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Quarta, 12 Mai 2021

Acre propõe primeiro programa de pagamento de crédito de carbono com recursos da própria região

Em uma atitude inédita que será apresentada nos próximos dias junto ao projeto de desenvolvimento da Zona Especial para o Desenvolvimento Agropecuário dos Estados do Acre, Amazonas e Rondônia (Amacro), o Governo do Estado irá propor a criação do primeiro programa de pagamento de crédito de carbono com recursos da própria Zona.



A Amacro é um audacioso projeto dos três estados para consolidar a criação de uma nova região próspera, sobretudo por meio da produção agrícola e diversos outros setores do agronegócio. A riqueza gerada com o agronegócio seria utilizada para dar sustentabilidade ambiental, contribuindo com as demais fontes de recursos já existentes e assim tornando as políticas ambientais mais sólidas e sustentadas com a riqueza da própria região.




O desenvolvimento do projeto conta com o apoio da Embrapa Territorial, que está finalizando a proposta de como vai funcionar efetivamente a Amacro. Nos dias 9 e 10 será realizada uma reunião, na sede da instituição em Campinas (SP), para uma revisão do projeto da Amacro antes da apresentação da versão final para a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, prevista para ocorrer até o final do mês de setembro.

Foto: Reprodução/Agência Acre
 

Segundo o secretário de Produção e Agronegócio, Paulo Wadt, o objetivo da proposta é a construção de um fundo financeiro com recursos que venham das atividades desenvolvidas dentro da Amacro. Ele seria voltado exclusivamente para o apoio dos extrativistas e proteção de terras indígenas e áreas de proteção ambiental.
“Todo o dinheiro desse fundo virá da arrecadação de dentro da própria Amacro. Essa é uma proposta inédita para que sejamos capazes de realizar o desenvolvimento econômico dessa região, entre os três estados, no âmbito do agronegócio e ainda assim mantendo a preservação ambiental, sem aumentar o desmatamento”, conta Paulo Wadt.


A medida seria similar às propostas de pagamento de créditos de carbono que hoje são pagos exclusivamente por governos e entidades internacionais, o que resultaria na diminuição da dependência desses recursos para a melhoria da qualidade de vida de extrativistas, indígenas e para a proteção de florestas.


Como funciona o crédito de carbono


A partir dos anos 2000, entrou em cena um mercado voltado para a criação de projetos de redução da emissão dos gases que aceleram o processo de aquecimento do planeta.


Trata-se do mercado de créditos de carbono, que surgiu a partir do Protocolo de Quioto, acordo internacional que estabeleceu que os países desenvolvidos deveriam reduzir, entre 2008 e 2012, suas emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) 5,2% em média, em relação aos níveis medidos em 1990.


O Brasil ocupa a terceira posição mundial entre os países que participam desse mercado, com cerca de 5% do total mundial e 268 projetos. A expectativa inicial era absorver 20%. O mecanismo incentivou a criação de novas tecnologias para a redução das emissões de gases poluentes no Brasil.

Microrganismos são os maiores emissores de carbono em águas da Amazônia

Um novo estudo verificou que a teia alimentar microbiana responde pela maior parte do carbono circulante em lagos, várzeas e planícies inundáveis da Amazônia. Apoiado pela Fapesp, o estudo foi publicado na revista Hydrobiologia.

“Nosso trabalho concluiu que a quantidade de carbono que circula na teia alimentar microbiana das regiões alagáveis amazônicas é até 10 vezes maior do que o carbono circulante na cadeia alimentar clássica, que envolve fitoplâncton e zooplâncton”, disse Hugo Miguel Preto de Morais Sarmento, professor no Departamento de Hidrobiologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

Pela sua enorme extensão, a Amazônia tem papel fundamental no ciclo de carbono do planeta – que precisa ser compreendido para se poder mensurar a dimensão e as consequências das mudanças climáticas globais. Daí a importância de quantificar os estoques e fluxos de biomassa das diversas cadeias alimentares amazônicas, terrestres ou aquáticas.
 
Foto: José Renato Venâncio Resende/Wikimedia Commons 
A maioria dos estudos que buscam quantificar o ciclo de carbono na Amazônia parte da análise da biomassa terrestre (plantas e animais) ou então da biomassa na água dos grandes rios, como o Solimões.

Até o momento, poucos trabalhos científicos investigaram a participação no ciclo do carbono da biomassa presente em águas das regiões alagáveis, que abrangem nada menos do que 20% de todo o bioma amazônico. E esses estudos levam em conta apenas o ciclo de carbono da cadeia alimentar clássica, que inclui fitoplâncton (produtores primários) e zooplâncton, peixes e invertebrados (consumidores primários, secundários e detritores).

