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Meio Ambiente

Madeireiros ilegais burlam satélites de monitoramento na Amazônia Legal

Maior desmatador da região utilizou conhecimentos em geolocalização para mascarar a destruição de mais de 300 quilômetros quadrados de floresta


Foto área de desmatamento em região sudeste do Pará. Foto: Divulgação/Ibama
 
O Ministério Público Federal do Pará (MPF-PA) divulgou nesta semana detalhes sobre como atuava o maior desmatador da Amazônia, Antônio José Junqueira Vilela Filho, conhecido como AJ Vilela e Jotinha. A investigação, que começou em 2014, e culminou na operação Rios Voadores, deflagrada em junho deste ano, aponta que a quadrilha liderada pelo pecuarista utilizava técnicas de geolocalização para burlar satélites de monitoramento e mascarar o desmatamento em Altamira, no Pará. Uma prática que, segundo pesquisadores da Universidade de Brown, nos Estados Unidos, pode ser mais comum do que acreditam as autoridades brasileiras.

Jotinha e sua equipe utilizavam técnicas científicas que consistiam em preservar as árvores com copas mais altas para 'encobrir' o desmatamento de espécies mais baixas. Desta maneira, dificultaram a identificação do crime por satélites. A tática é conhecida como desmatamento multiponto ou desmatamento cupim, que permite a destruição de grandes áreas de floresta sem a derrubada das árvores de copas mais altas, e em áreas espaçadas ao longo do território. “É como se a floresta virasse um zumbi: mesmo protegida do corte raso, ela está funcionalmente morta e esvaziada de fauna e flora”, registra o MPF na denúncia publicada.
 
Desarticulação de quadrilha de A. J. Junqueira em área de floresta no Pará. Foto: Divulgação/Ibama
 
O grupo, segundo o MPF-PA e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama), é responsável pelo desmate, entre 2012 e 2015, de 330 quilômetros quadrados (km²) de florestas em Altamira, no Pará. A área é equivalente ao território de municípios como Fortaleza (CE), Belo Horizonte (MG) ou Recife (PE). O esquema conseguiu movimentar pelo menos R$ 1,9 bilhão, e o prejuízo ambiental foi mais de R$ 503 milhões. Jotinha foi preso em junho deste ano em São Paulo, onde morava, e de onde comandava e monitorava as atividades da quadrilha. No último dia 2 de dezembro, o MPF-PA entrou na Justiça com mais cinco ações contra o AJ Vilela e 23 integrantes do grupo liderado por ele. Somadas às penas pedidas nas outras duas ações que já haviam sido ajuizadas pelo MPF após a operação Rios Voadores, em junho deste ano, quando o esquema criminoso foi desmontado, Jotinha está sujeito a até 238 de prisão, e multas.

Inovações

Jotinha acompanhava de sua casa, em São Paulo, as atividades do grupo no Pará usando técnicas 'inovadoras' de monitoramento, segundo as investigações. O monitoramento era feito via satélite, em tempo real, conforme comprovaram interceptações telefônicas citadas pelo órgão em uma das cinco novas ações ajuizadas este mês contra o grupo.

A Ciência e o desmatamento

No último mês novembro o artigo 'Desmatadores brasileiros estão evitando a detecção?' publicado no jornal científico, Conservation Letters, levantou a possibilidade de que o desmatamento na Amazônia seja mais extenso que o estimado pelo Pojeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes).

Os pesquisadores compararam os dados produzidos pelo Prodes e pelo Global Forest Change (GFC), um sistema de monitoramento das florestas ao redor do mundo. A comparação mostrou que áreas muito específicas de desmatamento na Floresta Amazônica eram detectadas pelo GFC, mas permaneciam indetectáveis pelo sistema Prodes.

Segundo o artigo, estima-se que a área subestimada pelo monitoramento brasileiro seja de 900 mil hectares. De 2003 a 2008 os dados tinha tendências semelhantes, mas a partir de 2009 houve uma disparidade nos dados apontados pelo Prodes e pelo GFC. Segundo os pesquisadores foi exatamente nessa data que grandes pecuaristas e desmatadores passaram a utilizar técnicas para mascarar o desmatamento na região.

As maiores áreas não detectados são encontrados no nordeste do estado do Pará e no centro-norte do Mato Grosso. Exatamente a região de intensa atividade de desmate ilegal, onde grandes empresários, como o A. J Junqueira, atuavam de maneira extensa.

Desmatamento em 2016

Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em 2016 a Amazônia Legal perdeu mais de 7,9 mil km² de floresta. A maior taxa de desmatamento anual desde de 2008, quando a região acumulou mais de 12 mil km² de florestas desmatadas. Para se ter uma ideia do tamanha da destruição, a área desmatada em 2016 é maior que todo o território da Cisjordânia e da Faixa de Gaza juntos.

O artigo acredita que ação inteligente de madeireiros, utilizando técnicas para esconder o desmatamento, faz com que os dados no desmatamento publicados pelo Inpe possam ser bem maiores.

