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Quinta, 13 Mai 2021

Na Amazônia, Instituto Mamirauá realiza 1º manejo sustentável de jacaré em vida livre do Brasil

Atividade pode se tornar fonte de renda alternativa para comunidades ribeirinhas do interior da Amazônia

Feiras no interior do Amazonas fortalecem manejo de pirarucu

A Feira de Pirarucu Manejado é um evento que virou tradição na vida dos pescadores da região do médio Solimões, no Amazonas. A programação acontece anualmente nos municípios do interior do estado, beneficiando manejadores que comercializam o maior peixe de escamas de água doce do mundo. Em 2019, foram comercializados 130 peixes nas feiras de Tefé e Alvarães, realizadas com apoio do Instituto Mamirauá.

Desmatamento e manejo florestal: entenda a diferença entre as duas formas de extração de madeira

A transformação de áreas verdes em pontos amarronzados em imagens de satélites produzidas por órgãos de monitoramento demonstra o crescimento do desmatamento no Brasil, um grave problema causado pela indústria ilegal de grãos, madeira e gado na Amazônia, bioma que além de ser um dos mais ricos do mundo em biodiversidade, abriga milhares de comunidades ribeirinhas e indígenas.

Manejo na Amazônia permite maior empoderamento de mulheres na pesca, atestam pesquisadoras

O pirarucu (Arapaima gigas) é um peixe grande e pesca-lo exige técnica e conhecimento repassados por gerações em comunidades ribeirinhas da Amazônia. Nas imagens de pesca do animal, cuja carne é valorizada por chefs renomados, é comum o retrato homens em canoas puxando com o arpão o pesado animal ou transportando-o muitas vezes em mais de duas mãos.

Projeto de manejo de pirarucu na Amazônia ganha prêmio de Empreendedorismo, nos Estados Unidos

A implementação do manejo de pirarucu (Arapaima gigas) na Amazônia resultou em projeto premiado pelo Prêmio Rolex de Empreendedorismo de 2019, nos Estados Unidos. O Instituto Mamirauá, organização social fomentada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), foi instituição pioneira ao implementar acordos de pesca que possibilitaram a recuperação populacional da espécie na região do Médio Solimões, na Amazônia Central. 

Duas toneladas de tambaqui manejado estarão à venda neste fim de semana, em Manaus

Duas toneladas de tambaqui manejado da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) de Mamirauá, na região do Médio-Solimões, serão vendidas a das partir das 8h deste sábado (15), em Manaus, na sede da Fundação Amazonas Sustentável (FAS), na rua Álvaro Braga, número 351, bairro Parque Dez, na Zona Centro-Sul da capital. Os preços vão variar de acordo com o tamanho do peixe, indo de R$ 9 a R$ 17 o quilo.

Pesca do pirarucu em Rondônia está isenta de licença ambiental em rios

A instrução a respeito da pesca do pirarucu [Arapaima gigas] em Rondônia trará bons dividendos ao estado nas áreas econômica e ambiental, anunciou nesta quarta-feira (15) o secretário estadual do Desenvolvimento Ambiental, Elias Rezende.


A regulamentação abrange os dois principais aspectos da piscicultura amazônica: em ambientes lênticos [de água parada] e lóticos [de água em movimento].


O pirarucu chega ao mercado em mantas, depois de passar por processo de salga ao sol. É conhecido também por bacalhau da Amazônia, devido ao sabor e qualidade da carne, quase sem espinhos.


“Tudo seguiu requisitos e procedimentos legais”, destacou o secretário. “No período do defeso há limitação”, alerta. O defeso vai de 1º de novembro de cada ano a 31 de abril do ano seguinte.
Foto:Divulgação/Governo Rondônia


Segundo Rezende, em lagos e rios, a pesca exigirá plano de manejo do pirarucu, entretanto, em rios, o pescador poderá fazê-la tranquilamente com a identificação profissional artesanal, ou seja, basta possuir a carteira que assim o qualifique.


Para pescar em rios, associados às colônias de pesca do estado não necessitam de autorização da Sedam.


Primeiro produtor de peixes em água doce do País, com aproximadamente 80 mil toneladas por ano, Rondônia abriu o leque exportador para nove estados brasileiros, abastecendo ainda regiões bolivianas e peruanas.


O pirarucu é um dos maiores peixes de água doce. Alguns espécimes pesam mais de duzentos quilos e têm de três a quatro metros de comprimento. Se as escamas o protegem de piranhas e outros predadores naturais, são menos úteis contra o mais temido de todos, o ser humano, que o pesca intensamente por sua carne.


“Vendemos bem para Manaus e o até o Acre compra da gente, em torno de dez toneladas a cada três dias”, assinalou Rezende.


Espécie exótica, o pirarucu está no topo da cadeia alimentar. A instrução, ele destacou, “nada mais é do que o respeito ao aspecto sustentável e social. Ribeirinhos serão os maiores beneficiados nessa integração entre o meio ambiente e a produção sustentável”.


No Acre,  o governo estadual e a WWF Brasil, apoiados pelo Ibama e colônia de pescadores do município de Manoel Urbano, conseguiram evitar o desaparecimento da espécie. Houve treinamento e capacitação de pescadores para manejar o pirarucu de forma ambientalmente adequada, assegurando a sobrevivência da espécie e a viabilidade econômica da atividade pesqueira.

Foto: Divulgação/Governo Rondônia

Isso resultou em aumento da produtividade dos lagos, crescimento da produção de pirarucu nos lagos manejados, repovoamento com casais da espécie em lagos onde o peixe havia desaparecido, e o consequente aumento da renda dos pescadores.


Rezende acredita que a instrução irá ao encontro dos interesses das colônias ribeirinhas. “A população envolvida debateu bem essa regulamentação que detalha até mesmo tamanho da espécie fisgada: até 1,5 m pode.


Segundo a revista científica Nature Communications, o pirarucu resiste às piranhas porque é dotado de um colete composto que o protege dos dentes daquele peixe. É também duro no exterior e flexível no interior, atestaram pesquisadores em 2013.


Conforme a revista, essa “estrutura única” do pirarucu não perde em nada para os coletes à prova de bala usados por militares e policiais. Trata-se de “estrutura sofisticada” à base de “elementos biológicos simples”, conforme eles assinalam.


O secretário enfatizou a simplificação de métodos na Sedam: além da pesca dessa espécie, a Lei nº 3686 facilitou a extração de cascalho para uso na construção e manutenção de estradas vicinais e em outros 64 tipos de atividades empreendedoras.









Manejo sustentável de aruanãs pode expandir mercado de peixes ornamentais, no Amazonas

Velho conhecido das feiras e supermercados regionais, o aruanã está na lista de pescados mais consumidos pelo amazonense. Mas as qualidades desse peixe vão além da cozinha: quando filhotes, os aruanãs também são muito apreciados pelo seleto mercado de peixes ornamentais. O primeiro manejo sustentável da espécie no Amazonas pode ser aprovado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para começo das atividades a partir desse ano.

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Como parte dos preparativos, o Instituto Mamirauá e pescadores do município de Maraã (a 634 quilômetros a noroeste de Manaus) realizaram, em novembro, a contagem de aruanãs em lagos da região. Os levantamentos mais recentes foram feitos no complexo do Lago Preto, conjunto de lagos localizado na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, unidade de conservação a cerca de 640 km de Manaus.

A equipe formada por membros da colônia local de pescadores contabilizou os estoques de aruanãs brancos (Ostoglossum bicirrhosum), adultos e juvenis, em três lagos do complexo. Aruanãs adultos medem a partir de 50 cm, tamanho médio de maturação sexual. Abaixo disso, os peixes são considerados juvenis.
 
Foto: Divulgação/Instituto Mamirauá 
Todo trabalho foi acompanhado por cientistas e técnicos do Instituto Mamirauá, unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC). “Os resultados estão em análise, mas posso adiantar que a taxa de erro entre a quantidade de peixes apontada pelos contadores e o total que havia de fato nos lagos foi bastante baixa. Esse é um grupo de pescadores experientes na contagem e que vem se preparando há tempos para fazer o manejo de aruanãs”, avaliou a pesquisadora Danielle Pedrociane.

A contagem também integra os estudos sobre a ecologia e a biologia de aruanãs conduzidos pelo Instituto Mamirauá. As pesquisas são realizadas há mais de uma década nessa região e deram sustentação científica para o plano de manejo da espécie, proposto ao Ibama.

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Até 2017, a captura de larvas e alevinos (filhotes) de aruanãs para fins ornamentais era proibida no Amazonas, porque a legislação não permitia que um só tipo de peixe fosse, ao mesmo tempo, produto do mercado de ornamentais e de alimentação. Mas, com base nas experiências e dados coletados na região de Maraã, uma resolução da Secretaria Estadual de Meio Ambiente aprovou a pesca, desde que a atividade siga os princípios sustentáveis do manejo.

