vice-diretor do Centro Salesiano de Formação-CESAF; diretor de Pastoral da Faculdade Salesiana Dom Bosco. Membro da Consulta Mundial das Missões da Congregação Salesiana em Roma. Lecionou no Instituto de Teologia, Pastoral e Ensino Superior da Amazônia (ITEPES). Atualmente é diretor do Colégio Dom Bosco, unidade da RSB-Escolas em Manaus, membro do Conselho Inspetorial e delegado para a Animação Missionária.


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Indígena conta como evangelização no Alto Rio Negro o levou a se tornar padre

"Não é porque eu fui para o seminário que deixei de ser indígena, pelo contrário, eu me sinto mais preparado e com melhor identidade indígena", disse em entrevista ao Portal Amazônia

William Costa e Diego Oliveira

jornalismo@portalamazonia.com


E para comemorar o Dia do Índio, a equipe do Portal Amazônia entrevistou um padre, que também é indígena da etnia Arapaso, que são índios que vivem nas margens do Rio Uaupés e seus afluentes, no Amazonas, e revela como foi o processo de integração entre a realidade indígena e católica de Reginaldo Lima Cordeiro. Confira:

 

Portal Amazônia: Padre, a partir de sua história, como foi o momento que culminou com sua decisão pelo sacerdócio?

 

Padre Reginaldo: Minha história está muito ligada a evangelização dos salesianos no Alto Rio Negro. No decorrer da história da evangelização passaram alguns por lá, franciscanos, jesuítas, e outros, mas os salesianos chegaram a partir de 1915, e da lá foram indo para os territórios, passando por várias etnias do rio Uaupés, sempre com o trabalho de evangelização e educação.

 

Os meus pais foram alunos internos dos Salesianos. E minha vocação nasce a partir da história de atuação de meus pais, que atuavam no catequese e foram líderes nesse âmbito religioso e católico, participando na vida comunitária, e eu queria ser como meus pais. Meu pai era bem quisto, um bom líder, bom caçador, e minha mãe sempre uma boa colaboradora. 

 

A partir disso foi nascendo meu desejo de ser como meu pais, e eles como tiveram uma educação católica, me proporcionaram também, meu desejo como padre nasceu aí, pois fui gostando, e até que surgiu o convite dos Salesianos para eu fazer uma experiência, pois eles viam que eu era diferente, fui fazer o experimento e acabei ficando até hoje.

 

 

 

 


Portal: Você é da etnia Arapaso, como foi o processo de transição de indigena para padre? Foi tranquila?

 

 

Padre: Não muito, na família somos 7 filhos, eu sou o mais novo, e o último filho na tradição dos Arapasos, tem uma responsabilidade maior. Se for o último filho e homem, tem a tarefa de cuidar do pai e mãe. E isso era claro pra mim. Casar, dar netos e cuidar deles. Então, no sentido comunitário, o elemento forte-cultural, que eu deveria ter seguido era esta regra e acabei quebrando.

 

Como meus pais foram alunos internos, eles diziam que essa minha escolha não ia durar muito tempo, pois nas casas dos padres tem horário para tudo, eles diziam que eu não sei ia aguentar. Sempre querendo que eu ficasse com eles. Pelo contrário, fui me adaptando, e gostei. Até meus sete anos de minha formação, minha família ficou esperando que eu desistisse até chegar os votos definitivos, perpetuo pelos salesianos. Senti dificuldade nessa relação com meus pais por estar quebrando a regra cultural, mas no decorrer da formação, as irmãs salesianos foram conversando e mostrando outro parecer, outra perspectiva, mas inicialmente eles tiveram uma resistência muito grande.

 

 

Portal: Sobre as tradições indígenas, como foi o seu percurso de identidade, no sentido, de ser indígena e padre. Você seguia as tradições dos Arapasos antes do sacerdócios? E depois de padre, ainda segue?  

 

 

Padre: A questão do ser indígena é ser sua essência, sua cultura, sua raiz, não dá pra você deixar, pelo contrário, as coisas tem que se integrar, eu tive que fazer esse processo de integração. O que tem na realidade cultural indígenas que vive o valores? Os valores da tradição, da cultura, e elementos que constroem a sociedade, o homem, a mulher, a dignidade e os valores da religião católica também. Não vou deixar de viver os valores da relação cultural indígena, com os valores da igreja católica.



Esse processo de integração tinha que ser muito bem dialogado, bem acompanhado, nesse sentido os padres souberam fazer um trabalho muito grande. Quando eu fiz o seminário nunca deixei totalmente de ser quem eu era, era meu sangue, minha vida, mas no sentido de integrar minhas realidades e valores, realidade cultural, para ser um sacerdote indígena salesiano. 

 

Nunca me afastei totalmente, continuo com minhas tradições da formação como homem, eu conservo, eu tenho. Não é porque eu fui para o seminário que deixei de ser indígena, pelo contrário, eu me sinto mais preparado e com melhor identidade indígena. Eu acredito que é isso, o evangelho é o encontro da culturas que torna o ser, o jeito de viver a vida de forma diferenciada.

 

Portal: Sobre o Dia do Índio e ser indigena no Brasil, você acredita que existe algo para comemorar?



O fato para mim é uma benção, do ponto de vista religioso, a gente percebe que a cultura indígena é uma cultura com características próprias, nem superior, nem inferior, existem formas de se viver.

 

Pelo olhar histórico, é a visão antiga, preconceituosa, é um ser superior, a falta de conhecimento com os povos indígenas com suas tradições e culturais.

 

Dia do indio reconhecimento dos povos, que tem suas culturas, aqui no norte, temos uma grande riqueza cultural.

 

O bonito seria conhecer, perceber e aprofundar o estudo para a questão indigne, Dia do Indio: reconhecimento dos povos que merecem ser valorizados, pois tem seus valores, assim como suas limitações. Não uma comemoração, mas um reconhecimento de que existem outras vidas que podem somar, e no decorrer da minha vida eu sempre procurei mostrar.

 

Eu tive a graça de morar 8 anos da Itália, aprendi outras línguas, e julgar que o indígena não sabe é preconceito.  O ser-humano é igual, só muda a cor e estatutura. E mais uma vez, no dia do Índio, não é para comemorar, mas um momento de reconhecimento e valorização.


Sobre o padre

 

 

Nasceu no dia 08/03/1982 em São Gabriel da Cachoeira, AM. O primeiro contato com os salesianos foi em 1996, na Missão Salesiana de Iauareté, AM. Fez a primeira profissão religiosa em 31/01/2002; a profissão perpétua no dia 17/08/2008. Foi ordenado diácono em 20/06/2009 na basílica de Maria Auxiliadora, em Roma, e ordenado presbítero em 15/08/2010 em São Gabriel da Cachoeira, AM, pela imposição das mãos de dom Edson Damian.

 

É mestre em Missiologia pela Pontíficia Università Urbaniana de Roma e graduado em Teologia pela Universidade Salesiana de Roma. Possui a graduação em Filosofia pela Universidade Católica Dom Bosco de Campo Grande, MS.

 

 

Foi vice-diretor do Centro Salesiano de Formação-CESAF; diretor de Pastoral da Faculdade Salesiana Dom Bosco. Membro da Consulta Mundial das Missões da Congregação Salesiana em Roma. Lecionou no Instituto de Teologia, Pastoral e Ensino Superior da Amazônia (ITEPES). Atualmente é diretor do Colégio Dom Bosco, unidade da RSB-Escolas em Manaus, membro do Conselho Inspetorial e delegado para a Animação Missionária.

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