O novo estudo investigou a chamada teia alimentar microbiana, que se refere às interações tróficas combinadas entre todos os microrganismos em ambientes aquáticos, o que inclui bactérias, algas microscópicas (fitoplâncton), microrganismos unicelulares como ciliados (protozoários) e flagelados, além de invertebrados.

“Nosso trabalho buscou verificar e quantificar no sistema amazônico as interações na teia alimentar microbiana em dois momentos, na estação úmida, quando o nível das águas é mais elevado e a teia alimentar é mais simples (menos interações), e na estação seca, quando a quantidade de água é menor e a teia alimentar se torna mais complexa, com mais interações”, disse Sarmento.

Para coletar o material do estudo, os pesquisadores elegeram o Puruzinho, um lago muito estreito e sinuoso de quase 8 quilômetros de comprimento que fica num afluente do rio Madeira, no estado do Amazonas. Foram coletadas 30 amostras de água cerca de meio metro abaixo da superfície, no fim de maio de 2014, durante o final da época chuvosa na Amazônia, quando as áreas inundadas atingem seu nível máximo, e no final de outubro do mesmo ano, na estação seca, quando o nível do lago é o mais baixo.
 
"O lago é raso, com profundidade máxima de 11 metros. Portanto, não há diferença relevante na composição microbiana das águas coletadas a meio, a 2 ou a 5 metros de profundidade, uma vez que a coluna de água é homogênea. Seria diferente caso o lago fosse mais profundo, com a formação de duas ou mais camadas de água com temperatura e oxigênio dissolvido diferentes", disse Sarmento.

Biodiversidade desconhecida

No laboratório, foi feita a contagem da quantidade de bactérias, de fitoplâncton, de ciliados e flagelados e de zooplâncton presentes nas amostras.

Sarmento explica que, em 1 mililitro de água do lago (equivalente a três gotas), espera-se encontrar cerca de 1 milhão de bactérias. Já os vírus, muito menores (e que não foram contabilizados no trabalho), são cerca de 10 milhões. Quanto ao fitoplâncton, há cerca de 10 mil na mesma quantidade de água. No caso do zooplâncton, trata-se de organismos muito maiores, alguns inclusive visíveis a olho nu. Daí o que se espera é encontrar cerca de 10 animais do zooplâncton em 1 litro de água do lago.

"No caso do fito e do zooplâncton, a contagem é feita com microscópio óptico invertido, contando e medindo os organismos um a um. No caso das bactérias, usamos o citômetro de fluxo, o mesmo equipamento usado em laboratórios de análises clínicas para contar a quantidade de plaquetas e células no sangue”, disse o pesquisador.

Outro passo importante da pesquisa foi fazer o rastreamento (screening) genômico, de modo a determinar quais são os diferentes grupos de bactérias na amostra – descrito em outro artigo publicado recentemente pelo mesmo laboratório na revista Freshwater Biology (Flood pulse regulation of bacterioplankton community composition in an Amazonian floodplain lake). O trabalho mostrou que as bactérias, além de numerosíssimas, são muito diversas e variam muito de tamanho.

Para estimar o total de carbono nas amostras de forma precisa, foi necessário verificar quais eram os grupos de bactérias presentes e as quantidades de cada uma, de modo a poder inferir quanto cada grupo aporta de carbono no cômputo geral.

“O rastreamento genômico revelou outro dado muito interessante. Cerca de 60% das bactérias nas amostras pertenciam a espécies e gêneros ainda desconhecidos. Muitos microrganismos só identificamos no nível da família. Seus gêneros permanecem desconhecidos. Isso demonstra o quanto ainda não se sabe sobre a biodiversidade microbiana nos rios e lagos da Amazônia”, disse Sarmento.
 O passo seguinte foi estimar o total da biomassa microbiana (do carbono) que existe, em média, em cada mililitro de água do lago Puruzinho, coletada na estação chuvosa e na estação seca.

Foi assim que os pesquisadores puderam constatar a diferença de uma ordem de grandeza entre as quantidades de carbono da teia alimentar microbiana nas águas do lago (em média 245,5 microgramas por litro) e da cadeia alimentar clássica (24,4 microgramas por litro), formada por fito e zooplâncton.