“A resolução libera a pesca em áreas de manejo, com apresentação de plano de uso sustentável, relatório técnico e histórico de no mínimo 3 anos de contagens já realizadas”, informa a pesquisadora, membro do Grupo de Pesquisa Biologia e Ecologia de Peixes do Instituto Mamirauá. “A Reserva Mamirauá vai ser a primeira área no estado do Amazonas a fazer esse tipo de manejo”.

Entenda como é feita a contagem de aruanãs

A metodologia de contagem praticada em lagos da Reserva Mamirauá foi inspirada em experiências feitas no Peru, onde a comercialização de aruanãs na categoria de peixes ornamentais é uma realidade antiga.

Adicionando critérios técnicos à atividade e com adaptações ao contexto local, os pesquisadores do Instituto Mamirauá chegaram ao modelo atual: à noite, durante a estação de seca (em média, de agosto a novembro), os pescadores fazem a contagem visual de aruanãs em lagos de água negra.

Divididos em duplas e guiados por lanternas de cabeça, os pescadores saem em canoas e percorrem, lado a lado, toda a extensão do lago, da cabeceira até a ponta. Na proa, vai o contador e atrás o anotador, registrando em uma planilha os aruanãs que forem contabilizados no caminho.
 
Foto: Danielle Pedrociane/Instituto Mamirauá 
“É como um escaneamento do lago. As canoas ficam emparelhadas a uma distância de 5 metros entre elas, e seguem a uma velocidade média de 2 quilômetros por hora (km/h). A velocidade é controlada por um dos pescadores com o uso de GPS”, explicou Pedrociane.

O contraste entre o tom escuro e límpido das águas e os olhos e escamas do aruanã, que refletem a luz, permitem a visualização. Os alevinos e larvas, valorizados no mercado de ornamentais, são contados a partir da boca dos machos da espécie: entre os aruanãs, é o macho que cuida dos filhotes, guardando a prole na boca até um certo estágio de vida.

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“Quando a boca do peixe está entreaberta, o contador consegue ver a coloração do filhote e distingue em qual fase de desenvolvimento ele se encontra. A partir de 5 cm (centímetros), é permitido o manejo de ornamentais”, informou a pesquisadora do Instituto Mamirauá.

Para confirmar o que foi contado, a equipe faz o que é chamado de despesca ou “arrasto”: semelhante como é feito no manejo de pirarucu, partes do lago são fechadas com redes de pesca e, após a contagem, os pescadores retiram todos os peixes do ambiente.

Próximos passos

Em parceria com a Colônia de Pescadores Z-32 de Maraã, o Instituto Mamirauá planeja uma oficina para confecção de puçás, tipo de rede usado no manejo de ornamentais para evitar a mortalidade dos peixes adultos durante a captura, em janeiro de 2019.

A partir de agosto, quando começa a temporada de seca, também será realizada uma capacitação para pescadores em contagem de aruanãs. Uma cartilha didática com orientações para a contagem também está na agenda do instituto.

Saber antigo de 'contar' pirarucu é aliado ao manejo sustentável da espécie; entenda

Até parece história de pescador, mas não é: contar pirarucu é um saber antigo, compartilhado entre gerações na Amazônia rural. A contagem é a estimativa do número de pirarucus em um lago, feita 'no olho', graças à habilidade do pescador ou pescadora. Tal conhecimento tradicional foi aliado à ciência e, atualmente, é uma etapa essencial do manejo sustentável da espécie.
 
Foto: João Cunha/Instituto Mamirauá
O Instituto Mamirauá, unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), realiza treinamentos para formar contadores de pirarucu e certifica aqueles que estão preparados a seguir na atividade.

“A partir do resultado, o pescador é considerado certificado e já está apto tanto a validar a contagem em suas áreas de manejo como, quando junto a um técnico, orientar novos contadores para a aplicação da metodologia”, explica a coordenadora do Programa de Manejo de Pesca do Instituto Mamirauá, Ana Cláudia Torres.

Em novembro, foi a vez de mais dezesseis pescadores passarem pela avaliação, que aconteceu entre os dias 19 e 24 no interior da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, no Amazonas. A 6ª edição do Curso de Certificação de Contadores de Pirarucu envolveu pescadores de diversas partes do Estado, incluindo os municípios de Maraã, Carauari, Coari e Barcelos.

Entenda como é feita a contagem

Posicionados às margens do lago ou em cima de canoas, os contadores anotam quantos pirarucus emergem à superfície da água para 'respirar', movimento chamado popularmente de 'boiada'. A contagem acontece durante a vazante dos rios, quando os lagos da região se formam em áreas de 2 hectares (20 mil metros²) e em períodos de 20 minutos. São registrados apenas pirarucus acima de 100 centímetros de comprimento, de acordo com as diretrizes do manejo sustentável.
 
Foto: João Cunha/Instituto Mamirauá
“A contagem de pirarucu é fundamental para o manejo, porque fornece a base de dados para o estabelecimento das cotas de pesca a cada ano”, reforça Ana Cláudia. “O manejador interage diretamente com o recurso quando determina o quanto pode ser pescado sem prejudicar a população de pirarucus”.

Os dados das contagens são encaminhados ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), que autoriza a taxa anual da pesca manejada de pirarucu.

O método só é possível porque o pirarucu, maior peixe de água doce de escama do mundo, tem respiração aérea obrigatória, precisando subir à superfície em busca de oxigênio. Então, é quando o animal fica visível e a contagem é feita.

Em busca da certificação

O Instituto Mamirauá realiza os cursos de contagem de pirarucus e certificação desde os anos 2000. As capacitações são ministradas por técnicos e pescadores treinados e com longa experiência no manejo.

Na edição 2018 do curso, duas contagens foram praticadas em lagos do setor Jarauá, região pioneira no manejo de pirarucu na Amazônia. Para validar os dados de cada participante, no dia seguinte à contagem, é feito o processo conhecido como 'arrasto': com o auxílio de uma grande rede de pesca, o grupo coleta todos os pirarucus que estão dentro do lago, contabilizam o total, e depois devolvem os peixes ao habitat natural.
 
Foto: João Cunha/Instituto Mamirauá
O pescador que alcançar uma margem de erro inferior a igual ou inferior a 30% em relação a quantidade de peixes capturados no arrasto, é certificado como um contador oficial de pirarucus.

“Costumamos dizer que o treinamento começa desde a infância do pescador e é uma aprendizagem que culmina na certificação de contadores”, afirma Jovane Marinho, técnico do Instituto Mamirauá. “Todos que chegam ao curso já trazem uma carga de experiências, a equipe técnica oferece orientações sobre a biologia do pirarucu e para a execução da contagem de acordo com a metodologia do manejo”.

Seminário Manejar debate desafios para fortalecimento da produção familiar no Amazonas

Nos primeiros dias do Seminário Manejar - Seminário de Produção Florestal Familiar e Comunitária do Amazonas, reuniu produtores do interior do Estado, ONGs, órgãos ambientais e muito conhecimento trocado entre os participantes, com minicursos e mesas de discussões sobre os temas mais relevantes do setor. A abertura do evento contou com uma plenária que abordou os principais problemas do segmento florestal, no qual a produção familiar é representada por apenas 4% da produção do Amazonas.

No primeiro dia, o diretor técnico do Idesam, Carlos Koury, iniciou o debate com a informação de que 62% das terras do Amazonas são destinadas para as comunidades tradicionais (assentamentos ou unidades de conservação). Esse potencial, no entanto, ainda não é explorado satisfatoriamente. Para ele, produzir e conservar a Amazônia precisa necessariamente passar pelo apoio à gestão familiar e comunitária.

