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Instituto Mamirauá resgata o passado pré-colonial da cidade de Tefé

O registro histórico mais remoto sobre a região data de 1538, em uma carta do navegador português Diogo Nunes, a serviço da Espanha


Protegidos do sol e da chuva com chapéus de palha e blusas de manga comprida, os arqueólogos, Marcio Amaral e Mariana Cassino cercam uma impressão circular na terra, que parece datar séculos de idade. Eles não estão em um ponto isolado, escondido pela mata, mas sim em plena cidade, em meio a agitação de motos e pedestres em uma calçada nos arredores do campus da Universidade Estadual do Amazonas (UEA) em Tefé, cidade no centro do estado do Amazonas.

A equipe, que integra o laboratório de arqueologia do Instituto Mamirauá, realizou entre janeiro e fevereiro um resgate de vestígios arqueológicos no lugar conhecido como Sítio UEA. O salvamento é a mais recente atividade em campo da pesquisa “Arqueologia Urbana na cidade de Tefé”. Foram coletados vestígios de ocupação humana ancestral, como camadas de “terra preta arqueológica” (também chamada de “terra preta de índio”), pedaços de cerâmica, carvões e material lítico (rochas e minerais).  
   
Foto: Divulgação
 

“O conjunto desse material está sendo organizado e analisado agora em laboratório. A partir daí podemos examinar coisas interessantes nessas estruturas, que funcionam mais ou menos como uma cápsula do tempo”, compara o arqueólogo Marcio Amaral.

Tefé antiga

Polo da economia no médio curso do Rio Solimões, Tefé é um dos municípios mais tradicionais do Amazonas. O registro histórico mais remoto sobre a região data de 1538, em uma carta do navegador português Diogo Nunes, a serviço da Espanha.

A iniciativa do Instituto Mamirauá, “Arqueologia Urbana na cidade de Tefé”, busca evidências bem mais longínquas, sinais de antigos povos que habitaram a região, antes e depois do contato com os europeus.  
   
Foto: Divulgação
 

“A pesquisa (...) tem como metas a localização de antigos assentamentos humanos no perímetro urbano da cidade de Tefé e sua distribuição na paisagem. Objetivamos compreender aspectos relacionados às formas de apropriação e modificação da paisagem, bem como os processos envolvidos na escolha de determinada área para a fixação de contingentes populacionais, exploração e manejo da biota circundante”, afirmam os pesquisadores em uma das apresentações iniciais do projeto.

Para isso, os pesquisadores do Instituto Mamirauá consultaram fontes documentais disponíveis, entrevistaram antigos moradores e visitaram espaços públicos e propriedades privadas com indícios de cultura material secular. Os levantamentos já acontecem há mais de três anos e localizaram uma porção de sítios arqueológicos no perímetro urbano de Tefé.

“Os moradores mais antigos lembram de uma época em que encontravam vários desses vestígios arqueológicos pela cidade. Com a crescente urbanização de Tefé, as gerações mais jovens não fazem ideia do rico patrimônio cultural existente sob seus pés”, conta o Eduardo Kazuo Tamanaha, arqueólogo do Instituto Mamirauá, unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC). O pesquisador ressalta que, além das escavações, as alunas Verônica Lima e Laísse Silva, do curso de História da UEA, desenvolveram suas pesquisas na valorização da história antiga da cidade de Tefé.

O Sítio UEA foi apenas o mais recente dos sítios arqueológicos a ser escavado. As análises de laboratório, em fase inicial, já identificaram fragmentos cerâmicos que pertencem à fase Caiambé, um período de ocupação estimado entre 400 e 1.200 anos d.C.. Marcio Amaral pontua também que foram descobertos “alguns fragmentos de um tipo cerâmico bem mais antigo, que costumamos chamar de Pocó”. A cultura Pocó teve uma ampla distribuição na bacia amazônica e data de séculos antes de Cristo.