Em outras palavras, 90% da quantidade de carbono no lago Puruzinho circula na teia alimentar microbiana. Se essa mesma relação servir de parâmetro para estimar o total de carbono circulante na teia alimentar microbiana de todas as áreas alagáveis da Amazônia, o que se verifica é que, sob qualquer ponto de vista, a quantidade de carbono na região ainda é muito subestimada.

Outro dado curioso que despontou da análise geral dos resultados foi a constatação de que a grande maioria dos microrganismos da teia alimentar microbiana no Puruzinho, tanto em diversidade como na quantidade de carbono acumulado, é formada por heterotróficos, ou seja, consumidores primários, secundários e detritores.

Os microrganismos autotróficos – algas unicelulares que constituem o fitoplâncton e que realizam fotossíntese – perfazem um volume incompatível com o sustento da teia alimentar do lago.

De acordo com o estudo, os produtores primários microbianos do lago não são em número suficiente para metabolizar o carbono necessário para sustentar a teia alimentar lá existente. A dúvida é de onde vem a maioria do carbono utilizado pelos consumidores microbianos primários e secundários.

"Nossa hipótese é que a maior parte do carbono nas águas do Puruzinho seja proveniente de folhas, material em decomposição e partículas orgânicas do húmus e da serapilheira da floresta circundante”, disse Sarmento.

"Na ausência da teia trófica microbiana, todo esse carbono acumularia no fundo do lago e ficaria sequestrado no lodo e no sedimento. Mas o que se verifica é que muito do carbono que escorre das margens é reciclado na cadeia microbiana, retornando para a atmosfera nas formas de gás carbônico e de metano, que são gases do efeito estufa. Cada elemento desta teia trófica participa do ciclo de carbono na atmosfera”, disse.

Agora que os pesquisadores sabem quais são os integrantes da teia trófica microbiana no lago Puruzinho, os próximos passos da pesquisa envolvem descobrir o que aquelas bactérias estão fazendo.

“Queremos entender a ligação da matéria orgânica terrestre com os sistemas aquáticos e saber de onde vem toda a matéria orgânica consumida no lago. Queremos também saber especificamente o que é produzido no lago e o que é proveniente da floresta, de modo a entender melhor os fluxos de carbono na Amazônia”, disse Sarmento.

Participaram da pesquisa publicada na revista Hydrobiologia cientistas das universidades federais de Juiz de Fora, do Rio de Janeiro e de Rondônia e da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. O trabalho também contou com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).
 

Pesquisadores apontam colapso nos estoques de carbono na Amazônia

Pesquisa da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) revela que o desmatamento está causando colapso nos estoques de carbono na Amazônia. As extensas áreas de floresta que estão sendo convertidas em lavouras de soja no sul da Amazônia são responsabilizadas pelo desastre iminente.

A descoberta foi publicada online na revista científica Forest Ecology and Management por pesquisadores da Unemat, da Universidade de Brasília (UnB), da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e da Universidade de Leeds, do Reino Unido. A edição impressa circula no próximo dia 15 de março. O artigo intitulado "Collapse of ecosystem carbon stocks due to forest conversion to soybean plantations at the Amazon-Cerrado transition", em português "Colapso dos estoques ecossistêmicos de carbono devido à conversão de florestas em monoculturas na transição Amazônia-Cerrado", aponta o quão séria é a situação.

Os autores do artigo revelaram perdas totais de carbono para o cultivo de soja na Amazônia acima de 130 toneladas por hectare, além de um contínuo decréscimo no carbono do solo por mais de 30 anos. "O problema é que quase todo este carbono é lançado na atmosfera após o desmate, aumentando o efeito estufa e as mudanças climáticas", alerta o professor da Unemat e doutor em Ecologia, Ben Hur Marimon Junior. Ele é autor-correspondente do estudo e orientador da autora principal, a doutoranda em Ecologia e Conservação pela Unemat, Isabelle Bonini.

Os pesquisadores explicam que o carbono é o principal componente dos seres vivos e essencial para a fotossíntese, mas que o excesso na atmosfera se torna desastroso para o equilíbrio climático. "Grande parte do estoque de carbono está nas árvores, mas o solo pode conter até cinco vezes mais do que isso e sua liberação da forma com que registramos representa um verdadeiro colapso", revela Ben Hur.  
Foto: Divulgação / Agência Brasil
Isabelle Bonini, que investiga os efeitos das mudanças de uso da terra sobre a pluviometria, o estoque de carbono e ciclagem de nutrientes em diferentes compartimentos de sistemas florestais e agroecossistemas na transição Amazônia-Cerrado, sugere o cultivo de seringueiras como alternativa para o colapso iminente. "A conversão de floresta em seringais seria uma opção menos impactante que a soja, já que apresenta perdas três vezes menores, com 48,5 toneladas por hectare, com a previsão de recuperação de 84% dos estoques de carbono após 30 anos de cultivo", explica Bonini.