“Se a gente vai apoiar a produção florestal, temos que apoiar os pequenos produtores, que representam 93% do número de estabelecimentos rurais. A grande produção de óleos vegetais, de sementes, ainda é de base comunitária e o desafio é desenvolver isso, essa é uma das razões por estarmos discutindo essas questões neste Seminário”, destacou.
Na avaliação do superintendente-geral da Fundação Amazonas Sustentável (FAS), Virgílio Viana, os dados mostram ainda que o quadro do setor florestal madeireiro no Amazonas mudou drasticamente, chegando praticamente ao desaparecimento. Para ele, o setor madeireiro se enfraqueceu pela dificuldade em operar com suprimentos legalizados. O maior controle e as fiscalizações transformadas em multas foram um baque para o setor, cenário piorado com a falta de investimentos robustos na cadeia de suprimentos robusta. 
“A principal concorrência [do manejo comunitário] é com a madeira ilegal. A maneira de competir é aumentar o custo da ilegalidade. O Ipaam, a Polícia Ambiental e Ibama precisam fiscalizar mais. E reduzir o custo da legalidade. É preciso diminuir drasticamente a papelada, além do investimento em pesquisa. Mas burocratizar não significa flexibilizar”, destacou Viana. A criação de um entreposto de madeira certificada em Manaus foi defendida pelo representante da FAS, o que aumentaria a geração de renda dessa produção comunitária.
Sobre essa questão, Fábio Marques, diretor jurídico do Ipaam, ressaltou que no último dia 8 de outubro foi sancionada uma lei estadual de desburocratização, onde muito requisitos foram eliminados para fazer com que a agricultura familiar tenha acesso ao licenciamento ambiental de forma mais rápida.
No terceiro e último dia de evento, a programação continua com minicursos sobre os passos para certificação, manutenção de máquinas florestais e casos de sucesso de manejo florestal comunitário. Para ter a programação completa e as inscrições que ainda podem feitas, basta acessar o site: manejar.org.br.

Produtores do interior participam de minicursos

Representantes de associações de produtores de diversos municípios do Amazonas participaram da programação de minicursos promovidos pelo Seminário Manejar, como o de primeiros socorros voltados para atividades florestais e orientações contábeis, este último, uma forte necessidade apontada pelos gestores das cooperativas presentes.  Com participação de produtores de Lábrea, Carauari, Boa Vista do Ramos, entre outros, o minicurso de orientações contábeis com a plataforma Rupee – que terá uma nova apresentação neste segundo dia de evento – trouxe conhecimentos e novas perspectivas sobre o controle do trabalho do contador na atividade florestal, abordando entraves e as “pegadinhas” que os gestores podem cair com as mudanças repentinas da legislação tributária brasileira.
Um dos participantes do minicurso, o representante da Associação de Comunidades Sustentáveis da Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Negro (ACS RDS Rio Negro), Nelson Britto, falou das muitas dificuldades que as cooperativas possuem de acesso a mercado e de contabilidade, afirmando que as comunidades ainda precisam avançar nesse quesito. “Estamos lutando para que a gente [associação/cooperativa] seja reconhecido como as empresas são e que o povo do interior do Estado seja reconhecido pelo que ele realmente é e pelo que produz”, ressaltou Britto.
Sobre o IDESAM

O Idesam é uma organização não governamental sem fins lucrativos sediada em Manaus, com 14 anos de atuação. O instituto desenvolve um trabalho integrado, compreendendo uma atuação de base, no contato com produtores rurais e comunidades tradicionais, até a formulação de políticas internacionais. Os projetos do Idesam estão distribuídos nos temas Mudanças Climáticas e REDD+, Manejo e Tecnologias Florestais, Produção Rural Sustentável, Políticas Públicas e Áreas Protegidas.

Projeto ajuda comunidades tradicionais da Amazônia a expandir negócios

Comunidades tradicionais da Amazônia – indígenas, extrativistas e ribeirinhos – ganharam visibilidade com o projeto Origens Brasil, uma parceria entre o Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora) e o Instituto Socioambiental (Isa), que ajuda consumidores e empresas a identificar produções sustentáveis da floresta.

Dos quintais das mulheres da etnia indígena Baniwa, na região do Alto Rio Negro (AM), a produção de pimentas cultivadas organicamente, desidratadas e moídas com sal, já firmou parceria com uma empresa que revende o produto nos Estados Unidos. São 52 famílias beneficiadas com a produção da pimenta Baniwa.

Foto:Reprodução/Origens Brasil
“Por meio do Origens Brasil, temos facilidade de divulgação. Acreditamos que, assim, muita gente vai nos conhecer não só no Brasil, mas também no exterior. Agora, já temos um parceiro nos Estados Unidos. O dono de uma empresa de culinária é nosso representante lá, está divulgando o trabalho. Ele compra nossos produtos aqui e revende lá desde o início do ano”, disse o indígena Alfredo Brazão, gerente de comercialização da Pimenta Baniwa.

A Pimenta Baniwa está no estande do projeto Origens Brasil, na feira Bio Brazil Fair-Biofach América Latina, que ocorre até amanhã (9) no Pavilhão de Exposições do Anhembi,na capital paulista. A feira possibilita que o público e empresários tenham acesso a produtores, abrindo a oportunidade de novas parcerias.

Alfredo Brazão disse ainda que os Baniwa trabalham com 78 variedades de pimenta e que a produção é bem tradicional. “A produção da pimenta é feita pelas mulheres. São plantadas organicamente no quintal das casas e a maior parte na roça. As mulheres têm a técnica de plantio, de colheita, elas que fazem o trabalho. Depois disso, quando as pimenteiras produzem, são colhidas e entregues a uma rede de casas da pimenta, em que há sempre um casal de gerentes que faz o processamento de limpeza, secagem, trituragem e envasamento final, coloca rótulos e lacre”, acrescentou.

Foto:Reprodução/Origens Brasil
Segundo a assistente de projetos do Imaflora, Mariana Finotti, o objetivo do projeto é fazer a conexão dos produtores com o consumidor final e com empresas. “O papel do Origens [Brasil] é acompanhar essa relação. Por exemplo, temos um especialista de mercado que faz o mapeamento dos interesses das empresas em produtos. Ao mesmo tempo, fazemos um diagnóstico nos territórios em que atuamos hoje – que é o Rio Xingu, a Calha Norte e o Rio Negro – de quais são os potenciais produtos. A partir disso,é feita essa conexão: ver o que a comunidade tem e qual é o interesse da empresa. Se a cadeia [de produção] está estruturada e a empresa tem interesse, marcamos uma conversa para que as partes se entendam”, afirmou.

O projeto baseia-se também na sustentabilidade da produção e das comunidades. “Não é apenas a venda, tem toda a manutenção da cultura da comunidade, é preciso respeitar a quantidade da produção, entender como é o processo com as comunidades tradicionais, que é diferente do que geralmente as grandes empresas estão acostumadas”.

Foto:Reprodução/Origens Brasil
Em cada produto que integra o projeto, há um QR Code – código que pode ser escaneado por celular –, pelo qual é possível acessar detalhes da produção. “Quando fazemos a leitura, a gente entra na história de cada produto. A primeira informação que aparece é o que é aquele produto, como é feito, como é manejado, como é feita a extração – dependendo do produto – e esse é um texto feito pelas próprias comunidades. Cada uma conta a história do produto. Em seguida, há um dos produtores que faz parte da coleta daquele produto”, disse Mariana.

Pirarucu sustentável pode alimentar forças armadas da região

O Pirarucu manejado por povos e comunidades tradicionais da Reserva Extrativista do Médio Juruá poderá ser comprado pelo Comando Militar da Amazônia para alimentar o efetivo das forças armadas. Entendimentos mediados pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA) e Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) entre o Exército, a Aeronáutica e a Associação do Produtores Rurais da região de Caraoari (a 500 km de Manaus0, podem viabilizar a proposta por meio do Programa de Aquisição de Alimentos, o PAA na modalidade compras institucionais.

A ideia é incluir nas chamadas públicas o peixe produzido pelos ribeirinhos da Médio Juruá em projetos de manejo sustentável. O Pirarucu passaria a fazer parte do cardápio dos 27 mil soldados em serviço na proteção territorial do bioma. De acordo com a coordenadora da Asproc, Ana Britto, a produção do Pirarucu manejado é da ordem de 100 toneladas/ano. Caso a proposta seja adotada, a associação poderá fornecer, também, mandioca e farinha.
Foto: Divulgação/Ministério do Meio Ambiente
Para os moradores da região a articulação poderá beneficiar 20 mil famílias que vivem dessa produção. As Forças Armadas respondem por R$ 61 milhões, dos R$ 70 milhões previstos pelo PAA Compra Institucional no estado do Amazonas. Os produtores familiares vinculados à Asproc providenciaram a Declaração de Aptidão ao Programa Nacional de Agricultura Familiar (Pronaf), estando habilitados a fornecer sua produção.

Os pequenos produtores familiares que atuam no Médio Juruá praticam o manejo sustentável em lagos ao longo do rio. Atuam de acordo com a legislação sanitária e têm autorização do Ibama e o monitoramento da atividades pelo ICMBio.

Programa Quelônios da Amazônia contabiliza 80 milhões de filhotes em 39 anos

Foto:Divulgação/Ibama
Programa Quelônios da Amazônia (PQA), iniciativa de conservação da biodiversidade coordenada pelo Ibama, alcançou em 2018 a marca de 79,4 milhões de filhotes nascidos em razão do manejo realizado por analistas ambientais do Instituto, técnicos de instituições parceiras e comunidades ribeirinhas. O período de desova das espécies protegidas pelo PQA é de agosto a fevereiro.

