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Segunda, 14 Junho 2021

Envenenamento de crianças indígenas em Mato Grosso é investigado

CUIABÁ - Uma suposta tentativa de envenenamento de crianças indígenas da etnia bororo é investigada pelo Ministério Público Federal (MPF). As crianças vivem na terra de Jarudore, no município de Poxoréu (a 259 km de Cuiabá). A região é objeto de disputa entre índios e posseiros há mais de 50 anos, com processo na Justiça Federal, relatos de ameaças e invasões de faixas de terras por ambas as partes. As informações são do G1 Mato Grosso.Segundo o MPF, na última semana peixes envenenados foram deixados por uma pessoa ainda não identificada perto da porteira de acesso à terra indígena, em um ponto onde crianças da aldeia local costumam aguardar ônibus escolares. Nenhuma criança morreu ou chegou a se alimentar dos peixes, mas há relatos de que cinco cães da aldeia e alguns animais silvestres - como tatus e serpentes - morreram com suspeita de intoxicação após ter contato com os peixes.O caso chegou ao conhecimento do MPF na última sexta-feira e foi detalhado por agentes da Fundação Nacional do Índio (Funai), que foram até a terra indígena de Jarudore, a cerca de 50 km do centro de Poxoréu. O local tem mais de 4,7 mil hectares tradicionalmente habitados por índios da etnia bororo, mas há mais de cinquenta anos tem sido ocupada ilegalmente também por posseiros que, segundo o MPF, perseguem os indígenas e são responsáveis pela situação de instabilidade crescente na área. O MPF defende que seja realizada uma operação de desintrusão.Segundo o relato dos agentes da Funai, foram observadas dezenas de besouros e moscas mortas em contato com os peixes deixados na entrada da terra indígena. As suspeitas de que o alimento envenenado foi deixado ali para atrair as crianças das aldeias também virou alerta para a Polícia Federal (PF), que foi até a área para realizar uma perícia ainda na noite de sexta-feira.A suposta tentativa de envenenamento das crianças é considerada um ato hediondo e a PF já identificou alguns suspeitos de terem deixado o alimento envenenado com esse propósito. Para o procurador da República Paulo Taek, o caso evidencia a perseguição que vem sendo sofrida pelos bororo por parte dos invasores da terra.Terra invadidaTal perseguição, segundo o MPF, tem levado os indígenas a se retirarem da terra que lhes é de direito a fim de aguardar a realização de uma operação de desintrusão que torne a área segura. Tanto que a aldeia Nova Jarudore, localizada dentro da terra indígena, atualmente ocupa apenas sete dos mais de 4,7 mil hectares demarcados.Na aldeia, vivem atualmente apenas cerca de 25 adultos e 50 crianças (ao todo, a etnia bororo no Brasil atualmente perfaz uma população de 1.686 pessoas, segundo o último levantamento da Secretaria Especial de Saúde Indígena, ligada ao Ministério da Saúde).A retirada dos invasores de uma parte de Jarudore, com 700 hectares, já foi decretada pela Justiça Federal. Os alvos são três posseiros, mas até o momento não foi realizada a operação para cumprimento da retirada deles, decisão provocada por ação civil pública movida pelo MPF.A ocupação ilegal por não-índios tem ocorrido, segundo o MPF, devido à sobreposição de terras do distrito de Paz de Jarudore, de Poxoréu. O distrito foi criado por lei municipal de 1958 com área de 142,8 mil hectares, os quais ocupam a integridade do território de Jarudore, demarcado oito anos antes e registrado com 4.706 hectares no mesmo ano de publicação – mais oito meses antes - da lei municipal que criou o distrito sobreposto. O município, então, passou a incentivar a ocupação do novo distrito, concedendo faixas de terras a não-indígenas.No entanto, a ocupação tradicional de uma área de 100 mil hectares naquela região por parte dos índios bororo já havia sido reconhecida no início do século passado pelo Marechal Cândido Rondon. Mesmo com o reconhecimento do marechal, o primeiro decreto do estado de Mato Grosso a reservar a área para os bororos já a reduziu drasticamente a apenas seis mil hectares, os quais vieram a se reduzir ainda mais com a demarcação federal.

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