Os pesquisadores destacam ainda que os aumentos nas emissões de dióxido de carbono (CO2) do solo após o desmate podem chegar, até 2050, a cinco gigatoneladas em toda a Amazônia, valor equivalente ao dobro das emissões anuais globais de carbono por desmatamento e 1,5 vezes mais do que todas as emissões anuais do Brasil.

No intuito de reverter a situação, os pesquisadores apontam estratégias. O professor Fabiano Petter, da UFMT, câmpus Sinop, que também assina o artigo, defende as boas práticas agrícolas como alternativas mais eficazes ao desmatamento na Amazônia, especialmente a integração lavoura-pecuária (ILP). E o professor Ben Hur reitera: "Temos a convicção de que é possível mais do que dobrar a produção agropecuária da fronteira agrícola brasileira sem derrubar uma única árvore, apenas integrando parte dos mais de 30 milhões de hectares de pastagens degradadas da região Centro-Oeste ao sistema ILP".

Bolsista do INPA participa da COP 23

Yasmin Amaro, bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic) do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTIC),  foi selecionada para participar da 23ª Conferência das Partes (COP 23) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças no Clima. A Conferência segue até o dia 17 de novembro, na cidade de Bonn, Alemanha.
Foto: Divulgação / Yasmin Amaro
Orientada pela pesquisadora-bolsista de pós-doutorado, Dra. Maria Terezinha Monteiro, ligada ao Programa de Pós-Graduação em Clima e Ambiente (PPG-Cliamb), Amaro estuda uma metodologia que possibilitará armazenar amostras de água para análise de carbono orgânico dissolvido por um longo período de tempo sem perder suas qualidades química; possibilitando dessa forma, a obtenção de dados mais precisos para o entendimento do ciclo do carbono. 
“A pesquisa em estudo muito contribuirá para futuros projetos que utilizarão de análises químicas para o entendimento da dinâmica do ciclo do carbono no contexto de mudanças climáticas”, explica Monteiro.
Conforme a pesquisadora, a importância do carbono e de seus compostos é indiscutível. “Este é onipresente na natureza a partir de proteínas e carboidratos que são essenciais para a matéria viva, sendo fundamental na respiração, fotossíntese e regulação do clima”, diz acrescentando ainda que existe uma grande variedade de compostos de carbono envolvidos no seu ciclo global.
  Segundo a estudante, com os crescentes estudos sobrea concentração de carbono na atmosfera, o interesse das pessoas em entender o ciclo de carbono e como ele influencia nas mudanças climáticas vem aumentado gradativamente.
    
Foto: Divulgação / INPA
Amaro estuda e analisa a variação temporal do carbono orgânico dissolvido em água, em amostras coletadas em igarapés de segunda ordem na Base de Pesquisa do Programa de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia (LBA), a ZF-2, situada no km 34 da BR-174 (Manaus-Boa Vista).
Para a pesquisadora do Inpa, a participação da Yasmin na COP 23 é muito positiva. “É uma conquista para ela, uma vez que está inserida no programa de iniciação científica do Inpa e é a primeira representante do Amazonas nessa conferência”, diz Monteiro, ao acrescentar que é raro se ver um aluno de Pibic se interessar por um assunto de uma grandiosidade desse porte.
Na opinião de Amaro, a oportunidade de participar da COP 23 não poderia ter vindo em melhor hora. “No momento em que nos deparamos com o “leilão” que estão querendo fazer da Amazônia, as ameaças aos nossos recursos minerais e tantos outros absurdos, se faz necessário discutirmos e sermos ouvidos”, diz.A Conferência reúne diversos líderes mundiais com o objetivo de discutir soluções para as mudanças climáticas e fazer com que os países cheguem a um acordo multilateral, além das discussões são colocadas em pauta novas descobertas científicas relacionadas à temática.

Estudo mapeia recuperação de carbono na Amazônia

Foto: Divulgação/USP Imagens
Foi realizado o primeiro mapeamento de recuperação de carbono nas florestas amazônicas e emissões lançadas pela atividade de colheita de madeira comercial na Amazônia. O estudo foi publicado no periódico eLife pela rede pan-tropical de pesquisadores chamada Observatório de Florestas Tropicais Manejadas (TmFO), que congrega 19 instituições internacionais, entre elas a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP.