Em 2017, a proteção e o monitoramento conduzidos pelo Ibama nos principais sítios reprodutivos da tartaruga-da-amazônia (Podocnemis expansa) contribuíram para o nascimento de 3,5 milhões de filhotes, o que representa aumento de 97,5% em relação a 2016. Três estados alcançaram seus melhores resultados históricos: Amazonas, com 1,3 milhão de filhotes; Pará, com 1,1 milhão; e Amapá, com 150 mil. O trabalho conduzido pelo PQA também garante a preservação de tracajás (Podocnemis unifilis) e pitiús (Podocnemis sextuberculata).

O resultado obtido pelo Programa em 2017 é superado apenas pelo de 2015, quando foram registrados 4 milhões de nascimentos.

Criado em 1979 para conter a exploração econômica predatória da tartaruga-da-amazônia no país e reverter o quadro de decréscimo populacional da espécie, o PQA monitora cerca de 50 mil fêmeas em idade reprodutiva em oito estados brasileiros: Amapá, Amazonas, Goiás, Mato Grosso, Pará, Tocantins, Rondônia e Roraima. Técnicos fiscalizam os locais de desova para evitar a caça, abrem uma amostra representativa de ninhos e registram medidas dos animais para avaliar as populações.

"O aumento no número de filhotes em 2017 indica que a redução observada no ano anterior foi revertida. Isso é bastante animador para a equipe”, disse o analista ambiental que coordena o PQA, Roberto Lacava.

Os estoques de quelônios são historicamente ameaçados por fatores como a destruição de habitats, processos predatórios e uso descontrolado. A pesquisa, a proteção e o manejo orientados à conservação têm como objetivo a recuperação populacional das espécies mais representativas da região amazônica.

Websérie apresenta valor ecológico e cultural do caranguejo no Pará

O cotidiano de mulheres e homens dedicados ao manejo do caranguejo-uçá seguro e de qualidade, em manguezais do nordeste paraense, é o destaque da nova websérieMestres da Maré”, do Instituto Mamirauá. Os quatro episódios da série, com cerca de quatro minutos cada, vêm sendo lançados todas as sextas-feiras de abril, no canal do Instituto Mamirauá no Youtube.
Foto:Fernando Sette Câmara/Agência Pará
Nesta sexta-feira (13), será exibido o segundo episódio. Envolvendo os municípios de São João da Ponta, São João de Pirabas, Curuçá e Augusto Corrêa, a produção mostra o valor ecológico, econômico e cultural do caranguejo e das riquezas do mangue paraense.

Apresenta ainda o método de transporte sustentável que impulsionou as vendas e melhorou a qualidade dos caranguejos: as basquetas, cestas cobertas de esponjas molhadas que ajudam a conservar o produto, já que ao serem extraídos dos manguezais até os centros consumidores, os caranguejos podem atravessar um longo caminho, por rio ou estrada.
Foto:Fernando Sette Câmara/Agência Pará
Para garantir a capacitação de milhares de pescadores artesanais para o transporte sustentável de caranguejo, a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Agropecuária e da Pesca (Sedap), em parceria com o Instituto Mamirauá, Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Pará (Emater), vem promovendo cursos de extensão pesqueira pelo estado com foco no transporte sustentável.

“Desde 2011, conseguimos dar continuidade ao trabalho de capacitação às comunidades de Reservas Extrativistas Marinhas existentes no estado. Só em 2017, 633 pessoas participaram dos cursos e mudaram seus hábitos”, afirmou o diretor de Aquicultura da Sedap, João Terra. Ele relembra que antes das basquetas, o transporte de caranguejos era feito por meio de sacolas plásticas, o que gerava a mortalidade de 66% do total. “Com a nova técnica, a mortalidade foi reduzida a quase zero”, celebrou.
Foto:Fernando Sette Câmara/Agência Pará
Ainda segundo João Terra, o conhecimento sobre o meio ambiente e a forma sustentável de extrair e transportar o caranguejo beneficia todos os personagens envolvidos no sistema. “Na última Feira do Pescado, realizada em Belém, nós conseguimos trazer pessoas das comunidades caranguejeiras para estar pessoalmente nos postos de venda, diminuindo, dessa forma, o número de atravessadores e gerando mais lucro para o trabalhador e mais qualidade para o consumidor final”, explicou.

A websérie “Mestres da Maré” foi filmada no município de São João da Ponta, no Pará, em outubro de 2017, durante a realização de um curso para o transporte do caranguejo. É uma realização do Instituto Mamirauá, unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), financiada pela Fundação Gordon and Betty Moore.

Programa Arpa completa 15 anos

O dia 8 de agosto marca uma importante data para a conservação do meio ambiente no país. Foi nesse dia, em 2002, que o Programa Áreas Protegidas da Amazônia (Arpa) teve seu decreto assinado. São 114 unidades de conservação, uma área maior do que a Espanha, apoiadas pelo programa, 24 delas já plenamente consolidadas.
Foto:Divulgação/MMA
O Arpa oferece ajuda na implantação de plano de manejo, formação de conselho, equipe técnica, além de incentivos à pesquisa, monitoramento, equipamento e instalações. “O Arpa apoia a implantação de uma estrutura mínima de gestão que garanta a integridade das UCs no curto prazo e viabilize o planejamento de médio prazo para que essas áreas possam cumprir as finalidades para as quais foram criadas”, explica a analista ambiental Renata Carolina Gatti, do Departamento de Áreas Protegidas do Ministério do Meio Ambiente. “É significativo o Apoio do programa para melhoria da efetividade de gestão das UCs, assim como para fazer frente às ameaças para sua conservação”, defende Gatti.

Considerado o maior programa de conservação de florestas tropicais do planeta, o Arpa já atingiu quase 100% de sua meta. Já são 59,2 milhões de hectares de áreas consolidadas. Isso representa 51% (em área) das unidades de conservação da Amazônia. Se forem consideradas apenas as áreas das unidades em categoria de manejo elegíveis pelo programa (Parque, Estação Ecológica, Reserva Extrativista, Reserva Biológica e Reserva de Desenvolvimento Sustentável), o número chega 87% de áreas protegidas beneficiadas.

Gestão

Coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA) e executado em parceria com agências de áreas de proteção federais e estaduais, instituições privadas e sociedade civil, o Arpa é gerenciado financeiramente pelo Funbio (Fundo Brasileiro para a Biodiversidade) e financiado com recursos do Global Environment Facility (GEF), do governo da Alemanha, da Rede WWF e do Fundo Amazônia, por meio do BNDES.

Para a secretária geral do Funbio, Rosa Lemos de Sá, um dos grandes diferenciais do programa é a continuidade do apoio e dos recursos. “Nesses 15 anos, nunca houve redução do orçamento, corte ou uma paralisação do programa. O fato do gestor ter uma garantia orçamentária, em que ele pode planejar, em médio e longo prazo, faz o diferencial na gestão. Governos têm orçamentos que variam, cortes, contingenciamento. O doador tem uma fidelização ao programa”, destacou Rosa.

População

O apoio do programa também gera benefícios que extrapolam os limites das unidades de conservação. As áreas no entorno de parques e reservas, bem como seus habitantes, experimentam mudanças significativas. “Um dos princípios fundamentais do Arpa é a gestão descentralizada e participativa, de modo a garantir mecanismos de participação das populações tradicionais e quilombolas, seus representantes e organizações interessadas nas ações que serão desenvolvidas. As UCs recebem apoio para a gestão participativa e a realização dos acordos de uso dos recursos naturais pelas populações usuárias, buscando integrar as populações beneficiárias e residentes em seu entorno na gestão destas áreas”, conta Renata Gatti.

Rosa Lemos reitera a importância do programa para as comunidades locais e para o entorno das unidades e acrescenta que “o mapa da Amazônia foi alterado com os resultados do projeto.  Os próximos anos serão focados na consolidação dessas UCs. Isso envolve não só as comunidades que existem dentro das unidades, mas também as comunidades do entorno. Então você promove uma participação muito mais ativa das comunidades nessa região, do que nas áreas que não são apoiadas pelo Arpa”, diz.

Segundo Antônio Paulo de Azevedo Sodré, presidente do Comitê do Fundo de Transição do Arpa, o principal objetivo do programa é conservar as áreas. “Nós trabalhamos com as comunidades porque achamos que elas têm um papel fundamental na manutenção da floresta. E o que a gente precisa mesmo é manter a floresta tão íntegra quanto possível, principalmente em questão, não só de clima, mas de biodiversidade”, reforçou.

O Programa Áreas Protegidas da Amazônia foi dividido em três fases distintas e já entrou na última etapa do processo. A previsão é de que, até 2039, mais de 60 milhões de hectares sejam conservados. A partir desse período, o governo federal assumirá o financiamento completo do programa.