*Com informações do MPF-PA

Meio Ambiente

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Madeireiros ilegais burlam satélites de monitoramento na Amazônia Legal

Maior desmatador da região utilizou conhecimentos em geolocalização para mascarar a destruição de mais de 300 quilômetros quadrados de floresta

Isaac Guerreiro

jornalismo@portalamazonia.com


Foto área de desmatamento em região sudeste do Pará. Foto: Divulgação/Ibama
 
O Ministério Público Federal do Pará (MPF-PA) divulgou nesta semana detalhes sobre como atuava o maior desmatador da Amazônia, Antônio José Junqueira Vilela Filho, conhecido como AJ Vilela e Jotinha. A investigação, que começou em 2014, e culminou na operação Rios Voadores, deflagrada em junho deste ano, aponta que a quadrilha liderada pelo pecuarista utilizava técnicas de geolocalização para burlar satélites de monitoramento e mascarar o desmatamento em Altamira, no Pará. Uma prática que, segundo pesquisadores da Universidade de Brown, nos Estados Unidos, pode ser mais comum do que acreditam as autoridades brasileiras.

Jotinha e sua equipe utilizavam técnicas científicas que consistiam em preservar as árvores com copas mais altas para 'encobrir' o desmatamento de espécies mais baixas. Desta maneira, dificultaram a identificação do crime por satélites. A tática é conhecida como desmatamento multiponto ou desmatamento cupim, que permite a destruição de grandes áreas de floresta sem a derrubada das árvores de copas mais altas, e em áreas espaçadas ao longo do território. “É como se a floresta virasse um zumbi: mesmo protegida do corte raso, ela está funcionalmente morta e esvaziada de fauna e flora”, registra o MPF na denúncia publicada.
 
Desarticulação de quadrilha de A. J. Junqueira em área de floresta no Pará. Foto: Divulgação/Ibama
 
O grupo, segundo o MPF-PA e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama), é responsável pelo desmate, entre 2012 e 2015, de 330 quilômetros quadrados (km²) de florestas em Altamira, no Pará. A área é equivalente ao território de municípios como Fortaleza (CE), Belo Horizonte (MG) ou Recife (PE). O esquema conseguiu movimentar pelo menos R$ 1,9 bilhão, e o prejuízo ambiental foi mais de R$ 503 milhões. Jotinha foi preso em junho deste ano em São Paulo, onde morava, e de onde comandava e monitorava as atividades da quadrilha. No último dia 2 de dezembro, o MPF-PA entrou na Justiça com mais cinco ações contra o AJ Vilela e 23 integrantes do grupo liderado por ele. Somadas às penas pedidas nas outras duas ações que já haviam sido ajuizadas pelo MPF após a operação Rios Voadores, em junho deste ano, quando o esquema criminoso foi desmontado, Jotinha está sujeito a até 238 de prisão, e multas.

Inovações

Jotinha acompanhava de sua casa, em São Paulo, as atividades do grupo no Pará usando técnicas 'inovadoras' de monitoramento, segundo as investigações. O monitoramento era feito via satélite, em tempo real, conforme comprovaram interceptações telefônicas citadas pelo órgão em uma das cinco novas ações ajuizadas este mês contra o grupo.

A Ciência e o desmatamento

No último mês novembro o artigo 'Desmatadores brasileiros estão evitando a detecção?' publicado no jornal científico, Conservation Letters, levantou a possibilidade de que o desmatamento na Amazônia seja mais extenso que o estimado pelo Pojeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes).

Os pesquisadores compararam os dados produzidos pelo Prodes e pelo Global Forest Change (GFC), um sistema de monitoramento das florestas ao redor do mundo. A comparação mostrou que áreas muito específicas de desmatamento na Floresta Amazônica eram detectadas pelo GFC, mas permaneciam indetectáveis pelo sistema Prodes.

Segundo o artigo, estima-se que a área subestimada pelo monitoramento brasileiro seja de 900 mil hectares. De 2003 a 2008 os dados tinha tendências semelhantes, mas a partir de 2009 houve uma disparidade nos dados apontados pelo Prodes e pelo GFC. Segundo os pesquisadores foi exatamente nessa data que grandes pecuaristas e desmatadores passaram a utilizar técnicas para mascarar o desmatamento na região.

As maiores áreas não detectados são encontrados no nordeste do estado do Pará e no centro-norte do Mato Grosso. Exatamente a região de intensa atividade de desmate ilegal, onde grandes empresários, como o A. J Junqueira, atuavam de maneira extensa.

Desmatamento em 2016

Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em 2016 a Amazônia Legal perdeu mais de 7,9 mil km² de floresta. A maior taxa de desmatamento anual desde de 2008, quando a região acumulou mais de 12 mil km² de florestas desmatadas. Para se ter uma ideia do tamanha da destruição, a área desmatada em 2016 é maior que todo o território da Cisjordânia e da Faixa de Gaza juntos.

O artigo acredita que ação inteligente de madeireiros, utilizando técnicas para esconder o desmatamento, faz com que os dados no desmatamento publicados pelo Inpe possam ser bem maiores.

*Com informações do MPF-PA

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