Entre os cientistas está o professor do Departamento de Ciências Florestais da Esalq, Edson Vidal, que explica que foram estudados dados de longo prazo de 133 parcelas permanentes de 13 sites experimentalmente perturbados em toda a Amazônia para modelar as alterações nos estoques de carbono acima do solo nas primeiras décadas após o manejo florestal com exploração de impacto reduzido. “Os resultados mostram que, para algumas florestas manejadas as árvores sobrevivendo podem ser mais confiável para armazenar as emissões de carbono do que árvores recém recrutadas (árvores juvenis que regeneraram naturalmente nas florestas manejadas)”.

Segundo Vidal, a colheita de madeira por meio de manejo florestal com exploração de impacto reduzido fizeram com que as árvores das florestas ao norte da Amazônia recuperam sua capacidade de absorver CO2 da atmosfera mais rapidamente que as das florestas do sul.

O docente enfatiza também as implicações práticas desses resultados para a conservação da Amazônia. “Os resultados levam ao reconhecimento de que o Manejo Florestal com Exploração de Impacto Reduzido pode ser uma atividade econômica que, além de gerar conservação e desenvolvimento, ainda poderá contribuir para redução das emissões de gases do efeito estufa quando árvores sadias sobrevivendo na floresta remanescente são preservadas”.

Além da dinâmica de CO2 diante da atividade madeireira, o estudo contribui ainda com o conhecimento sobre o comportamento da floresta diante de incêndio. “Nossas descobertas também podem dar pistas úteis para prever respostas das florestas com relação à perda de carbono por incêndios e outros eventos provocados pela mudança climática, que ironicamente é causada em parte pela perturbação em massa pelo desmatamento”, reforça.

Os estudos nessa linha continuam procurando agora respostas sobre a recuperação do volume de madeira nas áreas manejadas na Amazônia internacional; o nível de resiliência das florestas tropicais a distúrbios do manejo florestal com exploração de impacto reduzido; valoração para a conservação das florestas naturais; relação entre sustentabilidade econômica e ambiental e a variação do comportamento florestal nas várias regiões e continentes.

Pesquisa avalia características de árvores da Amazônia e estoques de carbono

Estudo busca gerar estimativas mais confiáveis de estoques de carbono. Foto: Érico Xavier/Fapeam
Entender as variações de densidade da madeira e de altura de árvores de espécies dominantes na Amazônia brasileira, com a finalidade de gerar estimativas mais confiáveis de estoques de carbono. Este é o objetivo do projeto de pesquisa da doutora em Ecologia e Biologia Tropical, Juliana Schietti.

De acordo com Juliana, a motivação desta pesquisa iniciou no doutorado, quando ela estava estudando a floresta ao longo da BR-319, estrada que liga Manaus (AM) a Porto Velho (RO), e observou que havia mudanças na altura da floresta, mas que essas não eram resultado de mudanças nas espécies ao longo da área.

“Foi daí que comecei a investigar o porquê dessa mudança na altura da floresta. Isso poderia ser resultado de variações na altura de árvores das mesmas espécies que ocorrem ao longo da estrada. Além disso, um estudo do qual eu fiz parte estimou que a Amazônia possui 16 mil espécies de árvores, mas que apenas 1% dessas espécies corresponde à metade das árvores da Amazônia, e é nessas espécies que nós estamos focando para entender essas variações de altura”, disse.

Segundo Juliana, essas espécies dominantes têm uma grande importância para entender a bioquímica da floresta, como por exemplo, os estoques de carbono, e muitas delas têm utilidade para o homem. Portanto, conhecê-las ajudará a entender melhor como a floresta funciona e como isso vem afetar diretamente a sociedade, pelo manejo dessas espécies, por exemplo.

Entender as variações na altura e densidade da madeira das árvores é relevante para os cálculos de biomassa, quantidade que cada árvore armazena de madeira, matéria, carbono etc, e com isso, quantificar o valor da floresta em pé no mercado de carbono ou verificar em um desmatamento ou queimada, o quanto foi perdido de biomassa e o quanto de carbono poderá ser liberado para a atmosfera, podendo influenciar no clima da Amazônia, do Brasil e no clima global.