Importância
Foto:Divulgação/MMA
Sodré explica, ainda, que a Floresta Amazônica funciona como uma espécie de caixa d’agua. Segundo ele, as nuvens despejam a água que vem da evaporação do oceano Atlântico na Amazônia. Essa água evapora e leva umidade para o Centro-Oeste brasileiro, os chamados rios voadores. “Uma árvore grande evapora mil litros de água por dia. Os chamados rios voadores são duas vezes maiores do que a vazão do rio Amazonas. É um volume de água absolutamente enorme, e se a gente perde a Amazônia a gente perde isso”, ressaltou Antônio Sodré.

O presidente do comitê tem a convicção de que a experiência bem-sucedida do programa pode ser repetida em outros projetos. “Seja no chamado Fundo Azul, para proteção de áreas marinhas, seja no Cerrado, onde podemos imaginar a criação de um grande projeto”, adiantou.

Futuro

Denominada “Arpa for Life”, a terceira fase do programa, que tem prazo de duração de 25 anos, tem previsão de investimentos na ordem de US$ 430 milhões. Segundo o diretor do Departamento de Áreas Protegidas do MMA, Warwick Manfrinato, esse será o período em que o governo federal deverá “buscar a sustentabilidade financeira do programa, menos dependente de doações internacionais”.

Entre 2003 e 2017, foram investidos mais de US$ 245 milhões na criação, expansão e fortalecimento de 114 unidades de conservação no bioma amazônico.  Para Warwick, o Arpa passou a ser um grande laboratório de inovação na gestão do governo. O diretor também compartilha da opinião de que o programa pode ser modelo para outros projetos. “As lições apreendidas podem servir de exemplo para programas em biomas como a Caatinga, Pantanal e até as áreas marinhas”, destacou.*Deixe o Portal Amazônia com a sua cara. Clique aqui e participe.

No Pará, pesquisas buscam aproveitamento do caroço de açaí

Não há um paraense que resista a uma tigela de açaí. Porém, essa paixão pelo fruto deixa tanto para o poder público como para a população um problema complexo: o que fazer com as toneladas do caroço, rejeito do açaí após a extração do sumo. Há alguns anos, pesquisadores de diversas áreas do conhecimento tomaram para si a missão de dar um destino proveitoso a esse resíduo. De produção de energia a tratamento para câncer, passando pela aplicação do rejeito da fabricação de móveis, o potencial da semente faz jus à importância do fruto para o estado. As informações são da Agência Pará.
Batedores encontram dificuldades para dar uma destinação correta ao resíduo (Foto:Nailana Thiely/Ascom-UEPA)
Um breve passeio pelos bairros periféricos da capital revela a dimensão do problema. São montanhas de caroço abandonadas à beira de canais ou dividindo espaço com pedestres pelas calçadas. Graças a abundancia de chuvas, muitas chegam a germinar, tornando-se pequenas palmeiras antes de serem finalmente retiradas das ruas. A Associação de Batedores de Açaí de Belém estima que existam cerca de dez mil pontos de venda de açaí na região metropolitana. A geração diária de caroço chega a expressivas 16 toneladas todos os dias.

Vale ressaltar que estes dados levam em conta apenas o consumo da capital e municípios vizinhos. O consumo do estado inteiro pode elevar estes números às milhares de toneladas ao ano. A nova Política de Resíduos Sólidos desobrigou as prefeituras de fazer a coleta dos caroços, transferindo a responsabilidade do despejo aos batedores, que muitas vezes encontram dificuldades para dar uma destinação correta ao resíduo.

Carvão vegetal

Para tentar mudar este cenário, pesquisadores da Universidade do Estado do Pará (Uepa) buscam alternativas para tornar atraente a manipulação do caroço do açaí. Uma delas realizada no Laboratório de Madeiras do Centro de Ciências Naturais e Tecnologia (CCNT) e concluída em março deste ano pelas engenheiras florestais, Ana Cláudia Batista e Elienara Rodrigues.
Uma das pesquisas realizadas no Laboratório de Madeiras do Centro de Ciências Naturais e Tecnologia (CCNT) foi concluída em março deste ano pelas engenheiras florestais Ana Cláudia Batista e Elienara Rodrigues (Foto:Nailana Thiely/Ascom-UEPA)
Orientadas pelo professor doutor em Engenharia de Recursos Naturais, Marcelo Raiol, a dupla estudou a produção de carvão vegetal de caroço de açaí, utilizando para isso um forno tipo iglu. “As propriedades termofísicas do carvão vegetal são diferenciadas quando produzidas neste tipo de forno. O teor de materiais voláteis, de cinzas, de carbono fixo e calorífico apresentam vantagens, o que significa que o carvão tem qualidade superior aos demais”, observa Elienara.

Quando temos um teor de cinzas menor, o carvão é mais indicado para uso doméstico, industrial e até para a redução do ferro-gusa, nome dado à matéria-prima do aço. “O minério de ferro é um óxido e precisa ter esse oxigênio retirado para que possa ser beneficiado. O carvão vegetal se coloca em posição de vantagem sobre o mineral por não possuir enxofre. Ao mesmo tempo em que faz a redução do minério de ferro, esse carvão também vai produzir energia, o que lhe confere uma ampla gama de aplicações”, acrescenta o professor. A substituição do carvão mineral, combustível fóssil e finito, é outro objetivo da indústria da mineração.

O forno tipo iglu foi escolhido não apenas por ter uma queima mais eficiente, mas também porque seria de fácil reprodução para interessados em investir no carvão de caroço de açaí. “A construção de um forno iglu é relativamente fácil e requer apenas cimento, sendo seu formato geométrico o responsável por esta queima mais eficiente. A pesquisa feita utilizando um forno acessível se aproxima muito mais da aplicação prática”, avalia Raiol. 
Ana Cláudia e Elienara estudaram a produção de carvão vegetal de caroço de açaí utilizando um forno tipo iglu (Foto:Nailana Thiely/Ascom-UEPA)
O alto rendimento do caroço enquanto matéria-prima para carvão também foi observado na pesquisa. “Tivemos uma redução de cerca de 20% da massa após a queima, o que indica o resíduo como matéria bastante promissora para este fim”, comenta Ana Cláudia. Isso significa que as emissões de gases – entre eles a água evaporada – são menores se comparadas a outros tipos de carvão vegetal, além de ter uma queima mais rápida em relação ao principal concorrente. “O eucalipto, por exemplo, é queimado em troncos inteiros. Logo, o caroço, que é bem menor, apresenta um processo com tempo reduzido”, completa.

Ainda assim, se aplicado o método científico, as emissões de gases para feitura do carvão de açaí se equiparam às de outros carvões vegetais. Mas já há tecnologia de ponta que possa ajudar a resolver este problema. ”É o caso do sistema de lavagem do gás ou de condensação dos fumos, que transforma essas emissões em produtos que podem ser utilizados na indústria farmacêutica. Isso aumenta o custo, mas o carvão pode, sim, ser produzido de forma verde”, informa o orientador. Originalmente francesa, a técnica já é aplicada em alguns países da Europa.

Raiol acredita que em no máximo 10 ou 15 anos, será necessário o plantio de espécies exclusivamente para obtenção de carvão vegetal. Neste cenário, o caroço de açaí pode ser um aliado, pois o Pará é produtor, consumidor e exportador nato de açaí. “O consumo de açaí pode responder por uma boa porcentagem de carvão, pois a geração de resíduos é bastante alta. Apesar disso, nem que todo o caroço de açaí paraense virasse carvão, conseguiríamos sustentar, por exemplo, a redução do ferro-gusa em uma planta. Mas seria uma ajuda valiosa”, ressalta Elienara. Em outras palavras, o carvão de açaí teria condições de absorver 100% dos resíduos produzidos no estado.
Se aplicado o método científico, as emissões de gases para feitura do carvão de açaí se equiparam às de outros carvões vegetais (Foto:Nailana Thiely/Ascom-UEPA)
Apesar de muito se falar sobre as aplicações industriais do carvão de açaí, o seu uso doméstico também é bastante recomendado, o que transforma a produção em pequena escala do carvão de açaí em um negócio viável. “O próprio batedor pode construir um forno para queimar seus resíduos, aproveitando tudo que o açaí tem para oferecer. O carvão obtido pode ser vendido ou utilizado em quaisquer outras aplicações dentro da propriedade, em substituição a outros tipos de carvão vegetal”, aponta Ana Cláudia.