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Instituto Mamirauá resgata o passado pré-colonial da cidade de Tefé

O registro histórico mais remoto sobre a região data de 1538, em uma carta do navegador português Diogo Nunes, a serviço da Espanha

Redação

jornalismo@portalamazonia.com


Protegidos do sol e da chuva com chapéus de palha e blusas de manga comprida, os arqueólogos, Marcio Amaral e Mariana Cassino cercam uma impressão circular na terra, que parece datar séculos de idade. Eles não estão em um ponto isolado, escondido pela mata, mas sim em plena cidade, em meio a agitação de motos e pedestres em uma calçada nos arredores do campus da Universidade Estadual do Amazonas (UEA) em Tefé, cidade no centro do estado do Amazonas.

A equipe, que integra o laboratório de arqueologia do Instituto Mamirauá, realizou entre janeiro e fevereiro um resgate de vestígios arqueológicos no lugar conhecido como Sítio UEA. O salvamento é a mais recente atividade em campo da pesquisa “Arqueologia Urbana na cidade de Tefé”. Foram coletados vestígios de ocupação humana ancestral, como camadas de “terra preta arqueológica” (também chamada de “terra preta de índio”), pedaços de cerâmica, carvões e material lítico (rochas e minerais).  
   
Foto: Divulgação
 

“O conjunto desse material está sendo organizado e analisado agora em laboratório. A partir daí podemos examinar coisas interessantes nessas estruturas, que funcionam mais ou menos como uma cápsula do tempo”, compara o arqueólogo Marcio Amaral.

Tefé antiga

Polo da economia no médio curso do Rio Solimões, Tefé é um dos municípios mais tradicionais do Amazonas. O registro histórico mais remoto sobre a região data de 1538, em uma carta do navegador português Diogo Nunes, a serviço da Espanha.

A iniciativa do Instituto Mamirauá, “Arqueologia Urbana na cidade de Tefé”, busca evidências bem mais longínquas, sinais de antigos povos que habitaram a região, antes e depois do contato com os europeus.  
   
Foto: Divulgação
 

“A pesquisa (...) tem como metas a localização de antigos assentamentos humanos no perímetro urbano da cidade de Tefé e sua distribuição na paisagem. Objetivamos compreender aspectos relacionados às formas de apropriação e modificação da paisagem, bem como os processos envolvidos na escolha de determinada área para a fixação de contingentes populacionais, exploração e manejo da biota circundante”, afirmam os pesquisadores em uma das apresentações iniciais do projeto.

Para isso, os pesquisadores do Instituto Mamirauá consultaram fontes documentais disponíveis, entrevistaram antigos moradores e visitaram espaços públicos e propriedades privadas com indícios de cultura material secular. Os levantamentos já acontecem há mais de três anos e localizaram uma porção de sítios arqueológicos no perímetro urbano de Tefé.

“Os moradores mais antigos lembram de uma época em que encontravam vários desses vestígios arqueológicos pela cidade. Com a crescente urbanização de Tefé, as gerações mais jovens não fazem ideia do rico patrimônio cultural existente sob seus pés”, conta o Eduardo Kazuo Tamanaha, arqueólogo do Instituto Mamirauá, unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC). O pesquisador ressalta que, além das escavações, as alunas Verônica Lima e Laísse Silva, do curso de História da UEA, desenvolveram suas pesquisas na valorização da história antiga da cidade de Tefé.

O Sítio UEA foi apenas o mais recente dos sítios arqueológicos a ser escavado. As análises de laboratório, em fase inicial, já identificaram fragmentos cerâmicos que pertencem à fase Caiambé, um período de ocupação estimado entre 400 e 1.200 anos d.C.. Marcio Amaral pontua também que foram descobertos “alguns fragmentos de um tipo cerâmico bem mais antigo, que costumamos chamar de Pocó”. A cultura Pocó teve uma ampla distribuição na bacia amazônica e data de séculos antes de Cristo.

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