Novas possibilidades

Os impactos dessa pesquisa, de acordo com Juliana, serão indiretos para a sociedade, mas afetarão diretamente a comunidade científica, pois poderá alterar a maneira como os cálculos de estoques de biomassa e carbono são feitos. Atualmente os cálculos não consideram diferenças dentro de espécies e, de acordo com Schietti, se for encontrado variações entre árvores de espécies dominantes, então isso deverá ser considerado nos levantamentos de campo e nos cálculos de biomassa futuros.
Impactos serão sentidos diretamente pela comunidade científica. Foto: Érico Xavier/Fapeam 
“Quando o Brasil libera anualmente as estimativas de desmatamento, o passo seguinte é calcular quanto de biomassa florestal foi perdida e quanto de carbono poderá ser liberado para a atmosfera, contribuindo para o efeito estufa. Para ter estimativas confiáveis, é preciso conhecer as características do ambiente, das florestas e de suas espécies”, explicou a doutora.

O solo, a quantidade de água existente nele e o clima podem influenciar quais espécies estão presentes e as suas características, o que por fim afeta os estoques de biomassa e carbono da floresta. Portanto, é preciso entender isso tudo para se chegar a estimativas confiáveis. Além disso, os resultados dessa pesquisa poderão ser utilizados em manejo florestal também, porque poderá ser possível conhecer melhor as espécies e, com isso, ter bases ecológicas para os planos de manejo de recursos madeireiros, por exemplo.

O estudo é fomentado pelo Governo do Amazonas, por meio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), através do Programa de Apoio à Pesquisa – Universal Amazonas, em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e o Centro de Estudos Integrados da Biodiversidade Amazônica (CENBAM).

Para a pesquisadora, o incentivo da Fapeam vem colocar o Amazonas na liderança em pesquisas científicas na região, atendendo a demandas locais, que devem estar entre os principais objetivos. “Fazer pesquisas voltadas para o benefício da nossa região é possível por conta da Fapeam, que investe em projetos de temas diversos. Isso traz retornos consideráveis para a Amazônia, que pode contar com pesquisadores que trabalham com projetos voltados para a região. Continuar com esse processo é essencial para a Ciência, Tecnologia e Inovação do nosso Estado”, finalizou.

Estudo aponta soluções para diminuir a produção de gases do efeito estufa na Amazônia

Lei de Serviços Ambientais dá suporte ao desenvolvimento sustentável no AM

Foto: Divulgação/Governo Amapá
Do regime das chuvas aos estoques de carbono, a maior floresta tropical do mundo presta serviços ambientais a todo o planeta. Investidores de vários países buscam investir na manutenção da Floresta Amazônica, uma economia que pode, no futuro, render dinheiro e bem estar ambiental. No Amazonas, a Secretaria Estadual de Meio Ambiente do Amazonas (Sema), o Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam) e outros órgãos estão em busca da regulamentação da Lei de Serviços Ambientais para dar mais suporte a este mercado.

A Lei de Serviços ambientais foi criada em dezembro de 2015, fruto da construção coletiva de vários membros de instituições ambientais no Amazonas. A iniciativa busca alavancar recursos para projetos de preservação e promover desenvolvimento sustentável na região. De acordo com o Mariano Cenamo, pesquisador sênior do Idesam, a regulamentação tem um impacto profundo na forma como investidores veem o Estado.

"A lei tem um objetivo principal: gerar certa segurança jurídica para os projetos que podem receber financiamento de investidores internacionais. O investidor se sente seguro quando, neste caso, o próprio governo do Estado regulamenta através de medidas como essa os projetos ambientais na região. Por isso esses marcos regulatórios são importantes. Atualmente, existe um mercado de carbono no Brasil, mas ainda muito incipiente. A regulamentação vai ajudar muito a atrair novos investidores", afirmou o pesquisador Mariano.

Segundo o Secretário da Sema, Ademir Stroski, o Fundo Verde do Clima, entidade financeira do Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Climáticas, designou aos sete estados da Região Norte R$ 650 mil dólares. "Aqui no Amazonas o dinheiro vai ser utilizado para aumentar a captação de recursos do Estado e em projetos específicos que acontecem na região", afirma Ademir.

Segundo ele a regulamentação traz transparência e transforma o processo mais democrático ao permitir que a lei de serviços ambientais fosse submetida a consulta pública. Além disso a medida vai garantir que comunidades e povos tradicionais carentes tenham acesso a recursos.

Mariano, enxerga na regulamentação uma forma de promover o desenvolvimento da região. "A partir da regulamentação projetos podem receber investimentos, investidores se aproximam do Estado como referência em serviços ambientais de maneira segura e é possível desenvolver no Estado do Amazonas um novo modelo de sustentabilidade", finaliza.