A pesquisa ainda representa os primeiros passos nessa otimização do resíduo, mas já cumpre um de seus objetivos principais. “O despejo do caroço de açaí hoje representa um problema ambiental. O que motivou nossa pesquisa foi conseguir um meio de valorar este resíduo, para que ele possa ter uma destinação mais adequada e um papel maior na economia do Pará. Ou seja, ele deixa de ser lixo e passa a ser um produto com valor comercial”, conclui Elienara.

Móveis
A partir da coleta dos caroços descartados por batedores de açaí de Salvaterra, a pesquisadora Joseane Gonçalves Rabelo produziu assentos de bancos (Foto:Nailana Thiely/Ascom-UEPA)
Em Salvaterra, no Arquipélago do Marajó, o caroço do açaí foi pesquisado sob uma ótica diferente e ganhou outra utilidade. A partir da coleta dos caroços descartados pelos batedores artesanais de açaí do município, a pesquisadora Joseane Gonçalves Rabelo produziu assentos de bancos. A ideia de transformar o resíduo em móveis foi tema do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) da egressa de Tecnologia de Alimentos da Uepa.

Pouco menos de um quilo do caroço seco e triturado se transforma em um assento de bancos, inicialmente destinados a escolas públicas rurais do município, frequentadas normalmente por crianças carentes. O trabalho foi orientado pela doutora em Engenharia Agrícola, Carmelita de Fátima Amaral Ribeiro, co-orientado por Núbia Santos, e auxiliado pelo Técnico de Laboratório Rosivan Matos.

Joseane e Carmelita notaram também em Salvaterra o acúmulo de resíduos gerados pelos batedores artesanais que, por não terem nenhum tipo de beneficiamento, acabam ficando acumulados pelas ruas. “Isso traz poluição. Com o trabalho, a intenção é retirar esses resíduos, que nada mais são do que lixo depositado nas ruas, promovendo mau cheiro, atraindo ratos e gerando uma poluição visual cada vez maior”, diz a orientadora.

A produção do móvel se dividiu entre a coleta, lavagem e secagem ao sol dos caroços, por um período de 25 a 30 dias. Em seguida, eles foram triturados, peneirados, adicionados à cola branca e, posteriormente, enformados e prensados. A prensagem ocorreu no Laboratório de Design do CCNT, em Belém.

O resultado do processo foi uma chapa de conglomerado, moldada na altura, tamanho e espessura para o assento do banco usado pelas crianças. As pernas foram produzidas a partir da madeira típica da região, a Ananin. O banco foi testado até por adultos, que aprovaram a ideia. Carmelita informa que o material produzido a partir de resíduos agroindustriais de açaí é extremamente resistente.

“Eles ficaram prontos em menos de um dia, sendo que tem um tempo a mais de secagem dos materiais para poder montar. O banco mede aproximadamente 40 x 40 cm², já direcionado para as crianças. O material tem flexibilidade, durabilidade e pode ser usado na fabricação de qualquer móvel como mesas, cadeiras, estantes, além de quadros para paredes”, diz a orientadora.

Para Joseane, seria um sonho realizado poder produzir o móvel para as crianças em grande escala. Outra utilização que ela prevê para o aglomerado de açaí seria a produção de bancos também para as praças de Salvaterra. “A maioria dos bancos de concreto nas praças estão quebrados, sem falar nos colégios, que muitos não têm. O nosso produto era um que estava no lixo e hoje podemos reaproveitar”, ressalta.

Câncer

Engana-se quem pensa que o caroço de açaí tem apenas aplicações físicas para sua massa. Os estudantes do último ano de Medicina Vitor Nascimento, Jorge Paixão e Carla Lima decidiram contribuir para a redução do resíduo de forma diferente. Eles testaram a utilização do extrato obtido do caroço do açaí para o tratamento do câncer. “Partimos de alguns estudos que apontavam a presença de antioxidantes no extrato em quantidade até superior àquela encontrada na polpa, mas nenhum estudo publicado mostrava aplicação dele. Então, decidimos verificar se este antioxidante conseguiria combater os efeitos neoplásicos em ratos”, resume Jorge.

A pesquisa, patrocinada pelo Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic) do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), começou em 2014, com a professora doutora em Neurociências e Biologia Celular Kátia Kietzer como orientadora.

“A ideia de usar o extrato para melhorar o quadro neoplásico em ratos veio da literatura produzida no Laboratório de Morfofisiologia, que trabalha muito com os insumos da Amazônia. A questão da abundância do rejeito foi determinante para que escolhêssemos o extrato como tema”, revela Vitor.
Trabalho pioneiro com o uso da semente do açaí, utilizada de forma inédita na aplicação contra o câncer, deixou diversas hipóteses a serem exploradas (Foto:Nailana Thiely/Ascom-UEPA)
O extrato do caroço de açaí foi obtido por meio de uma parceria com o Laboratório de Engenharia Química da Universidade Federal do Pará (UFPA). O produto resultante do processo de prensagem é um óleo dissolvido em solução alcoólica, com objetivo de preservar suas características. O óleo foi então administrado em ratos por via oral, utilizando a gavagem – método em que o alimento é levado diretamente ao esôfago do animal. “Como o sabor do extrato não é palatável e nós precisávamos controlar a dose ingerida, optamos por essa via de administração”, justifica Carla.

Previamente ao início do tratamento, a equipe implantou e cultivou um tumor intraperitoneal – dentro da barriga - nos ratos para avaliar os efeitos anti-neoplásicos do extrato e os dividiu em grupos com e sem a suplementação. “Tivemos o cuidado de criar um tumor forte suficiente, para que a ação do extrato pudesse ser melhor quantificada”, aponta a pesquisadora. O processo inteiro durou um ano.

A análise levou em conta a síndrome caquética – o processo de enfraquecimento do organismo diante da doença, como o emagrecimento excessivo, perda de apetite e etc. Os pesquisadores avaliaram parâmetros bioquímicos nos ratos e o tamanho do tumor. “Na síndrome caquética tem uma coisa que a gente chama de estresse oxidativo, que é quando as células começam a produzir muitos oxidantes, que são lesivos. Então, nossa proposta era de que os antioxidantes presentes no extrato ajudariam a combater essa reação”, explica Jorge.

A observação dos resultados levou os pesquisadores a conclusões não previstas. “Não encontramos diferenças significativas nos parâmetros bioquímicos e na síndrome caquética em si, mas tivemos uma surpresa ao observarmos a redução na massa tumoral”, diz o pesquisador. “Concluímos que, sob as condições do experimento, o extrato do caroço teve mais efeito local sobre o tumor do que o efeito sistêmico, que era o esperado diante da análise da literatura”, completa Carla.

Trabalho pioneiro com o uso da semente, utilizada de forma inédita nesta aplicação, deixou diversas hipóteses a serem exploradas. “Por exemplo, o extrato foi alcoólico. Talvez em outro veículo tivesse outro efeito. É possível ainda que outro meio de aplicação traga novos resultados. Enfim, a nossa pesquisa deixou muitos caminhos que podem ser explorados mais adiante”, pontua Vitor.

O legado produzido por eles fica para quem prosseguir com este trabalho. “Nossa contribuição principal foi criar base para outros trabalhos que podem surgir a partir do nosso. O Laboratório de Morfofisiologia possui uma hoje linha de pesquisa na oncologia e na análise de plantas amazônicas. Muita coisa boa ainda pode sair daqui”, conclui Jorge.

Pescadores do Amazonas buscam alternativas para o pirarucu de manejo

Os pescadores do Amazonas estão desde 2015 pleiteando a inclusão do pirarucu de manejo na Política de Preços Mínimos da Sociodiversidade (PGPMBio). A proposta da entrada do peixe dentro do programa depende da autorização do Conselho Nacional Monetário. Porém, a lei n° 8427/1992, que dispõe sobre a concessão de subvenção econômica nas operações de crédito rural, só permite que produtos de origem vegetal sejam inclusos nessa política.
A discussão sobre a entrada do pirarucu de manejo dentro da PGPMBio, começou com um encontro promovido pelo Instituto Chico Mendes para Biodiversidade (ICMBio), entidade que tem incentivado a discussão sobre a Política de Preços Mínimos da Sociodiversidade do peixe, em junho de 2015.  A deputada federal Conceição Sampaio (PP/AM) apoiou. Já entraram na PGPMBio a produção de piaçava, cacau, andiroba, castanha e açaí, porém, o pirarucu ainda não faz parte.

A PGPMBio é um programa do governo federal para produtos da biodiversidade brasileira que não têm um mercado estruturado e precisam de subsídio público para um desenvolvimento social e econômico justos. Criada em 2009, a política permitirá que o pescador de pirarucu receba um bônus na venda do produto em que o preço pago pelo comerciante for inferior ao mínimo fixado pelo governo federal.
Foto: Síglia Souza/Embrapa
A deputada federal Conceição Sampaio (PP-AM) vem há algum tempo tentando incluir o pirarucu de manejo dentro da PGPMBio. Dentro da lei n° 8427/1992 apenas os produtos de origem vegetal podem ser incluídos na PGPMBio, por isso, em 2016 a deputada propôs uma ementa a Medida Provisória n°759/2016, apenas solicitando a entrada dos produtos de origem vegetal. Porém, por conta de alguns problemas a ementa não pôde ser aprovada, sendo assim criado um novo projeto de lei, o nº 7678/2017 que sendo aprovado, irá substituir a lei nº8427/1992.

"Nós estamos lutando pela inclusão desses produtores nessa política, tudo isso para promover a inclusão social desses pescadores. Porque são mais de mil famílias que dependem do pirarucu de manejo. Isso vai devolver a dignidade para esses produtores", comentou Conceição Sampaio, que informou que por se tratar de uma lei federal, a proposta vai beneficiar produtores de produtos de origem animal de todo o País.

Segundo Thomaz Meirelles, ex-superintendente da Conab e especialista na gestão da informação ao agronegócio, a não inclusão do pescado nessa política prejudica o pescador artesanal, pois o pescador vende seu peixe (pirarucu) por um valor muito abaixo do custo de produção, com um valor que não é justo. Contudo, para que a Conab possa pagar a subvenção da PGPMBio é preciso primeiro incluir o pirarucu de manejo nessa política. "A deputada federal Conceição Sampaio propôs mudança na legislação para que isso possa acontecer, mas falta incentivo por parte do governo do Estado", comentou.

Atualmente os pescadores ganham pouco com a venda do pirarucu, de acordo com Meirelles, os pescadores são mal remunerados, o que eles ganham não cobre o custo de produção. Ele deu como exemplo o preço mínimo do pirarucu levantado pela Conab há alguns anos atrás. Segundo a pesquisa, o peixe estava em torno de R$ 7,22, e o pescador vende por R$ 3 e R$ 3,50 o quilo. Se fizessem parte da lista de produtos amparados na PGPMBio, a Conab pagaria ao pescador a diferença entre o R$ 7,22 e R$ 3 ou R$ 3,50 e isso melhoraria a renda dessas famílias de pescadores.

A inclusão na PGPMBio trará benefícios a toda a cadeia produtiva do setor pesqueiro, principalmente ao pescador artesanal que a partir da inclusão, será melhor remunerado, atualmente, o pescador é o que menos ganha em todo esse processo de venda do pirarucu. "Com essa política a produção tende a aumentar ainda mais, pois o pescador estimulado por um preço justo produz mais, com isso todos ganham", lembrou o gestor de informação do agronegócio. O projeto de lei conta com o apoio do Ministério do Meio Ambiente e da Conab. Segundo informou a deputada federal Conceição Sampaio, o projeto já está na Comissão de Agricultura e será encaminhado para a Comissão de Finanças.

"A tramitação do projeto segue normalmente, sem nenhuma intervenção, temos o apoio de todos os setores ligados ao projeto, não posso estipular uma data, mas sei que em pouco tempo o projeto será aprovado e vai levar melhores condições ao pescadores da região Norte", finalizou a deputada federal.

Projeto Mundiar valoriza saberes tradicionais na aldeia Gavião Akrãtikatêjê

Os estudantes atendidos pelo Projeto Mundiar na aldeia Akrãtikatêjê, em Bom Jesus de Tocantins, município do sudeste paraense, encerraram nesta quinta-feira (23) as aulas de boas práticas voltadas ao manejo da castanha do Pará. A ação está inserida no Projeto Florestabilidade, que tem como objetivo promover entre os estudantes o aprendizado da disciplina Estudos Amazônicos.

Na aldeia Akrãtikatêjê, do povo Gavião da Montanha, 22 indígenas voltaram para a sala de aula no segundo semestre do ano passado – seis para concluir o ensino fundamental e 22 para o ensino médio, por meio do 'Mundiar', uma metodologia implantada em 2014 pela Secretaria de Estado de Educação (Seduc), em parceria com a Fundação Roberto Marinho, destinada a corrigir a distorção escolar idade/ano e reduzir repetência e evasão de alunos da rede pública de ensino.

Eliz Sampaio, professora da turma de ensino fundamental, e Loid Souza, responsável pela turma de ensino médio, disseram que a temática Florestabilidade foi abordada dentro do projeto com todos os 22 alunos, devido à importância da preservação da história do povo Akrãnikatejê, que está ligada à coleta da castanha do Pará. “A prática do manejo e a influência do fruto na vida deste povo, e sua importância econômica, social e ambiental, foram trabalhadas com o propósito de despertar nas futuras gerações de indígenas a vocação para carreiras florestais”, destacou Eliz Sampaio.
Foto: Reprodução/Agência Pará

Diversidade

O Projeto Florestabilidade apresenta conteúdos e metodologia que valorizam o saber tradicional, as técnicas e a diversidade de perfis profissionais presentes no manejo florestal. Segundo a professora Eliz Sampaio, o projeto também fomenta uma rede colaborativa entre profissionais, aspirantes à profissão e o mercado de produtos florestais, “para divulgar oportunidades de formação e trabalho, e compartilhar boas práticas, inclusive com a formação de cooperativas, que está entre as 30 profissões que podem ser desenvolvidas pelos povos da floresta”, destacou.

O projeto foi desenvolvido em duas etapas na aldeia. Na primeira foi utilizada a metodologia telessala, com a valorização de diferentes saberes e estímulo ao conflito produtivo e ao diálogo que transforma o ensino em aprendizado. “Em seguida, houve a parte de boas práticas, com a separação e higienização dos frutos, que foram descascados e embalados. Todo o processo foi anotado pelos estudantes”, informou Eliz Sampaio.

Língua mãe

Alunos Akrãtikatêjê e professores não indígenas estão tendo aulas da língua indígena Jé, do tronco Timbira, com Kátia Tonkiré, única cacique Gavião no Brasil. “O 'Mundiar' chegou como uma grande esperança para o meu povo concluir o ensino médio. Muitos dos estudantes estavam parados há dois anos. Estou também ensinando a eles a língua do nosso povo, pois o meu grande objetivo é que, após a conclusão do ensino médio, todos os 18 alunos entrem para a universidade e possam utilizar todo o conhecimento obtido nas universidades em prol do nosso povo, aqui dentro da nossa aldeia. Por isso, estou também colaborando com a formação deles, no aprendizado da nossa língua mãe”, disse Kátia Tonkiré.

A aldeia Akrãtikatêjê está formando mais uma turma de estudantes do Mundiar. Sete novos indígenas já procuraram a cacique para solicitar a matrícula.

No Dia Mundial da Floresta, Ministro defende uso sustentável de recursos

Preservação da biodiversidade, sobretudo da Amazônia, por meio da sustentabilidade e, não apenas, por ações de comando e controle. Esta foi a ideia defendida pelo ministro do Meio Ambiente, Sarney Filho, na manhã desta terça-feira (21). No Dia Mundial da Floresta, o ministro participou da premiação dos vencedores do IV Prêmio Serviço Florestal Brasileiro em Estudos de Economia e Mercado Florestal. O evento aconteceu no auditório da Confederação Nacional das Indústrias (CNI), em Brasília.

“Temos instrumentos para atuar nessa vertente. Mas ela não pode ser a única. Quando falha, o desmatamento dispara, como aconteceu nos últimos dois anos”, alertou.
 
Foto:Divulgação/Ascom-MMA
Sarney Filho entregou o prêmio ao vencedor da categoria Profissional, José Antônio Sena do Nascimento, com o trabalho Contas Econômicas Ambientais de Florestas-Ceaf: Uma proposta de trajetória metodológica e institucional para aplicação no Brasil.

A diretora de Relações Institucionais da CNI, Mônica Messenberg, disse que a indústria tem interesse no desenvolvimento do setor florestal brasileiro baseado nos parâmetros da sustentabilidade. “A parceria com o Ministério do Meio Ambiente é estratégica para isso. Precisamos ter um diferencial competitivo e instrumentos como o Cadastro Ambiental Rural (CAR) e o Sistema Nacional de Controle da Origem e dos Produtos Florestais (Sinaflor) são esforços fundamentais do governo nessa direção”, disse.

Concessões

De acordo com o ministro, o Brasil tem a necessidade de uma nova visão sobre a biodiversidade, baseada na preservação dos serviços ecossistêmicos dos biomas, e o ministério está reforçando sua atuação nesse sentido.

Sarney Filho afirmou que a pasta aumentou o número de concessões florestais desde o início de sua gestão e defendeu ainda as iniciativas de manejo como forma de dar sentido econômico às florestas. “Quando se fala em atividade florestal, se fala naquilo que nós desejamos, acrescido à inclusão social e ao combate à pobreza ao mesmo tempo em que os serviços ambientais são mantidos”, disse.

De acordo com ele, a participação da sociedade civil, produtores, órgãos institucionais e federados, estados e municípios é fundamental para que a estratégia mude a relação do Brasil com suas florestas. “Essa luta é para defender os direitos difusos da sociedade e das pessoas que ainda nem nasceram”, afirmou.

Prêmio

A IV edição do Prêmio teve 50 inscritos. Realizado pelo Serviço Florestal Brasileiro em parceria com a Escola de Administração Fazendária (ESAF) e Confederação Nacional das Indústrias (CNI), o objetivo é estimular a produção de estudos de economia e mercado florestal.

Para discutir a temática da produção florestal sustentável na academia e nos setores produtivos o concurso tem como tema a Economia e os Mercados Florestais – e subtemas variados.Além de promover o debate econômico sobre o uso produtivo e sustentável das florestas brasileiras, o SFB pretende criar um portfólio de estudos para ser utilizado pelo órgão para o aprimoramento de políticas públicas.

Foram distribuídos R$ 53 mil entre os ganhadores. Na categoria Profissional, R$20 mil, R$10 mil e R$8 mil ao primeiro, segundo e terceiro lugares respectivamente. Os ganhadores da categoria Graduando recebem R$ 7 mil, R$ 5 mil e R$ 3 mil.
Veja aqui os premiados.

Cigarrinhas são desafio para manejo e sustentabilidade das pastagens em Rondônia

Imagine não conseguir assistir televisão em paz, nem manter o chão da sua casa limpo. Imagine centenas de pequenos animais voando ao redor de todas as lâmpadas da casa. Seria incômodo, não? Agora, imagine o sustento de milhares de trabalhadores e de uma das principais atividades econômicas e sociais do estado ameaçados por esses mesmos animais. Pois é isso, exatamente, o que vem ocorrendo em escala alarmante em Rondônia – e nos estados vizinhos. Essa descrição é do pesquisador da Embrapa, César A.D. Teixeira, que explica que esses pequenos animais responsáveis por tantos danos são conhecidos como cigarrinhas-das-pastagens.

"Elas são velhas conhecidas dos pecuaristas e dos produtores que se dedicam a cultivos como cana-de-açúcar, arroz e milho. São insetos que se alimentam sugando os colmos (tipo de caule das gramíneas) tanto durante a sua fase juvenil, quanto na fase adulta da vida, quando além de sugar, também, injetam toxinas nas plantas", descreve o pesquisador.
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Segundo Teixeira, para complicar, "as cigarrinhas atuam durante a estação das chuvas, impedindo que as pastagens desenvolvam, na plenitude, seu potencial de crescimento, justo quando os rebanhos mais precisam de alimento". Entre outubro e abril, nas condições ambientais de Rondônia, as cigarrinhas podem desenvolver até cinco picos (gerações) de ataque.

Mas, por que as cigarrinhas não atacam no período entre maio e setembro? A resposta está em uma peculiaridade destes insetos. "Como sugadores, cigarrinhas precisam de plantas tenras para se alimentar. Entre maio e setembro, período praticamente sem chuvas, as plantas da pastagem apresentam seca natural, o que não significa que estão mortas, mas a rigidez dos colmos torna-as inviáveis como alimento para estes insetos e para o gado", explica.

"Para sobreviver a esta estação, as cigarrinhas desenvolveram um modo de vida em que uma parte significativa dos ovos colocados durante o período chuvoso, apresenta dormência (um tipo de hibernação durante a estação seca). São esses ovos dormentes que darão início às novas gerações das cigarrinhas na próxima estação chuvosa. Deste modo, logo após as primeiras chuvas, quando o pasto passa a rebrotar, as formas jovens (ninfas) das cigarrinhas passam a eclodir (sair dos ovos), formando o seu primeiro pico populacional", completa.

Danos 

Teixeira enfatiza que, com frequência, no primeiro pico de ataque os danos são menos visíveis, uma vez que a população inicial da praga tende a ser a menor da nova estação. "De qualquer modo, as plantas sugadas pelas cigarrinhas secam, tomando aspecto de queimadas. Com o aumento do ataque, percebem-se touceiras com o mesmo aspecto. Se não houver sido planejada – e executada – nenhuma ação de controle (manejo) dos insetos e, se as condições ambientais se mostrarem favoráveis, sem dúvida os próximos picos da estação serão cada vez maiores e mais danosos", afirma.

Havendo os surtos, com altas populações das cigarrinhas, pastagens inteiras podem se apresentar queimadas. "A principal consequência desse processo é a redução da massa de capim verde, levando à diminuição da produção dos rebanhos (de leite e de carne). As perdas podem ser temporárias, com a rebrota normal do capim algum tempo depois do ataque. Porém, altas populações de cigarrinhas podem chegar a comprometer todo o planejamento, inviabilizando as pastagens para a manutenção dos rebanhos na propriedade", aponta o pesquisador.

Manejo 

Assim, para evitar ou reduzir os danos às pastagens e, por consequência aos rebanhos, Teixeira afirma que o pecuarista precisa conhecer as diversas alternativas de controle que – em conjunto – constituem o Manejo Integrado das Cigarrinhas.

"Porém, antes de considerarmos o manejo, é preciso termos clareza de que, atualmente, o Estado de Rondônia apresenta a presença destes insetos em todas as suas regiões. Por um lado, isso implica que há significativas áreas com ataque intenso da praga. Entretanto, convém frisar que é possível termos propriedades ainda sem o inseto ou, mesmo, com a presença do inseto, mas ainda sem danos econômicos às pastagens. Tão importante quanto, é estarmos cientes de que não existe uma receita simples ou algum tipo de ação única que impeça o ataque das cigarrinhas", especifica.

O pesquisador informa que a ferramenta básica do Manejo Integrado é a amostragem periódica das áreas de pastagem, "o que irá permitir conhecermos a dinâmica populacional da praga no local". A amostragem é feita percorrendo semanalmente (ou quinzenalmente) as pastagens, realizando, segundo metodologias apropriadas, a coleta e a contagem das cigarrinhas presentes em dado momento (para detalhes, recomenda-se consultar um Agrônomo ou Zootecnista).
Foto: Kadijah Suleiman
A partir dos resultados das amostragens, o pecuarista deverá lançar mão das alternativas de controle com maior potencial de ação sobre o inseto em sua propriedade, explica Teixeira. Acima de tudo, é preciso que o pecuarista entenda que as ações de manejo desta praga devem ser iniciadas quando, ainda, não há cigarrinhas sugando os pastos. Por isso, além de ações típicas da estação das chuvas é preciso agir, preventivamente, também, durante a estação seca.

As principais ações de manejo são:

-Diversificação das espécies usadas para pastagem;
-Utilização de espécies forrageiras resistentes;
-Uso de sementes certificadas pelo Ministério da Agricultura para garantir a sanidade dos cultivos;
-Adubação de formação e manutenção das pastagens;
- Divisão das pastagens;
-Promoção do consórcio de gramíneas com leguminosas forrageiras;
-Promoção da rotação de cultivos;
-Adoção do ILP/ILPF (Integração Lavoura Pecuária Florestas);
-Emprego do manejo rotacional do rebanho;
-Uso de formulações do fungo Metarhizium anisopliae no controle biológico da praga;
-Uso de inseticidas químicos registrados no Ministério da Agricultura;
-Manutenção de faixas de vegetação nativa entre as áreas de pastagens, para a preservação de inimigos naturais;
-Não realizar queimadas nas pastagens para a preservação de inimigos naturais.

Futuro

"Frente ao recrudescimento do problema das cigarrinhas, o governo de Rondônia está promovendo um trabalho conjunto, envolvendo Secretaria de Estado da Agricultura (Seagri), Emater-RO, Idaron, Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (Mapa), Embrapa e da Associação dos Produtos Rural de Rondônia (Appro), buscando fortalecer o manejo da praga no Estado. Nas próximas semanas, serão realizados treinamentos e palestras para técnicos, extensionistas, pecuaristas, profissionais e estudantes, com objetivo de atualização no reconhecimento da praga e das ações de manejo integrado. Serão realizadas campanhas, através das diversas mídias disponíveis, para a mobilização dos pecuaristas frente ao problema", adianta o pesquisador.

Ainda que novas cultivares de pastagens resistentes estejam chegando ao mercado, a experiência adquirida desde os anos 1970, mostra que nas condições de Rondônia, cada um dos pecuaristas precisa estar atento e atuante. "Em longo prazo, o manejo das cigarrinhas, em cada uma das propriedades onde se pratica a pecuária bovina, se mostra como o único caminho seguro para a sustentabilidade de nossas pastagens", afirma.